Wednesday, 30 June 2021

Igrejas incendiadas no Canadá, FNO no Porto

Sete igrejas foram incendiadas no Canadá nos últimos dias. Calcula-se que seja uma reação à descoberta de mais de mil cadáveres de crianças enterradas em valas comuns junto a antigas escolas residenciais. Tudo explicado aqui.

Depois do enorme sucesso que foi a edição em Lisboa, o Faith’s Night Out regressa ao Porto este fim-de-semana.

O Papa Francisco pede investimento na amizade social, para se evitar jogos de poder e, na audiência geral desta quarta-feira, elogiou publicamente o seu motorista.

Hoje marca o fim do mês em que as grandes corporações se aproveitam da bandeira arco-íris para tentar vender mais cerveja e carros à custa da comunidade homossexual. Vale a pena refletir um pouco sobre o que significa esta aproveitamento e a pressão social para o aceitar. Foi o que tentei fazer aqui, com a ajuda de Vaclav Havel.

No artigo da semana passada do The Catholic Thing pudemos ler a receita para fazer frente ao desespero social. Esta semana é a vez de Elizabeth Mitchel nos explicar porque é que é precisamente quando tudo parece perdido que se torna importante confiar e obedecer à ordem de Jesus para lançar as redes.

Lançar as Redes

Elizabeth A. Mitchell
A cena final da famosa peça de drama existencial de Samuel Beckett, “À Espera de Godot” capta o medo entrincheirado, a dúvida e o desespero da modernidade. Um vagabundo desafeiçoado, Estragão, diz a outro: “Bom, vamos?”

“Sim”, diz Vladimir, o outro, “vamos”.

Direção de cena: “Permanecem imóveis”.

E não se irão mover, nunca. Os sem-abrigo de Becket, por patéticos que pareçam no palco, não são muito diferentes, se é que diferem de todo, do nosso dilema actual.

São tantas as coisas que paralisam a nossa esperança. Dor, falhanço, ressentimento, exaustão. Tentámos e não fomos bem-sucedidos. Amámos e fomos rejeitados. Tivemos esperança e fomos desapontados. E agora surge intensa a tentação de abraçar a segurança do cinismo. Se não tentarmos podemos evitar o fracasso. Se não amarmos não podemos ser rejeitados. Se não tivermos esperança não nos arriscamos a ser desapontados. É mais seguro assim.

Mas essa carapaça do cinismo é também uma prisão. É verdade que não nos podemos magoar, mas também não podemos sair. Quanto mais nos embrenharmos nessa carapaça de desafeição, mais apertada fica. Até que redefinimos a nossa natureza, porque é tão difícil acreditar, esperar, confiar e abandonar a dúvida depois de termos sido desapontados. Porém, a natureza de Cristo reflete todas estas qualidades para connosco.

Ele tem tantas razões para duvidar de nós. Tantas provas de que vamos desapontá-lo, mais uma vez. Porém, Ele encoraja-nos, sempre, a tentar de novo, e nunca mais do que quando passámos toda a noite na faina e não apanhámos nada. Ele leva-nos a confrontar esse lugar dentro de nós próprios e a tentar de novo, mas com a Sua graça.

“Tendo acabado de falar, disse a Simão: ‘Vai para onde as águas são mais fundas’, e a todos: ‘Lancem as redes para a pesca’.” (Lucas 5,4).

Lancem as redes. Baixem a guarda. Abandonem o vosso orgulho. Tentem de novo. Sejam vulneráveis ao falhanço e à humilhação. Tenham novamente esperança, sem qualquer garantia de sucesso. Confiando apenas no chamamento do Senhor.

“Simão respondeu: ‘Mestre, esforçámo-nos a noite inteira e não apanhámos nada” (Lucas 5,5)

Já tentámos isso. Sabíamos o caminho. Começámos um negócio. O negócio falhou. Dedicámo-nos à missão. A missão foi infrutífera. Esforçámo-nos nessa relação mas ficámos com uma mão cheia de nada.

“Mas porque me pedes, vou lançar as redes.” (Lucas 5,5)

Voltarei a perdoar. Voltarei a amar. Voltarei ao meu posto e tentarei de novo.

É tão difícil. O exemplo de Pedro e tão importante. Ele simplesmente obedece. A única graça a que ele tem acesso é a obediência. Não é o zelo, nem os resultados. Apens a escuta do Senhor.

É como se dissesse “Senhor, eu amarei, e lançarei novamente as redes”. “Senhor, eu perdoarei, e lançarei novamente as redes”.

E qual é o resultado? É o oposto do que esperaria qualquer cínico. O cínico diz a si mesmo: não o faças, vais fazer figura de idiota. As pessoas não merecem que tentes de novo. Ninguém valorizou o teu esforço anterior. Tens de ser superior a isso. Ter algum amor próprio. Mantém-te aqui, onde é seguro, nesta prisão da dúvida.

Mas Pedro lança as redes. E enquanto o faz toda a Igreja universal em florescimento, a dar os seus primeiros passos, sustém a respiração coletiva.

“Quando o fizeram”, revela o Evangelho, “apanharam tal quantidade de peixes que as suas redes começaram a rasgar-se”. (Lucas 5,6)


Sucesso. As redes estavam a rasgar-se. O resultado de amar em obediência a Cristo, de abandonar o orgulho e de perdoar apenas mais uma vez, aquela vez em que era menos merecido, é quando se dá o avanço!

Ungidos pela graça, os seguidores de Cristo alcançam tal sucesso, tal amor, tal abundância que “encheram ambos os barcos, a ponto de quase começarem a afundar (…) e Simão e os seus companheiros ficaram perplexos com a pesca que tinham feito” (Lucas 5,7-9)

A profundidade do nosso deslumbramento deriva do nosso entendimento do que seria de esperar. Tínhamos noção do nosso orçamento e da falta de liquidez. Tínhamos visto a indiferença dos nossos amados. Sentimos a injustiça das nossas feridas. Tínhamos experimentado os grilhões impiedosos do vício. Mas quando respondemos com obediência ao pedido de Nosso Senhor produziu-se o milagre.  

“Não tenhais medo” ordena o Senhor. “De agora em diante sereis pescadores de homens”. (Lucas 5,10).

Simão Pedro é o nosso exemplo. Neste momento crítico, debaixo do olhar de todos os discípulos, presentes e futuros, a sua vulnerável obediência dita o futuro da Igreja.

Tudo isto se passa nas profundezas, fora de pé. Onde não controlamos nada. O abandono é a parte funda da piscina espiritual. É a última paragem na nossa viagem. É também o verdadeiro começo.

Sem garantias. A forte possibilidade da humilhação, mas a certeza maior ainda daquele que nos chama, que pede, que ordena. O risco é real. A resposta é o prémio ungido de Cristo.

E o prémio é dele e só dele. Mais do que possamos pedir ou imaginar. Calcada e transbordante. A alegria que vem da entrega voluntária a Jesus na fé.

Santa Teresa de Lisieux escreveu: “Levou-me, confesso, muito tempo a chegar a tal entrega; já lá cheguei, mas foi o próprio Jesus que me trouxe até aqui.”

Jesus traz-nos até à margem, onde podemos deixar os nossos barcos, os nossos esforços humanos limitados, lançando-nos para as profundezas da sua graça.

“Então arrastaram os seus barcos para a praia, deixaram tudo e seguiram-no” (Lucas 5,11)

E assim devemos fazer também.


Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 19 de Junho de 2021 em The Catholic Thing)

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Monday, 28 June 2021

Como diria Vaclav Havel...

O Papa Francisco recebeu esta segunda-feira uma delegação do principal patriarcado ortodoxo e agradeceu os testemunhos crescentes de unidade entre cristãos.

Por falar em testemunhos de unidade, Francisco contribuiu para um livro contra a guerra cujo prefácio foi assinado pelo Patriarca da Igreja Copta Ortodoxa.

Francisco está preocupado com o Médio Oriente, especialmente com o Líbano, onde se passa fome por causa da crise política, social e económica.

A Obra Católica Portuguesa das Migrações está preocupada com o racismo em Portugal, incluindo entre as forças policiais.

Que dizer desta tendência de todas as marcas e instituições debaixo do sol de exibirem a bandeira arco-íris? Nada que Vaclev Havel não tenha dito já. “Têm de viver dentro de uma mentira. Não precisam de aceitar a mentira. Basta que tenham aceitado a sua vida com ela e no seio dela.” É sobre isso o meu mais recente artigo no blog da Actualidade Religiosa. Leiam e comentem.

E não deixem ainda de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing em português, que nos dá a receita para o antídoto contra a depressão social que a tantos atinge nestes dias.

A bandeira arco-íris na vitrine do merceeiro

Vaclav Havel escreveu um livro chamado “O Poder dos Sem-Poder”, sobre a relação dos cidadãos dos países comunistas da Europa central e de leste com o Estado. Nesse livro utilizou o exemplo do merceeiro que coloca um cartaz na vitrine da sua mercearia que diz “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”.

A conclusão de Havel é que o merceeiro não tem qualquer interesse na união dos trabalhadores, nem está comprometido com essa ideia, mas sente – correctamente – que tem de colocar o cartaz, sob pena de ser mal visto, e devidamente punido, pelas forças que dominam a sociedade. Resumindo, a colocação do cartaz é um esforço necessário para que de resto seja deixado em paz por um sistema totalitário.

Já essas forças que dominam a sociedade, que neste caso são comunistas, também não têm qualquer interesse no conteúdo nem na mensagem do cartaz, para além do facto de a sua colocação na vitrine da mercearia simbolizar a submissão do merceeiro à ideologia dominante.

É um sistema, conclui Havel, que depende da mentira e se perpetua na mentira. “Têm de viver dentro de uma mentira. Não precisam de aceitar a mentira. Basta que tenham aceitado a sua vida com ela e no seio dela.”

Como não pensar neste exemplo ao ver a onda de instituições a atropelar-se durante este mês de junho para colocar à martelada a bandeira arco-íris em toda a sua estratégia de comunicação? Desde a Câmara Municipal de Lisboa a clubes de futebol, bancos, marcas de carro e de cerveja, todos sentem a necessidade de se juntar à turba.

Mas alguém acredita que a Volkswagen e a Heineken estão mesmo preocupados com aquilo que representa a bandeira arco-íris? (se é que é possível haver acordo sobre o significado da bandeira…). Claro que não. Eles estão é preocupados com as consequências de não colocar aquele símbolo, pois ele tornou-se a bandeira oficial de um movimento social que persegue de forma impiedosa os seus inimigos e não aceita qualquer desvio da nova ortodoxia.

É evidente que isto não é apenas um problema desta causa e desta bandeira. Pode acontecer com qualquer causa que assume contornos de ideologia. Facilmente imaginamos uma aldeia rural e conservadora em que um indivíduo ateu empedernido se sente obrigado a ir à missa na Páscoa para não ser mal-visto pelos seus vizinhos. E isso também é grave.

Neste caso da bandeira arco-íris a prova da total insinceridade destas manifestações de apoio “à causa” está em todo o lado. Veja-se o caso recente do FC Barcelona, que mudou a sua imagem de perfil nas redes sociais, incorporando a bandeira arco-íris, em todas as contas menos na árabe, porque lá a coisa tende a não ser tão bem aceite. E acham que o TikTok está mesmo tão empenhado como dá a entender pela publicidade nos estádios do Euro 2020? Acham que eles fazem essa mesma publicidade na China, onde a empresa está sedeada? (Um leitor, a quem agradeço, partilhou entretanto este link que mostra que esta prática é aliás generalizada)

Vaclav Havel
Tal como o cartaz do merceeiro de Havel, o significado actual da bandeira arco-íris já não tem nada a ver com o seu significado original. O que é que significa exactamente a bandeira num anúncio da Heineken? Que os homossexuais, transsexuais e intersexuais também gostam de beber cerveja? Havia dúvidas? Que também podem beber cerveja? Estavam vedados? O que é que significa precisamente ser uma cerveja “inclusiva”? Ou será que tem a ver com as políticas internas da empresa? A Booking vai passar a tratar melhor os seus funcionários que não correspondem ao padrão social em termos de orientação sexual? Não o faziam já? Ou seja, esta ostentação da bandeira arco-íris muda alguma coisa, de facto, no terreno, no mundo, nas empresas, na sociedade? Então para que é que serve?

E porque é que me preocupa isto? Eu sou o primeiro a assinar por baixo se me perguntam se todos devem ser tratados com igualdade e respeito, independentemente da sua orientação sexual. Assino por baixo porque isso é um requisito básico dos direitos humanos, em que acredito, e de uma visão cristã da humanidade, que procuro ter sempre.

Mas o que se está a passar nada tem a ver com a dignidade inerente e indelével de todos os seres humanos, é meramente uma questão de imposição ideológica que assume contornos claramente totalitários. Ninguém quer saber em que é que você acredita, desde que exteriormente se comporte conforme a ortodoxia. Ninguém quer saber o que faz em prol dos homossexuais, desde que um dia por ano a sua foto de perfil nas redes sociais adopte as cores do arco-íris. Isto é a cultura da mentira e é uma das grandes marcas do totalitarismo. Porque o totalitarismo não precisa de ser apoiado por uma estrutura política ditatorial nem precisa de gulags e de campos de concentração para manifestar a sua intolerância.

Friday, 25 June 2021

Homem-Aranha livra-nos do Relatório Matic

No início desta semana cumpriram-se 20 anos sobre a lei da Liberdade Religiosa em Portugal. Esta lei permitiu já muitos avanços para as comunidades religiosas, mas há novas ameaças a chegar que deixam todos preocupados, incluindo o presidente da Comissão para a Liberdade Religiosa, Dr. Vera Jardim, que entrevistei sobre o assunto e que admite que a Comissão não foi consultada sobre a suspensão das celebrações religiosas fora do estado de emergência.

A este propósito, o Patriarca de Lisboa diz que em Portugal a liberdade religiosa está bem, sem guetos e o Presidente da República defende mesmo que esta seja aprofundada.

Entre as ameaças que aí vêm inclui-se os ataques à liberdade de consciência, como a que foi hoje aprovada pelo Parlamento Europeu, no terrível Relatório Matic, que ainda se refere ao aborto como um “direito humano”.

O Papa Francisco critica os que se autointitulam “guardiões da verdade”, mas que estão “fechados no passado”. Quem não está fechado no passado é o Homem-Aranha, que esteve em Roma e foi visitar o Santo Padre.

O Governo dos Açores quer que a tradição dos Romeiros seja reconhecida como Património Imaterial da Humanidade. A Covid tem complicado o processo…

E numa altura em que muitos de nós desesperamos com o rumo da nossa sociedade e da nossa cultura, Randall Smith traz como sempre palavras de sabedoria. Em vez de nos lamentarmos, que tal fazer algo para mudar a situação? Basta começar por nós, com o cultivo das virtudes. Leia e partilhe, que vale a pena!

Wednesday, 23 June 2021

O Antídoto para o Desespero Social

Um dos géneros de não ficção mais populares dos últimos tempos tem sido a crítica social. Está muito na moda explicar às pessoas onde é que a sociedade errou. Todos os aspirantes a “intelectual público” sentem-se na obrigação de ganhar nome criando uma crítica social credível. Há o Augusto del Noce em Itália; Pierre Manent em França; Charles Taylor, no Canadá e Hartmut Rosa, na Alemanha, todos eles autores de grandes livros, por vezes publicados em muitos volumes. Pelos vistos há muitos erros a apontar e são muito complicados de explicar. Na América também temos os nossos críticos, como o Patrick Deneen, Carl Trueman, Christopher Caldwell, Jody Bottum, Ross Douthat, David Brooks, Rod Dreher – é uma longa lista, e a internet está recheada deles.

Não me levem a mal. Não estou a dizer que estes críticos estão errados. Muito pelo contrário, eu concordo que cada um deles tem muitas verdades a dizer. O que é notável para os nossos propósitos é ver o quão numerosos e populares se tornaram. A minha questão é esta: O que é que o facto de a crítica social se ter tornado um passatempo tão popular entre tantos autores em tantos países diz do mundo e da cultura em que vivemos?  

Há muitas diferenças entre estas várias críticas, mas cada uma delas contém uma variação do mesmo tema. Cada um dos autores está a escrever a sua própria versão do “Declínio do Ocidente” de Oswald Spengler. Enquanto a narrativa dos últimos dois séculos tem sido um de progresso e de fé no progresso, essa narrativa tem sido substituída por uma de declínio. Ainda há alguns resistentes, como o Steven Pinker, de Harvard, que pensam que basta voltarmos às nossas raízes iluministas para que a sociedade regresse à sua marcha inexorável. Mas na maior parte, essa fé de antão no progresso perpétuo ou diminuiu, ou desapareceu, foi substituída pelo medo de que ago correu terrivelmente mal e que não será fácil – ou talvez nem possível – encarrilar tudo novamente.

Não existe um consenso sobre o que correu mal, nem sobre quando começaram os problemas, mas há menos acordo ainda sobre como se pode reverter esta queda em que parece que nos encontramos. Pondo isto em linguagem mais corrente, vemos muita “desconstrução”, mas muito pouca “reconstrução”.

Vivemos num mundo que não compreendemos e procuramos formas de o explicar, compreender e interpretar. Queremos saber como e porque é que as coisas correram tão mal. Parecemos estar a ser orientados pela crença de que nos bastaria compreender os problemas e descobrir a sua fonte e aí talvez as conseguíssemos resolver.

Ou talvez não. Mas nesse caso pelo menos saberemos como e porquê é que o Titanic se está a afundar e podemos amaldiçoar as trevas e a insensatez de todos os esforços humanos com sofisticado conhecimento, enquanto ajustamos as espreguiçadeiras e pedimos mais um whisky duplo. Botes salva-vidas? Para quê?

Uma das perguntas que nos podemos colocar é se a nossa obsessão com a crítica social é mais útil do que aquilo a que os psicólogos chamam “introspeção ruminante”, alo que têm concluído que não ajuda os pacientes que lutam contra depressões. Se as pessoas se concentram demasiado nas narrativas que pensam estar na raiz dos seus problemas, podem ficar presos nelas. Pode impedi-los de escapar aquilo em que se estão constantemente a focar.

Hope, de George Frederick Watts
De forma a escapar a narrativa – seja de vitimização, de tratamento injusto, de potencial não realizado ou declínio inevitável – devemos cessar de nos focar constantemente nessa narrativa. Sim, talvez tenhas sido abusado na infância, e isso pode explicar muita coisa. Mas a questão é o que vai fazer agora e se vai continuar a deixar-se ficar refém dessa narrativa. Se é mais do que apenas uma vítima – e é – então como deve agir?

Não pretendo descartar todas essas críticas sociais valiosas, mas pergunto se não deveríamos passar mais tempo e energia a pensar no que devemos fazer. Por exemplo, talvez devêssemos investir mais tempo e energia na única coisa que já provou ser capaz de ajudar a reformar indivíduos e sociedades: as virtudes. Prudência, justiça, fortaleza e temperança, e, claro, fé, esperança e amor. Compaixão, dedicação ao bem comum, abertura à crítica e uma disposição para o sacrifício e para o serviço, renegando o poder, riqueza, estatuto e todas as formas de ideologia e idolatria. Há centenas de razões pelas quais estamos na situação em que estamos. A questão agora é saber como as coisas podem ser diferentes.

De todas as virtudes básicas, a que costuma merecer mais atenção é a que se encontra no meio das três virtudes teológicas: esperança. Temo que muitas pessoas perderam a esperança. Mas, sem esperança não existe energia para mudanças positivas e as pessoas arranjam desculpas para desistir. Olham para todos esses pequenos esforços feitos pelos outros como ingénuos e inúteis. “Sim, isso é boa ideia”, dizem, “mas jamais resultaria, não no ponto a que chegámos”. Talvez não, mas prefiro morrer a tentar que perder a esperança.

Não é quando as coisas correm bem que precisamos de esperança, é quando parece não haver nada a esperar. E talvez basta ser suficientemente tolo para acreditar que as cosias podem ser diferentes. Só Deus sabe como e quando.

Mas, entretanto, temos de regozijar – regozijar com gratidão pelos muitos dons de que beneficiamos; regozijar no Espírito que nos transforma diariamente de formas que mal conseguimos imaginar, e continuará a fazê-lo, se o deixarmos; e regozijar, finalmente, pelo facto de que nós, como os primeiros apóstolos, fomos contados dignos de sofrer desonra em seu nome. (Actos 5, 40).

Podemos continuar a olhar para trás, lamentando os tachos de carne que deixámos no Egipto, ou podemos comer a Maná com que Deus nos alimenta a cada dia e olhar para o futuro, para as glórias que Ele nos reserva. Agora é o tempo dos santos.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 16 de Junho de 2021)

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Friday, 18 June 2021

Vitória para a Liberdade Religiosa e selos para heróis

A Liberdade Religiosa conseguiu uma vitória contundente esta quinta-feira nos EUA, com o Supremo Tribunal a dar razão, por unanimidade, a uma agência de adopção católica que não aceitava ser forçada a colocar crianças com casais homossexuais.

Na Europa quer-se tentar – novamente – consagrar o aborto como um “direito humano”. Os bispos da União Europeia dizem não!

Por cá foi dia de os CTT emitirem uma coleção de selos que comemoram cinco cidadãos portugueses que ajudaram a salvar judeus durante o holocausto. Conheça aqui as suas histórias.

Depois de dois anos sem muitas das tradições populares que nos caracterizam, poderão estas sobreviver? É o que temem alguns populares, como os devotos de Nossa Senhora do Desterro.

D. José Ornelas diz que a pandemia teve, pelo menos, o efeito positivo de aumentar a sensibilidade para os problemas sociais.

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre a noção de se estar, ou não, do “lado certo da história”. Mais vale, diz o autor, estar sempre do lado certo da consciência.

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