Wednesday, 5 August 2015

Engravidar existe. Desengravidar não.

Vanessa Silva. Mãe aos 12 anos. Vida mudada.
O Papa recordou esta quarta-feira que os casais em uniões irregulares, como divorciados e recasados, não estão excomungados e que não interessa nada tratá-los como tal.

Amanhã é dia de oração pelos cristãos perseguidos. Faz um ano do êxodo dos cristãos que viviam em Mosul.

Na passada segunda-feira publiquei uma grande reportagem sobre a Vanessa, uma rapariga que engravidou aos 12 anos e teve a sua filha aos 13. Claro que ninguém deseja estas situações, mas este caso mostra como com o devido apoio e força de vontade, uma gravidez destas pode ser uma oportunidade para dar a volta à vida e sair por cima. Podem ler e ver o vídeo aqui.

Desde que mandei o último mail publiquei dois artigos do The Catholic Thing, ambos sobre o aborto.

Hoje Robert Royal aborda um dos assuntos do momento, os vídeos que tem sido publicados com revelações sobre a organização Planned Parenthood, que ao contrário do que o nome indica, não tem nada a ver com paternidade mas tem revelado muito jeito para planear como ganhar dinheiro com a venda de partes de bebés abortados. Tudo coisas animadoras, mas das quais não nos podemos desviar.

Já Hadley Arkes fala de uma oportunidade desperdiçada recentemente para obrigar o Supremo Tribunal a reconsiderar a sua decisão de 1973 que legalizou o aborto no país todo.

Como já perceberam o Actualidade Religiosa está já a funcionar em horário de Verão. É natural que não haja muitos mais posts até Setembro. Boas férias a todos!

Obcecado com os vídeos da Planned Parenthood

Os quatro vídeos clandestinos sobre a Planned Parenthood que foram divulgados até ao momento [agora cinco] chocaram toda a gente na América que ainda é capaz de se chocar. Os oito ou dez que ainda aí vêm poderão revelar horrores ainda maiores e é por isso que a StemExpress (uma empresa que utiliza os bebés desmembrados que compra à PP para fazer “pesquisa”) e a National Abortion Federation (que por alguma razão está preocupada com a revelação de imagens das suas reuniões) se apressaram a conseguir que uns juízes simpatizantes da Califórnia bloqueassem a libertação de mais vídeos.

A nossa classe política, tanto republicanos como democratas, está a fazer aquilo que faz melhor: nada. A Planned Parenthood contratou uma empresa de Relações Públicas que tem estado subtilmente a ameaçar grupos de media – que na maior parte não têm grande interesse em olhar de perto para a questão, nem mesmo para perceber para onde vai o dinheiro. Resumindo, a não ser que um grande número de pessoas como nós desperte e faça algo, mesmo este horror nacional poderá passar sem que mude grande coisa. Espero que pelo menos alguns governos estaduais comecem a fazer investigações. Rapidamente.

Mas para além da mera revolta e frustração, há uma parte da história da PP que me tem interessado. Sabemos que os políticos e a gerência da PP têm, por várias razões, feito pactos com o demónio. Mas o que me persegue é que os funcionários das clínicas – à primeira vista pessoas normais e não monstros imorais ou aparelhos partidários – que se têm tornado literalmente cegos ao que estão a fazer. Se o corpo deliberadamente esquartejado de um bebé, exposto debaixo do seu nariz, não os enche de terror, então o que é que lhes aconteceu? Como é que vasculham esses restos mortais para encontrar pulmões, corações, fígados, e não reagem às mãozinhas, pés e – sem dúvida – caras de bebés que lá se encontram?

Podemos simplesmente denunciar estes trabalhadores como seres frios e amorais, mas isso é não ver o problema real: Como é que pessoas que são em tudo como nós chegam a um ponto em que fazem coisas destas? Durante muito tempo os defensores do aborto afirmaram que os fetos ou “produtos de concepção” eram basicamente conjuntos de células que se eliminavam com a mesma facilidade com que se elimina uma verruga. Depois chegaram as ecografias (na verdade as ecografias já existiam quando o Supremo Tribunal nos deu Roe v. Wade em 1973, mas a verdadeira ciência nunca desempenhou um grande papel no debate sobre o aborto). Agora as ecografias são tão comuns que é preciso fazer um grande esforço para não compreender que aquilo que está dentro de um útero parece muito – porque é – um bebé. Não se arranja corações, pulmões, fígados – órgãos humanos – de um aglomerado de células.

Temos dificuldade em explicar isto, por isso procuramos comparações históricas como os guardas dos campos de concentração nazis e dos gulags soviéticos. Mas a América criou estes horrores e tornou-se apática a elas, tudo em tempo de paz, numa altura em que pensávamos que nos estávamos a tornar mais humanos, com melhores oportunidades para as mulheres, maiores liberdades debaixo de um regime nominalmente controlado por nós. Foram precisas alterações graduais ao nível do pensamento e da visão para nos conduzir a esta cegueira. Há grandes quantidades de americanos que aceitam hoje em dia – sem pensar duas vezes – a justiça e até mesmo a bondade do aborto, da mesma forma que em tempos absorviam, inconscientemente, a fé e a moral cristã.

Não é a primeira vez que uma geração inteira perde a razão. Mas agora a verdade é tão grotesca e tão palpável que pensamos nas declarações de Jefferson sobre a escravatura. “Tremo pelo meu país quando penso que Deus é justo e que a sua justiça não pode dormir para sempre”.

Not for sale
Tudo isto vem reforçar a ideia de que algo está a correr terrivelmente mal na América. Nos anos 70, que foi quando os “sixties” começaram verdadeiramente a causar estragos, atravessámos um período de caos, incompetência e torpeza moral semelhante. Durante uns anos a coisa serenou, mas agora voltou com mais força ainda. Os afro-americanos estão justamente furiosos com os maus tratos sofridos às mãos da polícia, mas essa é apenas parte de uma disfunção maior que já nos submergiu a todos. E parece que as soluções políticas à disposição apenas servirão para atenuar a queda.

Mas não podemos, NÃO PODEMOS, virar as costas. Fala-se muito, hoje em dia, da “Opção Beneditina”, uma retirada desta sociedade má de forma a preservar algumas virtudes e preparar o caminho para um futuro melhor. É verdade que precisamos de nos distanciar um pouco da sociedade para manter alguma sanidade. Mas se não fosse a constante pressão pública sobre grupos como o Planned Parenthood, as coisas ainda podiam piorar, muito rapidamente.

O Papa Francisco pediu-nos, e bem, para “fazer barulho”. Foi isso que as mulheres de Buenos Aires fizeram durante anos para protestar contra os “desaparecimentos” durante a “guerra suja” da Argentina. Temos – cada um de nós – que aumentar a parada, desafiar os amigos relutantes a prestar atenção, obrigar quem queira olhar para o lado a enfrentar a realidade. Não pode haver baldas. Uma sociedade que permite a existência – financiando com dinheiro público – de uma entidade como a Planned Parenthood, abriu as portas aos bárbaros. O nosso Presidente, que é adepto desta barbárie, pediu que Deus abençoe a Planned Parenthood.

Nisto eu não concordo com a posição do Papa. No início do seu pontificado afirmou que os pró-vidas não podem continuar a “insistir e obcecar-se” com estas questões. Confesso – e fá-lo-ei formalmente se necessário – que estou obcecado com estas recentes revelações, de uma forma como nunca estive com nada que tenha a ver com o aborto. As obsessões podem ser patológicas, mas uma pessoa que esteja obcecada com o tráfego de pessoas ou com a pobreza global, como o Papa e o Vaticano parecem estar, poderá estar apenas a responder proporcionalmente a um grande mal.

Os conquistadores espanhóis de Cortéz não eram propriamente cristãos exemplares, mas quando viram homens e mulheres sacrificados aos deuses Aztecas – com corações arrancados vivos e cadáveres lançados pelos degraus das pirâmides de Tenochtitlan (actual Cidade do México), os soldados não viraram costas, como se não tivesse nada a ver com eles. Era preciso pôr fim àquilo e por isso eles agiram, embora fossem apenas 500 numa cidade com perto de 300.000 pessoas.

“Insistir” que não sacrifiquemos os nossos filhos aos Baals e Molochs ou quaisquer outros deuses obscuros não é errado. É simplesmente aquilo que nós cristãos – e qualquer pessoa de boa vontade – devemos fazer.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 3 de Agosto de 2015)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 29 July 2015

Batimentos Cardíacos e a Imaginação Judicial

Hadley Arkes
Estava de viagem quando um amigo me ligou a dar a notícia. Um painel de juízes do 8º Circuito Federal tinha deliberado sobre um projecto de lei do Dakota do Norte que proibia os abortos depois de haver “batimentos cardíacos detectáveis” no nascituro. (Trata-se do caso MKB Management v. Stenehjam)

Esta era uma das iniciativas pró-vida mais promissoras dos últimos tempos. Uma sondagem mostrava que 62% da população acredita que o aborto não devia ser permitido depois de haver provas de batimentos cardíacos. O que a maioria das pessoas não sabe é que com a tecnologia moderna isso é possível tão cedo como as seis semanas e meia, ou sete ou oito. E já ouvi dizer que com ecografias vaginais o batimento cardíaco pode ser detectado tão cedo como cinco semanas depois da última menstruação, ou seja, 22 dias depois da concepção. Isto é, mais ou menos na altura em que a mulher descobre que está grávida.

Contudo, não é o batimento do coração que marca o início da vida humana, essa é apenas parte do desenvolvimento de uma vida que já existe, gerando e integrando o seu próprio crescimento. Em todo o caso, se o teste dos batimentos cardíacos servisse como nova fasquia para o limite ao aborto é escusado dizer que isso teria efeitos dramáticos sobre a sua prática nos Estados Unidos.

Os três juízes federais que lidaram com o caso tinham sido nomeados por George W. Bush e aproveitaram a ocasião para afirmar que “existem boas razões para que o Supremo Tribunal reavalie a sua jurisprudência”. Elencaram então uma longa lista dos efeitos negativos do aborto sobre as mulheres que se submetem à intervenção: A ligação ao cancro da mama, infecções crónicas da bexiga, cancro cervical, histerectomia precoce, já para não falar da incidência de depressões sérias em muitos casos.

Mas o meu amigo, ao transmitir-me a notícia, não entendeu bem a questão. Estes juízes, nomeados por Bush, que são claramente pró-vida, estavam a lançar um apelo sincero para a revisão da decisão do Supremo Tribunal que legalizou o aborto em todo o país, mas estavam a fazê-lo depois de explicar que a jurisprudência actual do Supremo os obrigava a anular a lei que proibia abortos depois de detectados batimentos cardíacos. Com essa decisão, infelizmente, estes homens de grande reputação revelaram os principais pontos de vazio moral daquilo que hoje em dia é conhecido como “jurisprudência conservadora”.

O obstáculo é a questão da “viabilidade”. O Supremo Tribunal decidiu que a viabilidade ocorre cerca das 24 semanas da gravidez. Porém, há pouco tempo esse prazo era de 28 semanas. Nesta sua decisão, os juízes conservadores tiveram a sagácia para perguntar: “Como é que se compreende que o mesmo feto seria merecedor de protecção estatal num ano, mas no ano seguinte não?”

O Supremo Tribunal, argumentam, “vinculou o interesse do Estado pelos nascituros ao desenvolvimento da obstetrícia e não ao desenvolvimento dos próprios nascituros”. Por outras palavras, a definição de Ser Humano do tribunal depende da ciência da evolução da construção de incubadoras.

Neste ponto vemos que os juízes tinham na mão um argumento fulcral, mas não souberam o que fazer com ele. Insistem que a actual regra do Supremo Tribunal deve ter precedência, mas claramente a regra das 24 semanas não deriva do texto da Constituição, nem deriva da lógica inerente ao “direito ao aborto”. E é evidente que não está apoiada nos manuais de embriologia. Por que razão, então, devem os juízes ceder perante esse prazo que não tem qualquer valor jurídico ou científico?

Na verdade, já que falamos de “viabilidade”, David Forte tem dito que a existência de batimentos cardíacos é um dos indicadores mais seguros de viabilidade. “Na ausência de um desenvolvimento externo inesperado, uma vez que um feto chegou às cinco ou seis semanas e o coração começa a funcionar, é quase certo que ele ou ela continuará a desenvolver-se até ao fim”.

Nas litigações sobre o Obamacare os juízes liberais estavam mais que dispostos a invocar os propósitos da lei, mesmo quando estes contrariavam o texto da mesma. Os juízes conservadores podiam, neste caso, ter invocado a regra da viabilidade mantendo a lei do Dakota do Norte como uma medida que merecia verdadeiramente obrigar o Supremo Tribunal a reconsiderar as provas e a lógica por detrás da sua posição sobre a mesma viabilidade.

Podiam até ter feito mais do que solicitar ao Supremo Tribunal que revisitasse a sua jurisprudência, podiam tê-lo obrigado. Certamente outro tribunal de recurso, noutro circuito, anularia uma lei comparável, criando uma divisão entre os circuitos que obrigaria o Supremo a pegar no assunto.

Cá para mim, estes juízes foram aprovados e nomeados com base na promessa de respeitar as decisões do Supremo Tribunal sobre o aborto e abjurando a tentação de se tornar – cruzes, credo! – activistas. Isto é, prometeram purgar-se da imaginação e da coragem moral que são revelados todos os dias pelos seus colegas liberais e abdicar da lógica e do raciocínio que praticam noutras áreas das suas vidas.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 28 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 24 July 2015

Processo arquivados e padres afastados

MP arquivou processo contra padre Abel Maia
Ontem, mais ou menos na mesma altura em que eu estava a enviar o mail diário, o ministério público mandou arquivar o processo de alegados abusos sexuais de menores envolvendo um padre da arquidiocese de Braga. Hoje a arquidiocese anunciou que o padre Abel Maia continuará afastado do trabalho pastoral, a seu pedido, até recuperar psicologicamente. A cronologia de casos de abusos envolvendo a Igreja já foi, por isso, actualizada.

Foi reaberta, em Santarém, uma Igreja fundada pelos templários.

Chamo ainda atenção para o livro “Museus da Igreja” que foi apresentado ontem.

Não deixem de ler os dois artigos do The Catholic Thing que publiquei nas últimas duas semanas e, caso ainda não o tenha feito, leia o anterior que teve muito mais sucesso do que eu esperaria: Namoro na era da Pílula.

E se ainda não leu, não deixe de dar uma vista de olhos no meu texto de opinião sobre a reacção da esquerda à aprovação de alterações à lei do aborto e de como isso revela que para os fiéis da revolução sexual esta é uma questão religiosa mais do que racional.

Thursday, 23 July 2015

A fúria dos fiéis da Igreja da Revolução Sexual

Foram ontem aprovadas alterações à lei do aborto. A maioria anunciou que ia rejeitar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos “Pelo Direito a Nascer”, mas fê-lo só depois de ter roubado as principais propostas da ILC. O resultado é que a ILC foi retirada e as propostas da maioria aprovadas.

Este debate – e aliás todo o processo – revelou muita coisa, mas uma das coisas que mais deu para perceber é que quando a esquerda fala do assunto não o faz com a paixão de quem defende uma causa política, fá-lo com o fanatismo de quem defende um dogma. A triste verdade é que a revolução sexual é hoje uma religião e o aborto é o seu sacramento.

Já foi há uma semana, mas ontem não falei no assunto. Há mais um caso suspeito de abusos de menores em Portugal, praticado por um membro do clero. O caso, de Coimbra, está a ser investigado pela PJ. Esta quinta-feira actualizei, devidamente, a cronologia de casos de abusos de menores envolvendo a Igreja.

Chamo ainda atenção para os últimos dois artigos do The Catholic Thing em português. Randall Smith explica o que é a fé – de forma muito simples e útil, e o padre Schall conclui, com base num livro sobre uma equipa olímpica de remo, que “a transcendência passa pelo lar”.

O aborto como sacramento de uma nova religião

Isabel Moreira
 Fundamentalista religiosa
Foram ontem aprovadas alterações à lei do aborto. Nomeadamente:

- As mulheres que pensam abortar são agora obrigadas a fazer consultas de aconselhamento durante o período de reflexão;
- Algumas mulheres, as que não seriam isentas de taxas moderadoras de qualquer maneira, terão de passar a pagá-las para abortar;
- Os objectores de consciência passam a poder fazer consultas de aconselhamento.

A pergunta do referendo de 2007 foi esta:

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Ou seja, não há aqui nada sobre as consultas de aconselhamento, nada sobre taxas moderadoras e nada sobre a exclusão de objectores de consciência de eventuais consultas de aconselhamento.

Contudo, ainda assim, a esquerda conseguiu vislumbrar na decisão de ontem uma “adulteração” do referendo. Segundo o expresso, as várias bancadas consideram que se trata de uma violação do “espírito” do referendo. São os tempos em que vivemos. Os fetos não têm direitos nem dignidade, mas os referendos têm espíritos (mas só alguns… o referendo de 1998 foi bastante menos espirituoso).

A questão dos objectores de consciência sempre me pareceu uma das maiores injustiças da actual lei (deixando de parte a óbvia injustiça que é o próprio aborto). Porque o que o Estado está a dizer quando exclui os objectores de consciência das consultas de aconselhamento é que as pessoas que acreditam que o aborto é um mal, e que por isso não o querem praticar, são de alguma forma incapazes de exercer outros aspectos da sua profissão e não conseguem sequer aconselhar mulheres em situações dramáticas sem tentar impor as suas crenças medievais.

O comunista António Filipe considera mesmo que a direita quer “transformar os objectores de consciência numa tropa de choque”. Mas se pensavam que o dramatismo se resumia ao menino do PCP que se veste à Bloco de Esquerda, enganam-se! Temos sempre a Isabel Moreira.

Não. Eu não vou fazer um post a destruir ou a criticar a Isabel Moreira. Isto porque embora eu possa discordar muito do aborto, sou um fervoroso defensor da liberdade religiosa e Isabel Moreira, nestes casos, está a agir claramente em defesa da sua fé.

Porque para quem ainda não percebeu, esta questão não é menos que uma questão religiosa. Toda a revolução sexual, que tanto mal tem feito às famílias, às crianças e às próprias mulheres que supostamente seriam as suas grandes beneficiárias, é hoje defendida com fervor religioso, contra todos os factos.

(Nesse sentido, permito-me regozijar no facto de que pelo menos a minha religião defende – e tem longa tradição de defender – que a fé não pode ser incompatível com a razão, coisa que aos fiéis da Igreja da Revolução Sexual não se aplica, mas crenças são crenças e temos de respeitar.)

E como qualquer religião que se preze, a Igreja da Revolução Sexual tem liturgias – ver aqui um exemplo recente e perturbador –, tem apologistas – ver Isabel Moreira –; tem doutrina (e por consequência considera hereges que não segue a ortodoxia) e tem sacramentos: o aborto*.

Só assim é que se explica a paixão com que pessoas como Isabel Moreira, mas não só, defendem algo que até recentemente os seus correligionários classificavam apenas como um “mal necessário”. Só assim se explica que, segundo a própria, a existência de consultas de aconselhamento, com o intuito de informar as mulheres daquilo que vão fazer e das consequências, é uma forma de “terrorismo psicológico sobre as mulheres” praticada por pessoas imbuídas de “maldade pura”.

Os fiéis desta igreja até reivindicam para os seus praticantes a isenção de impostos que tanto criticam nos outros credos. Mas porque razão as nossas irmãs têm de pagar taxas moderadoras quando são operadas a um tumor no útero, mas as nossas primas devem ser isentas quando optam por abortar?

Um dos problemas desta religião é que nem sequer é fiel à sua própria tradição. Hoje diz uma coisa, amanhã diz outra. Lembram-se quando nos pintavam a imagem da pobre mulher, forçada a abortar numa clínica de vão de escada, sozinha e sem apoio? Pois Helena Pinto critica precisamente que com as alterações à lei a mulher pode abortar, pode decidir, “mas não pode decidir sozinha”.

"Recebei Senhor este sacrifício das nossas mãos"
Eu lembro-me da campanha de 2007. Lembro-me que os adeptos do sim nos diziam que o aborto é uma coisa terrível, mas que pelo menos a mulher não deve ir presa e que o referendo era unicamente sobre isso: a descriminalização. Nem liberalização era! Apenas descriminalização.

Pois quem diria! É uma coisa tão terrível que os únicos que trabalham no terreno para ajudar as mulheres a não o praticar são “terroristas imbuídos de pura maldade” e os médicos que se recusam a desmembrar os nossos filhos, apenas porque a mãe, na sua sagrada autonomia o deseja (ou, o que é mais comum, porque os seus pais ou o seu parceiro a pressiona), são uma “tropa de choque”.

Sim, é verdade… A revolução sexual é uma religião, a nova religião oficial. E o facto de o PS deixar que Isabel Moreira seja a face visível da sua política neste campo diz tudo o que eu preciso de saber sobre esse partido, obrigado.

É que eu nunca gostei de partidos de inspiração religiosa.


*Caso seja um defensor do aborto e esteja irritado com o facto de eu o ter chamado um "sacramento" de uma nova religião, fique descansado que a equiparação não é original. Foi uma das vossas que o fez primeiro, eu limitei-me a roubar.

Filipe d'Avillez

Wednesday, 22 July 2015

Luz ao fundo do túnel para Asia Bibi

Já há luz ao fundo do túnel, mas
é preciso continuar a rezar por Asia Bibi
Depois de uma semana de férias estive os últimos dias a fazer horário nocturno e só hoje consegui voltar a este serviço. Mas trago logo uma boa notícia! A condenação à morte de Asia Bibi foi suspensa. Atenção que não foi anulada, mas sim suspensa. Finalmente há luz ao fundo do túnel.

O Papa Francisco recebeu ontem no Vaticano autarcas e governadores de várias cidades do mundo, pedindo que pressionem os seus países a fazer mais pela ecologia. Pode ser a última chance, disse Francisco.

A Sé de Lisboa vai ter obras para ser “espaço de memória viva” para a cidade.

Foram encontrados o que poderão ser os fragmentos mais antigos do Alcorão até à data. Uma descoberta muito interessante.

Desde a última vez que fiz este “apanhado” já foram publicados dois artigos do The Catholic Thing no blog, sempre às quartas-feiras. Na semana passada tivemos o belíssimo artigo de Randall Smith que explica, de forma muito simples, o que é a Fé e como afecta a nossa forma de ver o mundo. Hoje publicámos um artigo do padre jesuíta James V. Schall, que conclui que a transcendência “aprende-se” no lar, alertando nesse sentido para o perigo de se estarem a destruir os lares…

Atenção para quem vive em Setúbal ou arredores, ou quem estará de férias nessa zona na primeira semana de Agosto. O musical “Godspell” que fez sucesso em Lisboa há alguns meses vai ao palco naquela cidade de 5 a 7 de Agosto. É de aproveitar, até porque não penso que haja mais datas previstas.

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