Tuesday, 12 November 2013

Um ano de guerras sinodais

Aviso… Vai ser um ano disto! As diferentes facções da cúria romana e da Igreja a nível mundial, vão colocando as peças na mesa de jogo a tempo do sínodo para a Família em Outubro de 2014.

Hoje o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé censurou uma diocese alemã que, há um mês, tinha publicado um documento que permite que os casais divorciados e em segundas uniões acedam aos sacramentos.


Os bispos americanos têm um novo presidente. O Cardeal Dolan deixa assim essa sua função, que cumpriu de forma exemplar. Mas não o fez sem antes exercitar o seu característico sentido de humor…

Na Síria, ao que parece, o Exército Livre começou a lutar contra uma outra facção rebelde, de pendor islamita. Já não era sem tempo, dizem alguns cristãos da oposição…


Se bem se lembram, a semana passada publiquei uma reportagem sobre os 450 anos do Concílio de Trento. Hoje publico no blogue as transcrições integrais das entrevistas ao D. Nuno Brás e ao pastor baptista Tiago Cavaco.

“Concílio não teve o propósito de alargar fosso com protestantes”

Transcrição integral da entrevista ao bispo D. Nuno Brás, sobre os 450 anos do concílio de Trento. Notícia aqui.

Que peso é que o Concílio teve para a Igreja?
O Concílio de Trento é um marco essencial na história da Igreja em primeiro lugar porque responde a um desejo de reforma de há muitos séculos. O concílio reuniu-se em 1545, mas há várias dezenas de anos que havia este desejo de reforma. É óbvio que a reforma protestante, todo o drama de Lutero, toda a essa questão, veio de certo modo apressar e mostrar a inevitabilidade do concílio, mas o concílio abordou, praticamente, todos os âmbitos da Igreja, seja de disciplina seja doutrinais, fez uma revisão completa disciplinar e doutrinal do que é a Igreja Católica. Muitas das realidades que hoje vivemos foram fixadas claramente nessa altura.

Na sua opinião qual das decisões do concílio teve mais impacto?
Temos por exemplo em termos pastorais a obrigatoriedade dos bispos e párocos residirem nas dioceses e nas paróquias, que era uma coisa que até essa altura não existia. Temos a criação dos seminários, que também não existiam.

Depois, em termos doutrinais, a fixação clara daquilo que é a Sagrada Escritura, quais os livros que fazem parte da Sagrada Escritura. Isso foi claro sempre, mas havia algumas dúvidas concretamente acerca do livro do Apocalipse, da parte dos protestantes acerca da epístola de Santiago. O Concílio decide isso claramente e diz quais são os livros que fazem parte.

Depois, toda a questão da justificação. Como é que nos relacionamos com Deus, qual é o lugar da Graça e qual a do Ser Humano, uma das realidades colocada em causa pela reforma protestante. Há uma série de matérias doutrinais, que o concílio fixa, por exemplo, em termos da presença real de Jesus na Eucaristia. Das questões disciplinares, nem todos ainda colocados em prática. O Concílio fez uma reforma geral do que era a Igreja Católica naquela altura.

Havia dúvidas sobre as questões doutrinais, ou foram apenas reafirmadas?
Trata-se de reafirmar aquilo que sempre foi a tradição, o ensino apostólico, mas de o reafirmar claramente e de colocar um ponto final em várias discussões em termos de interpretação sobre essas questões. É óbvio depois do concílio que o próprio texto precisa de ser interpretado e por isso mesmo surgiram depois outros elementos de debate, que faz sempre parte da vida da Igreja. E existem realidades sobre as quais o concílio não se pronuncia, ou deixa portas em aberto.

Mas sim, trata-se de reafirmar o que foi sempre o ensino apostólico mas de colocar muitas vezes pontos finais em relação às discussões. Ou então, caso isso não fosse possível e caso as discussões não estivessem amadurecidas suficientemente, deixar essas realidades em aberto de forma que outros concílios pudessem depois pronunciar-se acerca disso.

Várias das decisões surgem em consequência do ambiente da reforma protestante. Pode-se dizer que o sínodo aprofundou as divisões, tornando-as inconciliáveis?
O Concílio já foi celebrado numa altura em que era clara a divisão. Depois, coloca claramente a posição católica, em resposta àquilo que são as posições luteranas e calvinistas.

Enquanto coloca a doutrina clara e mostra a realidade daquilo em que a Igreja acredita em termos doutrinais, sem margem para dúvidas, pelo menos em muitas partes, nesse sentido podemos dizer que sim.

Mas o concílio não teve nunca o propósito de alargar o fosso, o pensamento dos padres de Trento foi de dizer qual é a fé da Igreja Católica, no sentido de permanecer na verdade daquilo que é a fé apostólica. Não foi nunca de dizer “bom, os irmãos reformados pensam assim, nós temos de pensar ao contrário”. Aliás, há muitas coisas em que o concílio e Lutero estão muito próximos.

É interessante que muitos dos documentos acerca da justificação, que foram assinados há relativamente pouco tempo com os protestantes, retomam o que é a intuição de Trento. Ou seja, Trento não teve como preocupação afundar o fosso que separava, teve como preocupação mostrar o mais claramente possível, tanto quanto se podia na altura, dizer de forma clara aquilo que é a fé dos apóstolos.

Pode-se dizer que o concílio, aliado ao ambiente de contra-reforma que se vivia na altura, levou a um certo desequilíbrio na prática católica? No campo da revelação e tradição, por exemplo?
É importante tomarmos consciência de que os primeiros decretos do Concílio são precisamente sobre a revelação e a tradição, acerca da Sagrada Escritura. Podemos dizer que se os reformados dizem que a revelação está toda contida na Sagrada Escritura, Trento diz que a revelação está toda contida em Jesus Cristo, naquilo a que Trento chama O Evangelho, na linha da carta de São Paulo aos romanos.

Algumas leituras de Trento, de facto, marginalizaram de certa forma, pelo menos na piedade do católico normal, nunca na reflexão teológica, propriamente, mas na piedade católica corrente, marginalizaram por vezes a Sagrada Escritura, que o Concílio Vaticano II retoma e reafirma, mas o Concílio Vaticano II retoma e reafirma precisamente na sequência de Trento. Portanto a questão não foi tanto Trento, foi a leitura que depois na prática se fez, seja de Trento, seja da própria dialéctica entre católicos e protestantes. 

“Reforma não foi feita contra a Igreja, foi feita a favor”

Transcrição integral da entrevista ao pastor baptista Tiago Cavaco, acerca dos 450 anos do Concílio de Trento. Notícia aqui.

450 anos depois como é que um protestante olha para o Concílio de Trento?
Pelo facto de o dia da Reforma Protestante ter sido celebrado agora a 31 de Outubro, é difícil falar da reforma sem falar daquilo que Trento significa. Nesse sentido a minha relação com Trento, como protestante, é marcada muito mais por uma referência pela negativa do que por um conhecimento do concílio na sua inteireza, no contexto que terá para a Igreja Católica.

Mas diria que a definição que o concílio veio trazer naquela altura continua a ser importante para marcar as diferenças que continuam a existir. Nesse sentido, apesar de o mundo ter mudado, muito positivamente, no que diz respeito ao relacionamento entre católicos e protestantes, que é melhor e preferível o de hoje, sendo até fraterno, diria que o Concílio de Trento continua a ser pertinente. Essas diferenças de 450 anos continuam a ser importantes para se compreender o Cristianismo no seu todo.

Pode dar alguns exemplos dessas diferenças de que fala?
Ainda o outro dia estava a falar sobre a reforma na Igreja onde trabalho, a Igreja Baptista que se reúne na Lapa, e por exemplo uma das coisas incontornáveis quando se pensa no contributo de Lutero e que depois vem a ser de uma maneira ou outra aprofundado pelas afirmações de Trento tem a ver com a relação com a Escritura.

Uma das coisas que eu dizia é que é óbvio que a relação que os católicos têm com a Escritura é diferente do que era há 450 anos. Hoje, graças a Deus, existe um empenho na Igreja de Roma para a leitura da Bíblia, de maneira nenhuma podemos equiparar Trento com o que é hoje uma busca pela leitura da Bíblia no contexto da Igreja Católica.

Mas mesmo a partir dessa abertura que hoje é diferente, é a partir da leitura da Bíblia que se funda uma das diferenças mais inconciliáveis entre o Catolicismo Romano e o Protestantismo, que tem a ver com a justificação pela Fé e a absoluta incontornável relação do Cristão com a fonte da autoridade máxima. Passados 450 anos a Igreja Católica continua para todos os efeitos a Igreja de Trento, lendo a Bíblia de uma maneira diferente da que os protestantes lêem, como fonte de autoridade principal.

Em relação à justificação, há um documento conjunto entre a Igreja Católica e a Igreja Luterana, pelo menos uma das suas vertentes. Com as Igrejas Baptistas seria possível uma solução desse tipo?
Não me custa, enquanto Baptista, reconhecer o percurso da Igreja Católica no século XX e sobretudo nos últimos anos, de um diálogo frutuoso com outras confissões, sendo o diálogo com esses Luteranos uma prova disso. E mesmo com baptistas. No outro dia encontrei uma pequena afirmação conjunta da Aliança Baptista Mundial com a Igreja Católica Romana.

Creio que é louvável e apreciável essa capacidade demonstrada por ambas as partes de fazer um caminho comum, de qualquer modo creio não ser possível deixar de afirmar que, no que diz respeito à questão da justificação pela Fé, essa própria interpretação varia bastante, mesmo dentro do contexto evangélico e protestante. Isto quer dizer que o facto de alguns luteranos conseguirem chegar a alguns consensos com a Igreja Católica, não é de todo expressivo em relação a toda a largura do movimento Evangélico e protestante.

Por isso, apesar de atribuirmos às vezes quase que romanticamente, a Lutero a reforma protestante, ele é um dos principais mas a partir daí o que se gerou nas igrejas que são herdeiras da reforma vai muito além do que a Igreja luterana pode representar. Como baptista, que neste sentido me considero reformado também, diria que o facto de haver este documento em comum, não é expressivo de todos os outros reformados que, mesmo em relação aos luteranos têm visões não necessariamente conciliáveis em relação à justificação pela fé. A reforma protestante acarreta muita diferença.

O Concílio agravou o cisma com os reformadores?
É difícil que um protestante não ache que num certo sentido tenha agravado, até porque um protestante dirá que a reforma não foi feita contra a Igreja, foi feita a favor. É verdade que até pela própria palavra, protestante, alguém que está contra alguma coisa, que protesta, as pessoas associam isso a um carácter negativo e não à preocupação primordial dos reformadores, que sentiam que o caminho tinha de passar fora de Roma, mas que era a favor da Igreja e não contra ela.

Portanto Trento, necessariamente, acabou por aprofundar as diferenças que se tornavam na altura, e muitas ainda são, insanáveis, para aquilo que os protestantes consideravam ser uma reforma que a Igreja precisava de fazer.

É verdade que 450 anos depois a Igreja Católica, e digo-o fraternamente e num espírito de boa-fé, acabou por dar passos que em muito foram na direcção de coisas que os protestantes estavam a dizer há séculos. Isso serve para provar que a Igreja Católica tem feito um caminho e aprendido com aquilo que eu acho que posso dizer que são os seus erros.

De qualquer modo Trento teve uma função importante no contexto da Igreja Católica, mas que um protestante terá de dizer que foi negativa, pelo menos para a reforma que achamos que a Igreja precisava.

Monday, 11 November 2013

Filipinos chocados e padres envergonhados

O questionário preparatório para o Sínodo sobre a Família continua na ordem do dia. Uma das secções é sobre a forma como a doutrina sobre as questões da sexualidade e da vida são conhecidas. A especialista Mary Anne d’Avillez diz que são pouco conhecidas e que a culpa é, em parte, dos padres que têm vergonha de falar destes assuntos.


Este questionário é um assunto que será sem dúvida discutido por estes dias na reunião plenária da CEP. Mas pelo discurso do Patriarca de Lisboa, mais virado para os problemas do trabalho e da ideologia do género, não será propriamente uma prioridade.

Ainda em relação ao inquérito, o blog Religionline tem as perguntas publicadas e convida os seus leitores a responder, prometendo fazer chegar as opiniões à CEP.

Claro que a tragédia nas Filipinas esteve no centro das atenções. O Papa falou do assunto ontem e hoje enviou ajuda concreta. A comunidade filipina em Lisboa está “em estado de choque”, mas fortalecida pela oração.

No sábado o Papa recebeu em audiência um contingente de pessoas com deficiência física e mental, e seus familiares. Pediu-lhes que não tenham vergonha de ser um tesouro da Igreja e depois passou pelo menos uma hora a saudar pessoalmente os presentes… se calhar foi mais, às tantas tive de mudar de canal.

Duas sugestões para o Natal (não são só os centros comerciais que acordam cedo para esta realidade): O novo livro “A Lista de Bergoglio” e também qualquer artigo da campanha de Natal da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, cujos proveitos revertem na íntegra para os refugiados sírios.

Termino com uma sugestão. Dias 22, 23 e 24 decorre o “Meeting de Lisboa”, organizado pelo movimento Comunhão e Libertação. Podem consultar aqui o programa mas destaco as presenças de figuras tão variadas como D. Manuel Clemente, o surfista de ondas gigantes Garrett McNamara e o pastor e cantor de punk rock Tiago Cavaco, que participa numa mesa redonda sobre o gigante Chesterton.

Sunday, 10 November 2013

"Maioria dos que usam métodos naturais não o fazem por razões religiosas"

Transcrição de entrevista a Mary Anne d’Avillez, sobre os métodos naturais de planeamento familiar, a propósito do inquérito preparativo para o sínodo dos bispos sobre a família, que se realizará em Outubro de 2014. Entrevista conduzida por Ângela Roque. Ver notícia aqui.


Os cristãos em geral conhecem a doutrina da Igreja para esta área, o que a Igreja propõe?
A grande maioria tem uma vaga ideia que é tudo proibido, mas nunca se deram ao trabalho de procurar melhor, de irem ler a “Humanae Vitae”, de pensar e reflectir sobre isso. Claro que há excepções, há grupos ligados a movimentos da Igreja, mais bem formados nesta área.

Mas a não ser pessoas que estejam nestes meios, onde essa informação circula, esta mensagem não passa...
A mensagem não passa. Os cristãos vivem na sociedade e são muito influenciados pela cultura que os rodeia, pelos meios de comunicação, pelo que ouvem falar. A maior parte das pessoas não conhecem ou não sabem que existem métodos de regulação natural do nascimento que são extremamente fiáveis e reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde.

Há dois métodos principais, o método de ovulação Billings e o método sinto-térmico, e o método sinto-térmico tem uma eficácia ligeiramente maior.

O método Billings, com um estudo que foi feito na China, por um médico estatal, no ano 2000, indicou uma eficácia – e isto com milhões de casais, porque na China é sempre tudo aos milhões – uma eficácia de 99%. Um estudo mais recente feito pela universidade de Heidelberg na Alemanha indicou uma eficácia de 99,4% ou 99,6%, que é até mais alto do que a pílula.

Agora, o que é essencial é que esses métodos sejam bem ensinados, e sejam bem aprendidos. Os casais têm de ser acompanhados por uma monitora, ou um médico ou uma médica.

Como é que estes métodos chegam às pessoas? São alguns movimentos ligados à Igreja que os difundem, não é?
Sim, ligados à Igreja. Na zona de Lisboa conheço dois, o Movimento Defesa da Vida (MDV) onde eu trabalho, e uma associação chamada “Família e Sociedade” que dá dois cursos por ano.

Nada disto é falado nas escolas? Há educação sexual mas estes métodos são falados?
São falados se eu for lá... de resto duvido. Agora, mais importante que nas escolas é isto ser falado nas famílias, e as famílias também ignoram. Às vezes convidam-me para ir falar aos, Cursos de preparação para o Matrimónio. Curiosamente, em muitos, o planeamento familiar não faz parte, não é um dos temas...

E devia ser, do seu ponto de vista? São cursos promovidos pela Igreja...
Claro que devia ser. Eu vou extraprograma, convidada. Ao Algueirão já vou há bastantes anos, fui muitas vezes à Portela de Sacavém e a outras paróquias, pontualmente, e também ao Cupav, o Centro Universitário dos Jesuítas, que tem dois cursos por ano de preparação para o matrimónio.

As pessoas têm de perceber que os métodos de regulação natural da fertilidade fazem parte da gama de escolha de métodos de planeamento familiar, em que há uns que são técnicos, que são os métodos contraceptivos, e há outros que são naturais, que são estes que usam a fisiologia da mulher, para a mulher perceber quando está fértil e quando está infértil, não implicam tomar nem colocar nada. E um casal não tem liberdade de escolha se não conhece todos. Portanto, onde se fala só sobre contracepção sem falar sobre os métodos naturais está errado, onde se fala só sobre os métodos naturais sem falar nos contraceptivos também acho errado, no sentido em que não é permitido às pessoas fazerem a avaliação da diferença moral que existe entre uns e outros, uma avaliação ética.

É essa diferença moral, ou ética, que justifica a posição da Igreja relativamente à contracepção?
Justifica, pois. Claro que estes métodos só funcionam bem num casal estável, em que ambos querem. Este documento [questionário de preparação para o Sínodo da Famíli] fala sobre casais cristãos, não é um cristão que quer depois estar a dormir com A, B, C e D, implica uma moral e uma ética.

Nestes métodos a pessoa aceita a sua fertilidade como um todo, e aceita a fertilidade do seu marido e o marido da mulher, e não está a tentar fugir ou apagá-la, ou eliminá-la, mas estão em casal a geri-la.

Do ponto de vista relacional é muito positivo porque obriga o casal a dialogar constantemente. No fundo tem que ter uma conversa todos os dias, “como é que tu estás?”, “estamos numa fase fértil, não estamos, como é que é o nosso projecto de vida, como é que vamos gerir”.

Depois do ponto de vista ecológico é ideal. Eu posso dizer que a maioria das pessoas que me tem procurado para aprender os métodos naturais não tem sido por razões religiosas, tem sido por razões ecológicas ou de saúde, mulheres que têm problemas graves e não podem mesmo usar o método contraceptivo. Eu diria que a maioria não é por razões religiosas.

Também há quem pense que quem segue estes métodos é por razões religiosas.
Há.

Está-me a dizer exactamente o contrário…
Estou a dizer o contrário.

Acho que na Igreja deixou-se de falar mesmo entre muitos padres há uma grande ignorância sobre a eficácia e como funcionam os métodos naturais.

Paulo VI, em cujo pontificado
se produziu o Humanae Vitae
Também pode haver alguma vergonha em falar do assunto, pouco à vontade.
Alguma vergonha, pouco à vontade, é difícil falar sobre sexualidade. Medo que lhe digam “ai, não sabe nada disto, é celibatário, e não sabe o que é que está a falar”.

Este não é um método de Igreja, é um método de planeamento familiar que pertence à gama de métodos de planeamento familiar que a Igreja defende ou propõe porque de facto a Igreja olha para a pessoa como um todo, criada por Deus, e aqui a fertilidade é aceite e gerida, e não é eliminada. É toda uma atitude perante a vida. Como é que devia ser passada? Devia ser passada de mãe para filha, mas grande parte das mães também desconhecem.

Aqui o papel dos leigos é fundamental...
Eu acho que é fundamental. Eu fui reler a “Humanae Vitae”, e o Papa Paulo VI diz que aqui os grandes apóstolos são os leigos e são os casais.

Do seu ponto de vista o que é que será ideal acontecer cá em Portugal, na Igreja portuguesa, como é que espera que a Igreja reaja ao inquérito e ponha isto a andar?
Podia haver mais encorajamento e abertura, talvez até mais interesse da parte dos padres em geral. Tem de haver uma grande mudança de mentalidade.

Eu acho primeiro que se isto vai partir dos bispos e dos padres eles próprios têm de ser bem instruídos nesta área, e saber falar com uma linguagem actual e de beleza, e para isso é preciso aprender...

Quem estiver interessado em aprender, informar-se, saber mais, o que é que pode fazer?

Contactar o Movimento Defesa da Vida, que tem um site, ou a Associação da Família e Sociedade, que também ensina os métodos. Isso é que era muito importante, haver mais gente.

Wednesday, 6 November 2013

Um protestante, um bispo, um concílio e duas portas

Começou esta quarta-feira em Braga um congresso sobre o Concílio de Trento. Pusemos um bispo católico e um pastor baptista a falar sobre a importância deste evento que coroou a contra-reforma. Não deixe de ler, e saiba porque é que tiveram de abrir uma segunda porta para o salão onde o sínodo se realizou.



O Papa Francisco falou esta manhã da importância dos sacramentos, e de os receber cedo.

Em relação a receber sacramentos cedo, destaque para o artigo desta semana do The Catholic Thing sobre a importância de administrar o crisma a crianças mal atingem a idade da razão. Nalgumas paróquias de Lisboa isso tem sido feito e o debate está a ser aceso. Não concordando com o tom algo dramático de Kristina Johannes, estou sem dúvida com ela quanto às conclusões! Leia e decida por si mesmo.

É já no dia 13 que recomeçam as actividades da Escola de Oração de São José. Saiba tudo sobre o módulo Ora et Labora.

O Poder do Crisma

por Kristina Johannes
Esta era uma missão secreta. Destino final: Cidade do México.

O telefonema chegou tão tarde que nem teve tempo para pedir uma cópia da certidão de nascimento do Estado onde nasceu, longe daquele onde actualmente vivia. Também não tinha passaporte e não fazia ideia como faria para entrar e sair do México sem essa documentação. Contudo, não hesitou em pagar milhares de dólares para comprar um bilhete de avião para si e para a sua criança.

Desembarcou num Estado fronteiriço e encontrou-se com os seus contactos que iriam introduzi-la no México e ajudá-la a sair de novo. Tinha consigo a carta de condução, o terço e fé de que Deus trataria do resto.

Entrou na carrinha com os seus novos amigos que a acompanhariam nesta missão. A carrinha aproximou-se da fronteira e passou sem problemas. Como é que seria o regresso?

Passadas algumas horas, com a missão cumprida, o veículo dirigiu-se de novo para a fronteira. Retirou o terço e começou a rezar, os outros juntaram-se. Quando o agente se aproximou até reteve a respiração. Olhou para a carrinha e perguntou: “Os passageiros são todos cidadãos americanos?” Responderam afirmativamente e mandou-os seguir sem mais confusões. A mulher respirou de alívio e começou a rezar outro terço em acção de graças.

Que missão secreta era esta? Acreditam que se tratava de obter o sacramento do Crisma para a sua criança, uma vez que esta lhe tinha sido negada por não ter chegado à idade da razão, conforme estipulado pela sua diocese americana?

A manta de retalhos que são as políticas sobre a idade do Crisma nos Estados Unidos conduziu a uma situação em que aqueles que querem recorrer à idade canónica universal para o Crisma precisam de ser bastante imaginativos. A concessão de excepções em relação à idade diocesana para o Crisma é extremamente rara, apesar das admoestações de Roma sobre o assunto.

Como é que se chegou a esta situação?

Alguns apontam para a decisão de S. Pio X de baixar a idade de recepção da Confissão e da Comunhão, sem ter aludido à idade do Crisma. Até então, a ordem tradicional tinha sido Baptismo, Crisma, Confissão e, finalmente, a Santa Eucaristia. Por essa ordem, a Eucaristia era vista como o completar do processo de iniciação.

O Código de Direito Canónico diz o seguinte sobre quem vai receber o Crisma:

Can.  889 §2  Fora de perigo de morte, para alguém receber licitamente a confirmação,
requer-se que se tiver o uso da razão, esteja convenientemente instruído, devidamente disposto e possa renovar as promessas do baptismo

Can.  891 O sacramento da confirmação administre-se cerca da idade da discrição, a não ser que a conferência episcopal determine outra idade, ou exista perigo de morte, ou, a juízo do ministro, causa grave aconselhe outra coisa.

A questão está no cânone 891, que permite às conferências episcopais estabelecer uma idade mais alta que a da discrição. Foi o que fizeram os bispos dos Estados Unidos. A norma complementar do cânone 891, nos Estados Unidos, diz: “A Conferência Episcopal dos Bispos Católicos, de acordo com as prescrições do cânone 891, decreta que o sacramento do Crisma, no rito latino, será administrado entre a idade da discrição e cerca dos 16 anos de idade, dentro dos limites determinados pelo bispo e com respeito pelas excepções legítimas, expressas no cânone 891.


Porque é que algumas pessoas consideram isto um problema? Porque em demasiados sítios o resultado foi um profundo mal-entendido sobre a natureza do sacramento do Crisma, que se transformou num sacramento em busca de uma teologia.

Para alguns tornou-se uma espécie de profissão pública, em que as pessoas confirmam a sua fé diante da comunidade. Para outros é visto como um rito de passagem para a maioridade católica. Noutros ainda é simplesmente uma forma conveniente de manter os alunos na catequese durante os anos do liceu. Nenhuma destas lógicas é digna do grande sacramento através do qual somos confirmados na nossa fé, não pela nossa acção, mas pela Graça do Espírito Santo.

Quando eu era catequista ilustrava o poder deste sacramento através da imagem dos apóstolos, reunidos cheios de medo no quarto superior, antes do Pentecostes. Depois da vinda do Espírito Santo, estes mesmos homens partiram sem medo para proclamar o Evangelho, resultando na conversão em massa de 3000 pessoas. A diferença? O Crisma!

Tal como diz no Catecismo, “A Confirmação dá-nos uma força especial do Espírito Santo para difundir e defender a fé pela palavra e pela acção, como verdadeiras testemunhas de Cristo, para confessar com valentia o nome de Cristo e para nunca sentir vergonha em relação à cruz.” [1303]

Quando Bento XVI era Papa ainda tive esperança de que emitisse um decreto para o Crisma, parecido com o que São Pio X publicou para a Comunhão. Pareceu apontar nesse sentido quando, na sua exortação apostólica Sacramentum Caritatis, escreveu: “é necessário prestar atenção ao tema da ordem dos sacramentos da iniciação. (...) Em concreto, é necessário verificar qual seja a prática que melhor pode, efectivamente, ajudar os fiéis a colocarem no centro o sacramento da Eucaristia, como realidade para qual tende toda a iniciação.” [18]

Talvez estas políticas parcimoniosas sobre o Crisma mereçam a atenção do actual Papa. Quem não quereria este dom para os seus filhos logo que eles se tornam responsáveis pelas suas acções e, por isso, necessitados desta força, sobretudo nos tempos em que vivemos?


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 3 de Novembro de 2013)

Kristina Johannes é enfermeira e instrutora de métodos naturais de planeamento familiar. Foi porta-voz da Alaska Family Coalition, que conseguiu a aprovação da emenda constitucional de protecção do casamento naquele Estado.

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar