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Wednesday, 25 May 2022

Uma Cerveja com C.S. Lewis: “Uma Conversão Contrariada”

Brad Miner

Julgo que nenhum autor protestante tem sido tão citado em artigos do The Catholic Thing como C.S. Lewis (1898-1963). Também deve ser verdade que para além da sua própria obra, ninguém nos meios de comunicação contemporâneos tem feito mais para celebrar Lewis e o seu trabalho do que Max McLean, fundador e diretor artístico do Fellowship for Performing Arts (FPA), de Nova Iorque.

O seu mais recente projecto cinematográfico, feito com o realizador Norman Stone, é “The Most Reluctant Convert: The Untold Story of C.S, Lewis”, em que McLean, que faz de Lewis, narra o percurso do autor do ateísmo para o Cristianismo. E que evangelizador que ele era. No Século XX só o Billy Graham e o Papa São João Paulo se comparam.

Já fiz crítica de duas peças da FPA baseadas em livros de Lewis: “O Grande Divórcio” e “Shadowlands”, e com a minha mulher vi o “Vorazmente Teu”, em 2006 – antes de este site ser criado. Nessa produção McLean foi soberbo a fazer de Screwtape, o demónio mais velho a instruir o seu aprendiz, Wormwood.

O “Most Reluctant Convert” começa e acaba quebrando a chamada “quarta parede”, que separa os actores do público. McLean, na personagem de C.S. Lewis, sai da maquilhagem, passa pelos técnicos, as câmaras e a iluminação e, olhando directamente na nossa direção, começa a contar a história do grande autor. No final sai de casa do próprio Lewis em Oxford “The Kilns” e recebe os aplausos, muito merecidos, da equipa de filmagem.

McLean descreve o filme como “cerebral, mas de acção rápida”. Na verdade, essa é uma das chaves para a sua grandeza.

Através de retrospectivas vemos C.S. Lewis quando era menino (desempenhado por Eddie Ray Martin), como um jovem adulto (Nicholas Ralph) e, claro, com McLean a fazer de homem maduro, a tentar reconciliar-se com os acontecimentos e as verdades que o puxam de um cepticismo ateu rumo à fé cristã.

Foi o livro “Surpreendido pela Alegria” (1955) que deu a McLean a ideia de escrever uma peça sobre a sua conversão. Esse livro, bem como o “Mero Cristianismo” (1952) são boas fontes para a história de Lewis e a forma como usou a razão para chegar à crença, e vários momentos que serão reconhecidos por fãs de Lewis estão representados de forma belíssima no filme.

Vemos a morte da sua mãe, Flora (representada por Amy Alexander), o seu pai Albert, castigador e obstinado (Richard Harrington), e passagens da sua vida como militar na I Guerra Mundial. Todos estes eventos traumáticos contribuíram para o empurrar para longe da fé. Há ainda cenas da sua educação na adolescência, que ficou a cargo do tutor W.T. Kirkpatrick (David Grant) e a sua formação intelectual em Oxford, mais tarde.

E há ainda alusões ao impacto de G.K. Chesterton, com o seu “O Homem Eterno”, e de George MacDonald, com “Phantastes” – livros que iluminaram a imaginação de Lewis, um classicista que viria a escrever alguns dos romances de fantasia cristãos do Século XX, para adultos e para crianças.

Em Oxford, onde foi primeiro aluno e depois professor, conheceu académicos fantásticos como Owen Barfield (Hubert Burton), Hugo Dyson (David Shields) e J.R.R. Tolkien (Tom Glenister).

Enquanto intelectuais, estes homens discutiram muitos assuntos, mas sobretudo a fé. Ouvimos Barfield a desafiar a afirmação de Lewis de que Jesus pode ser aceite como um grande mestre, sem que seja necessário acreditar na sua divindade. Barfield explica aqui o esquema do argumento que o próprio Lewis popularizaria, naquilo que é conhecido como o seu “trilema”. Lendo as palavras do Senhor no Evangelho, só podemos concluir que Jesus é louco, mentiroso, ou o Deus. Isto é, não pode simplesmente ter sido um “grande mestre” se as suas reivindicações de divindade eram fraudulentas.

Depois temos o famoso passeio que ele e Tolkien deram certa noite ao longo da Addison’s Walk, em Oxford. Falam de mitos e Tolkien levanta a questão convincente de que a história de Cristo é como todos os mitos que há muito que encantam ambos os académicos, com a excepção de uma coisa: os relatos do Evangelho são verdadeiros. Naquele momento ouvimos o sussurrar das folhas, que começam a cair:

“O vento sopra onde quer. Pode-se ouvi-lo, mas não se pode dizer de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com todos os que nascem do Espírito” (Jo. 3,8)

Lewis sente o Espírito a mover e nunca mais será o mesmo. Assim ficou conhecido como o “convertido mais desalentado e contrariado de toda a Inglaterra”. Mas a alegria não tardaria a chegar.

O filme não é uma autobiografia exaustiva, e alguns dos notáveis excessos da sua juventude, como quando andou medido com o oculto (“luxúria espiritual”, como ele lhe chamou), aparecem apenas na forma de alusões, mas isso é porque o objectivo de “The Most Reluctant Convert” é de mostrar – em menos de 90 minutos – a forma como Lewis chegou à fé e como as suas lutas internas sobre a verdade de Cristo ajudaram a definir aquilo que seriam os seus argumentos enquanto evangelizador, mais tarde.

“The Most Reluctant Convert” é, sem dúvida, o filme mais inteligente que verá em 2022, mas é também um filme muito belo, fruto da cinematografia de Sam Heasman, em muitos dos locais onde se desenrolou a vida verdadeira de Lewis: The Kilns, claro, mas também a Universidade de Oxford, e Oxfordshire e os seus pubs. “Saúde!”, diz “Jack” Lewis. Para todos nós.

Apesar de todo o charme verdejante do filme, este desenrola-se a uma velocidade alucinante e, quando acaba, recostamo-nos na cadeira, praticamente sem fôlego.

De certa forma, C.S. Lewis foi o Agostinho de Hipona dos nossos tempos, e caso tivesse tido uma reacção positiva aos argumentos de Tolkien para a primazia do Catolicismo (e que não constam do filme), por estes dias talvez o estivéssemos a venerar como santo. (Digo eu, que não sou postulador).

Tanto Lewis como Agostinho usaram, de forma enérgica, todas as armas lógicas que conseguiam contra o Cristianismo… até que cada um deles foi forçado, pela sua bondade e integridade essencial, a entregar-se de corpo, alma e intelecto, a Deus.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 24 de Maio de 2022 em The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 9 September 2020

Anã Branca

Francis X. Maier
Tenho estado a pensar muito no inferno, ultimamente. Não porque me apeteça, mas porque nos tornámos peritos em replicar os seus modelos aqui e agora. Basta ver as notícias.

Quanto ao inferno da fé cristã, quem duvida da sua existência deve fazer um simples teste: Apaguem as luzes numa noite sem luar e ouçam, sozinhos, a declamação brilhante do “Inferno” de Dante, por Heathcote Williams.

É um bocado realístico de mais. Numa manhã solarenga de setembro a descrição de demónios coriáceos num poço de tormentas, independentemente da forma como for feita, pode parecer ridícula. Vivemos, afinal de contas, na era da ciência, com toda a sua confiança bem alimentada e desdém pela superstição. O “real”, dizem-nos, é aquilo que podemos medir e provar – isto apesar do pressuposto cegamente conveniente de que a realidade se adequa aos limites dos nossos sentidos e do tipo de material que conseguem coligir.

Mas no escuro, com os olhos voltados para a paisagem da alma, o território da verdadeira realidade – as coisas que de facto interessam no decurso dos nossos dias e as escolhas e consequências que nos formam – torna-se subitamente claro.

Como escreveu Dante:

 

No meio do caminho desta vida
eu me encontrei por uma selva obscura
porque a direita via era perdida.

Dante segue o seu guia, o poeta Virgílio, para um inferno que é assustadoramente persuasivo e perversamente correcto, sem o ruído do mundo moderno. Numa nação que atualmente se encontra ébria com ódios e ressentimentos, o leitor faz bem em pensar um pouco sobre o Canto VIII do Inferno, onde o Rio Estige, num fluxo sem fim de excremento e detritos, guarda as almas dos que foram condenados pela sua ira. Os irados esbracejam à superfície, mordendo e atacando-se uns aos outros; os soturnos afogam-se por baixo, engolindo a sua própria sujidade.

A ideia de que o pós-vida é um “lugar” está profundamente implementada na imaginação humana. E isso é compreensível. Vivemos num mundo físico com uma geografia mapeável. Os nossos corpos ensinam-nos o prazer e a dor. Então tendemos a imaginar o inferno como um lago de fogo; ou um Las Vegas extremamente maltrapilho, onde as bebidas são más, as dançarinas são feias e nunca ninguém ganha; ou então como descrito no círculo mais baixo e final do Inferno de Dante – um poço de gelo ferozmente frio.

A ficção de C.S. Lewis – especialmente “O Grande Divórcio” e o “Verozmente Teu”, mas também “Que Força Hedionda” – captura um pouco do que pode ser o inferno. Ou então talvez seja mais surpreendente, um aborrecimento eterno. No episódio “Um sítio simpático para visitar” do Twilight Zone um jogador, desesperadamente endividado, mas viciado na adrenalina do risco, morre e acorda num casino fabuloso. Está cheio de mulheres bonitas e tem todos os confortos e benesses. Mas não se pode ir nunca embora e, pior, nunca perde. Em “Hell’s Bells” do The Night Gallery, um roqueiro cínico e adepto de festa rija morre e é condenado. Mas a grande porta de fogo do inferno leva-o a uma sala de estar confortável, com um bom sofá, onde um casal de idosos está ansioso por lhe poder mostrar as fotografias das férias passadas no Havai. Para sempre.

Todas estas imagens podem ser tanto implausíveis como assustadoras ou divertidas. Todas podem conter alguma dose de verdade. Mas não têm em conta o cerne daquilo que o Inferno será, seja qual for a sua forma final, nem porque será tão severo o seu sofrimento.

O inferno será a total ausência de amor: um corte radical entre a alma e Deus que é Amor, a fonte do nosso sentido e da nossa identidade. A estrutura da “Divina Comédia”, de Dante, é inspirada em Santo Agostinho, que descreveu o nosso “peso” como nosso amor. O verdadeiro amor, o amor altruísta, é um fogo: sacrificial, generoso, sempre em crescendo; uma labareda que eleva a alma para Deus. É por isso que o círculo mais profundo no Inferno não é uma fornalha, mas um lago de gelo, mantido eternamente gelado pelo pecado do orgulho – o bater incessante, propositado, ártico e sem arrependimento das grandes asas de satanás.

Mas há uma questão que se coloca. Porque é que para nós pobres humanos, cujas vidas são apenas um pingo no oceano da eternidade, devemos sofrer no inferno para sempre? Para seres finitos a perspectiva de punição eterna, seja o que isso for, parece terrivelmente injusta. Mas é inteiramente justa. Deus não nos impõe o Inferno, são os condenados que o escolhem livremente.

Dante, visão de Deus

Os condenados, pelas suas acções e escolhas, tornam-se criaturas incapazes de viver de outra forma; criaturas que não suportam o Céu, que não conseguem sequer desejar o Céu, e que jamais lá se adaptariam. Se todos somos livres – e a nossa liberdade é um aspecto central da nossa dignidade especial, separando-nos de todas as outras criaturas – Deus não nos pode obrigar a ser aquilo que escolhemos livremente não ser. A misericórdia de Deus é infinita, mas requer o arrependimento, honestidade e humildade do pecador. São coisas que o pecador mais obstinado não dá. Logo, a “misericórdia”, neste caso, seria simplesmente outra palavra para a injustiça.

C.S. Lewis escreveu que enquanto o Céu é um “gosto adquirido”, ao longo de tempo, graças a uma certa forma de viver, não deixa de ser um espaço para homens e mulheres. Mas o inferno nunca foi feito para almas humanas e quem lá entra deixa de ser inteiramente humano, tornando-se uma cinza de restos humanos, queimados pela raiva, frustração, solidão e amor-próprio que devora; tal como uma estrela anã branca já não é uma estrela propriamente dita, mas apenas a sua casca, colapsada e autofágica – a memória murcha de uma estrela, mas com uma massa esmagadora e uma gravidade feroz que não permite que nada escape o seu apetite salvo a luz mais fraca.

Dante terminou a “Divina Comédia” com uma das linhas mais poderosas e belas da literatura ocidental, descrevendo Deus como “o amor que move o sol e outras estrelas”. Suponho que a lição aqui seja a seguinte. Seja qual for a fúria e a tormenta dos nossos tempos, o que determina o nosso destino é quem amamos, o que amamos e como amamos. Então temos de escolher. E os sábios escolhem bem.

 

Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 2 de setembro de 2020)

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Wednesday, 11 December 2019

A Cruz por cima da Manjedoura

Stephen P. White
O meu pai era médico e quando eu era novo e pensava no que fazer com a vida perguntei-lhe o que é que gostava mais sobre a medicina. A resposta era tudo o que se podia esperar. Gostava de ajudar as pessoas. Gostava do equilíbrio entre a rotina e o desafio de poder resolver problemas. Tinha o privilégio de poder cuidar da família.

Quando lhe perguntei do que menos gostava esperava que me falasse das urgências a meio da noite, ou da burocratização da medicina. O facto de eu esperar essas respostas diz mais sobre mim do que sobre ele. Na verdade, não disse nada disso. A parte mais difícil do seu trabalho era, disse, saber que todos os seus pacientes iam morrer. E que tudo o que ele poderia esperar fazer – o que todos os médicos podiam esperar – era adiar o inevitável.

Pensei muito nisto quando o meu pai adoeceu com o cancro que acabaria por matá-lo. Foi muito reconfortante saber que o pai sabia o que sabia. A sua carreira médica tinha sido um memento mori de trinta anos. Claro que a inevitabilidade da morte não é razão para a resignação, menos ainda para cinismo ou desespero. E o cinismo e o desespero não eram características dele. Seria muito pobre médico se professasse indiferença para com a saúde por causa da mortalidade humana. O meu pai era um homem de grande e constante alegria.

Ele compreendia que a morte não é o fim da vida; é o caminho para casa. É a nossa possibilidade, para usar a expressão de C.S. Lewis, de ir mais alto e mais fundo. Precisamente porque o meu pai compreendia isto – e porque vivia desta forma, cuidava dos doentes desta forma e enfrentou a própria morte desta forma – tornou mais fácil para nós, por entre as nossas lágrimas, fazermos o mesmo. Esse é o maior dom que um pai pode dar.

Tenho pensado muito no meu pai ultimamente, em parte porque esta é uma época propícia às saudades da família, mas também porque estamos na altura do ano em que a Igreja nos fala sobre a morte e o fim de todas as coisas. E sobre a esperança de que tudo seja recomposto num mundo em que tanto está quebrado.

Mas este trabalho de recompor o que está quebrado pode parecer fútil. Veja-se estes três exemplos.

Algures nos próximos três meses, segundo nos dizem, o Vaticano vai divulgar as conclusões da sua investigação sobre Theodore McCarrick. Essas conclusões poderão, esperamos, explicar como é que foi possível McCarrick subir gradualmente pela hierarquia apesar dos constantes boatos sobre as suas tendências. Mas ainda que venhamos a saber tudo sobre a carreira de McCarrick e sobre quem partilha a culpa, há alguma esperança de que esse conhecimento venha a reparar os males que foram feitos ou reparar os danos que ele e outros causaram?

Advento, tempo de esperança
Na Virgínia Ocidental o bispo Mark Brennan informou o seu antecessor, o bispo Michael Bransfield, que espera que ele se retrate da grande quantidade de crimes e de pecados de que é acusado, restituindo o que deve ser restituído. Ainda que o faça por inteiro (e se não o fizer terá de responder perante o Fisco e Roma) isso apagará o mal todo que causou?

Uma notícia recente da Associated Press calcula que só em Nova Iorque, Nova Jérsia e na Califórnia uma série de processos novos relativos a casos antigos de abusos poderão levar a indemnizações de perto de quatro mil milhões de euros. Mas será que as feridas dos sobreviventes de abusos serão curadas com compensações monetárias para as suas justas queixas contra homens, muitos dos quais já morreram? Será que a Igreja pode pagar o suficiente em indemnizações ou fazer pedidos de desculpa suficientes para restaurar o mal profundo que foi feito aos corpos, almas e à fé daqueles que foram traídos?

Claro que a resposta a todas estas questões é “não”. Todos os nossos esforços de justiça são insuficientes. Todas as nossas tentativas de recompor o que foi quebrado pelo pecado são, no final de contas, desadequados. O melhor que podemos fazer com os nossos esforços – o melhor a que qualquer um de nós pode aspirar – não chega. Isso não significa que esses esforços sejam em vão, mas simplesmente que a nossa esperança não se encontra na nossa capacidade de sarar, reparar, restaurar ou reformar. Tudo isso é necessário, todos os nossos esforços, o nosso zelo e a nossa sabedoria são necessários. Mas temos de ter noção de que não chegam.

O Advento é um tempo de esperança porque acreditamos que aquele recompõe todas as coisas está a caminho. Ele é a nossa esperança. É ele quem cura tudo. Ele é o divino médico. A cura que Ele oferece é alcançada, literalmente, pela morte. Nesse sentido a manjedoura está sempre encimada por uma cruz – não como símbolo de morte iminente, não como espada de Dâmocles, mas como sinal da nossa salvação.

A morte chegará a todos. É o preço dos nossos pecados. Graças ao bebé de Belém, é também a nossa única esperança para a cura. Quando compreendermos isto – e se vivermos desta forma e enfrentarmos desta forma a nossa própria inadequação e estado decaído – ajudaremos outros a fazer o mesmo enquanto caminhamos neste Vale de Lágrimas. E participaremos assim na obra daquele que renova todas as coisas.

Não há melhor presente que esse.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 5 de dezembro de 2019)

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Wednesday, 21 November 2018

Onde Estão os Demónios?

Michael Pakaluk
De entre os primeiros relatos da vida de Cristo, o Evangelho de Marcos tem uma certa primazia. É possível, como crêem a maior parte dos especialistas, que tenha sido o primeiro Evangelho a ser escrito. A tradição dita que era o “evangelho de Pedro”, isto é, que foi escrito por Marcos mas que lhe foi contado por Pedro. E Pedro era “a pedra”, o primeiro de entre os apóstolos, o primeiro Papa.

É costume, hoje, (ainda que em tempos tenha sido mais), ouvir os não-cristãos a admitir pelo menos que Jesus foi “um grande mestre moral”. Este ponto de vista já foi bastante bem demolido por C.S. Lewis e por Peter Kreeft: Jesus ensinou que era o Filho de Deus, que podia perdoar os pecados, e que a nossa salvação dependia dele. Mas se não forem verdade, então estas afirmações apontam mais no sentido da demência. Logo, Jesus ou era Deus ou era um homem mau. Não há alternativa. E em nenhum dos casos ele pode ser descrito simplesmente como “um grande mestre moral”. Os Padres da Igreja já tinham argumentado no mesmo sentido: aut Deus aut homo malus.

Daí que a ideia de que Jesus é um “grande mestre moral” não tenha fundamento. Se é grande, devemos acreditar nos seus ensinamentos, incluindo a de que é Deus; se, todavia, os seus ensinamentos são falsos, então não pode ser grande. Infelizmente, contudo, este tipo de argumentação não aponta para a verdade. Só por si é tão provável que leve alguém a rejeitar Jesus como aceitá-lo.

Mas aquilo que transparece do Evangelho de Marcos é um “argumento” mais forte e convincente, talvez aquele que mais falta faz nos nossos dias. Não é que Jesus não seja simplesmente um mestre moral – é antes que o Jesus que lá nos é apresentado nem sequer é um “mestre moral”! Mais simplesmente, mais do que ensinar alguma coisa, ele proclama, e o que ele proclama é a incursão do “Reino de Deus” nas possessões do demónio.

Aquilo que está em causa no Evangelho de Marcos não é tanto o género de conselhos sobre como conduzir a vida, mas o facto de estarmos perante a chegada de uma autoridade espiritual capaz de banir e subjugar o demónio.

Dito isto, sim, é verdade que alguns especialistas tendenciosos têm disputado estas conclusões: também é verdade que os ensinamentos da Igreja ao longo dos séculos continuam a ser a única forma sã de interpretar as escrituras. Mas continua a ser verdade que Marcos oferece uma correção impressionante de alguns dos nossos preconceitos, como por exemplo o à vontade com que lidamos com o pecado e os actos pecaminosos.

O primeiro milagre de Jesus em Marcos (capítulo 1) é um exorcismo: “Que tens tu a ver connosco, Jesus de Nazaré”, grita o demónio, “vistes destruir-nos? Eu sei quem és, o Santo de Deus”. Logo desde o inicio aquilo a que as pessoas se referem quando falam no “seu ensinamento” é o seu poder sobre o demónio. “Que é isto?”, perguntam, “um novo ensinamento! Com autoridade ele comanda até os espíritos impuros, e estes obedecem-lhe” (1,27).

Quando Jesus nomeia os doze como seus apóstolos, envia-os para ensinar, dando-lhes “autoridade para expulsar demónios” (3,15). O facto de Jesus possuir este poder é, aos olhos dos seus inimigos, a sua principal característica: “é pelo príncipe dos demónios que ele expulsa os demónios”, dizem, reconhecendo o facto.

Quando ele começa a ensinar (capítulo 4), fala apenas em parábolas sobre a incursão do Reino. Logo na primeira parábola refere-se a Satanás e aos seus esforços de resistência, roubando a palavra que é semeada (4,15). Quando começa a fazer actos de misericórdia é a cura do “endemoniado gadareno” que recebe mais atenção, num capítulo que também inclui a cura da hemorroísa e a ressurreição da filha de Jairo (capítulo 5). Quando envia os doze para pregar, a sua mensagem é a do arrependimento dos homens, associado ao facto de terem “expulso muitos demónios” (capítulo 6).

A primeira vez que lida com os pagãos, sinal de que o Evangelho está a ser pregado às nações, é quando exorciza a filha da mulher sirofenícia (capítulo 7). A sua famosa repreensão a Pedro mostra o que achava da oposição ao Reino: “Vá de retro, Satanás!” (capítulo 8). Quando se procura saber se certa pessoa está com ele ou contra ele, a prova dos nove é saber se expulsa demónios em nome de Jesus (11, 38-41).

Só no décimo capítulo é que encontramos algum traço do “ensinamento moral”. Nem de propósito, tendo em conta os nossos tempos, diz respeito à indissolubilidade do casamento e o acolhimento das crianças. Depois disso, o Evangelho de Marcos dedica-se aos eventos da Semana Santa.

Mas devemos enfrentar este contraste. Muitos de nós rezamos a oração de São Miguel depois da missa. O Santo Padre refere-se várias vezes ao demónio, que claramente trata como uma realidade.

Contudo, em geral a “cultura” da fé em que estamos imersos é muito diferente da de Marcos. Perdemos o sentido de luta contra o demónio como sendo parte do discipulado cristão, e que é precisamente daí que a Igreja retira o seu poder.

Mas com a nossa atitude complacente estamos a colocar-nos em campos opostos, não apenas a Marcos mas a todo o Cristianismo histórico. “Pelo pecado dos primeiros pais, o Diabo adquiriu certa dominação sobre o homem, embora este último permaneça livre (CCC 407); “E porque o Baptismo significa a libertação do pecado e do diabo, seu instigador, pronuncia-se sobre o candidato um ou vários exorcismos” (CCC 1237).

Então e hoje? Onde é que se meteram os demónios? Espero que possam ser banidos da “Cristandade”. Mas as muralhas dessa civilização já foram comprometidas – não obstante o facto de uma vida sacramental continuar a ser a melhor maneira de se proteger. Os demónios são seres imateriais, que não podem, por isso, ser destruídos. Diz-se que andam pelo mundo, até ao fim desta geração. Se admitirmos que sempre existiram, então faríamos bem em partir do princípio de que actualmente estão bem mais próximos.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 13 de Novembro de 2018)

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Wednesday, 14 December 2016

Deus, a Lei Moral e Perder o Juízo

Francis J. Beckwith
Este ano lectivo estou integrado no corpo docente da Universidade de Colorado, em Boulder, como professor convidado para 2016-2017 na cadeira de Pensamento e Política Conservadora. Uma das aulas que lecciono, “Filosofia e Religião”, aborda uma série de questões sobre a avaliação filosófica da crença religiosa, que normalmente são alvo de debate, incluindo sobre se a moralidade requer um Deus.

A leitura obrigatória para esta secção do curso inclui não só um capítulo do manual, mas também dois ensaios, um de C.S. Lewis (um excerto de “Mero Cristianismo”) e outro do filósofo Michael Ruse e do biólogo E. O. Wilson. Chama-se “A Evolução da Ética” e é um ensaio já bastante conhecido e usado frequentemente, que apareceu pela primeira vez na revista New Scientist, em 1985.

Ruse e Wilson defendem que o nosso sentido de moralidade, ou aquilo a que Lewis chama “a lei da natureza humana” pode ser inteiramente justificado pela evolução biológica e, por isso, é desnecessário afirmar que este está enraizado em Deus. Eles argumentam que a natureza nos equipou de certas disposições (ou “regras epigenéticas”) que nos predispõem a favorecer algumas acções em relação a outras, para poderemos passar mais eficientemente os nossos genes.

Assim, por exemplo, estamos predispostos a temer leões, a não gostar de incesto e a sermos altruístas. Dito de outra forma, ser a refeição de um animal, contribuir para a limitação do património genético ou não ajudar aqueles que nos são mais próximos, diminui a utilidade da busca dos nossos genes pela vida eterna.

Para Ruse e Wilson existe uma espécie de paradoxo nesta realidade: Para que o nosso “gene egoísta” possa chegar onde quer chegar deve residir dentro de um organismo que tenha desenvolvido disposições que o inclinam no sentido de fazer certas coisas e de não fazer outras – como por exemplo agir de forma altruísta ou resistir ao encanto de um safari – que à primeira vista não parecem ter nada de egoístas. Isto é, as nossas normas sociais derivam de um sentido partilhado de moralidade, que é ágil na sua habilidade de traçar um rumo entre os interesses comunitários e individuais, que todavia tem na sua raiz mecanismos puramente materiais e biológicos, ferozmente eficientes, e que são essencialmente “egoístas”.

Mas então porque é que parece, como argumenta C.S. Lewis, que de facto existe uma lei moral a que temos a obrigação de obedecer e que não foi por nós inventada? E uma vez que a ideia de uma lei moral implica a noção de um legislador, não devemos concluir que mesmo que a versão evolutiva nos conte a história biológica completa, há coisas que ficam por explicar?

Edward Wilson
Afinal de contas, mesmo que seja possível fazer um relato completo do cérebro humano do ponto de vista da evolução, porque é que devemos concluir que esse relato pode explicar tudo aquilo que o intelecto pensa que sabe e que não se pode reduzir meramente a matéria em movimento? Como por exemplo que isto não é um cérebro, ou que a beleza, os objectos abstractos e uma primeira causa para toda a existência são coisas que de facto existem?

Acreditamos verdadeiramente que ao explicar a torradeira também explicámos as torradas? (Claro que algumas pessoas, tais como Wilson e Ruse, negam a existência de coisas imateriais. Mas o que estou a tentar dizer é que não há nada na teoria evolutiva, per se, que sustente essa negação).

Para Ruse e Wilson existe uma resposta: “A moralidade, ou mais rigorosamente, a nossa crença na moralidade, é meramente uma adaptação criada para facilitar os nossos fins reprodutivos. Logo, a base da ética não assenta na vontade de Deus… Num sentido importante, a ética como nós a compreendemos é uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes para nos levar a colaborar. Não está enraizada em nada exterior a nós. A ética é produzida pela evolução, mas não justificada por ela, porque, tal como a adaga de Macbeth, serve um propósito importante sem todavia existir em substância”.

Logo, para Ruse e Wilson, a crença comum de que existe uma lei moral é o resultado de uma partida que nos é pregada pelos nossos genes, pois o acreditar na existência de uma lei moral, mesmo que ela não exista de facto, contribui da melhor forma para o sucesso reprodutivo da raça humana. 

Que conclusões devemos tirar de tudo isto? Em primeiro lugar devemos elogiar Ruse e Wilson pela simplicidade e limpeza do seu argumento, que não está desprovido de elegância. Se partirmos, como eles fazem, da crença de que o materialismo filosófico é a visão correcta da realidade, então a sua posição tem muita força.

Mas isso também se aplica a outros projectos filosóficos que dependem daquilo a que chamamos “uma grande ideia”. Marx consegue explicar tudo através do prisma da luta de classes. Para Heraclitus não existem substâncias estáveis e para Parmenides nada muda. Nos nossos dias, certos movimentos sociais classificam tudo o que se distancia da sua mundovisão como ódio. Mas em todos estes casos, aquela grande ideia que explica tanta coisa, fá-lo à custa da desvalorização de tudo o que mina a sua plausibilidade.

Michael Ruse
Qual o preço da teoria de Ruse e Wilson? Devo confessar que não sou capaz de o pagar, pois implica desistir de tudo aquilo em que acreditamos. Pense nisto: Se a crença na lei moral pode ser atribuída inteiramente a um truque genético, porque não aplicar a mesma análise a todas as outras crenças que existem na nossa mente? Afinal de contas, a mesma mente que crê na lei moral mantém crenças sobre arte, literatura, ciência, filosofia, matemática e a existência dos outros.

Talvez estas crenças também não digam respeito a nada que seja real. Se “a ética como nós a compreendemos é uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes para nos levar a colaborar”, então talvez a arte, a literatura, a ciência, a filosofia, a matemática e a existência de outras pessoas, como as entendemos, sejam ilusões impostas pelos nossos genes com o mesmo objectivo.

Só posso falar por mim, mas abandonar a crença de que existe uma verdadeira lei moral não compensa o custo de perder o juízo.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2016 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 14 October 2014

Nem os bispos se entendem!

Parece que está o caldo entornado no sínodo da família.

Depois do polémico “relatório intercalar” de ontem, hoje veio um bispo sul-africano à sala de imprensa da Santa Sé, dizer que a ideia transmitida pelo mesmo é falsa e não corresponde ao que se passou no sínodo, etc. etc. É ler para crer!

Já ontem na sua reportagem a Aura Miguel dizia que o relatório era tudo menos consensual, hoje confirmou-se.

Isto ainda vai dar muito que falar.

Já aqui falei do curso de gestão para agentes da Igreja, mas hoje temos uma notícia sobre o assunto. É uma iniciativa que faz muita falta!

Publiquei hoje mais duas transcrições sobre a questão dos homossexuais católicos. Temos um membro do apostolado Courage que vive em Londres e também a irmã Maria Vaz Pinto, que faz o acompanhamento espiritual de muitas pessoas que vivem nessa situação. Ambas as conversas são mais curtas que a de ontem, recomendo vivamente a leitura.

A pedido de um amigo divulgo ainda que “A edição de Outubro da revista Além Mar já saiu. O destaque vai para a família a propósito do Sínodo que se está a realizar este mês em Roma. O autor do trabalho é o teólogo português Juan Ambrósio, que vê este Sínodo como o início de uma longa reflexão sobre um tema tão relevante como é o da família.”

Thursday, 9 October 2014

Os "outros" homossexuais católicos e C.S. Lewis na Lapa

C.S. Lewis, na Lapa, às 17h30 de Sábado
No meu trabalho já entrevistei muitas pessoas, mas poucas me inspiraram tanto como o George e o Rimont, dois católicos que vivem a sua homossexualidade em fidelidade ao que a Igreja lhes pede, celibato e castidade. Estes são os “outros” homossexuais católicos, que não fazem protestos nem reivindicações e dos quais provavelmente nunca ouviu falar.*

Falei também com a Irmã Maria Vaz Pinto, que acompanha espiritualmente muitas pessoas homossexuais e que fala da sua experiência.


O debate sobre os católicos recasados e em uniões irregulares chegou finalmente ao sínodo. Foi uma discussão “franca e acalorada”, segundo a nossa repórter Aura Miguel.

Ontem falou o Patriarca D. Manuel Clemente, que explicou à Renascença, entre outras coisas, o termo “gradualidade” de que tanto se tem falado ultimamente.

Quando sabemos que alguém bate nos seus filhos ficamos revoltados, e bem. Mas porque é que não ficamos revoltados com os casos de homens que simplesmente abandonam os seus filhos, saindo de casa e mandando um cheque de vez em quando? Este é o teor do artigo desta semana do The Catholic Thing, que merece ser bem lido.

O artigo parte de uma reflexão de C.S. Lewis, um autor incontornável. Para quem tiver interesse em saber mais sobre ele, há uma oportunidade este sábado, na Igreja Baptista da Lapa. Será uma de várias conferências durante o dia e que incluem uma apresentação de um membro da Opus Dei. Sim, leram bem, um membro da Opus Dei vai falar a uma igreja Baptista. Confessem-se e despeçam-se dos vossos amigos, o fim pode bem estar próximo! 


*Numa conversa com um grande amigo, que trabalha estas questões no terreno, foi-me dito que a última frase deste parágrafo é agressiva. Relendo compreendo que ele tem toda a razão. Não foi minha intenção sê-lo e se há coisa que aprendi com a investigação que fiz sobre estes assuntos é a necessidade de enfrentar sempre esta problemática com uma atitude e disposição que revele a dimensão do amor de Deus por todos. O exemplo dos entrevistados e do apostolado da Courage é suficientemente forte para não ter de ser apresentado em oposição a ninguém.

Peço desculpa a quem possa ter-se sentido magoado com a frase. Não a apago por uma questão de honestidade, mas deixo esta nota visível para que fique claro o que se passou.

Wednesday, 8 October 2014

Estratégias do Abismo

Anthony Esolen
“No pensamento”, escreve o tio Escritorpe [Screwtape], personagem criado por C.S. Lewis em Vorazmente Teu, “as modas servem para distrair as atenções dos homens dos verdadeiros perigos”. É uma estratégia simples, mas eminentemente eficiente.

Dirigimos a revolta de cada geração contra os vícios que representam menor ameaça e fixamos a sua aprovação nas virtudes mais próximas do vício que estamos a tentar tornar endémico. O objectivo é pô-los a correr de um lado para o outro com extintores sempre que há uma inundação e todos a refugiarem-se do lado do barco que já está quase debaixo de água. Logo, promovemos a moda de se expor os perigos do Entusiasmo no preciso momento em que estão todos a ficar mundanos e mornos... Nas épocas cruéis pômo-los de guarda contra o Sentimentalismo, nas eras fúteis e preguiçosas, contra a Respeitabilidade e nos lascivos contra o Puritanismo.

Ao leitor ocorrerão vários exemplos actuais deste fenómeno. Precisamente quando o Islão procura expulsar todos os cristãos e judeus do Médio Oriente, e os jihadistas decapitam repórteres, fuzilam crianças e incendeiam aldeias inteiras cheias de mulheres e crianças, os habitantes do Ocidente sonâmbulo e indiferente à religião revoltam-se contra a islamofobia.

Numa altura em que é considerado crime de lesa-majestade sugerir que as mulheres possam ter quaisquer limitações, seja de corpo, espírito ou mente, e quando os homens de classe operária vêem os seus empregos a desaparecer ou os ordenados a descer, ficamos muito preocupados por saber se uma menina universitária de uma faculdade chique devia ter de pagar um punhado de dólares para financiar hormonas sintéticas, para poder continuar a levar uma vida dissoluta e despreocupada.

Recentemente uma estrela da equipa de futebol americano Minnesota Vikings foi acusado de ter batido no seu filho de quatro anos. Pegou num ramo e chicoteou-lhe as pernas, uma e outra vez. As fotografias são terríveis. Desde esse dia temos ouvido muitas discussões sobre o que a entidade empregadora devia fazer sobre o assunto e as mais severas condenações para o caso de não fazer nada.

Não faço questão nenhuma de defender jogadores de futebol americano chicoteadores. Mas parece-me um claro exemplo da estratégia do Escritorpe. Não me parece que a nossa seja uma época em que se exagera na disciplina das crianças. Tenho muito pouco de bom para dizer sobre a escola pública, mas é um facto que em muitas escolas simplesmente não se consegue educar ninguém, porque as salas de aula estão fora de controlo. O problema é particularmente grave em sítios onde as crianças crescem sem a figura paternal.

O perigo vem de duas direcções diferentes. Uma criança insolente e teimosa pode sempre ameaçar os seus pais com uma queixa falsa de abusos, o principal perigo vem de miúdas a quererem-se vingar de mães solteiras.

Entretanto, os rapazes crescem sem pais e nunca aprendem a controlar a sua agressividade. Ensombram a mãe, os professores, a enfermeira da escola e a directora. Não querem saber se essa atitude traz caos e confrontação. É o prato do dia.

Estamos a prejudicar muito as nossas crianças e muito pouco desse dano vem de um chicote. Regressemos à entidade patronal do jogador e aos jornalistas e adeptos que estão a exigir o seu despedimento. Não me pronunciu sobre o que deve ser o castigo. Só sublinho a total cegueira das pessoas que seguem esta moda moral.


As pernas do rapaz não sofreram danos permanentes. Mas, e se o jogador tivesse feito algo infinitamente mais danoso para o seu filho? E se ele tivesse dito à mulher: “Vou-te deixar por outra mulher” e simplesmente ter abandonado o rapaz, mandando-lhe um cheque de vez em quando por descarga de consciência?

Aí alguém pediria para ele ser despedido? Ninguém. Mas porque não? O abandono abre feridas que nunca saram, não são feridas na pele, mas no coração.

Não basta dizer que o divórcio é legal mas espancar uma criança não é. Ninguém nega que o jogador devia ser castigado segundo a lei. Mas os críticos pedem uma punição muito para além do que a lei impõe. Estão a pedir à Liga de Futebol Americano para se dissociar desta enormidade moral. É isso que me parece estranho.

Se o homem tivesse abandonado o seu filho, ninguém pestanejava. Seria interessante saber quantos dos seus críticos já conceberam filhos fora do casamento, quantos abandonaram, quantos corromperam, gabando-se das suas desventuras sexuais ou deixando pornografia ao seu alcance? Isto para não falar das crianças esquartejadas no útero. Esses chicotes não deixam sequer criança para cicatrizar.

Claro que não vamos ouvir qualquer comentador a pedir tolerância zero para o divórcio, ilegitimidade ou aborto. Esses pecados estão na moda. Também são omnipresentes.

As térmitas estão a transformas as vigas em pó, mas estás preocupado com uma racha no chão da cave. Tens os ossos corroídos por cancro, mas estás preocupado com a cintura. E depois de tapares a racha, perderes dois quilos e despedires o jogador, congratulas-te por seres tão responsável e dizes que está tudo bem.

Quem se ri é o Escritorpe.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira,1 de Outubro de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 2 July 2014

C.S. Lewis no dia de Sophia

No dia em que decorre a trasladação de Sophia de Mello Breyner para o Panteão Nacional, fazem-se as contas aos mortos em mais um atentado na Nigéria.

Ontem o Patriarca de Lisboa esteve no encontro de juristas católicos, onde pediu que se dêem “razões de esperança” aos portugueses.


Não percam o artigo desta semana do The Catholic Thing em português, no qual o Pe. Dwight Longenecker fala da possibilidade de salvação dos não-cristãos, com base nos escritos de C.S. Lewis. Vale a pena.

Tash e a Salvação dos Muçulmanos

Pe. Dwight Longenecker
No seguimento da visita do Papa Francisco ao Médio Oriente, o encontro de oração nos jardins do Vaticano e a renovação de combates entre fundamentalistas islâmicos no Iraque, que esperança podemos ter acerca da possível salvação de pessoas religiosas que prefeririam morrer mil vezes do que converter-se ao Cristianismo?

C.S. Lewis tinha o hábito de polvilhar as suas histórias infantis com teologia. Aquilo que ele pensa sobre a possível salvação de não-cristãos encontra-se na história final dos livros de Narnia. É evidente que os calormanos, o povo que invade Narnia, representam os muçulmanos. Os homens do sul têm nomes de estilo turco, usam cimitarras e recorrem ao engenho e ao subterfúgio para invadir. Embora traiçoeiros, usam uma linguagem muito formal, que faz lembrar a cultura islâmica, pelos salamaleques.

Em Narnia, um símio chamado Shift alia-se a Tisroc – o líder Calormano – e dá-se início à invasão de Narnia. Depois de cobrir o burro Puzzle com uma velha pele de leão, fazendo-o passar pelo grande Leão Aslan, Shift consegue conquistar o fascínio dos Narnianos e rapidamente começa a conspirar com os Calormanos para subjugar toda a Narnia.

A história leva uma volta com a chegada de Tash, o deus-demónio dos Calormanos. Uma criatura terrível com o corpo de homem com quatro braços e cabeça de falcão. O capitão calormano Rishda Tarkaan conjuga as duas divindades em “Tashlan”. No estábulo onde se encontrava o falso Aslan, Tash espera para devorar todos os que entrem.

Entre os Calormanos encontra-se um nobre chamado Emeth que aprendeu a amar e reverenciar Tash. Quando ouve dizer que Tashlan se encontra no estábulo, pede para entrar. Quando Rishda Tarkaan o procura impedir, Emeth responde: “Vós dissestes que Aslan e Tash são um só. Se isso é verdade, então é Tash que se encontra adiante. Como dizeis, então, que não devo ter nada a ver com ele? Morreria alegremente mil vezes pela oportunidade de poder ver a face de Tash uma única vez”.

Emeth desaparece para dentro do estábulo, e a história continua até que as crianças de Narnia perdem a derradeira batalha e são lançados também elas para o interior. O estábulo, porém, é “maior por dentro do que por fora” e transforma-se na passagem para a verdadeira Narnia, de onde testemunham a morte silenciosa da Narnia que conheciam até aí.

Viajando pela verdadeira Narnia encontram Emeth, que lhes fala do seu encontro com Aslan:

Veio ter comigo um grande Leão... então caí aos seu pés e pensei, “Certamente é chegada a hora da minha morte, pois o leão saberá que servi a Tash todos os dias da minha vida, e não a ele”... Mas o Glorioso baixou a sua cabeça dourada e tocou na minha testa com a sua língua, dizendo: “Sede bem-vindo filho”.

Respondi, “Mas Senhor, eu não sou vosso filho, mas sim um servo de Tash”. Mas ele replicou: “Filho, todos os serviços que prestaste a Tash eu contei como serviços prestados a mim... Nenhuma obra vil pode ser feita em meu nome e nenhuma que não seja vil pode ser prestada a ele”.


Emeth respondeu, “Porém, todos os meus dias eu procurei Tash”.

“Amado”, respondeu o Glorioso, “Se a vossa busca não fosse por mim, não teríeis procurado tão longamente e com tanta verdade, pois todos encontram aquilo que verdadeiramente procuram”.

Lewis teria certamente estendido a um muçulmano a mesma generosidade que revelou para com o nobre calormeno. Emeth procurou com todo o seu coração aquilo que era belo, bom e verdadeiro. Por isso, na história de Lewis, acabou por encontrar Aslan, a figura de Cristo. Pelo contrário, qualquer dos filhos de Aslan que vivesse na decepção, crueldade e no mal acabaria por ser devorado por Tash.

Esta é a nota que atravessa todo o pensamento de Lewis – uma misericórdia divina que é universal sem ser universalista. Para Lewis há um juízo e um juiz, mas o juiz é mais a alma individual do que o Todo-poderoso.

Em “O Grande Divórcio”, ele afirma claramente: “No final de contas há dois tipos de pessoa: os que dizem a Deus, ‘Seja feita a vossa vontade’ e aquelas a quem Deus acaba por dizer, ‘Seja feita a vossa vontade’. Todos os que estão no Inferno estão lá porque o escolheram. Sem essa escolha não poderia haver Inferno. Nenhuma alma que deseje a alegria de forma séria e constante a poderá perder. Quem procura, encontra. Àqueles que batem, abrir-se-á.”

Como é que este espírito generoso encaixa com as palavras exigentes de Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim”? A perspectiva de Lewis significa que Emeth chegou de facto ao Reino através de Aslan – pese embora pensasse que vinha através de Tash.

Toda a verdade, beleza  e bondade é uma verdade, beleza e bondade católica. É por isso que apoiamos e acolhemos tudo o que é bom, belo e verdadeiro não só noutras expressões de Cristianismo, mas também noutras religiões mundiais.

Por isso, o Catecismo da Igreja Católica diz: “A Igreja reconhece nas outras religiões a busca, ‘ainda nas sombras e sob imagens’, do Deus desconhecido mas próximo, pois é Ele quem a todos dá vida, respiração e todas as coisas e quer que todos os homens se salvem. Assim, a Igreja considera tudo quanto nas outras religiões pode encontrar-se de bom e verdadeiro, ‘como uma preparação evangélica e um dom d'Aquele que ilumina todo o homem, para que, finalmente, tenha a vida’. [843]

Emeth encontra em Aslan aquele que sempre procurou. Da mesma forma, podemos esperar que os muçulmanos que verdadeiramente procuram o belo, bom e verdadeiro possam um dia ver Cristo e saber que é ele o objecto de todas as suas buscas.

Entretanto, somos chamados a evangelizar incansavelmente para que aqueles que vivem nas sombras possam vir a conhecer a gloriosa luz de Cristo.


O livro mais recente do padre Dwight Longenecker é The Romance of Religion – Fighting for Goodness, Truth and BeautyVisitem o seu blogue, folheiem os seus livros e contactem-no em dwightlongenecker.com

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 29 de Junho de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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