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Wednesday, 4 October 2017

Aceitar o Dom do Sofrimento

Philip Hawley Jr.
De vez em quando Deus coloca na nossa vida alguém tão rico em graça que esta parece submergir-nos completamente. A Emma foi uma dessas pessoas para mim.

A sua morte, depois de uma batalha de cinco anos contra o cancro, não foi referida na imprensa local. A Emma era uma imigrante pobre que esfregava o chão da minha casa quando não estava a mudar as fraldas aos meus filhos. A sua humildade era tão misteriosamente profunda que podia desaparecer de vista mesmo quando era a única outra pessoa na sala.

E contudo – ou, aliás, devido a estas qualidades – estou certo de que um coro de anjos fez tremer as portas do céu durante os seus últimos momentos na terra, porque, na morte como na vida, ela esvaziou-se em Deus numa viagem indescritivelmente bela de sofrimento e graça.

A Emma sofreu emocional e espiritualmente nos últimos meses e a minha experiência enquanto médico de pouco serviu para aliviar as suas aflições. Todos já passámos pela angústia de ver alguém de quem gostamos em sofrimento. Há uma aversão profunda ao sofrimento na natureza humana, bem como compaixão para com aqueles que sofrem.

Estes aspectos da nossa natureza são ainda mais aparentes nestes tempos em que o desenvolvimento da medicina eliminou grande parte do sofrimento físico que, para os nossos antepassados, era simplesmente parte da vida e da morte. Não obstante serem bons em si, estes avanços levam-nos a ver o sofrimento como uma anomalia, algo a ser eliminado, até na hora da morte.

O sofrimento é um denominador comum em todas as razões dadas por doentes com pensamentos suicidas. O apoio ao suicídio medicamente assistido radica, no fim de contas, na crença de que a eliminação do sofrimento – físico, psicológico, espiritual ou existencial – é um bem moral mais importante do que sustentar a vida.

Alguns destes argumentos são espúrios, como a afirmação de que a dor severa é comum no final da vida. Na verdade os cuidados paliativos tornaram-na bastante rara. Mas a mera negação destes medos, que são compreensíveis, nada faz para ajudar aqueles que contemplam o suicídio, só faz com que se sintam mais isolados.

Uma sondagem da Pew Research de 2014 revelou que 71% dos americanos consideram-se cristãos. É um número quase idêntico ao dos americanos que apoiam o suicídio assistido. Isto sugere que a maioria dos cristãos apoia o suicídio assistido. Então pergunto aos meus correligionários, sobretudo aos católicos: O que é que Jesus Cristo nos tem a dizer sobre o sofrimento em fim de vida? Afinal de contas, o seu exemplo devia ser da maior importância para os seus seguidores.

A nossa fé cristã assenta, em última análise, na Paixão de Cristo. Se Cristo significa alguma coisa, é em primeiro lugar o Deus-homem que sofreu para nos redimir do pecado. A Paixão não é apenas o que Cristo fez, mas quem Ele é.

Os defensores do suicídio assistido costumam argumentar que uma morte arrastada é indigna. Mas antes de aceitar esta afirmação, pensem por momentos nos detalhes da Paixão de Cristo. Se uma morte sofrida é indigna, então a de Cristo foi a mais indigna de todas. Porque é que Cristo, ou o Pai, não puseram fim rapidamente à indignidade? Tendo em conta que a prolongada morte de Cristo causou sofrimento aos que o observavam aos pés da Cruz, talvez ele tivesse o dever de morrer rapidamente.

São João Paulo II: Um exemplo de dignidade no sofrimento
Mas o sofrimento de Cristo continuou até à morte, o que aponta para outra verdade. Ao contrário dos conceitos triviais de dignidade a que nos costumamos agarrar, a verdadeira dignidade humana deriva directamente da fonte: Imago Dei. O sofrimento não é uma afronta à nossa dignidade. Quando oferecida da forma como Deus nos pede, é uma afirmação da nossa dignidade. Nos seus últimos anos, o Papa São João Paulo II viveu esta verdade de forma a que todos a pudessem ver.

A morte é uma coisa confusa e por vezes fisicamente revoltante. Desconfio que a morte de Cristo na cruz tenha sido bastante mais hedionda do que a Bíblia diz. Mas apesar disso a sua mãe permaneceu aos pés da cruz do seu filho e viu-o a morrer de uma forma indescritivelmente horrível. Apesar da agonia física e espiritual, tanto a mãe como o Filho aceitaram as suas cruzes. Ao fazê-lo, Cristo parece estar a dizer algo para todos aqueles que sofrem junto de um doente moribundo.

Para lá da Paixão de Cristo, a história da Igreja antiga é também, na sua dimensão humana, uma história de sofrimento. Todos os apóstolos à excepção de João foram martirizados e são incontáveis os que morreram pela fé nos primeiros tempos da Igreja.

Não quero dar a entender que compreendo uma morte sofrida, ou como Deus retira graça do mal físico. Estas e muitas outras coisas permanecem misteriosas para mim, mas há uma verdade que me parece clara: Cristo não aceita apenas o sofrimento para si. Ele pede-nos que sofra com ele e esse pedido está no coração da nossa fé cristã.

A Emma nunca deixou de sorrir, mesmo por entre o seu sofrimento imenso. É algo que não me imagino capaz de fazer. Ela aceitou o convite de Cristo e, nessa sua entrega, eu fui abençoado com a visão do Cristo sofredor e com a luz de uma graça inexplicável. Ela demonstrou como se pode optar por sofrer simplesmente porque é isso que Cristo nos pede.

Nas suas palavras e acções Jesus nunca sugere que a nossa vida – um dom de Deus – é nossa para destruir. Através da sua Palavra revelada, aliás, é precisamente o contrário que se torna evidente, como poucas verdades o são.

O suicídio não é uma libertação compassiva do sofrimento. A morte não é o fim. Eu não pretendo saber como é que Deus pesará a decisão de quem quer que seja debaixo de um sofrimento tão intenso, mas o que nos está a pedir quando chegar a hora da nossa morte parece-nos evidente.

Deus quer-nos com ele no Céu e o sofrimento em fim-de-vida é um apelo dramático e último para entregarmos a Ele a nossa vontade. Para aqueles, como eu, que são pecadores, esse é o maior dom que Ele nos podia oferecer. Não estou a dizer que vai ser fácil, mas temos o exemplo de Emma e de outros como ela para seguir.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Philip Hawley, Jr, MD, é médico num hospício e antigo professor assistente de Pediatria Clínica na University of Southern California Keck School of Medicine.

Wednesday, 31 May 2017

Vida em Abundância

Pe. Jerry J. Pokorsky
No Evangelho Jesus promete: “Vim para que tenham vida e para que a tenham em abundância” (João: 10,10). Trata-se da garantia mais sublime e consoladora deste lado da eternidade.

Quando tudo corre bem e estamos a experimentar as bênçãos da felicidade e da boa sorte, aceitamos facilmente este ensinamento. Quando conjugada com a saúde e com uma família normal e feliz e uma situação profissional razoavelmente segura, a prática sincera da fé traz um sentido autêntico de gratidão que nos incentiva a maior devoção e generosidade.

Mas quando nos deparamos com dificuldades familiares ou maritais, insegurança laboral ou problemas de saúde crónicos, podemo-nos sentir tentados a duvidar desta promessa de Cristo. Como é que se pode viver uma vida de abundância em Cristo enquanto experimentamos grande tristeza ou privação? A maior parte de nós seria tentada a perder a fé e a pensar que a promessa de “vida em abundância” não passa de uma piada cruel. Precisamos de uma resposta inteligível.

Quando Saulo caiu por terra na estrada para Damasco, ouviu a voz de Jesus: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Actos: 9,4). Jesus reina na glória celeste, porém esta narrativa revela claramente que o próprio Jesus sofre quando os cristãos são perseguidos. São Paulo desenvolverá este ensinamento, deixando claro que Jesus não é um senhorio ausente. “Porque todos quantos fostes baptizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.” (Gal. 3,27). Cristo continua a viver entre nós na Sua Igreja. O Seu Corpo Místico.

São Pedro empurra-nos no sentido de reconciliar o sofrimento com uma vida abundante em Cristo. Em Cristo o sofrimento é elevado pela graça e ganha um novo sentido: “Se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus. Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no vosso lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos.” 1 Pedro 2: 20-21

Logo, o sofrimento dos membros do Corpo Místico de Cristo partilha do seu sofrimento redentor. Isto ajuda-nos a compreender a afirmação bastante surpreendente de São Paulo de que ele agora alegra-se nos seus sofrimentos: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja”. (Col. 1:24)

Quando sofremos, Cristo sofre connosco no seu Corpo Místico, e o nosso sofrimento participa no sentido que lhe foi dado por Cristo na Cruz. O nosso sofrimento em Cristo dá continuidade, de forma misteriosa, à obra da redenção.

O Pai não é um superintendente cruel. No livro da Sabedoria lemos: “Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma” (Sab. 1,13). Considerem a angústia de Abraão no Livro de Genesis quando leva o seu filho Isaac até à montanha para o sacrificar. Quando o anjo do Senhor segura a mão de Abraão, o Senhor revela que não se alegra a sua angústia, alegra-se com a sua obediência. Porém, a angústia de Abraão valida e magnifica a força da sua obediência na fé.

Isaac, como é evidente, representa a figura de Cristo o Filho e Abrãao é a figura do Pai. Por isso é razoável concluir que o Pai não se alegra no sofrimento redentor do seu Filho na Cruz, nem se alegra com o nosso sofrimento. O Pai “alegra-se” com a obediência do seu Filho, uma obediência que o sofrimento e a morte em nada diminuem. A coragem e o sofrimento de Cristo testemunham a suprema excelência da sua obediência ao Pai.

A excelência da sua obediência é aumentada pela sua liberdade. Durante a sua prova Ele diz a Pilates: “Acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” (Mt. 26,53). Jesus revela logo porque é que aceitou essa pena de morte: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (Mt. 26,54). As escrituras cumprem-se quando Jesus aceita voluntariamente a sua morte em obediência pela nossa redenção e salvação.

Sofrimento pode ter sentido
Jesus convida-nos a entrar no mistério do amor sacrificial: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15,13). Começamos a sentir a mistério da grandeza de tal amor nas nossas experiências de vida. Em circunstâncias extremas, os bons pais arriscam as suas vidas pelos seus filhos; e há incontáveis relatos de soldados, polícias e outros que arriscam as suas vidas não só pelos seus camaradas, mas por estranhos. Mesmo uma cultura híper-secularizada como a nossa celebra a dignidade de actos de amor altruísta.

Mas o amor de Cristo e a vida na sua graça podem perder-se, por isso Jesus ensina: “Se guardares os meus mandamentos permanecerão no meu amor, tal como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo. 15,10). A obediência e o sofrimento que frequentemente os acompanham demonstram que a coragem, a convicção e uma consciência tranquila sustentam a alegria da vida com Cristo: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e que a vossa alegria seja completa” (Jo. 15,11).

O mandamento mais significativo de todos é dado na Última Ceia: “E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim” (Lc. 22,19). A nossa obediência na Graça de Deus é premiada com o Verbo a fazer-se Carne novamente, na Eucaristia: A Santa Comunhão, a fonte e o ápice da vida cristã.

A “vida em abundância” do Senhor purifica e eleva todas as alegrias e as tristezas terrenas. É uma vida de coragem, de convicção, de consciência tranquila e de comunhão com Ele, com a nossa própria carne santificada pelo seu santíssimo Corpo e Sangue. Nunca é demasiado tarde para viver a sua Vida em abundância com esperança firme e verdadeira alegria.  


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Maio de 2017 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 22 May 2013

As Pequenas Almas Sofredoras: Audrey Stevenson de Paris

Austin Ruse
O argumento mais forte dos ateus é aquele sobre o sofrimento. É quase um cliché. Se Deus nos ama, porque é que permite o sofrimento? Não estamos a falar de uma dor de dentes, mas de dor incessante e dilacerante, dor de morte. Permitiu-o para o seu próprio filho.

Este tipo de sofrimento em qualquer pessoa é um mistério, mas muito mais quando se trata de crianças. Suspeito que isto seja algo que já tenha afastado muita gente da fé. E quando a dor se abate sobre uma criança que tem uma familiaridade precoce com Deus, é menos misterioso por isso? Certamente não o é para o ateu, nem para um mórmon ou para um judeu, que não partilham a compreensão que os católicos têm do sofrimento.

Acreditamos que o sofrimento, bem entendido, nos aproxima de Deus, ajuda-nos a aliviar o sofrimento de Cristo e contribui para a salvação de outros. Mas trata-se de uma ideia monstruosa para aqueles que não a compreendem.

Vivemos numa era de grandes santos. João Paulo Magno, Josemaria Escrivá. Madre Teresa. Padre Pio. Gianna Molla. Brendan Kelly. Margaret Leo. Audrey Stevenson.

Não conhece estes últimos três? São os mais pequenos dos santos sofredores. Há muitos outros pelo mundo fora, crianças com um sentido apurado de Deus, mesmo em bebés, que sofreram doenças e maleitas terríveis mas que ofereceram o seu sofrimento para o benefício de outros, para Cristo, e que morreram novos.

Audrey Stevenson nasceu em 1983 numa família que era católica mas na qual nem se rezava antes das refeições. Quando tinha três anos a família visitou a casa de Santa Teresa de Lisieux e depois o convento onde a Pequena Flor viveu e morreu. Aí a Audrey exclamou: “Quero entrar para o Carmelo”.

Pouco depois a família mudou-se para um apartamento novo. Audrey desenhou um crucifixo amarelo e colocou-o na parede. Tinha colocado crucifixos idênticos em cada quarto da casa, onde permaneceram durante muito tempo.

Certo dia Liliane, a sua mãe, reparou que Audrey estava a coxear. Tinha colocado lápis dentro dos sapatos para “poder resistir”, uma compreensão bastante sofisticada da mortificação, para uma criança, e algo que ninguém lhe tinha ensinado.

Um dia foi ao parque com o avô. Atravessou avenidas, pontes e grandes cruzamentos, numa zona muito movimentada de Paris. Perdeu-se. Alarmado, o avô ligou para casa e descobriu que Audrey já lá estava. Disse que tinha sido conduzida por Jesus.

Tudo isto aconteceu com uma menina de três anos numa família que não era particularmente devota.

Em casa introduziu o conceito de dar graças antes de comer. Uma vez na casa de verão, na Bretanha, insistiu nas orações. O seu tio americano, Alexander Cummings, provocou-a: “Mas Audrey, se temos de dar graças a Deus cada vez que comemos, então devíamos dar graças a toda a hora, por tudo”. Ao que a Audrey respondeu: “Sim, isso mesmo”.

As histórias da sua devoção são infindáveis. Vivia uma fé profunda, tanto interior como exteriormente, como raramente se encontra nesta vida. A sua mãe disse: “A Audrey espanta-nos. Está para além de nós”. Conhecia o catecismo sem ter sido ensinada. O padre disse-lhes que não fizessem nada, que apenas a seguissem. E assim fizeram.

Aos cinco anos a Audrey pediu autorização à Igreja para poder comungar. Tipicamente, uma criança em França fazia a primeira comunhão aos nove ou dez anos. Questionaram-na exaustivamente, primeiro pelo seu prior, depois por outro e depois por outro ainda. Determinaram que a menina estava pronta e por isso a família viajou até Lourdes, onde  ela comungou pela primeira vez.

O que se nota da sua vida é que não só estava próxima de Cristo, como também aproximava Cristo dos outros. Primeiro da sua família, depois de um grupo cada vez maior.

Audrey com o Papa João Paulo II

A Estrada que acabou por levar a fé de Audrey aos outros, muito para além da família, foi a doença. Os seus pais tinham tido um pressentimento de que algo iria acontecer para os testar a eles e a ela. Aos seis anos contraiu pneumonia e teve de passar muito tempo sozinha enquanto a mãe e o pai cuidavam dos outros filhos. Passou o tempo em oração e a cantar. A sua mãe começou a questionar se a doença faria parte da missão de Audrey.

A doença mortal surgiu aos sete. Leucemia. Foram muitos meses de tratamento, incluindo radioterapia, quimioterapia, punções lombares e transplantes de medula. E assim começou a sua missão de ensino, uma missão que atravessou as fronteiras de França e chegou a outros países.

Entre família e amigos começou-se a rezar um terço todas as terças-feiras pelas suas melhoras. Começou por ser uma coisa pequena, mas cresceu. Aconteceram milagres nesses encontros. Meninas pequenas ensinaram os seus pais a rezar o terço. Famílias inteiras regressaram à fé. Uma pagela da Audrey começou a espalhar-se pelo país.

O seu sofrimento no hospital foi intenso. A quimioterapia deixou-a sem saliva, as pálpebras colavam-se aos olhos e todos os seus ossos doíam. Dizia repetidamente: “Estou na cruz. Estou na cruz”. Durante as dolorosas punções lombares repetia: “Pelo tio Mick, pelo pai, pelas vocações”. Durante um dos tratamentos dolorosos os médicos ouviram-na a cantar músicas a Nossa Senhora.

Depois de um transplante de medula falhado soube-se que tinha apenas três semanas de vida. Os pais levaram-na a Lourdes; levaram-na também a conhecer o Papa, com quem teve uma intensa conversa privada. Perto do final vieram pessoas de todo o país, pedindo que ela rezasse pelas suas intenções, coisa que ela fez, apesar da dor, uma após outra.

Por fim morreu. O seu pai, que é padrinho da minha filha Gianna-Marie, diz que certa vez receberam a visita de um padre mexicano. O padre disse: “Devo a minha vocação a uma menina francesa que rezava pelas vocações e morreu de leucemia.” Ao que o seu pai, Jerome, respondeu: “Está sentado no quarto dela”.

A causa da canonização de Audrey começou em Paris há poucos anos.

Audrey Stevenson, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Sexta-feira, 17 de Maio de 2013)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 24 April 2013

Os Atentados de Boston e o Problema do Mal

Curt Lampkin
Os crentes costumam dizer que é em nome de um bem maior que Deus permite os males que vemos no mundo. Mas pressionados a dizer que bem poderá vir da dor e sofrimento que se segue a um terramoto terrível ou – como acabamos de assistir em Boston – a um atentado terrorista, muitas vezes ficam sem argumentos.

Este parece ser um poderoso argumento contra Deus e tem levado não poucas pessoas a duvidar do seu amor por nós, ou mesmo da sua existência. A principal objecção prende-se com o tamanho e a natureza repentina do aparente mal.

Reflectindo, porém, as catástrofes repentinas ou grandes não são desprovidas de sentido, como podem parecer, nem provam a inexistência de um Deus que nos ama ou que permite o mal por boas razões.

A única forma de medir o amor é pelo sofrimento e sacrifício. Quem não está disposto a sofrer e/ou sacrificar-se pelo seu amado revela um amor que não é forte – que na verdade nem é amor. A profundidade do sacrifício e do sofrimento revela a força do amor.

A Paixão e Crucificação de Jesus mostram o quão grande é o seu amor por nós. Por isso parece razoável que Deus queira algum sinal do nosso amor por Ele, tendo em conta que o primeiro mandamento nos pede que amemos Deus com todas as nossas forças e todo o nosso coração. Isto pode servir de aviso de que algum sacrifício e sofrimento farão parte do nosso futuro.

A ideia de um Deus a formar cruzes, ou caminhos de sofrimento, para o nosso benefício é bem conhecida da Igreja. As pessoas com vidas luxuosas e moles tendem a ter carácter fracos, resultantes de não terem sido suficientemente desafiados ou testados. É tal como os atletas que não têm verdadeira competição. Não chegam a desenvolver os seus talentos. A experiência de muitos, ao longo dos séculos, comprova que a força de carácter é desenvolvida quando lidamos com dificuldades.

Consideremos estes aspectos do sofrimento:

1. O sofrimento separa-nos do mundo e aumenta a nossa capacidade de escuta da mensagem de Deus. Deus fala numa “voz mansa e delicada”, que é facilmente abafada pelo ruído do mundo. O sofrimento capta-nos a atenção.

2. O sofrimento pode envolver dificuldades económicas, físicas, mentais ou espirituais, ou qualquer combinação dos mesmos. As dificuldades podem levar-nos a concentrar as nossas atenções naquilo que verdadeiramente nos faz falta.

3. O sofrimento pode alterar radicalmente a nossa relação pessoal com outras pessoas, e pode mudar a nossa perspectiva sobre nós mesmos, elevando ou diminuindo a nossa auto-estima.

Se os efeitos do sofrimento são benéficos ou prejudiciais a longo prazo depende da nossa atitude, força de carácter e sentido de valores. A ideia de um Deus que cria, ou pelo menos permite, uma “cruz pessoal” para cada um de nós parece aceitável, ou até inevitável. Pensemos nele como um treinador a tentar desenvolver o talento de um atleta.

Algumas pessoas pensam que as cruzes pessoais precisam de tempo para alcançar os objectivos. Como é que se pode justificar isto à luz de um terramoto ou atentado terrorista, em que a morte pode ser repentina? De facto, uma morte repentina e inesperada não difere muito de qualquer outra morte, como por exemplo de doença ou de idade ou de acidente.

Vigília pelas vítimas do atentado de Boston

Do ponto de vista cristão a morte é a porta para a vida eterna. Como os próprios pagãos compreendiam, essa porta está sempre aberta e é bom que sejamos recordados dessa verdade. A tragédia está na angústia dos sobreviventes que não tiveram tempo de se preparar. Em todo o caso, esse sofrimento repentino não contradiz a ideia de um “Deus bom”.

Numa grande e repentina calamidade, a principal objecção a Deus parece ser o número de mortes. Mas ao longo de uma semana o número de pessoas que morre em acidentes de carro costuma ser bem maior que as vítimas de qualquer terramoto ou atentado.

Num sismo, ou num atentado, os sobreviventes sofrerão perdas económicas, pessoais, físicas ou mentais repentinas. Por isso um evento destes faz-se acompanhar, de facto, de cruzes inesperadas. Mas mesmo que o sofrimento nos chegue de forma repentina, a ideia de que tenha sido planeado ou pelo menos permitido por Deus não é irracional, por uma série de razões.

Também é importante notar que um atentado resulta de um exercício de livre-arbítrio por parte do terrorista. O terrorista poderá subscrever uma crença que apoia tais actos, mas não deixa de ser um acto de livre-arbítrio. O livre-arbítrio é uma característica essencial, o maior dos dons de Deus.

O sacrifício é um acto voluntário e pode ser combinado com o sofrimento. Pode ser um esforço pessoal de, apesar de grandes dificuldades, praticar boas acções. Pode ser a aceitação paciente de pequenas irritações ou de um mal inevitável por forma a revelar amor por Deus. Isto não é fácil, certamente, mas uma boa atitude pode atenuar o sofrimento, por vezes de forma considerável.

No final de contas poderemos ter de enfrentar aquilo a que São Paulo e Santo Agostinho chamam o mysterium iniquitatis, o “mistério do mal”. Tal como o mistério do Bem, não temos explicações para este tipo de realidade profunda. Mas podemos, ao de leve, tentar compreender de que forma encaixam no bom plano de Deus.


Curt Lampkin, um físico reformado que vive no Texas, é um colunista novo do The Catholic Thing.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 18 de Abril 2013 em http://www.thecatholicthing.org/)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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