Wednesday, 12 October 2016

Em Busca do Maravilhoso (e Porque isso Interessa)

Regis Martin
Há dias comecei uma aula com uma referência a algo escrito por Aldous Huxley há muitos anos. É uma observação que me parece tanto certeira como profética e que certamente valeria a pena transmitir aos quarenta e tal caloiros que se inscreveram em “Fundamentos do Catolicismo”, a cadeira que lecciono no primeiro semestre. Eis o que escreveu o autor de “Admirável Mundo Novo”, a famosa distopia do início dos anos 30:

“Outrora observava as estrelas com maravilha e deslumbramento. Agora, no crepúsculo da vida, olho para os céus da mesma forma como olho para o papel de parede desvanecido na sala de espera de uma estação ferroviária.”

Claro que nenhum dos meus alunos tinha ouvido falar de Huxley; nem tinham estado no interior de uma estação de comboios. Quanto a estrelas, imagino que tenham visto algumas, mas a experiência não os deve ter deslumbrado. Talvez se deva à poluição luminosa. Seja como for, aqui estava eu com menos de três minutos de palestra e já os tinha perdido.

O que é que se pode fazer para despertar nos jovens este sentido de maravilha e deslumbramento? Quando eu e a minha mulher vivíamos em Roma, depois de termos tido a nossa primeira filha, fui convidado para falar a um grupo de jovens que frequentavam um colégio interno de elite. Estávamos a falar sobre o casamento, e nenhuma palavra que eu disse causou a menor impressão.

Se não fosse a pequena Margaret, que estava a mamar silenciosamente ao fundo da sala, toda a experiência teria sido um desastre. Mas de repente ela começou a palrar insistentemente e chamou a atenção de toda a sala. Ficaram completamente hipnotizados.

Era como se um discurso maçador sobre a iniquidade da contracepção tivesse ganho vida com o surgimento desta prova inteiramente inesperada sobre as origens da vida. “Então o sexo afinal é sobre bebés? Cruzes! Porque é que eu não tinha ouvido falar disto antes? Agora percebo”.

Acabou por ser um desenrolar muito salutar. Nunca mais estas crianças imaginariam o nascimento de uma criança como sendo algo menos do que incrivelmente – aliás, milagrosamente – belo. Nem teriam grande facilidade em separar sexo de amor e – sim, isso mesmo – de vida. O nascimento de uma criança é mesmo, como escreveu o poeta americano Carl Sandburg, a opinião de Deus de que a vida devia continuar.

E não será esse o grande problema do mundo moderno? Simplesmente não aceitar a opinião de Deus sobre a vida? E por isso avança por aí fora, a esmagar tudo como um gigantesco rolo compressor. Ou, nas palavras daquela grande fraude Karl Marx, avaliando a modernidade, “tudo o que é sólido desvanece no ar”.

A vida moderna tem esse efeito sobre as pessoas, de esmagar o que apanha pela frente, reduzindo tudo a um estado de uniformidade saturante. Ou seja, uma igualdade perfeitamente previsível, como os Happy Meals que se compram no McDonalds. Que diferença faz se os compramos no Kansas, Califórnia ou Vermont? Saberá sempre ao mesmo.

O reducionismo está de tal forma instalado que hoje em dia não damos por muito espanto ou deslumbramento. Faz-me lembrar o meu velho amigo e mentor Fritz Wilhelmsen, que falava frequentemente daquilo a que chamava “a poesia do transcendente”, cujo desaparecimento do mundo moderno ele nunca deixou de lamentar, ao mesmo tempo que a mantinha brilhantemente viva para gerações inteiras de jovens que tiveram a sorte de frequentar as suas aulas na universidade de Dallas onde, por mais de 40 anos, sondou as profundezas do ser.

Porque é que existe algo em vez de nada? Esta é a questão mais escura da filosofia, segundo William James, e para nós, herdeiros da tradição metafísica do Cristianismo, a única resposta que finalmente nos satisfaz é Deus, cujo ser-amor transbordante não só dá existência ao mundo como o impede, a cada momento, de regressar de novo ao nada.

No seu “Comentário à Metafísica de Aristóteles” São Tomás de Aquino diz-nos que entre o poeta e filósofo existe um filamento de puro deslumbramento diante da realidade, diante daquilo que nos faz maravilhar e deleitar. A função do professor é mantê-lo vivo. Não o matem nem o negligenciem, porque quando se perder essa capacidade, quando o deslumbramento abandona a sala, o teatro acaba. Era esta capacidade de deleite que distinguia a mente medieval, enquanto que a moderna é caracterizada pela dúvida. E a consequência da dúvida, se for deixada à sua conta, é o desespero.  

Bem vistas as coisas o que torna o mundo misterioso não a sua forma nem o seu conteúdo, é o simples facto de ser. É esta visão que temos de recuperar para os nossos alunos. E para os seus pais também, já agora.


Regis Martin é professor de Teologia e membro docente da Veritas Center for Ethics in Public Life na Universidade Franciscana de Steubenville. É autor de meia dúzia de livros, incluindo mais recentemente “The Beggar’s Banquet”(Emmaus Road Publishing) e vive em Wintersville, Ohio, com a sua mulher e dez filhos.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 8 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 11 October 2016

"O Povo" é sereno, acredita na Ressurreição

O Verão parece finalmente ter chegado ao fim, mas os bispos portugueses não querem que se deixe arrefecer o tema dos incêndios florestais e por isso o assunto foi alvo de discussão esta terça-feira, em Fátima.

O Papa Francisco voltou a promover um jogo de futebol entre estrelas e ex-estrelas da modalidade. O jogo pela paz realiza-se amanhã e reúne jogadores como Maradona, Ronaldinho Gaúcho e Iker Casillas, para além de muitos outros.

Uma jovem yezidi que foi escravizada pelo Estado Islâmico foi ontem distinguida com o prémio Vaclav Havel.

Um aviso: Como muitos já saberão, vem a Portugal na próxima semana o cardeal Sarah, da Congregação para o Culto Divino. O cardeal vai proferir uma conferência sobre “A crise de Deus no Ocidente e a missão dos cristãos” na Universidade Católica na quarta-feira, dia 19 de Outubro, às 18h30 no auditório Cardeal Medeiros. A entrada é livre.


Termino com uma sentida homenagem. Pedro Aguiar Pinto foi um homem inspirador, que dedicou anos da sua vida a servir os outros através de instrumentos como o seu blog “O Povo” e uma mailing list do mesmo nome. Morreu durante uma peregrinação a Fátima. É uma boa imagem para a sua vida. Que Deus o guarde.

Monday, 10 October 2016

O rabino que conversou com Jesus e novos cardeais

Morreu este fim-de-semana o rabino que “conversou” com Jesus. Jacob Neusner era admirado por Bento XVI que o citou muito nos seus livros. Se não conhecem já a figura, não é tarde de mais…

Também este fim-de-semana o Papa nomeou 17 novos cardeais, incluindo algumas escolhas que só não são surpreendentes porque Francisco já nos habituou a estas coisas.

Sobre a eleição de António Guterres, aproveito para partilhar dois artigos que escrevi para a imprensa estrangeira. Uma maior, para a Religion News Service e outra mais breve para a revista britânica The Tablet.

As igrejas cristãs da Síria vão fazer chegar à ONU e à União Europeia testemunhos de crianças sobre a guerra que destrói lentamente o país. Sobre a guerra, nomeadamente sobre o que se passa em Alepo, partilho o meu artigo da semana passada, que dá algum contexto.

O Conselho das Conferências Episcopais da Europa tem um novo presidente. O padre Duarte da Cunha continua como secretário-geral, pelo menos até 2018.

Se tivesse vivido no Sul dos EUA no tempo da escravatura, teria sido anti-esclavagista? De certeza? Então não deixe de ler o artigo interessantíssimo de Anthony Esolen do The Catholic Thing, publicado a semana passada. 

Thursday, 6 October 2016

Guterres alegra pró-vidas, desporto e fé no Vaticano

Novo SG da ONU. A long, long time ago...
António Guterres vai ser o próximo secretário-geral da ONU. A nomeação do português, que é católico e pró-vida, já foi saudada por pelo menos um grupo de lobbying pelos valores da família na ONU e os bispos portugueses também elogiaram Guterres, nomeadamente o seu sentido de fé e de humanismo.

Está a decorrer no Vaticano um encontro dedicado ao tema da fé e do desporto. A esse propósito falámos com o autor de uma história da selecção de 66 e também com o nosso já conhecido IronPriest, o padre Ismael Teixeira, que em Agosto se tornou o primeiro a fazer um Ironman, uma das provas mais duras do desporto.

Já está a decorrer a peregrinação dos educadores de infância, que anunciámos aqui há alguns dias, saibam mais sobre o que move estes peregrinos, aqui.

O caso da paquistanesa condenada á morte por blasfémia, Asia Bibi, está a entrar numa fase decisiva. A questão vai ser debatida pelos deputados portugueses.

O Papa fez uma visita surpresa às vítimas do terramoto em Amatrice e ontem e hoje, menos surpreendentemente, encontrou-se com líderes anglicanos que estão em Roma para assinalar os 50 anos do encontro histórico entre o Arcebispo de Cantuária e o Papa Paulo VI.

Wednesday, 5 October 2016

Presunção, Água Benta e Sieg Heil

Anthony Esolen
O meu grande amigo Robert George gosta de perguntar aos seus alunos universitários quantos deles, caso tivessem vivido no Sul antes da Guerra Civil, ter-se-iam oposto à escravatura. Todos levantam a mão. “Deus os abençoe”, diz ele, e depois explica-lhes o que lhes teria custado essa oposição: serem ridicularizados pelos líderes políticos e intelectuais da sociedade; calúnia sobre os seus motivos; incompreensão – na melhor das hipóteses – por parte dos familiares; despedimento; solidão e escassa gratidão das pessoas que tencionavam ajudar.

Nem sequer é claro que teriam a capacidade de formar uma posição moral tão distante daquilo que muitos deles tinham dado por adquirido desde que nasceram. É quase como fazer uma cirurgia a nós próprios sem anestesia: arrancar da nossa carne um aspecto errante da nossa cultura, pelas raízes, com todos os ganchos e picos. E quem é que pegaria nesse bisturi por sua livre iniciativa? Para isso seria necessário abraçar uma autoridade superior e contrária ao que toda a gente sabe, o que toda a gente diz, toda a gente faz. E tal autoridade deveria fazer mais do que apenas recomendar, teria de comandar, mesmo perante o sofrimento, a dúvida e o fracasso.

Ai, as ilusões dos homens, convencidos da sua bondade! O que os outros seriam, ninguém sabe, mas se nós vivêssemos na Alemanha Nazi, seríamos todos Oskar Schindler ou Corrie ten Boom; jamais teríamos apanhado a doença nacionalista e socialista; teríamos visto para além das mentiras, mesmo quando apresentadas de forma inócua e moderada e politicamente razoável, como se encontrava nos melhores jornais – não os jornais nazis, não, mas os seguidistas, aqueles para os quais um homem decente podia escrever ao mesmo tempo que fazia compras na drogaria do judeu.

Também não teríamos dançado aos sons das balalaicas do Bolshoi. Teríamos visto aquelas igrejas todas confiscadas, transformadas em museus ou celeiros, ou demolidas, e não teríamos alinhado com doze anos de escolaridade a criticar a velha fé ou a congratular-nos por vivermos na terra mais progressista alguma vez vista pelo homem.

Teríamos feito aquilo que é ainda mais raro do que aceitar a crítica, teríamos rejeitado o elogio. Teríamos requisitado mapas da Sibéria da biblioteca local, regozijando nos nossos corações pelo facto de em breve irmos para lá desterrados na companhia dos verdadeiros patriotas; ansiando o gulag, o pão bolorento, a enxada para quebrar a lama congelada, as luvas sem dedos e um farrapo de papel todos os dias para limpar o traseiro.

Sim, era isso que faríamos, tudo com uma determinação nascida da nossa própria vontade, julgando-nos a nós próprios, comandando-nos a nós próprios, obedecendo a nós próprios.

Não nos é dado o direito de escolher o mal público das sociedades em que nascemos. Alguns de nós, se nos mantivermos fiéis a Cristo, seremos levados por esse mal a sofrer o martírio do sangue. Foi o que se passou com as freiras carmelitas de Paris, que subiram à guilhotina durante a grande regurgitação secular de loucura, crueldade, vanglória, blasfémia e luxúria.

A outros será pedido um sacrifício muito menos terrível. Qual é o mal público do nosso tempo? Qual a coisa que nos custaria mais, em termos de ridicularização pública e perseguição, a rejeitar, se agíssemos em conformidade?

Todos nós seríamos Oskar Schindler?
A resposta é fácil. A Revolução Sexual. Já ouço as objecções dos bem-pensantes: “Mas a Revolução Sexual não é nem de longe nem de perto tão má e errada como o nazismo. É absurdo equiparar uma ao outro”. Mas eu nunca disse que as duas coisas eram iguais.

Por acaso não é fácil defender que, tudo somado, o nazismo tenha sido responsável por menos sangue, ou por razões mais censuráveis, do que a Revolução Sexual tem sido. Mas darei de barato, para bem da discussão, que é pior trabalhar numa estação de comboio nazi do que ser recepcionista numa clínica de aborto.

Já os meus opositores devem também admitir que o risco de não colaborar com os nazis era muito maior do que não colaborar como regime abortista, por isso quem colabora com a Revolução Sexual não pode invocar compreensão nesse ponto.

Em todo o caso, a questão é que não somos chamados a opor-nos, de forma teórica e confortável, aos males que caracterizam a nossa sociedade, regozijando ao sol de uma rectidão que não nos custa nada. Somos chamados a sofrer em oposição aos males que caracterizam a nossa época, e não nos será sequer possível conceber tal possibilidade se não obedecermos a uma autoridade que transcende a humanidade.

Recentemente um padre católico de Providence, no Rhode Island, despediu o seu director musical porque este se tinha “casado” com outro homem, um facto que era bem conhecido pelos restantes fiéis. Se o padre não o tivesse despedido, posso-vos dizer o que todos os jovens adolescentes daquela comunidade teriam concluído: Que a Igreja não acredita verdadeiramente naquilo que ensina, que no que diz respeito à sexualidade cada um pode fazer como lhe apetecer, desde que não seja cruel, no sentido mais flagrante que ofende as sensibilidades das pessoas certas. Seria essa a armadilha no caminho daqueles rapazes.

Mas várias pessoas da congregação decidiram interromper a recitação do Credo na missa do domingo seguinte, cantando “Todos são bem-vindos”, sabendo que por tal acto seriam louvados pelas pessoas que realmente lhes interessam, nomeadamente os jornalistas das estações de televisão locais e dos jornais, bem como pelos líderes de opinião das sociedades mais “progressistas” e “inclusivas”.

Deixam-se levar pela corrente. Escolham o seu próprio juízo – o juízo que resultou de anos de escolaridade imbecil, entretenimento de massas, comunicação social e conversas amenas uns com os outros na segurança do conforto material – contra o juízo da Igreja e das palavras expressas da Escritura. Retalham a escritura para condizer com as suas opiniões em matéria de sexualidade.

É daí, e não da Igreja, que virá a sua vitória e a sua salvação: Sieg, Heil!


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. 

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 4 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 30 September 2016

Ossétia, Abkhazia e Karabakh

Nem todos estão abertos á mensagem do Papa
O Papa Francisco chegou esta sexta-feira à Geórgia para a sua segunda visita ao Cáucaso no espaço de poucos meses. À chegada encontrou-se com o Presidente e deixou algumas indirectas à Rússia, por causa da Ossétia do Sul e da Abkhazia.

Depois, Francisco encontrou-se com o Patriarca Illia II, a quem fez um discurso muito emotivo e simpático, sublinhando como o amor pode ser o caminho para superar as divisões. O Patriarca encontra-se muito frágil e faz lembrar João Paulo II no final do pontificado…

A visita continua amanhã e no domingo Francisco visita o Azerbaijão. Um dos temas que será abordado sem dúvida no Azerbaijão é do conflito em Nagorno Karabakh. Agora lembram-se de eu ter dito que estive de viagem em Setembro? Foi precisamente para ir a Karabakh, o território em disputa. Aqui podem ver o resultado da viagem e aprenderem sobre as origens do conflito e oque move as partes.

Aproveitei também para entrevistar o especialista Felipe Pathé Duarte sobre a importância geoestratégica e política de Karabakh para o mundo.

Thursday, 29 September 2016

Papa em Fátima e Fátima em São Paulo

O Papa deu mais uma indicação de que vem a Fátima em Maio, mas apenas a Fátima. Foi em conversa com D. Nuno Brás, bispo auxiliar de Lisboa.

Francisco não se tem cansado de erguer a voz pela paz na Síria, agora sobretudo numa altura em que os confrontos assumem proporções terríveis em Alepo.

Está a decorrer em São Paulo, no Brasil, a Feira Internacional de Turismo. Fátima é um dos temas que está a ser abordado.

Os bispos lusófonos estão preocupados com a instabilidade social e política nos países de língua portuguesa.

Frequentemente fala-se das questões da Igreja e da contracepção como se Roma apenas se tivesse pronunciado sobre o assunto nos anos 60. Mas não. Neste artigo do The Catholic Thing, Randall Smith explica que a posição da Igreja radica no início do Cristianismo, quando um dos métodos contraceptivos usados era ainda pó de bosta de crocodilo.

Termino com mais um desafio. Vai decorrer em Outubro, nos dias 14-16, um retiro vocacionado para casais que sofrem de infertilidade ou que passaram pelo drama de um aborto espontâneo. Todas as informações estão na imagem.

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