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Wednesday, 22 June 2016

A União Europeia, Brexit e abanões

Uma das entidades burocráticas mais ineptas e secularmente militante do mundo – que também se esforça por espalhar os seus erros pelas nações – está a enfrentar um teste e, possivelmente, uma derrota esta semana. Na quinta-feira os eleitores do Reino Unido serão chamados a votar num referendo sobre o “Brexit”, ou a saída do Reino Unido da União Europeia. Se saírem, toda a UE poderá desmoronar.

Nos principais órgãos de comunicação vemos manchetes sobre como uma saída britânica enviará ondas de choque pela economia global, ou que equivale à insanidade económica. É como se agora fossemos todos puramente “homo economicus” ou que a vontade de abandonar a União Europeia fosse uma forma de histeria em massa.

A verdade é que a vontade de partir nada tem a ver com economia e muito com soberania nacional. Pode bem ser verdade que a economia britânica sofra depois da partida e que isso, por sua vez, tenha consequências globais. Mas as raízes da União Europeia são muito mais profundas do que a mera economia.

E católicas. Depois da Segunda Guerra Mundial, os líderes cristãos-democratas assumiram a responsabilidade de resolver um problema grande e outros mais pequenos. A revolta contra a União Europeia pode dever-se em parte à vontade de recuperar um pouco daquilo que entretanto se perdeu.

O problema grande era a tensão entre França e a Alemanha, que quase tinha destruído a Europa em duas guerras mundiais. Dois estadistas católicos de renome, Robert Schuman de França (declarado “servo de Deus” por Bento XVI e que pode estar a caminho dos altares) e Konrad Adenauer da Alemanha, encontraram-se em segredo na Suíça ao longo de vários anos, uma vez que ainda era publicamente impossível manter um diálogo com a Alemanha pós-nazi. Juntos ajudaram a criar as várias instituições internacionais, incluindo a NATO, que acabaram por levar à criação da União Europeia.

Mantinha-se uma questão ainda mais importante: Quais seriam as bases para esta nova Europa? A resposta – dada novamente por cristãos-democratas, entre os quais o grande tomista Jacques Maritain – era uma visão cristã da pessoa e das sociedades humanas. Os partidos democratas-cristãos na Alemanha e em Itália eram cruciais para impedir o avanço do comunismo na Europa ocidental.

Teóricos mais antigos como Chesterton e Belloc sonhavam com uma cristandade modernizada numa Europa reunificada. Esse ideal, como o próprio movimento democrático cristão, era realizável apenas em parte para os europeus, dado o pluralismo religioso, as diferenças políticas e a simples descrença no continente. O objectivo, contudo, nunca foi a criação de um novo Sacro-Império Romano, mas sim um continente que voltasse a dar corpo, de forma geral, aos valores cristãos.

E foi isso que começou por acontecer, até que as forças secularistas começaram a bloquear sequer as referências à herança cristã em documentos oficiais. A União Europeia como a conhecemos começou então, lentamente, a ganhar forma. Ao contrário dos fundadores dos EUA, os fundadores da UE não pensaram na estrutura continental. É comum hoje em dia ouvir queixas de “défice democrático” de uma burocracia distante, não responsabilizável, que opera sem respeito pela subsidiariedade e os interesses nacionais.

Até há pouco tempo, a intromissão burocrática era sentida em larga escala, mas mais como uma irritação diária do que um apelo à revolta. Certo dia perguntei a um deputado europeu qual era a natureza do seu trabalho e ele respondeu, não inteiramente como piada, que se certificava de que as cenouras da União Europeia eram do tamanho regular. (Também existiu o preservativo europeu, mas quanto menos falarmos disso, melhor).

Entre as várias histórias que surgem na antecâmara do Brexit – juntamente com murmurações na Hungria, Grécia e outras nações – a minha favorita é a decisão da União Europeia de que a Finlândia deve reintroduzir 9.500 lobos às suas florestas, presumo que por razões ecológicas. Os finlandeses reclamaram que não tinham sido tidos nem achados sobre o assunto, e que a directiva infringe outros regulamentos europeus sobre o direito dos povos nativos a gerir os seus territórios (na Finlândia criam renas e têm opiniões fortes sobre lobos).

Fora da Europa, a União Europeia, tal como as elites internacionais nas Nações Unidas e no Departamento de Estado dos EUA [Ministério dos Negócios Estrangeiros] (pelo menos quando um certo partido ocupa a Casa Branca), tem achado por bem impingir o aborto, controlo da população e “direitos” homossexuais a qualquer nação sobre a qual exerce influência. O Papa Francisco refere-se a isto, e bem, como “colonização ideológica”. Também podemos falar em suicídio demográfico. Todas as nações da Europa têm uma população em colapso.

Mas esta interferência burocrática poderia ter continuado indefinidamente, não fosse a actual crise dos refugiados. Tal como aconteceu na América, o grande número de refugiados potencialmente perigosos causou reacções variadas. Até a Áustria, ainda a ressentir-se do passado nazi, esteve muito próxima de eleger um Presidente de extrema-direita há pouco tempo. A Alemanha – que o ano passado admitiu um milhão de refugiados, três quartos dos quais jovens solteiros – está a tentar limitar o fluxo de refugiados. França, Bélgica e Escandinávia assistiram a ataques terroristas, bem como o Reino Unido.

Um grande contingente de britânicos parece ter dito finalmente que basta. A cenoura europeia é tolerável; mas o falhanço de lidar com a crise de refugidos não é. A situação é certamente complexa. Coloca uma obrigação cristã – o dever de ajudar quem precisa – contra outra: a obrigação de proteger os inocentes de potenciais ameaças.

Os líderes dos países têm ainda outra obrigação, como viremos a apreciar cada vez mais: a de não nos dar sermões paternalistas sobre abertura e multiculturalismo, quando sabemos que nenhuma cultura que pretende sobreviver pode ser infinitamente aberta e pluralista.

Tivemos, e talvez ainda tenhamos, uma oportunidade para fazer algo no Médio Oriente e no Norte de África para tornar menos urgentes as viagens perigosas para a Europa e outros locais. O nosso falhanço no Médio Oriente tornou-se tão evidente que mais de cinquenta funcionários do departamento de Estado acabam de enviar uma carta a Obama a pedir-lhe que bombardeie a Síria. Pare um momento e registe isso. Estamos a falar de funcionários do departamento de Estado, pessoas que encaram os seus trabalhos como consistindo na promoção de direitos homossexuais e o aborto, pedir desculpa pelos Estados Unidos e maçar os estrangeiros com discursos chatos.

Ninguém sabe ao certo o que acontecerá no referendo de quinta-feira – as sondagens mostram uma ligeira vantagem para o Brexit. Mas quer o Reino Unido opte por ficar ou partir, uma coisa é certa. Não é só aqui nos Estados Unidos que as coisas estão a levar com um forte abanão.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 20 de Junho de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 10 June 2015

Evangelização e Amizade

Pe. C. John McCloskey
É cada vez mais aparente para qualquer pessoa séria que aquilo que era conhecido como o Ocidente cristão está em colapso. Basta olhar para as taxas de fertilidade nos Estados Unidos e nos países europeus que em tempos foram solidamente católicos.

O vazio está a ser preenchido quase inevitavelmente por muçulmanos que têm filhos e, salvo uma viragem radical no sentido da fertilidade, estes conseguirão finalmente aquilo que não conseguiram em Malta, Lepanto ou às portas de Viena. E como agora sabemos, tendo em conta os recentes eventos na Irlanda sobre a redefinição do casamento, talvez só o regresso de São Patrício em pessoa possa salvar até a Irlanda de se tornar islâmica.

Não devemos esperar grande misericórdia dos muçulmanos, a julgar pela destruição do Cristianismo no Médio Oriente que estamos a testemunhar agora, com grande tristeza. Milhares dos nossos irmãos estão a ser forçados a abandonar as suas terras, ou martirizados pela sua fé cristã, praticamente sem qualquer ajuda daquilo que sobra do Ocidente cristão.

Resta a questão: O que é que se pode fazer? Duvido muito que o Papa Francisco esteja a pensar convocar uma cruzada, como fizeram vários dos seus antecessores quando terras e povos cristãos foram atacados pelos muçulmanos, mas pode ser que me surpreenda.

Mas não, se o que sobrar da Cristandade se erguer para salvar o Ocidente, será pela procriação, tendo filhos, muitos filhos, sem medo, e educando-os como membros firmes da Igreja fundada por Jesus Cristo, nosso Salvador.

E os cristãos devem estar prontos a dar o peito às balas. Uma forma de os homens o fazerem é simplesmente tendo muitos amigos com quem partilham a sua fé católica. Todos os anos um jornal de grande tiragem nos Estados Unidos publica um inquérito em que pergunta: “Quantos amigos tem?”. Tristemente, a resposta mais comum para os homens, ano após ano, é dois: a sua mulher e um amigo!

Só por si isto é muito triste, mas também revela uma falta de verdadeira masculinidade e, infelizmente, o impacto da nossa cultura protestante e individualista nos Estados Unidos (e mesmo essa está a desmoronar-se).

Dois dos meus autores favoritos, ambos alunos de Oxford, um protestante (C.S. Lewis) e outro católico (o beato John Henry Newman), escreveram eloquentemente sobre a importância, e até a necessidade, de ter bons amigos homens. Lewis afirmou: “A amizade é o melhor dos bens mundanos. Para mim é certamente a maior alegria da vida. Se tivesse de aconselhar um jovem sobre o lugar onde viver, penso que diria: ‘Sacrifica quase tudo para poderes viver perto dos teus amigos’”.

G. K. Chesterton e Hilaire Belloc.
Grandes amigos, grandes cristãos
Numa carta ele escreveu: “Haverá maior prazer no mundo que uma roda de amigos junto a uma boa lareira?”. No seu livro “Os Quatro Amores” ele dedica um excelente capítulo à amizade, onde se pode ler: “Para os antigos, a amizade parecia o mais feliz e mais inteiramente humano de todos os amores. A coroa da vida e a escola de virtude. Comparativamente, o mundo moderno ignora-a… Mas na amizade – esse mundo luminoso, tranquilo e racional das relações escolhidas livremente – podia-se escapar de tudo isso. Apenas este, de entre todos os amores, parecia elevar-nos ao nível dos deuses ou dos anjos”.

No mesmo capítulo, Lewis escreve: “A amizade tem origem na mera camaradagem, quando dois ou mais companheiros descobrem que têm em comum alguma ideia ou interesse ou até gosto que os outros não partilham e que, até esse momento, todos pensavam ser um tesouro (ou uma cruz), unicamente seu. A expressão típica que dá início a essas amizades seria algo como: ‘O quê? Tu também? Pensava que era o único’”.

O beato John Henry Newman diz na sua homilia sobre Amor por Parentes e Amigos: “O amor pelos nossos amigos privados é apenas um exercício preparatório para o amor por todos os homens. O amor pela Humanidade em geral não é igual ao amor dos nossos pais, embora seja paralelo; mas o amor pela humanidade em geral devia ser, principalmente, o mesmo que o amor pelos nossos amigos, mas dirigido a objectos diferentes. A grande dificuldade das nossas obrigações religiosas é a sua extensão. Isto assusta e confunde o homem – naturalmente mais aqueles que negligenciaram a religião durante algum tempo e sobre os quais estas obrigações se revelam de uma só assentada. Devemos começar a amar os nossos amigos próximos, depois gradualmente começar a alargar o círculo das nossas afeições até chegar a todos os cristãos e depois a todos os homens”.

Resumindo tudo o que foi dito até aqui, se o Cristianismo vai sobreviver, é necessário que os homens católicos sejam maridos de uma só mulher e queiram ter muitos filhos. Como escreveu aquele grande homem Hilaire Belloc: “Nada vale o esforço da vitória, se não o riso e o amor dos amigos”.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 7 de Junho de 2015 em The Catholic Thing)

O Pe. C. John McCloskey é historiador da Igreja e Investigador na Faith and Reason Institute em Washington D.C.

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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