Wednesday, 10 December 2014

E você, já combateu a escravatura hoje?

A escravatura assume muitas formas...
O Papa divulgou hoje a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, que se assinala a 1 de Janeiro. O que é que cada um de nós tem feito para combater a escravatura e exploração humana? O Papa quer saber, e olhem que um sorriso pode bastar.

O Vaticano também divulgou o documento que servirá de base para os trabalhos do sínodo da família, em 2015. Hoje, na audiência geral, falou abertamente sobre o que se passou no de Outubro passado, dizendo que a natureza do casamento nunca foi posta em causa.

A Conferência Episcopal mostrou-se ontem solidária com o Bispo do Porto, acerca do caso da paróquia de Canelas.

Há duas entrevistas que já foram publicadas a semana passada e que não deve perder. Uma é com o Chef Kiko Martins, que fala da importância da fé na sua vida; a outra é com a Irmã Ângela Coelho, postuladora da causa de canonização dos pastorinhos, que fala do seu percurso.

Promessas

James V. Schall S.J.
Nos salmos lê-se: “Sustenta-me, Senhor, segundo a tua promessa…” É preciso uma certa lata para pedir a Deus que cumpra com as suas promessas, quanto mais reconhecer que Ele as fez.

Muita da nossa felicidade e infelicidade deriva da manutenção ou quebra de promessas. Um juramento é uma declaração de que vamos cumprir uma promessa. Um voto é uma promessa solene, normalmente feita a Deus, que tem por objectivo enfatizar a seriedade da promessa e a intenção de a manter. Um contrato é um acordo de que algo será feito ou entregue de uma forma particular, num tempo específico. Há demasiadas vidas preenchidas com promessas quebradas, logo, os juramentos e os contratos costumam acarretar uma penalidade ou uma emenda para o caso de o acto prometido não ser cumprido. Os outros contam connosco e com o cumprimento das nossas promessas.

As promessas podem, ou não, envolver um factor-tempo. O casamento é, ou devia ser, “até que a morte nos separe”. Um contrato pode estipular que eu entregarei esta encomenda de carvão no dia 20 de Dezembro. As promessas permitem-nos configurar o futuro. Uma promessa identifica a forma como alguém agirá ou falará num futuro por definir. Permite-nos fazer as nossas próprias promessas, nas certezas das dos outros.

Mas há promessas que nunca deveríamos fazer, ou cumprir, caso tenham sido feitas. Penso em Herodes Antipas. Ele jurou que daria à sua filha até metade do seu reino. Mas em vez disso ela pediu a cabeça de João Baptista. O Rei, por ter feito tanto caso, teve de “cumprir” o seu juramento e promessa. Platão argumenta, numa famosa passagem da República, que os maiores crimes requerem mútuo acordo entre criminosos para serem levados a cabo. As promessas surgem da nossa compreensão e poder de vontade. Fazem parte do discurso de livre vontade e a sua relação com a razão.

Uma promessa é uma forma de organizar o futuro, como Hannah Arendt explicou. O passado aconteceu. Não o podemos mudar. Mentir sobre o passado é um mal que pode ser verificado à luz dos factos. Mas o futuro ainda não aconteceu. Podemos ser daqueles crentes que afirmam que confiamos de tal forma em Deus que não precisamos de “fazer” nada. Deixamos que tudo o que acontece seja “vontade de Deus”. Desculpamo-nos dizendo que seguimos a “vontade de Deus”, para onde quer que ela nos leve. Mas esta tese passa ao lado de tudo o que significa ser humano: a capacidade de agir e tomar responsabilidade pelas nossas acções.

As regularidades da natureza, como o levantar e o pôr-do-sol, decorrem independentemente de nós. Podemos louvá-los mas não os podemos mudar. Esta necessidade é verdadeira no que diz respeito à nossa existência, tanto quanto nos diz respeito. Mas a nossa existência dependeu da promessa de outros, dos nossos pais, da sua promessa de criar aquilo que geraram. Mas outras coisas apenas existirão se as planearmos. Se bem que ter um plano, só por si, não chega. Devemos desejá-lo, tomar uma resolução e prometer torná-lo realidade.

No seu famoso ensaio, “Em Defesa de Votos Impulsivos”, Chesterton escreveu as seguintes linhas:

É verdadeiramente interessante ouvir os opositores ao casamento… Eles parecem imaginar que o ideal da constância (o cumprimento dos votos) é uma carga misteriosamente colocada sobre a humanidade pelo demónio em vez de ser, como é, uma carga imposta consistentemente por todos os amantes sobre si mesmos. Inventaram uma expressão, uma expressão que em duas palavras representa uma contradição total – “amor livre” – como se o amor alguma vez tivesse sido, ou alguma vez pudesse ser, livre. O compromisso faz parte da natureza do amor e a instituição do casamento simplesmente presta ao homem comum o elogio de confiar na sua palavra.

Nunca ninguém o disse melhor. Quem ama escolhe ser livre comprometendo-se com aquilo que ama de tal forma que cumprimos a nossa promessa àquele a quem amamos. As promessas e os votos quebrados não nos libertam, simplesmente nos mostram como optámos por não ser livres.

Na fórmula confessional prometemos firmemente expiar os nossos pecados. Sem esta promessa, as coisas não avançam, nem moralmente nem sacramentalmente. Se quebramos uma promessa (e quem nunca o fez?), não devemos usar isso como uma desculpa para quebrar todas as outras. Mas se dermos por nós sempre a quebrar promessas, das mais comuns às mais solenes, estamos próximos da condição de “amor livre” a que Chesterton se referiu, aquele amor que não nos compromete com nada para além de nós mesmos.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 3 December 2014

200 mil para os refugiados, centenas de milhões "encontrados" no Vaticano


A comissão que está a fazer a reforma das finanças do Vaticano já descobriu centenas de milhões de euros que não estavam declarados.

O Papa Francisco associou-se ontem ao dia contra a escravatura, à qual chamou um “delito aberrante” e um “flagelo atroz”.


Tem-se falado tanto do “acolhimento” nos últimos tempos. Para ajudar a perceber exactamente o que significa o termo, o padre Paul Scalia escreve um artigo elucidativo que é a escolha desta semana da edição portuguesa do The Catholic Thing.

O Acolhimento Evangélico

Pe. Paul Scalia
A noção de acolhimento tem estado muito nas notícias católicas nos últimos tempos. O relatório intercalar do sínodo extraordinário sobre a família colocou questões, por exemplo, sobre a capacidade da Igreja de acolher homossexuais. Pouco depois, o padre jesuíta Timothy Lannon, presidente da Creighton University, explicou a sua curiosa decisão de alargar benefícios a “esposos” de funcionários homossexuais com a ainda mais curiosa frase: “Perguntei-me, o que é que Jesus faria num caso destes? Só consigo imaginar Jesus a acolher toda a gente”.

Este Jesus Acolhedor é um bom trunfo. Não acolher, ou não parecer acolhedor, seria portanto equivalente a discordar de Jesus. Claro que o Jesus que “acolhia a todos” não é uma invenção do sacerdote. Pelo contrário, é profundamente real. Mais real do que muitos querem imaginar. Mas dar benefícios a quem adopta um estilo de vida pecaminoso ultrapassa os limites do significado cristão de acolhimento. E isto leva-nos a questionar o verdadeiro significado de acolhimento cristão.

Todos nos queremos sentir acolhidos. Podemo-nos recordar de momentos em que o sentimento de acolhimento foi palpável, e por isso encorajador. Com igual facilidade, podemos apontar momentos em que nos sentimos profundamente mal acolhidos, e por isso sozinhos. Um dos efeitos do pecado é a alienação e o isolamento. Por isso, falar de Nosso Senhor como aquele que acolhe é algo que ressoa em todos os corações que desejam a reconciliação e a cura.

E Ele é, verdadeiramente, acolhedor. As suas acções e a suas palavras ecoam com acolhimento. As multidões vão ter com Ele precisamente porque se sentem acolhidas – porque Ele lhes fala de perdão; Ele dá prioridade aos pobres e excluídos; toca nos intocáveis. Em casa de Simão, o fariseu, acolhe a mulher arrependida. Zanga-se com os discípulos que impedem as crianças de vir ter com Ele. Acolhe o clamor do cego Bartimeu, mesmo quando as multidões o tentam silenciar. E numa variação do mesmo tema, faz-se acolhido em casa de Zaqueu. Os seus críticos dirigem-lhe palavras que supostamente serão um insulto: “Este homem acolhe pecadores e come à mesa com eles”. (Lc 15,2)

A sua doutrina invoca esse mesmo acolhimento e inclusivismo. Entendemos a parábola do grão de mostarda como símbolo do acolhimento de todas as nações pela Igreja. Conta outra parábola de um Rei que, querendo encher a sua sala com convidados, ordena os servos: “Ide, pois, para as encruzilhadas, e convidai para a festa todos os que encontrardes”. É o que eles fazem, trazendo: “Todos os que encontraram, bons e maus”. (Mt. 22, 9-10). E talvez de forma mais significativa, na parábola que é vista como um resumo do Evangelho, o pai acolhe de novo em sua casa o filho pródigo.

Porém…

Jesus cura Bartimeu
Acholhimento Evangélico...
O seu acolhimento é curioso. Afinal de contas, as primeiras palavras do seu ministério são “Arrependei-vos”! e não “Bem-vindos”! Ele não acolhe aqueles que são falsos ou, mais directamente, aqueles que procuram justificar as suas próprias vidas, em vez de aderir à sua verdade. O seu acolhimento exige um mínimo de aceitação da sua verdade. Os Evangelhos narram várias vezes a sua frustração com as multidões. De vez em quando deixa mesmo escapar uma frase acusadora: “Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei com vocês e terei que suportar-vos?” (Lc 9,41) e “Esta geração é uma geração iníqua...” (Lc 11, 29)

E também não altera a sua doutrina para que as pessoas se sintam mais bem acolhidas. Quando a multidão fica ofendida com o seu ensinamento sobre a Eucaristia, é significativo que Ele os deixa partir. A belíssima parábola sobre a multidão chamada para a festa de casamento termina com a expulsão de um homem que entrou sem “veste nupcial” e a lição de Jesus: “Muitos são convidados, mas poucos os escolhidos” (Mt 22,14)

E são estas palavras que chegam ao cerne do que significa o acolhimento. Por mais que queiramos ser acolhidos e convidados, também sabemos que cada convite inclui uma expectativa e o entendimento de que não podemos fazer como nos apetecer quando entrarmos pela porta. “Muitos são convidados, mas poucos os escolhidos”, porque nem todos moldam as suas vidas às exigências do convite.

Este acolhimento evangélico deve parecer muito estranho para o mundo. É um acolhimento... do arrependimento. Um convite... à mudança de coração. Ele acolhe todos os que se arrependem, que tiram proveito do seu perdão e da sua cura – todos os que, reconhecendo o seu pecado e a sua ignorância, abraçam a sua graça e verdade. É, na verdade, o acolhimento mais importante para uma humanidade pecadora: um acolhimento no seu Sagrado Coração... Isto, claro, se reconhecermos que precisamos dele.

Como o Senhor, assim a sua Igreja. Para a Igreja ser autêntica deve proclamar o convite de Jesus de forma universal e acolher todos os que desejam a graça da conversão. Mas não pode esvaziar esse acolhimento do seu significado, nem sendo demasiado severa, nem demasiado permissiva. Se os meios da graça não fossem postos à disposição de todos os que procuram Cristo, então não seria acolhimento nenhum. Mas ao mesmo tempo seria uma mentira, e por isso falta de caridade, não dar a conhecer as exigências desse acolhimento evangélico.

Defraudar tanto o convite como as exigências é não saber imitar o Bom Pastor.


O Pe. Paul Scalia (filho do juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 2 de Dezembro de 2014 em The Catholic Thing)

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Monday, 1 December 2014

Estrasburgo e Turquia - Best of

Estou de volta, depois de ter estado a acompanhar a viagem do Papa Francisco a Estrasburgo.

Entretanto Francisco foi para a Turquia (sem mim) e estive no fim-de-semana a cobrir essa viagem histórica, pelo que tenho muito para partilhar. Serei por isso sucinto.

De Estrasburgo, chamo atenção para o artigo de opinião que escrevi sobre os apelos do Papa à Europa. A partir daí podem seguir as ligações para ler outras peças, se assim entenderem.

Da Turquia há muita coisa. O Papa discursou na presença do presidente e do responsável pelos assuntos religiosos na Sexta-feira. Mas o principal esteve reservado para Sábado e domingo, nos encontros com o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla.


Para melhor compreender a importância desta visita importa saber o que é que separa católicos e ortodoxos, e como esta viagem ajudou a construir pontes.

No regresso a Roma o Papa falou com os jornalistas e disse que era bom ouvir todos os líderes muçulmanos a criticar o Estado Islâmico.

Sobre a visita, leiam o artigo de opinião de Aura Miguel, muito esclarecedor.


Termino com a chamada de atenção para o artigo da semana passada do The Catholic Thing, onde Randall Smith explica porque é que uma visão secularista da realidade é sempre, necessariamente, limitada.

“Western silence on genocide against minorities in Iraq is shocking”

Sister Hanan Youssef
Full transcript of my interview with sister Hanan Youssef, of the Good Shepherd Sisters, who works with refugees in Lebanon. News item, in Portuguese, here.

Transcrição integral, no inglês original, da minha entrevista à irmã Hanan Youssef, das Irmãs do Bom Pastor, que trabalha com refugiados no Líbano. A reportagem pode ser lida aqui.


You work in Lebanon. Are you Lebanese?
Yes, I am Lebanese. I was born in the South of Lebanon, near the border with Israel, but I had to leave when I was 8 years old, I couldn't go back, because Israel occupied this area for many years. After the liberation it was taken by Hezbollah. I never saw it again.

Now I am in the Upper North of Beirut, in a Shia Muslim area, but we also have Christians, Sunnis, Iraqi refugees, Syrian refugees, a mixed population.

Are you Maronite?
Yes, I am Maronite, it is the biggest church in Lebanon. It is a Catholic Church. St. Maron, patron of this church, lived in the fourth century. We have always been Catholic. We have our own oriental liturgy, we have married priests, which shocks the Latin rite a little bit, but we are Catholic.

Your main work is with refugees. Are most from Iraq?
Yes.

The Good Shepherd sisters opened a centre for street children in 2005. In 2006, with the War against Israel, we took charge of a dispensary, a clinic, St. Anthony's clinic. And we welcomed 5000 Shia refugees from an area which Israel bombarded. After that they left and we started to welcome Iraqi refugees, from 2008 to now. All the Christian Chaldean refugees from Iraq came through our centre.

We took a decision as a congregation to be close to this population, because they were very disoriented and needed lots of help, a lot of listening. Their Arabic is a little bit difficult to understand by other NGO's, so they felt more comfortable to come to our centre and all of them, without exception, liked coming here and we took the decision to welcome them, to be beside them and that is why we continue to receive them until today, with the crisis in Mosul, caused by the jihadists, many Iraqis fled Iraq.

In the beginning we welcomed a lot of young couples with their children, they were leaving Iraq forever, but nowadays we are welcoming also elderly people.

Before travelling to Portugal I received a blind woman, in a wheelchair, who is 85 years old. She was forced to leave her home. She was disoriented, very sad, very depressed. I was really sad. I thought to myself, what if it were me, blind and 85 years old, forced to leave my house, my area and all my life behind me? I was really speechless before her.

It is an inhuman situation, This population is forced to leave everything and to flee.

This woman and these more recent refugees are the ones coming from Mossul and the Nineveh Plains... We had heard that many were taking refuge in Arbil, but there are also some travelling to Lebanon?
Yes. When they reach Arbil, if they have money to buy a plane ticket they choose to go to Lebanon and submit a request to UNHCR to get a Visa to go to the West. All of Iraqis dream of leaving Iraq forever. Young people, but now also the elderly, are forced to do it.

Before coming over I also received two young men who came to the dispensary and they were crying: “Sister, we don't need help, we need work”. I listened to them. They said: “Sister, our parents sold everything, jewellery, cars, everything to buy plane tickets for us. We are here now, but we need to bring our family with us. Please help us to find work, to be able to pay for the ticket for our parents.”

Christian refugees in Iraq, fleeing Islamic State
And they were crying. It is unusual to see oriental men crying. I was disoriented and speechless before them, there have been many cases like that.

What is happening in Iraq is genocide. I said that 10 years ago. We are facing a very big genocide in Iraq. It is empty… all the Christians are outside Iraq now. In 1996 there were one million, nowadays we talk about 150.000, it is really a big genocide in Iraq.

Of course there is also a terrible situation in Syria. Do you also have Syrian refugees?
Of course. Our centre receives refugees from Syria, Iraq, other minorities who don't have any place to go. We offer them three kinds of service: Primary healthcare, social help and psychological help.

We have 32 doctors, of all specialities, to help them, because in Lebanon healthcare is private and very expensive, the state is unable to offer the refugees help, because there are four million Lebanese and we received 2.5 million refugees, more than half of the population of Lebanon.

Lebanon has been at war for about 30 years. The entire infrastructure has been destroyed. We don't have enough schools for all the children, enough places in hospitals, enough potable water. It is a big, big challenge.

It is not a developed country, because of the war everything has been destroyed, and to receive so many refugees is a huge crisis. They become poorer and poorer, with no jobs, the Syrian refugees make the society very weak and vulnerable. They are a huge number and among these refugees many jihadists have entered.

The borders are open, with no control, which is why many Jihadists are now in Lebanon, causing trouble, fighting against the Lebanese army, to control a Sunni majority area, as you hear in the news, every day we have soldiers killed by jihadists, and many such things.

The Syrian refugees live in Lebanon with no job. They are killing, stealing, they are violent. They need a place to live but the state is unable to help them and the international community didn't help Lebanon as much as we need. That is why there is really a big, big crisis in Lebanon. That is why we, as the Good Shepherd Sisters, need to be helped. I thank Aid to the Church in Need (ACN), which has helped us to face this crisis.

We know that ACN is one source of help, where do you get the rest from?
We have a few others, rich benefactors in Lebanon, who can help a little bit. In terms of healthcare services, the UN gives us about 10% of the budget of the dispensary. The big NGO which helps is ACN, in social issues, basic needs, clothes, milk, diapers for babies, hygiene kits, the basic for these refugees.

It is possible that the crisis in Syria will spread to Lebanon. If this happens, there is Syria on one side, Israel, with a closed border on the other, and the sea. Where will all these refugees, plus the new ones, go? Is there anywhere left to go?
Nowhere.

If this happens it will be a big war in the Middle East. Until now Lebanon is still stable in the Middle East, because the army has taken control of the situation. I don't know if the army will be able much longer, because it is a week army after 30 years of war. But if the war in Syria spreads to Lebanon it will be the end of the Middle East and the end of the presence of the Christians in the Middle East. We hope that this will not happen. If it does, it will be very difficult.

Lebanon is the country in the Middle East with the highest proportion of Christians. Do most of the Christians in Lebanon feel a special solidarity with the Christians from Syria and Iraq, or do they see them as a problem that they want to solve?
No, we see them as our brothers and sisters.

Winter is making life even more grim for refugees
They are like us. When the Islamic State took over Qaraqosh and all the Christians from Qaraqosh fled, many coming to Lebanon, the solidarity was exemplary. All the churches in Lebanon appealed and all the Christians collected a lot of food, a lot of clothes, a lot of money to help these refugees. We are poor, but even the poorest family gives something to help. It was really an example of Christian solidarity.

No, we don't see them as a problem, we are present to help them and to help ourselves at the same time. We are all a minority, refugees in the Middle East with this big crisis with the Islamic State. We are afraid, in Lebanon as well. We are waiting and praying a lot. Before coming I was thinking about St. Paul: “For you Lord we are facing all persecutions and all kinds of troubles, but we hope in you because you love us”, and our only hope now is the strength which comes from God.

The Shiites have been defending the Christians in Syria. Does the future of the Christians rely on an alliance with the Shia, including of course Iran?
I don't think so. As Christians in Lebanon, in the Middle East, all our lives I, myself also, lived with Muslims, Sunni and Shia. The Jihadists are not Muslim, in my opinion, they use Islam to spread their ideology. But I don't think that the Christians should count on the Sunnis or the Shias. Citizenship is for all, Christians, Sunnis and Shias. We share this country and we need to be recognized as Sunnis, Shias and Christians. I don't think we should be part of any... we are open to cooperate and share this country with our neighbours. We are not party to any political issues. In my opinion we can't count on any party. We need to cooperate with all the Muslims.

Has the response from Europe been what you expected?
Really I am shocked by this silence. There is a big silence about this genocide in the Middle East against the minorities, not just Christians. It is a big shock for me that Europe is so silent, sometimes to save a dog we have demonstrations in the streets. But every day there are lives destroyed in the Middle East and nobody says anything. It is a big silence and we are shocked. Why this silence? As if Human Life is without value. We are shocked, yes, we need a lot of support from this population, we need them to be awake! Why this silence? I can't understand.

Why are we still sending arms to the Middle East? To the jihadists or to the other parties?

We need them to stop sending arms, to stop the arms trade and then many things would change in the Middle East.

Pope Francis will be speaking to the European Parliament next Tuesday. What would you like him to say about the Middle East?
He is saying many beautiful things. He is the only voice to speak of peace and stopping sending weapons to the Middle East. I would like him to say please give the Middle East Peace. Enough war, enough lives destroyed. Enough children in the street, enough children forced to fight. Enough selling women in the market. Enough! It is inhuman and we need to be more human. I hope that he will awaken the conscience of the European Union.

What has happened in the Middle East is really incredible. We sell women in the market like objects. It is inhuman! Stop, please stop.

There are many different Christian churches in Lebanon. Have they been able to speak in one voice?
I don't know if they cooperate. I think there is much solidarity amongst them to face the crisis. Because it is a very critical moment in our history as Christians in the Middle East, a very critical moment. We stay or not, it is a question of life, of presence in the Middle East, that is why I think all the churches are united to face this crisis. We need to be united and to be close to each other to face this crisis. It is our survival, our life on the line.

Christian refugees in Erbil, Iraqi Kurdistan
Are there members of your congregation in Syria?
Yes. We have two communities in Syria. One in Homs and one in Maaloula, and a third on the border, in the Bekaa valley. The sisters are very afraid for their lives.

They remained in Homs and Maaloula?
Yes. They chose to stay with the population. They risk their lives, but as all the Christians who also took the decision to stay, we need to stay among our people. We can't abandon them. It is not possible.

Many people wonder how they can help. Materially they can give money or goods to Aid to the Church in Need, or other NGO's. In terms of prayer, what would you ask of them? Is there a special saint in Lebanon they could pray to?

Yes. Our patron is Our Lady of Lebanon. Our Lady of Lebanon and Our Lady of Fatima, of course, are the same. We need prayer. Before money, before anything else, we need our brothers and sisters in the Western churches to think about us, in heart and prayer. If we feel that we are supported by our sister churches in the west we will be stronger. We have faith of course. We need prayer, we need presence and we need people to be aware of our persecution.

Wednesday, 26 November 2014

Os Limites da Era Secular


Randall Smith
O filósofo católico Rémi Brague, vencedor do prestigiado Prémio Ratzinger, esteve na minha universidade a semana passada. O francês é daqueles oradores que adora fazer comentários interessantes à margem do tema, uma característica que aprecio bastante. Num destes comentários mencionou que os “seculares” são aqueles cujas vidas se definem por um horizonte de 100 anos. “A palavra 'secular' não quer dizer mais que isso”, afirmou.

Nunca tinha pensado na palavra “secular” ou o seu antecessor saeculum desta forma, uma vez que a sua raiz cent- (de centum, que significa cem), não aparece. Por isso fui investigar.

Então descobri o seguinte. Na antiguidade romana um saeculum era considerado um tempo mais ou menos equivalente à vida de uma pessoa, ou os anos necessários para renovar completamente a população humana. De quanto tempo estamos a falar?

As opiniões divergem, mas durante a era de César Augusto os romanos estabeleceram que um saeculum eram 110 anos. As gerações seguintes ficaram-se por 100 certos e, em resultado disso, nas línguas românicas, as palavras derivadas de saeculum passaram a significar “um século”, como é o caso de siglo, em espanhol, secolo em italiano e siècle, em francês. Por isso o Prof. Brague tinha toda a razão quando dizia que a palavra “secular” tem a ver com “cem anos”, embora a relação seja mais clara em francês do que em inglês.

Consideremos então, a diferença entre uma visão “secular” do mundo, por oposição a uma visão ancorada na “eternidade” (in saecula saeculorum). Se vivesse na Europa de Leste em 1940, por exemplo, podia perfeitamente ouvir alguém dizer: “O Cristianismo está acabado: o comunismo é o futuro”. Ou então digamos que vivia na Roma de César Augusto, poderia perfeitamente ouvir dizer que “O futuro está com o Império Romano e não com um qualquer carpinteiro judeu crucificado”.

Sejamos justos, ambos os comentários fariam todo o sentido da perspectiva de uma pessoa a extrapolar com base na sua própria vida. Mas a extrapolação, como os cientistas bem sabem, pode ser uma coisa arriscada.

As pessoas tendem a dizer: “Não queres ficar do lado errado da história”. Ao que eu respondo: “Se tivesse vivido numa altura em que “ficar do lado errado da história significava recusar filiar-me no Partido Comunista na Polónia, então sim, eu preferia ficar do lado errado. E daqui a 200 anos quero que fique bem claro que eu escolhi um caminho diferente daquele que foi traçado pelas forças, supostamente irresistíveis, da 'história', que relativizaram ou suprimiram a dignidade humana em nome da marcha do 'progresso'”.

De uma perspectiva utilitarista dos próximos duzentos anos, compreende-se a afirmação: “Pensa nos bons resultados que podemos obter através da morte deste embrião.” Compreende-se como uma afirmação dessas possa ser tentadora no caso de nos dizerem que poderia conduzir a uma cura para o Alzheimers, por exemplo, ainda durante a nossa vida.

Mas, de uma perspectiva da eternidade, do ponto de vista de Deus, por assim dizer, uma vida inocente tem um valor infinito. Essa alma é eterna ao contrário de tudo aquilo que neste momento nos parece ser de valor – enriquecer, criar grandes negócios, fazer a próxima grande descoberta no ramo da ciência e tecnologia – estas coisas, como o Império Romano e como o grande movimento marxista, passarão com o tempo. 
 
Rémi Brague
Um dos benefícios de olhar para a história contemporânea de uma perspectiva da eternidade (ou, para sermos francos, de uma perspectiva histórica que ultrapasse as últimas centenas de anos) é o facto de se perceber mais claramente o quão efémera a história “secular” pode ser. “Também isto passará”. O Império Romano e os césares passaram. Os czares da Europa também. E a União Soviética. Alguns acreditam que, qualquer dia, o aborto, a eutanásia e a destruição de embriões para experiências em células estaminais, serão encaradas como hoje encaramos as leis de separação racial e a escravatura: aberrações trágicas da história.

E porém, embora a história possa de facto ser efémera, olhá-la do ponto de vista cristão fornece uma perspectiva da qual a podemos valorizar, mesmo com todas as suas limitações. Não vamos estabelecer o reino de Deus na terra, mas cada acto, cada escolha, tem uma importância infinita na eternidade.

As eras “seculares” tendem a dedicar-se a utopias que são inalcançáveis e que frequentemente dão aso a actos trágicos de desumanidade, animados pela esperança de realizar sonhos impossíveis. Quando estas esperanças se revelam ilusórias, o que sempre acontece, são substituídas por um sentido trágico de cinismo e niilismo. Se tudo o que procuramos alcançar vai desaparecer dentro de uma centena de anos, porquê o esforço?

O mundo moderno “secular” baloiça assim para a frente e para trás, de forma esquizofrénica, entre as esperanças ingénuas por projectos utópicos ilusórios e os medos niilisticos de que simplesmente não vale a pena viver. Para contrariar este “secularismo”, precisamos de uma narrativa que explique porque é que a vida humana, limitada como é, é boa – que viver vale a pena, mesmo que a vida seja limitada e terrivelmente imperfeita. Deus, ao enviar o seu filho unigénito, mostra-nos como o mundo é bom, como a vida é boa, mesmo no seu estado decaído.

O problema do “secularismo” não é o facto de ser demasiado “mundano”. O Cristianismo preocupa-se profundamente com o mundo: diz-nos que Deus sacrificou o seu único filho pelo mundo. O problema com o “secularismo” é que a sua visão do mundo é demasiado limitada, demasiado “bidimensional”. Num mundo bidimensional só conseguimos ver o que está à nossa frente e o que está atrás. Seria fácil concluir a partir desse ângulo que toda a página está recheada de rabiscos caóticos. É preciso subir um pouco para poder olhar de cima e ver que afinal se trata de um belíssimo desenho. Ou então é preciso ter fé no Artista.

Em Cristo o temporal e o eterno encontram-se e é nesse casamento que se encontra a salvação do mundo e a única verdadeira esperança da história.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 19 de Novembro 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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