Friday, 13 December 2013

"Igreja não pode separar a Caridade da Evangelização"

Transcrição integral da entrevista ao padre Abel Bandeira sobre os Direitos Humanos de uma perspectiva católica e missionária. A notícia está aqui.

Pode dar-nos uma ideia do seu percurso nos jesuítas? Por onde já andou e em que missões esteve?
Eu comecei como sacerdote a trabalhar no Monte da Caparica, num bairro de inserção social, depois também passei pelo ensino no Colégio São João de Brito, como professor de religião. Ultimamente tenho estado em Moçambique como pároco responsável pela paróquia de São João Baptista na arquidiocese da Beira. Este é o meu percurso durante  15 anos como sacerdote.

Tanto na Caparica como agora, na Beira, lida com pessoas em estado de pobreza…
Exactamente. No monte da Caparica, juntamente com outro jesuíta, vivemos numa casa de um bairro social. Estávamos com as pessoas que tinham sido inseridas quando vieram das antigas colónias, e outras famílias, estávamos num meio pobre. Agora aqui na paróquia de São João Baptista também é uma paróquia que apanha pessoas da periferia da cidade da Beira e tocamos a pobreza de uma forma muito directa.

As pessoas com quem trabalha gozam em pleno dos seus direitos humanos?
Sinceramente não. Aqui na paróquia praticamente todos os dias vêm pessoas pedir comida, outras que dormem ao relento e pedem dinheiro para voltar à sua terra natal, porque vieram para a Beira iludidos com pensamentos de que podiam arranjar trabalhar e acabam por ficar desalojados. Aqui na paróquia temos essa experiência de, por um lado, ajudar pessoas que precisam de comida e por outro ajudar pessoas a voltar para as suas terras para poderem voltar a ter uma ligação às suas raízes.

De que forma é que a igreja, no seu entender, ajuda a garantir os direitos humanos destas pessoas?
A Igreja, pela graça de Jesus, impele-nos à caridade. Somos convidados por Jesus a ajudar aquele que tem fome, que tem sede, daquele que precisa de roupa, do que está doente, do que está preso. O imperativo da caridade é urgente, está sempre a acontecer, temos de o actualizar permanentemente, e a Igreja só se realiza quando executa esse mandamento.

Graças a esse mandamento a Igreja está presente nos lugares mais pobres do mundo. Não é por acaso que encontramos a Igreja em bairros sociais, a fundar as escolas e hospitais em países pobres que precisam de educação e de melhoramentos de saúde. A Igreja no seu todo, e de modo especial nas periferias, marca presença para ser uma presença de Jesus Cristo através de cada um de nós que somos baptizados.

É possível separar a assistência humanitária da evangelização?
A Igreja não pode separar as duas coisas. Temos de ajudar as pessoas e também levar-lhes a Boa Nova. A Boa Nova leva-se através de obras, porque as obras falam mais alto que as palavras. A Igreja, por exemplo, acolhe refugiados de todo o mundo e muitos deles não são católicos, não são cristãos. Mas o exemplo de acolher o irmão que está numa situação de guerra e precisa de apoio. Por isso a Igreja anuncia o Evangelho com obras e também o deve fazer com palavras. Como dizia São Francisco, primeiro anunciem o Evangelho com obras e depois, se for preciso, com palavras.

Os jesuítas trabalham muito na área da educação. Até que ponto o direito à educação, que também é um direito humano, no meio dos outros direitos?
O direito à educação é uma base muito importante para o desenvolvimento da personalidade de qualquer pessoa humana. Se a pessoa tiver educação facilmente terá acesso a outros direitos, à dignidade pessoal, à defesa do bom nome, todos os direitos que estão consignados na carta dos direitos humanos. A educação é de facto uma arma muito poderosa, se conseguirmos através da educação incutir os valores do Evangelho, estamos a semear com muita força e estamos a preparar um futuro com mais êxito e sucesso.


O Papa tem também palavras muito duras nesta exortação em relação ao sistema económico internacional. Vivendo aí nas periferias, sente que essas críticas são justas? E acredita que há alternativas ao sistema actual?
O Papa tem falado concretamente do fetichismo do dinheiro. O dinheiro é uma coisa que enfeitiça as pessoas, as pessoas levantam-se da cama por dinheiro, perdem energias por dinheiro, separam-se dos irmãos do sangue. De certa maneira o Papa tem razão ao dizer que é preciso por o dinheiro ao serviço da pessoa humana e não o contrário. Não deixar que as bolsas sejam mais importantes que as pessoas que morrem todos os dias nas cidades das grandes metrópoles mundiais.

É possível uma alternativa económica, não podemos ser escravos desta conjuntura económica que é oferecida, nos grandes mercados, da banca internacional. É preciso uma alternativa que seja mais humana, mais solidária com os mais pobres, neste caso com os mais pobres do hemisfério sul.

Vivendo em África, como encara as queixas de alguns portugueses que dizem que as medidas estão a pôr em causa a dignidade dos portugueses e a empobrecer o país?
Eu tive o privilégio de passar aí 45 dias em Portugal e ver a diferença entre Moçambique e Portugal. Evidentemente as pessoas têm os seus direitos, têm direito a uma boa reforma, a cuidados de saúde, essas coisas são importantes. Mas para mim foi claro ver que Portugal tem muita coisa boa, por exemplo estradas sem buracos. Entrar numa auto-estrada e fazer 200 km, sem um buraco, é uma riqueza muito grande. Aqui em Moçambique é impossível pensar nisso. Outra coisa que se vê é que mesmo os hospitais portugueses estão muito bem apetrechados.

Como as pessoas vivem no seu ambiente e não têm a capacidade de comparar com outros ambientes é difícil relativizar. Quem chega de fora a Portugal vê que o país, apesar da forte crise que está a viver, de certa maneira está a fazer um caminho de purificação. Porque muitos portugueses criaram a ilusão de que poderiam ter um nível de vida mais elevado, mas essa ilusão desmoronou-se e agora é preciso enfrentar uma realidade, uma realidade que é dura, mas temos de lidar com o real porque o real é que nos cura. Não vamos viver na ilusão. Entre o real e a ilusão temos de viver com o real. Agora, acho que a Igreja portuguesa, nomeadamente a Conferência Episcopal, e os sacerdotes, vão chamando atenção para as situações de carência que existem em certas zonas do país, é preciso estar atento, a Igreja precisa de estar solidária, não deve deixar esses irmãos bater no fundo ou entrar em becos sem saída onde o desespero toma posse e deixa de haver esperança.

Thursday, 12 December 2013

Papa pede fraternidade, romenos... enfim...

Amigo dos intocáveis
inimigo dos Estado...
O Vaticano publicou esta quinta-feira a mensagem para o Dia Mundial da Paz. Nele o Papa fala muito das injustiças da guerra e também da economia e, numa passagem que considero crucial, diz que é na família, composta por uma mãe e um pai, que se aprende a fraternidade.

Estamos perto do Natal e é natural que comecemos a ouvir as tradicionais músicas natalícias. Esperemos, contudo, que não sejam como estas que foram transmitidas na televisão pública da Roménia…

Na Índia não é fácil ser arcebispo, mas é pior ainda ser um “intocável”. Então quando o Arcebispo sai em defesa do intocável, a situação torna-se explosiva.

Na Arábia Saudita a autoridade máxima do Islão condenou, recorrendo a termos muito fortes, os atentados suicidas.

Boas notícias para a diocese de Bragança que, três décadas depois, acabou de pagar a catedral.

Hoje publiquei no blogue duas interessantes transcrições de entrevistas feitas a propósito dos direitos humanos. Numa conversa interessantíssima, o cónego João Seabra explica o que é que os direitos humanos devem ao Cristianismo e noutra o activista Austin Ruse explica porque é que as Nações Unidas são, actualmente uma ameaça aos direitos humanos.

Não deixem ainda de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Robert Royal fala de alguns projectos de evangelização que estão a ter muito sucesso. E se gosta de ler estes artigos então poderá estar interessado em fazer um donativo para assegurar a manutenção do projecto. Noto que este link vai directamente para a página do TCT, a Actualidade Religiosa não recebe um tostão dos mesmos.

A raiz cristã dos Direitos Humanos

Transcrição integral da entrevista feita ao cónego João Seabra, sobre o conceito de Direitos Humanos e a sua relação histórica com a Igreja. A reportagem encontra-se aqui.

A relação entre a Igreja e a noção dos direitos humanos nem sempre foi linear, pode-nos falar um bocado dela?
A declaração Universal dos Direitos do Homem é de 1948, no rescaldo da Guerra e feita pela Assembleia Geral das Nações Unidas e convergem nela várias tradições de lidar com a posição da pessoa humana na sociedade.

A primeira, fundamental, é a anglo-saxónica, a “Bill of Rights” que vem da Magna Carta, e que é uma tradição concreta, de garantias, não uma tradução filosófica, do papel do homem na sociedade, mas uma tradição concreta de construção de garantias jurídicas que tutelem o espaço da autonomia da pessoa.

Converge com essa e coincide com ela a tradição francesa, que nasce da declaração dos direitos do homem e do cidadão da revolução francesa, de 1791, que é uma tradição de matiz ideológica, que concebe os direitos do homem não a partir da defesa de espaços concretos de liberdade das pessoas, mas através de uma concepção filosófica do homem como ser racional dependendo exclusivamente da sua razão e portanto uma concepção de liberdade do homem concebida como ausência completa de ligações à tradição e a qualquer poder superior, que confronta directamente a tradição católica.

Depois há ainda uma terceira, que é a tradição dos direitos sociais, não dos direitos de liberdade, mas dos direitos da igualdade, para usar os termos da revolução francesa. Essa tradição foi sobretudo representada pela União Soviética, o direito ao trabalho, à saúde, à habitação.

E ainda converge a tradição católica. A presença da influência católica na elaboração dos direitos do homem está estudada academicamente, que se traduz por uma introdução de uma defesa da família, da defesa dos direitos dos pais, da liberdade de religião, uma série de artigos da declaração, o famoso artigo 18, que entraram por influência católica.

De alguma maneira a declaração é um texto compósito, um texto onde estas diversas tradições se articulam num conjunto muito harmonioso e que fez doutrina e que hoje em dia na nossa ordem constitucional é normativo, porque a nossa constituição de 1976 tem uma amplíssima parte dedicada aos direitos fundamentais da pessoa humana e tem um artigo que diz que as disposições da constituição devem ser interpretadas nos termos da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Portanto em Portugal tem valor constitucional de interpretação dos direitos, liberdades e garantias garantidos pela própria constituição, portanto este documento é na sua origem um documento de equilíbrio de diversas tradições dos direitos do homem, onde há uma presença, logo desde 1948, da tradição católica.

E a Igreja Católica aceitou bem a declaração?
Na primeira década de vigência da constituição não há da parte da Igreja, e do Papa Pio XII, nenhum sinal de simpatia ou de acolhimento pela Declaração Universal, precisamente por causa dos elementos jacobinos da tradição francesa, que têm alguma presença no texto, ecos da versão mais concretamente anticatólica dos direitos fundamentais, sendo que a versão da revolução francesa tinha sido condenada várias vezes pela Igreja, pareciam aconselhar alguma prudência.

Mas logo no pontificado seguinte, o beato João XXIII, nas suas encíclicas Mater Magistra e na Pacem in Terris, faz um amplíssimo acolhimento à declaração universal, com um elenco de direitos e deveres, em versão católica. Quinze anos depois da declaração, podemos dizer que o acolhimento da Igreja foi amplo, largo e breve.

Seria possível chegar sequer à noção de direitos fundamentais do homem sem a tradição cristã?
É preciso dizer que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborados pela Assembleia Francesa de 1791 foi formada num estado de espírito anticatólico. Mas com tudo o que o racionalismo jacobino tem de anticatólico, antidogmático, anti-divindade, anti-espiritual, de afirmação a uma noção do homem como contraposto à divindade, com o que isso tem de directamente anti-religioso, essa concepção parte da concepção da pessoa humana, do indivíduo, que nasceu no interior da tradição cristã.

São Tomás escreveu que “A sorte da alma imortal de um único indivíduo vale mais que a sorte de todos os impérios”.

Esta ideia de que a pessoa, pelo seu valor eterno, único, exclusivo e perpétuo que tem para Deus, para o Criador e para o Redentor, vale mais que todos os impérios, é uma ideia tipicamente cristã, exclusivamente cristã, na história comparada das religiões, e na história das civilizações não surgiu em nenhum outro lado do mundo. Surgiu no ocidente cristão no século XIII cristão, no grande teólogo cristão como síntese da mensagem cristã, e está na origem da reflexão filosófica acerca do valor da pessoa que, em última análise, na sua versão ortodoxa deu a Doutrina Social da Igreja, e na sua versão do racionalismo iluminista deu a declaração jacobina de 1791.

Mas a matriz originária é a revelação feita pelo Filho de Deus feito homem do valor único, exclusivo e radicalmente irrepetível de cada Ser Humano.

Temos assistido a tentativas de acrescentar direitos como à “saúde reprodutiva”, direitos no âmbito dos homossexuais, por exemplo… falta algum direito à declaração?
Hoje há um movimento para a formulação de novos direitos que tem de ser estudado com cuidado, em primeiro lugar pelos juristas, depois pelos políticos e todas as outras pessoas.

A que é que chamamos novos direitos? Vemos a emergência, sob a pressão dos grandes movimentos sociais e culturais da segunda metade do século XX às quais a declaração em 1948 era completamente alheia. Falamos do movimento feminista, do problema da contracepção e controlo da natalidade, de todo o ambiente anti-natalista que se desenvolveu no mundo; falamos do movimento dos direitos homossexuais, uma série de realidades sociais novas que não existiam em 1948 e que se colocam diante da sociedade, reclamando direitos que muitas vezes são propostos como contrapostos aos antigos direitos liberdades e garantias.

Neste momento temos entre mãos o relatório Estrela [à data da entrevista ainda não tinha sido chumbada no Parlamento Europeu], que pretende impor os novos direitos contra os direitos clássicos dos pais educarem os filhos, os direitos de liberdade religiosa, de objecção de consciência, os grandes direitos reconhecidos como fundamentais pela Declaração Universal e que são o ponto de chegada de grandes lutas cívicas, grandes debates culturais, grandes mentes de tradição política e cultural, consagrados não só na declaração universal, mas também nos pactos fundamentais dos direitos do homem da Europa, na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, e nas constituições da maior parte dos países democráticos europeus.

Esses grandes direitos fundamentais, que são a tradição jurídica e política da Europa Ocidental, e constituem a ossatura da liberdade cívica dos nossos países, estão agora a ser postos em causa pela emergência de novos direitos que normalmente surgem por via da opinião pública, depois pela via mediática e depois por via jurisprudencial e que põem em causa de alguma maneira os direitos fundamentais tradicionais.

Eu penso que vem por aí um perigo para a democracia, perigo para os direitos fundamentais, porque os chamados novos direitos, que normalmente não têm a estrutura jurídica de direitos reais, são pretensões de parte, são reivindicações culturais, que se apresentam como manifestações de não-discriminação e que têm na origem uma grande confusão entre o direito de igualdade e de não-discriminação.

O conceito de igualdade é um conceito tradicional da linguagem dos direitos mas foi tendencialmente substituído pelo conceito de não-discriminação e esta é uma pretensão de tratar de maneira igual as coisas que são diferentes. Enquanto a igualdade é um valor que é tratar de maneira igual o que é igual e de maneira diferente o que é diferente, a não discriminação quer, pelo contrário, impor que todos sejam tratados igualmente, sejam iguais ou diferentes.

Em si, como valor, é uma coisa boa. Não discriminar é uma coisa justa, mas interpretada de forma ideológica e com uma ideologia combatente, está a transformar-se numa grande fonte de violação dos direitos fundamentais e de limitação dos direitos fundamentais.

Existem casos concretos em Portugal?
Evidentemente nos últimos anos surgiram sintomas muito preocupantes em Portugal e continua a haver muitas situações do género.

Em Espanha e França há grandes campanhas cívicas e eclesiais para combater essas situações. Entre nós não existe essa tradição. Não costumamos trazer à tona esses grandes casos, conformamo-nos, tentamo-nos adaptar, damos um jeitinho… Mas evidentemente que sim.

A proibição de rezar na escola pública, como aconteceu a um grupo de jovens que conhecia, que foram proibidos sob o pretexto absurdo de que não o podiam fazer porque a escola era pública; uma certa discriminação contra os profissionais de saúde que fazem objecção de consciência ao aborto, dentro do sistema de saúde. Eu não queria entrar agora em pequenas polémicas, porque uma vez que elas não estão levantadas por quem as deve levantar, não me compete a mim, mas há coisas absurdas.

É preciso um país de brandos costumes como o nosso, a proibição municipal de ter cruzes nos cemitérios, é uma coisa que brada aos céus. Em certos cemitérios, em Lisboa no cemitério de Carnide, no cemitério de Oeiras, as autoridades municipais, permitem-se igualizar as lápides. As lápides municipais podem ter uma cruz desenhada, mas uma pessoa não pode erguer uma cruz de pedra sob a campa dos seus maiores, porque a câmara não deixa. É uma coisa que só neste país de brandos costumes é possível.

Evidentemente se algum dia enterrar um dos meus num desses cemitérios porei uma cruz na campa e levarei a questão até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Mas é preciso um mau feitio como o meu para se dar ao trabalho, por isso as pessoas sujeitam-se e põem aquelas lápidezinhas municipais nas campas dos seus mortos, é uma coisa pasmosa como é que isso se permite.

Há quem diga que esta austeridade imposta pode chegar ao ponto de atentar contra os direitos humanos de alguns, nomeadamente dos pobres. Concorda?
Penso que essa é uma leitura passional emotiva e política que não tem nada de jurídico. Evidentemente que a política económica e fiscal tem obrigação de tentar ser justa, adequada, distributiva e retributiva quanto possível, mas também tem de ser realista. Não é contra os direitos do homem distribuir só o que há, porque distribuir só o que há é o que é imposto pela realidade das coisas.

Não pretendo fazer juízos sobre a política económica e financeira do Governo, não é a minha função, mas dizer que uma política económica como esta, imposta claramente pela realidade das coisas e pela actuação política de quem a condena é contra os direitos do homem parece-me uma maneira completamente ideológica de interpretar o que os direitos do homem querem dizer e não tem o menor fundamento jurídico.

Many of the things the UN does are a threat to human rights

Transcrição integral da entrevista a Austin Ruse, presidente da C-Fam, no inglês original. A notícia encontra-se aqui.

Full transcript of interview with C-Fam's Austin Ruse, in the original English. The news feature can be found here.

What exactly is C-FAM and what work do you do?
C-Fam is a non-governmental organization working almost exclusively at the United Nations. We were founded by the inspiration of John Paul II when he called regular people to go to the Cairo Conference in 1994. The C-Fam founders went to Cairo and then decided to open up a full-time office a few years later.

Our chief work is assisting UN diplomats in negotiating documents, making sure bad language does not get into them regarding life and family, and then telling the wider world what really goes on in the UN.

The Universal Declaration of Human Rights was a UN initiative. Do you believe it was a negative one?
I would say it was a good initiative. It was heavily influenced by Catholic thinking, it is a universal document that everyone can aspire to. So yes, I would say on balance that it was and remains a good document.

What is your opinion on the role of the UN at the moment, safeguard of human rights, or threat?
I would say that the UN is a net negative in the World today, and I think many of the things they are doing are a threat to genuine human rights. The reason I say that is because it seems to be a manufacturer of new human rights which really don’t exist. The right to homosexual marriage, for instance, the right to abortion. And as you push these new ideas of human rights which don’t exist, you undermine commonly held human rights that people agree to. Political self-determination, freedom of religion, so on and so forth. By advancing human rights that aren’t human rights, they hurt existing human rights. So the UN right now is a very serious problem.

Are there any others you’d like to point out, that people might not be so aware of?
A few years ago there was an effort by the French and German governments to write an international document allowing for cloning, for instance. This was a life issue which was actually defeated and the document issued actually calls for cloning to be banned around the world. But the main ones have to do with reproductive health and reproductive rights and this new phrase sexual orientation and gender identity, which includes a lot of different things, and not just homosexual marriage. So those are the two main ones, reproductive rights, which are used to promote abortion, and sexual orientation and gender identity, which is hotly debated nowadays.

Are the Muslim countries seen as allies in this regard?
Prior to the Cairo conference John Paul II made this call for people of faith to go to Cairo. At the same time he reached out to a number of governments. Largely catholic states, in addition to Muslim states, and he created an inter-governmental alliance which has tattered over the years but still remains, between these different faith groups.

What we have found is that on some issues the Muslims are very good allies. They are not exactly Catholic in their position on abortion, but they do find offence at the way these issues are advanced through international instruments. They believe it is inappropriate for the UN to advance these particular ideas.

So yes, we do work with Muslim states, it’s very effective. So effective that our opponents in the New York Times and the London Times call it the Unholy Alliance, between the Vatican and Muslim states. But it’s been very fruitful as a coalition and a learning experience for both us and the Muslims.

Does this work help Christians in Muslim countries? Or does it make it more difficult for you to put pressure on these countries regarding persecution of Christians?
Well the pro-life and pro-family groups in the UN tend to stay away from the religious freedom issue. Because it is very difficult to beat up on your allies one day and ask them for help the next.

Governmentally the Holy See can do that, and it does, and there are lots of organizations at the UN that push for the rights of Christians who are persecuted in Muslim States, so we tend to stay away from that.

However, we firmly believe that we do that sort of work by lovingly embracing these people on the life issues and showing them a good Christian face, of people who are willing to work with them, love them and become friends with them. We do give aid to our beleaguered brothers and sisters who are under attack by being good Christians to the Muslims we meet in New York.

When a Muslim diplomat shows up in New York for the first time he fully expects that he is going to meet nothing but pimps prostitutes and pornographers. Because that is one of the faces we show to the world. So when they meet Christians who pray, and pray for them, I think it changes their lives.

For those of us unfamiliar with the workings of the UN, how dangerous is it to get this language into a document which might not be binding?
There are documents, treaties and conventions, which are binding. The UN just issued a document in 2006 on persons with disabilities, and it was the first hard law treaty to include the phrase reproductive health. And the committee that oversees that treaty has already redefined reproductive health, in that treaty, to include abortion and has pressured governments to change their laws. When Spain, under Zapatero, changed the laws on abortion, in the law they cited that treaty as justification.

The non-binding documents have an effect as well, because when you put a phrase into a non-binding resolution 100 times, 1000 times, 10.000 times, it seems like reproductive health and reproductive rights are in these documents that many times, it contributes to the drumbeat that there is a new international norm. And the comments of these committees on reproductive health are used by governments. The CEDAW treaty on women’s rights doesn’t mention reproductive health, but the committee has read reproductive health and abortion into the document and governments have changed their laws based on those comments. So all of this contributes to what the left wants to see as a change in international norms, and therefore governments have an obligation to change their laws. So that’s why we do what we do, to counter those arguments, to explain why the arguments are false. A few years ago we issued the San José Articles, an expert document drawn up in San José, Costa Rica, which point by point knocks down the claims of the other side that there are international obligations on reproductive health and rights, and abortion. People can see that on SanJoseArticles.org and see the experts that signed the document.

Has Portugal been an ally or an adversary in these issues?
Portugal has always been silent. Which means that largely they are an adversary.

What happens at the UN is that the other side writes the document and we have to chip away at it. Those who remain silent are basically siding with the document. The only way to get bad language out of a document is for governments to speak up or to lend their voice to a coalition that is speaking up, and Portugal has always remained silent.

I don’t remember Portugal ever having spoken out at all, which means that they generally have been on the other side.

Desobediência civil em Kiev e Papa pessoa do ano

Surpresa das surpresas… o Papa Francisco é a “pessoa do ano” para a revista Time. É o terceiro Papa a conseguir esta distinção.

A Universidade Católica da Ucrânia apela à desobediência civil contra o Governo, invocando as cenas de violência que tiveram lugar ontem, em Kiev.

Ontem falei de dois artigos sobre os direitos humanos, depois de enviar o mail foi publicado um terceiro, onde Austin Ruse fala de como a ONU é hoje uma ameaça aos direitos humanos, e não um garante.

Vive na região de Bragança e não tem planos para o Natal? Pois bem, alegre-se… vai jantar com o bispo.


Wednesday, 11 December 2013

Nem Tudo Vai Mal

Qualquer autor que trabalhe na área católica, confronta-se, a dada altura, com a sabedoria de Coélet: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne” (Eclesiastes 12,12). Já no século III AC – muito antes da invenção da imprensa, dos livros baratos ou do Kindle – os mais sábios de entre os homens conseguiam perceber que às vezes corremos o risco de nos afogarmos nas nossas próprias palavras.

Então, como hoje, parece ainda que muitas dessas colecções de textos não passavam de palavras: textos cuja escrita não era muito urgente e cuja leitura, consequentemente, também não. As coisas verdadeiramente importantes encontram-se num pequeno número de locais, como a Bíblia e alguns clássicos.

Mesmo a escrita “séria” nem sempre é tão séria como pensa, sobretudo as lamentações sobre como os tempos vão mal e a insensatez de quem não o compreende. O padre John Neuhaus gostava de recordar que Adão bem podia ter dito a Eva, enquanto saíam do Paraíso: “Minha querida, estes são tempos de mudança”. Reparar na mudança é fácil, é mais difícil saber o que fazer com ela.

O nosso amigo Philip Lawler, um dos melhores jornalistas católicos ainda vivos e autor do livro “Faithful Departed: The Collapse of Boston’s Catholic Culture”, o melhor livro escrito sobre a crise dos abusos sexuais na Igreja (escrito ao abrigo dos trabalhos do Faith & Reason Institute), tem perfeita noção das tentações do comodismo e da melancolia que se abatem sobre os escritores. Precisamente como contraponto, juntou uma série de ensaios sobre as coisas que estão bem com a “Igreja: When Faith Goes Viral: 11 Success Stories on the New Evangelization from Alabama to Vladivostok” [Quando a Fé se Torna Viral: 11 Histórias de Sucesso da Nova Evangelização, do Alabama a Vladivostok].

Como se pode ler na Introdução :
O desafio para o Cristianismo não é desenvolver um grande esquema para guiar as acções de toda a gente, mas sim activar cada pequena rede, encorajando milhares de iniciativas individuais. Claro que algumas falharão. Outras darão apenas resultados modestos. Mas outros tornar-se-ão virais. Como não podemos adivinhar quais é que terão sucesso, a abordagem mais produtiva talvez seja de encorajar o maior número possível de projectos.

Isto parece perfeitamente em linha com a nova perspectiva do Papa Francisco e os grandes movimentos de renovação na história do Catolicismo – os Franciscanos, os Dominicanos, os Jesuítas – começaram da mesma forma. Lawler reconhece que nem todos os exemplos que escolheu terão o mesmo impacto com todos os leitores, mas é precisamente por isso que estes ensaios sobre grupos tão variados são tão importantes. Este não é um daqueles livros de que se vai esquecer, é um convite à acção.

Alguns dos capítulos falam de projectos que lhe poderão ser familiares, como o canal de televisão EWTN, por exemplo, a cadeia televisiva católica mais influente do mundo, que teve sucesso onde bispos, empresários e barões dos media se afundaram, inspirada por uma simples freira, nascida Rita Rizzo, sem qualquer experiência no mundo dos meios de comunicação electrónicos, para não falar no mundo arriscado de conteúdos televisivos.

John Burger dá-nos um olhar sobre FOCUS, o Fellowship of Catholic University Students, que teve um começo humilde, tornando-se uma formidável força de conhecimento verdadeiramente católico e – talvez mais importante – uma das poucas instituições que encoraja os estudantes a residir em campus universitários moralmente corruptos a viver vidas verdadeiramente católicas.



Na minha opinião, alguns dos capítulos mais interessantes lidam com movimentos de renovação fora dos EUA. Lawler escreve sobre a minúscula comunidade católica de Vladivostok, que tem atraído muita atenção na região não só entre o remanescente de católicos que sobreviveu clandestinamente à repressão soviética, mas também entre os muitos ortodoxos que teoricamente ainda são crentes mas que não sabem nada sobre a sua fé e não a praticam. Graças a dois padres missionários a Igreja da Santíssima Mãe de Deus foi restaurada e chegou um órgão doado do Minnesota, permitindo a criação de um ministério musical fantástico e concertos que atraem milhares de pessoas.

Outro caso em que a beleza serviu para galvanizar os bons e os verdadeiros, a paróquia de St. John Cantius, em Chicago, que esteve quase morta, é hoje um dos mais belos espaços de oração na América do Norte, com um grande número de paroquianos e missas frequentes na Forma Extraordinária do Rito Romano.

Na América Latina o Movimento de Vida Cristã criou um programa chamado Natal é Jesus. O seu âmbito é mais alargado do que possa parecer à primeira vista. Começou como uma tentativa de contrariar o consumismo e secularismo do Natal moderno, mesmo nas nações de língua espanhola e portuguesa, primeiro com uma lema negativo – Não existe Natal sem Jesus –, mas rapidamente percebeu-se que a verdadeira mensagem era positiva – e tinha um alcance muito maior que as centenas de milhares de famílias e crianças no Natal, primeiro no Perú e depois espalhando-se até países como o Ecuador, Brasil, Costa Rica e Nicarágua.

Como se pode ler noutros capítulos, há iniciativas parecidas em países do antigo bloco soviético onde, como nos explica Emily Stimpson, há 25 anos as pessoas eram impedidas de falar sobre a sua fé pelo Comunismo: “Hoje essa mensagem está a chegar dos media e da cultura em geral”.

Há situações ainda piores no mundo, claro, e há católicos que procuram dar-lhes resposta – frequentemente sob pena de perseguição sistemática ou até morte – no Quénia, na Índia e sob o jugo pesado do Islão. Os ensaios dedicados a estes irmãos e irmãs na fé são alguns dos mais tocantes de todos.

Não deixe de procurar este livro nas suas compras de Natal. Os seus capítulos inspiradores podem ajudá-lo, apesar de todas as tentações cínicas sobre o estado do nosso mundo pós-moderno, a saudar o nascimento do Salvador com maior alegria e, quem sabe, com maior esperança.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 9 de Dezembro de 2013)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 10 December 2013

Direitos humanos - aniversários, ameaças e vitórias

Pai dos direitos humanos?
Hoje é o aniversário da declaração Universal dos Direitos Humanos. A Renascença publicou dois trabalhos (um terceiro sairá em breve), sobre os direitos humanos por uma perspectiva católica.




Ainda no campo dos direitos humanos, o Papa chamou atenção para o “escândalo” da fome.


Sabia que o que os protestos na Ucrânia têm também contornos religiosos? Saiba mais aqui.

Por fim, mais dois textos de análise à exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”. O que diz o Papa sobre a Família, e o que diz sobre o Perdão.

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