Tuesday, 31 May 2016

Ecumenismo, "Lisbon Style"

Amanhã é Dia Internacional da Criança. Aproveite o dia, brinque com os seus filhos, mime-os, mas pare, nem que seja por uns instantes, para rezar por todas aquelas que não têm possibilidade de ser criança. Em particular, rezemos pelas crianças da Síria, juntamente com a Ajuda à Igreja que Sofre.

Começou esta terça-feira em Lisboa um encontro ecuménico que se realiza pela primeira vez em Portugal. Trata-se da reunião dos Conselhos Nacionais das Igrejas da Europa. Falei com D. José Jorge de Pina Cabral, bispo da Igreja Lusitana, sobre este encontro em que D. Manuel Clemente participará como conferencista.

Estamos em pleno debate sobre as 35 horas. O que é que isto tem a ver com a religião? Bom, tudo o que mexe com a vida familiar interessa á Igreja, como explica Pedro Vaz Patto, que considera que mais importante que 35 horas ou 40 é dar-se prioridade à família.

Volto a chamar a vossa atenção para o meu artigo sobre a polémica das escolas e dos contratos de associação, que publiquei ontem no blog e que está a gerar grande discussão, muito interessante e informativa, aliás, no Facebook. Aproveito também para partilhar este artigo do meu amigo José Maria Seabra Duque, bastante em linha com o meu, mas mais bem sistematizado e que vale a pena ler.

Monday, 30 May 2016

Contratos de Associação e outras guerras

Bob Dylan: Não é um padre da Igreja, mas quase...
Este fim-de-semana decorreu a grande manifestação dos defensores dos colégios afectados pelos cortes nos contratos de associação. A Conferência Episcopal deu o seu apoio à manifestação, embora, que eu saiba, nenhum bispo tenha marcado presença.

Há semanas que ando a evitar entrar nesta guerra, mas hoje acabei mesmo por escrever um texto de opinião. Julgo, sem me querer armar em especialista, que esta será a batalha errada e no meu texto defendo uma alternativa, que é o cheque ensino, e que me parece mais justa.

No sábado foi publicado mais um artigo da série que tenho feito sobre o jubileu da Misericórdia. Desta vez, com a ajuda do especialista padre Isidro Lamelas, olhamos para a misericórdia segundo os padres da Igreja. Uma conversa fascinante, com visões surpreendentes, onde até cabe o Bob Dylan e cinema italiano! Não deixem de ler, que vale a pena.

O Papa Francisco pede que haja mais disponibilidade nas paróquias e diz que até lhe apetece chorar quando vê os horários das paróquias.

Contratos de Associação – A batalha errada?

Yellow? Is it me you're looking for?
Dois pontos prévios… 1) Toda a vida andei em colégios particulares, nenhum dos quais com contrato de associação, mas tirei o curso numa universidade pública. Não é que isso seja particularmente importante, mas é para não me virem acusar de nada.
2) Os meus filhos andam num colégio privado, sem contrato de associação, pela simples razão de que a minha mulher trabalha na instituição e por isso é-nos simultaneamente mais prático e ao mesmo tempo economicamente viável por causa do desconto de que beneficiamos.

Dito isto, quero deixar claro que sou simultaneamente um ignorante em matéria de política educativa e também o maior especialista do país em política educativa. Não percebo nada da legislação nem dos programas escolares, ignoro as guerras dos professores e da Fenprof bem como o que se passa no Ministério. Mas enquanto pai de quatro alunos, com um quinto a caminho, sou o maior especialista que existe sobre aquilo que quero da sua educação e aquilo que espero para eles na escola.

Com estes preliminares esclarecidos, vamos á questão do momento… Os contratos de associação.

Pelas redes sociais e também pelas caixas de comentários das notícias da Renascença, que por vezes preciso de moderar, vejo que reina uma ideia muito simplista sobre esta disputa.

A ideia que se espalhou é que o Governo anda a sugar o tutano das escolas públicas para ajudar os donos dos privados a construir piscinas olímpicas para meninos ricos. Mas não… Na verdade o que está em causa, tanto quanto consigo perceber, é o entendimento que privados e Ministério fazem de um contrato assinado há um ano sobre o financiamento de turmas. É uma disputa jurídica e que provavelmente será decidida em tribunal.

Pelo meio há várias coisas que me parecem evidentes:
1)      Que os mais directamente afectados pelo corte do financiamento nos colégios serão os alunos com menos recursos.
2)      Que provavelmente existem mesmo casos de abusos, tendo sido assinados contratos de associação com colégios que não deveriam ter direito a isso.
3)      Que isto não pode ser uma simples guerra esquerda-direita, porque se fosse os autarcas do PS não estariam do lado dos colégios dos seus concelhos.
4)      Que em muitos casos os colégios que estão a ser ameaçados, longe de serem ninhos para as classes privilegiadas são espaços onde se aceitam os alunos mais difíceis, ou com necessidades especiais, e com jovens de todos os extractos sociais, onde o ensino é excelente.
5)      Que me cheira muito a esturro o facto de o Governo (os sucessivos governos) se recusarem a dizer exactamente quanto dinheiro custa ao Estado um aluno no público, já que sabemos já quanto custa nos colégios privados.

Mas claro que esta questão jurídica dos contratos de associação entronca numa disputa muito maior e é essa que me parece grave. Que visão é que temos do ensino em Portugal?

Nem isto...
A extrema-direita e a esquerda mais radical (que tem vários ganchos no PS) encara a educação como um instrumento para promover a igualdade. Para eles haveria apenas um programa, um sistema escolar, um pensamento. E o responsável por tudo isto deve ser, claro está, o Estado, todo-poderoso e omnisciente. Espanta-me como as mesmas pessoas que se queixam do Estado por tudo e por nada aceitam sem pestanejar que os burocratas que pelos vistos não pensam em mais nada se não roubá-los diariamente são os que se encontram mais bem colocados para educar os seus filhos.

Quer isto dizer que sou contra o ensino público? Claro que não! O ensino público e tendencialmente gratuito tem sido uma enorme benesse social. O que contesto é a monopolização do ensino por parte do Estado e a ideia de que devemos confiar cegamente não só neste Governo mas em todos os Governos, para toda a eternidade, como se fosse impossível voltar a ver um Estado totalitário e mau, no sentido mais puro da palavra.

Contra esta posição está a minha (que não me parece especialmente de esquerda ou de direita) que considera que o primeiro e último responsável pela educação dos meus filhos sou eu e a minha mulher. E que o Estado faz muito bem em querer educar as crianças do país, mas deve fazê-lo sempre em conjunto com os pais, e nunca contra eles.

É por isso que a Igreja, para espanto de muitos, está nesta luta. Porque esta é a visão da doutrina social da Igreja sobre a educação, como o Papa deixou muito claro na sua última exortação apostólica. Não se trata apenas de defender privilégios (até porque a maioria das escolas com contrato de associação não são católicas e a maioria das escolas católicas não tem contrato de associação), trata-se de combater aquilo que na sua perspectiva – e na minha – está na verdade por detrás desta tomada de posição do Governo, um ataque à subsidiariedade na educação.

Dito isto, o que acho em particular desta batalha dos contratos de associação? Acho, acima de tudo, que esta é a batalha errada…

Compreendo a luta dos colégios, estão em muitos casos a lutar pela sua sobrevivência, mas para mim isto resolvia-se de forma mais justa com a implementação simples do cheque escolar.

...nem aquilo.
Para quem não sabe, já vários países usam este método e este, sim, dá verdadeira liberdade de escolha às famílias, e não apenas às que vivem perto de uma escola com contrato de associação.

A ideia é simples. Eu pago (números inventados, obviamente) 400 euros por ano de impostos para a educação. Cada aluno custa ao Estado, no ensino público, 300 euros por ano. O Estado dá a cada família um cheque ensino por filho, no valor de 200 euros por ano. Se eu quiser inscrever os meus filhos num colégio, o cheque ensino serve para abater no custo das propinas. Se quiser mantê-los no ensino público, o cheque fica na gaveta, uma vez que unicamente pode ser usado para ensino. Mesmo que use o cheque, continuo a contribuir para o sistema público, e bem.

Se eu quiser colocar os meus filhos num colégio católico, posso. Se os quiser mandar para o colégio islâmico de Palmela, posso. Se os quiser meter na Escola Karl Marx Lenin, força! Desde que aprendam um conjunto de matéria básica essencial e moralmente neutra, o resto é comigo e com os pais de cada criança.

Não me parece complicado… Estarei enganado? Aceito de bom grado sugestões e correcções.

Wednesday, 25 May 2016

Homens sem fé são perigosos

Al-Tayeb, imã de Al-Azhar
O imã do Al-Azhar, que esteve na segunda-feira com Francisco, teceu grandes elogios ao Papa e diz que os homens sem religião são uma ameaça para os seus próximos.

Francisco está preocupado com a tragédia das crianças desaparecidas.


Mais um caso de polícia envolvendo a Igreja, um padre de Paredes está acusado de maltratar idosos ao seu cuidado, a Obra da Rua, a que pertence, diz que o sacerdote está a ser vítima de uma campanha de achincalhamento.

Já em Roma não mete polícia (o que já não é nada mau) mas registam-se duas demissões de peso no Banco do Vaticano.

Hoje é dia de Catholic Thing. No artigo desta semana o jesuíta James V. Schall revisita Jacques Maritain, que disse que o homem está sujeito a uma “grande sede” que passa a vida a tentar saciar

A Grande Sede

James V. Schall S.J.
Na colecção de ensaios “Raison et raisons”, Jacques Maritain escreve: “O mundo está sujeito a uma grande sede, um grande anseio místico que não se conhece sequer a si mesmo e que, uma vez que permanece sem objecto, se transforma em desespero ou neurose”. A maioria das pessoas compreende facilmente a noção de uma grande “sede”. A sede chama a nossa atenção. Se a sede é grande, não perguntamos: “O que é que nos sacia a sede?” Já sabemos. O “objecto” da nossa necessidade física é água.

Outras bebidas, como a limonada, também podem apascentar as nossas gargantas ressequidas. Chesterton dizia que depois de uma longa caminhada, numa estrada poeirenta e ao calor, as pessoas não bebem cerveja por causa do álcool. A cerveja é uma bebida. Estamos com sede. Para uma sede normal aquilo que desejamos é simplesmente água. É precisamente porque a cerveja é na maior parte constituída por água que também cumpre esse propósito. Nas mesmas circunstâncias, um Martini ou uma aguardente não resultam. Aliás, provavelmente deixam-nos com ainda mais sede de água. Podemos mesmo pensar: “Porque é que existe água e também sede no universo”?

O interessante nas afirmações de Maritain é a analogia com outro tipo de “sede”, uma sede de algo para além de água. Não é um argumento de desejo para existência, mas de existência para desejo. Este “anseio místico” não se conhece a si mesmo. Ao contrário da sede normal, esta sede mais profunda não conhece imediatamente o seu objecto. O que é que nos pode saciar?

Se estiver a morrer de sede, ninguém tem dúvidas sobre o que quero e do que necessito. O Evangelho diz que seremos julgados por ter dado, ou não, um copo de água a alguém que precisa. Mas a necessidade e aquilo que a satisfaz são tão evidentes que dispensam mais explicações. Se alguém está verdadeiramente com sede, não lhe perguntamos porque é que continua a falar de água. Sabemos do que precisa. Mesmo que optemos por não lho dar, o problema não está em não saber do que precisa.

Há dois pontos no comentário de Maritain: 1) ansiamos por algo que não conseguimos ainda identificar inteiramente, e 2) este “objecto” que buscamos está para nós como a água está para a sede. Ou seja, é algo bem real, algo que responde à “sede” que as nossas almas experimentam. São reflexões muito agostinianas.

Mas reparem como Maritain utiliza o termo “sujeito a”. Uma vez que não conhecemos o objecto exacto da nossa busca “face a face”, por assim dizer, partimos nas mais estranhas direcções em busca dos locais onde possa ser encontrado. Agostinho já tinha dito que tendemos a confundir as coisas bonitas com a própria beleza.

Jacques Maritain
Mas quando não encontramos aquilo pelo qual estamos sedentos, o resultado pode ser “desespero e neurose”. Muitos pensadores suspeitam que as almas desordenadas que vemos à nossa volta resultam de não saber – ou não querer saber – o objecto que verdadeiramente pode transformar a nossa busca, da mesma maneira que a água transforma um homem cheio de sede. Será que não temos, então, qualquer luz, qualquer conhecimento do objecto desta nossa sede que todos sentimos dentro de nós, quer queiramos admitir, quer não?

A raiz do problema é, julgo, aquilo para o qual somos criados. Somos criados unicamente com o propósito de viver, sim, para sempre, em comunhão com o Deus trino. Não há ninguém que tenha sido criado com outro objectivo. Tudo o que encontramos durante a nossa existência, incluindo nós próprios, tem como propósito imediato ser aquilo que é. E nós somos pessoas, e não tartarugas. A montanha é uma montanha, e não uma árvore, mesmo que as árvores cresçam na montanha.

A “sede” que todos carregamos no nosso ser não nos deixa em paz. Investigaremos, testaremos e provaremos tudo o que encontrarmos pelo caminho. Descobrimos que as coisas finitas são boas, cada uma à sua maneira. Mas não nos apaziguarão. “Porquê?”. Se somos criados para encontrar aquele “objecto” que nos satisfaz, porque não somos informados com mais detalhe sobre ele?

Mas a verdade é que fomos e somos, e o detalhe não falta. O drama do nosso “desespero e neurose” não é que somos negligenciados pela fonte do nosso ser. Não somos. O problema é que temos de alcançar o “objecto” que nos sacia pelas formas que nos chegaram. Inventamos alternativas, na maior parte projecções bizarras da nossa mente, mas por alguma razão estas não funcionam.

Sem a “sede” não poderíamos ser aquilo que somos. Com ela, apenas podemos ficar satisfeitos com a vida divina segundo o modo como nos foi dado a receber.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 24 de Maio de 2016 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 23 May 2016

Bispo disposto a morrer por condenados à morte

Bispo Ramón Arguelle
O Papa Francisco recebeu esta segunda-feira em audiência o imã da Universidade de Al-Azhar. Não é apenas um encontro de cerimónia, trata-se do restabelecimento de relações que estavam cortadas desde 2011.

Entretanto Francisco enviou uma mensagem aos católicos na China, a tempo do dia de Nossa Senhora Auxiliadora, que se assinala amanhã.

Está a decorrer a cimeira humanitária de Istanbul. A Igreja está representada pelo seu secretário de Estado, monsenhor Parolin e o Papa insiste que Roma está atenta a este assunto.

Antevê-se uma relação difícil entre o Presidente das Filipinas e os bispos. O Presidente eleito – que ainda não tomou posse – diz que quer implementar de novo a pena de morte e pelo menos um bispo afirma que está disposto a morrer no lugar dos presos que sejam condenados à forca.

O vencedor do prémio Árvore da Vida, Walter Osswald, deu uma entrevista à Renascença e critica a lei das barrigas de aluguer, que considera mal escrita e pouco exequível. Entretanto já existe um abaixo-assinado para obrigar a um novo debate sobre o assunto.

O artigo da semana passada do The Catholic Thing teve muito mais adesão do que até eu esperava. Se ainda não leram, façam-no, para compreender a posição difícil em que se encontram alguns conservadores americanos, que sempre se opuseram a Trump mas estão bem conscientes das repercussões a médio e longo prazo para os Estados Unidos, sobretudo a nível de questões fracturantes, se ganhar a Hillary Clinton.

Wednesday, 18 May 2016

Inferno em Sirte, Árvore da Vida em Portugal, Trump nos EUA

Hillary ou Trump? Há uma terceira opção...
Já todos ouvimos falar de Raqqa, a capital do Estado Islâmico. Pois agora temos uma “Nova Raqqa”. Trata-se de Sirte, na Líbia, um novo inferno na terra.

Foi encontrada esta quarta-feira uma das raparigas que foi raptada pelo Boko Haram juntamente com mais 200, em Chibok, na Nigéria. É um sinal de esperança de que as restantes também possam vir a ser devolvidas à família.

Foi anunciado hoje que o Prémio Árvore da Vida será entregue ao professor Walter Osswald, especialista em Bioética.

As escolas privadas, entre as quais muitas confessionais, continuam o seu braço de ferro com o Governo e agora depositam as suas esperanças em Marcelo Rebelo de Sousa.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. No fundo é um apelo ao voto em Donald Trump. Não, não perdi a cabeça… Leiam que vão entender a situação difícil em que se encontram os conservadores americanos.

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