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Wednesday, 7 January 2015

"Não gostam da liberdade? Emigrem!"

Um dos muitos cartoons de apoio ao Charlie Hebdo
Que dia! Um atentado terrorista fez pelo menos 12 mortos em França, há ainda quatro feridos graves, pelo que o número pode subir.

Um comando de três jihadistas atacou a redacção da revista satírica Charlie Hebdo, matando 10 funcionários e dois polícias. Os suspeitos já foram identificados e estão a ser procurados pela polícia.

As reacções não se fizeram esperar. Boas declarações do Sheikh David Munir, da Comunidade Islâmica de Lisboa e de representantes das comunidades muçulmanas em França. O Papa também emitiu um comunicado sobre o assunto. Entretanto, dezenas de milhares de pessoas manifestam-se em Paris em solidariedade para com as vítimas e contra o terrorismo.

Tudo isto no dia em que muitos dos cristãos de rito oriental celebram o Natal. A minha colega Cristina Nascimento foi a uma liturgia dos ucranianos greco-católicos, em Lisboa, e fez esta bela reportagem. Podem ver a fotogaleria também.

Há mais de um ano passei um dia em território dos Amish, nos EUA. Levou muito tempo, mas dessa visita nasceu esta reportagem que vos convido a ler e a ver, em vídeo, que me deu muito gosto fazer. Os amish são uma das comunidades mais peculiares e apaixonantes do espectro cristão.

As instituições católicas devem despedir funcionários que contrariam os ensinamentos da Igreja? Professoras que engravidam solteiras; funcionários que se assumem como homossexuais, etc? É uma coisa que tem acontecido nos EUA mas o debate aplica-se a qualquer país, incluindo Portugal. Randall Smith pede calma e cuidado com o discernimento destes casos.

Thursday, 30 May 2013

"Incondicional?", de Brian Zahnd: Meio livro bom…

Em 2006 estava sentado num hotel no Vietname quando vi, num canal de notícias internacional, a notícia da matança numa escola da comunidade Amish, nos Estados Unidos. Nessa mesma noite surgiram as primeiras notícias da reacção da comunidade, que tinha feito questão de ir ter com a família do assassino para lhes dizer que não guardavam ressentimentos e que perdoavam. O próprio assassino tinha-se suicidado.

A partir dessa altura fiquei fascinado pelo tema do perdão.  Esse fascínio resultou primeiro num texto e eventualmente numa tese de mestrado.

Foi por isso com o maior interesse que soube da publicação de “Incondicional” de Brian Zahnd, um pastor pentecostal americano, que foi publicado em Portugal pela Letras d’Ouro, que muito simpaticamente me ofereceu um exemplar.

Tendo feito a minha tese sobre este assunto conheço já os principais trabalhos que foram escritos nos últimos anos sobre o perdão. Zahnd fala de pelo menos três deles, incluindo um que foi escrito sobre o caso dos Amish, e sustenta grande parte da sua argumentação nessas obras. Para quem não os conhece isso é uma forma boa de apanhar uma síntese, mas para quem os conhece bem, e serão claramente uma minoria dos leitores portugueses, o autor traz pouca coisa de novo.

O principal propósito do livro, contudo, é conseguido nas primeiras 150 páginas, isto é, realçar que o perdão não é um acessório bonito e secundário do Cristianismo, mas sim um aspecto absolutamente central. O perdão é uma das grandes novidades que o Cristianismo introduz no mundo e ainda hoje é algo que o distingue das restantes religiões. Isto é frequentemente ignorado por quem fala de valores judaico-cristãos, como se fossem todos comuns.

Zahnd é convincente ao estabelecer que o perdão é central para o Cristianismo e que um Cristianismo sem perdão não o é verdadeiramente. Daí lança algumas das questões importantes, como por exemplo, até onde se deve ir? A dúvida é tão pertinente, que foi precisamente a pergunta que São Pedro fez a Jesus. Quantas vezes devemos perdoar? Jesus foi claro, 70 X 7, que é como quem diz, infinitamente. É nesta altura que me lembro da frase de um simpático mas simples padre que confrontado com a passagem do Evangelho em que Jesus diz que se deve oferecer a outra face, começou a homilia dizendo: “Nem tudo o que Nosso Senhor nos diz é para se levado a sério”.

Mas não, este assunto claramente é para se levar a sério. Tão a sério que as últimas palavras de Jesus na cruz são para enfatizar este ponto: “Perdoai-os porque não sabem o que fazem”.

Zahnd faz pontes interessantes e desconhecidas da maioria entre o perdão proposto por Jesus e o antigo testamento. Mas como é hábito neste género de temas o mais interessante são mesmo os casos pessoais apresentados, como o da holandesa Corrie Ten Boom, que perdeu a família toda no holocausto e foi torturada por guardas alemães, que depois da guerra andou pela sua Holanda natal e pela Alemanha a pregar o perdão, até ao dia em que foi confrontada, no final de uma palestra, pelo seu carrasco no campo de concentração, que lhe tinha vindo pedir perdão pessoalmente. A sua explicação de como ultrapassou a resistência interior para estender a mão àquele homem é uma das maiores lições sobre o Cristianismo que já li.

Zahnd apresente muitos outros exemplos, todos inspiradores, e usa-os para tentar explorar também a complexa relação entre o perdão e a justiça, concluindo, correctamente, que perdoar alguém náo equivale a livrar essa pessoa da justiça civil.

Amish, exemplos de perdão cristão
Infelizmente, contudo, Zahnd deixa alguns temas por explorar, ficando só pela rama. No caso dos Amish, que ele apresenta como o protótipo da prática do perdão cristão, baseia-se muito no livro “Amish Grace”, mas ignora totalmente os trechos desse livro que falam de como para alguns membros da comunidade, sobretudo vítimas de abusos sexuais, o facto de haver tantas expectativas sobre o perdão pode tornar-se um peso, causando traumas quando este não surge de forma espontânea. Nada disto invalida a importância e a pertinência do perdão, mas ajuda-nos a compreender que o tema nem sempre é simples.

Zahnd faz outra conclusão particularmente importante, que levanta dúvidas a muita gente. Perdão e reconciliação, são a mesma coisa? A resposta é não e a consequência dessa resposta é que é possível perdoar um infractor que não se arrependa, na medida em que é possível perdoar sem reconciliar, pois a reconciliação, essa sim, exige o arrependimento do infractor.

Temos então, até este momento, meio livro bom. O problema começa a partir daí, até ao fim da obra, com Zahnd a lançar-se no que parece ser uma interminável homilia, dirigida sobretudo a um público-alvo americano e evangélico com o qual poucos leitores portugueses se identificarão. O seu objectivo é convencer-nos que é preciso viver o Cristianismo de forma mais radical, algo que se pode aplicar tanto ao tema do perdão como a muitos outros, e de facto, pelo meio, o autor mete referências ao perdão quase que a martelo, como se lembrasse de vez em quando de que era esse o propósito do livro.

É pena, porque chega-se ao fim do livro a pensar que metade do tempo que despendemos a lê-lo foi um desperdício, o que era desnecessário, tendo em conta a riqueza do tema.

Se recomendo o livro? Recomendo sobretudo para quem quer uma introdução ao tema e para quem não tem facilidade em ler inglês e que por isso não se pode lançar a ler obras que são, para dizer a verdade, substancialmente melhores, mas estão por traduzir.


Filipe d'Avillez

Thursday, 16 February 2012

Santa Barba!

Matisyahu antes e depois

Em Dezembro foi com espanto que se soube que Matisyahu, o artista judeu ortodoxo de Reggae, tinha rapado a barba. Especulou-se sobre as implicações religiosas de tal acto, porque toda a gente sabe que um verdadeiro judeu ortodoxo pode sempre ser identificado pela sua barba.

Mas os judeus não estão sós neste fascínio por assuntos capilares. Várias são as religiões que regulam detalhadamente as barbas ou os cabelos dos seus crentes.

Entre as religiões que dão preferência a barbas encontramos também o Islão, mas com uma particularidade. Maomé terá dito que o bigode deve ser aparado, mas alguns interpretam isso como significando que se deve cortar totalmente o bigode, enquanto outros afirmam que isso é estritamente proibido e que se deve apenas aparar.

A situação é tão séria que no Irão o Governo publicou um manual com exemplos de cortes de cabelo e estilos de barba que são “islamicamente” aceitáveis.


Entre as culturas orientais a barba é frequentemente um símbolo de dignidade e sabedoria. A tradição passou para as religiões também. Os Sikhs, por exemplo, recusam cortar o cabelo e consideram que a barba é um símbolo da sua masculinidade e dignidade.

Este conceito passou também para o jainismo, outra religião do subcontinente indiano, mas já entre o hinduísmo não há uma corrente única. Algumas correntes ascetas proíbem a posse de bens, o que inclui lâminas, mas outras exigem caras rapadas como símbolo de limpeza.

Um fiel da religião Sikh
Também os rastafáris, uma religião que nasceu na Jamaica e que mistura conceitos cristãos, judaicos e um messianismo negro, proíbem que se corte quer o cabelo como a barba.

No Budismo, embora haja alguma liberdade, a tradição mais generalizada é de rapar não só os pelos faciais como todo o cabelo também.

E quanto ao Cristianismo? Depende da geografia.

No ocidente há uma longa tradição, herdada do império romano, de ausência de barbas. A razão é que a barba seria considerada um adorno, um sinal de vaidade, que se devia evitar a todo o custo. Por isso, embora hoje em dia não seja obrigatório, os clérigos cristãos de tradição ocidental tinham a tradição de não deixar crescer a barba.

No oriente, porém, é diferente. Aí a barba é um adereço obrigatório para os clérigos. A razão é que rapar a barba é considerado um sinal de vaidade… tudo depende da perspectiva! Essa tradição ainda é largamente respeitada, sobretudo nas igrejas ortodoxas.

Monges cristãos ortodoxos
Mas este fascínio por barbas tem às vezes efeitos inesperados, até no campo legal.

Nos Estados Unidos já se registaram vários casos de conflitos laborais e judiciais. Foi o caso de um bombeiro a quem foi ordenado que rapasse a barba para poder caber a máscara de oxigénio ou de um guarda-prisional Sikh que teve de ir a tribunal para poder guardar a dele, uma vez que era considerado um risco para a segurança.

Entre os Amish, uma confissão cristã anabaptista que enaltece a não-violência e evita o uso de tecnologia, tem sido um assunto particularmente complexo. Recentemente uma das comunidades sofreu uma dolorosa disputa na qual uma das facções adoptou o hábito de cortar as barbas dos seus adversários enquanto dormiam, para os humilhar…

Os Amish, curiosamente, não cortam a barba a partir do dia em que casam, mas uma vez que há uma longa tradição militar associada aos bigodes, estes são proibidos por causa dos princípios de não-violência.


O assunto também é melindroso nas prisões americanas, mas aí afecta sobretudo rastafarianos. Em vários estados a lei obriga a que os reclusos tenham o cabelo curto, sobretudo para evitar esconder objectos perigosos, mas como os “rastas” não podem cortar o cabelo tem havido casos de prisioneiros que passam anos em solitária.

E tudo isto a propósito de quê?

Ah, é verdade! Podem respirar de alívio. Contrariando os rumores de que tinha abandonado a sua fé, Matisyahu colocou ontem uma fotografia on-line onde se vê claramente que a sua famosa barba está de volta!


A nova barba de Matisyahy,
para sossego dos seus fãs

Filipe d'Avillez

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