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Monday, 6 December 2021

Papa regressa do mundo helénico, morreu o americano do rito bracarense

O Papa chega em breve a Roma depois de uma viagem de vários dias a Chipre eà Grécia. Desta viagem o grande destaque vai para a visita ao campo de refugiados em Lesbos, mas também o encontro com os migrantes e refugiados em Chipre, onde Francisco denunciou fortemente a exploração e o desprezo a que estes são votados. Mostrando que as palavras sem actos são vazias, Francisco deu ordem para 12 refugiados seguirem logo para Roma, e outros devem seguir nas próximas semanas.

Houve ainda tempo para denunciar as ameaças à democracia. O ecumenismo também foi uma aposta forte desta visita, tanto na Grécia como em Chipre e o Papa não esqueceu, obviamente, as comunidades católicas, com quem esteve e a quem encorajou. O último acto público foi um encontro com jovens esta manhã.

Na entrevista desta semana da Renascença com a Ecclesia temos Mariana Baptista, recém-chegada de um ano em missão com os Leigos para o Desenvolvimento.

E dos últimos dias temos ainda a notícia da nomeação de D. José Cordeiro para a arquidiocese de Braga. Sendo liturgista, podemos esperar uma revitalização da tradição litúrgica do Rito Bracarense? Infelizmente um dos poucos padres que ainda o celebrava com frequência, sem bem que nos EUA, era Joseph Santos, que morreu de Covid no passado sábado. Deixo-vos aqui a transcrição da entrevista que lhe fiz em 2010, ainda antes deste blog existir.

Entrevista ao padre Joseph Santos, 2010

Esta entrevista foi feita antes de eu ter o blog, por isso nunca publiquei a versão integral. Até a reportagem que foi feita já não se encontra online. Publico hoje, no dia em que soube da morte do padre Joseph Santos, esta conversa que tive com ele em Setembro de 2010. As fotos são da mesma ocasião


É raro celebrar-se em Portugal o Rito Bracarense. Qual é a sua grande riqueza?

Em parte é a sua história própria e o conteúdo das suas orações, que são diferentes do rito romano. Um exemplo que tivemos hoje e que desconhecia é que mesmo um santo tão desconhecido como São Gorgónio, todos os textos, menos o texto do Evangelho, eram diferentes dos textos do rito romano, e até o Aleluia nem estava no rito romano, era uma antífona completamente diferente do rito romano.

Outra coisa é a riqueza das orações, especificamente as orações de preparação para a comunhão do sacerdote, e tem pelo menos dois que são diferentes do rito romano, e revelam uma devoção eucarística muito profunda.

Isto não é para dizer que o rito romano tem problemas, todos temos. E Deus sabe que Braga, durante a sua história teve sempre problemas com o seu próprio rito, entre os padres, entre os bispos, entre os cónegos da sé, mas não podemos negar que quando o Concílio Vaticano II chamou para a inculturação da liturgia, não tenho dúvida que tinha em vista estes velhos ritos ocidentais, como o de Milão, o Moçárabe [em Toledo], de Braga, como formas de inculturação, em que o povo acarinhava o rito romano, mas também queria fazer do Rito Romano deles. Então entravam aspectos que representavam a sua própria história, as suas lutas contra as heresias, como por exemplo a heresia do pelagianismo aqui na Península Ibérica, e isto enriqueceu o rito romano de uma forma própria, que não é igual ao milanês, que não é igual aos outros ritos ocidentais que apareceram na mesma época.

E também Braga sempre teve uma queda para Roma. Vemos logos nos primeiros tempos uma carta do bispo, ao Papa Vergílio, a perguntar como podia celebrar a liturgia como em Roma, e recebeu o Cânone Romano e outros documentos. E quando foi imposto no reino suevo e na Galiza o rito moçárabe, foi uma mudança radical e logo quando foi reimposto o rito romano por Afonso de Castela e Leão, no século XI, Braga voltou e pegou em algumas coisas do seu antigo rito que não eram bracarenses, mas eram aspectos do romano antigo, do Gregório VII e anterior, que só ficou em Braga, desapareceu até em Roma. Mas sabemos pelos estudos que estas cerimónias foram feitas em Roma, nas missas papais, deixaram de existir em Roma, mas continuaram em Braga.

Na prática, hoje em dia o rito não é celebrado… Como vê isso?

De facto, todos os sacerdotes da arquidiocese de Braga são permitidos celebrar o rito bracarense, e o rito bracarense permanece em toda a Arquidiocese de Braga. Essa foi a última determinação de Roma. Mas no mesmo documento diz que todos os sacerdotes de Braga podem usar o rito novo. E como já existiam os livros em português, o cerimonial era muito mais simplificado, e pelo menos na zona de Braga, com tanto trabalho naquela época os padres foram pelo caminho de menos esforço.

E o Povo, enquanto o sacerdote não mexia nas festas, nas devoções, na bênção do santíssimo e estes aspectos de piedade popular, o padre tratava da missa, eles tratavam do resto, e por isso não houve uma grande revolta, enquanto nos países anglo-saxónicos o que aconteceu foi que acabaram com as procissões, acabaram com as devoções, mandaram tudo fora da porta, ficaram só com a missa e depois quiseram mudar isso também, e o povo disse basta.

Em Inglaterra, por exemplo, havia um indulto desde o tempo do Cardeal Heenan, em que se podia celebrar o rito antigo romano. Mas aqui não houve este problema, também não houve tanta experimentação estúpida como houve noutros países. Penso que aí Portugal estava mais saudável, liturgicamente falando.

Está a participar numa peregrinação de um grupo tradicionalista católico americano com o objectivo de chamar atenção para o rito tridentino. Qual a importância disto nos dias de hoje, em Portugal?

Primeiro não gosto de os chamar tradicionalistas, porque isto tem um mau sabor, particularmente entre o clero e o episcopado português. São pessoas que, como disse o Papa Bento XVI, têm um amor pela forma tradicional de liturgia.

E porque a liturgia tradicional tem várias formas, não é só o rito romano, monolítico, mas tem várias, acho que é essencial para as pessoas que às vezes vêm com uma atitude possivelmente um pouco mais fechado, de abrir-se para as outras possibilidades que já existiam antes do Concílio e que existem outra vez hoje. Porque como sabemos a última consulta feita à Santa Sé sobre o Sumorum Pontificum, diz que também se aplica ao rito ambrosiano, bracarense e moçárabe, por isso não há obstáculo nenhum a celebrar o nosso rito, nesse sentido.

Essa variedade de liturgia ajuda também a ver que há bem na própria variedade. Que o rito novo é uma expressão que pode ser boa e necessária para a Igreja, também o rito antigo tem o seu lugar e o seu valor, também o rito bracarense, o dominicano, o ambrosiano, beneditino e os outros grupos que tinham as suas variedades.

Isto é importante porque se nós começamos a ver só o Romano, como até no relatório sobre o rito bracarense, que foi feito por D. Francisco Maria da Silva, alguns sacerdotes queriam usar o rito romano só por ser romano, e mais nada, é uma pena que olhemos para a liturgia assim, quando há uma riqueza litúrgica no mundo que é tão vasta, desde os ritos orientais, da índia, que podemos conhecer… e isto enriquece-nos a nós. Não para dizer que vamos pegar nas coisas daqueles ritos e meter no nosso, mas para conhecê-los, para aproveitar as orações para nós mesmos, para a nossa própria espiritualidade. Faz muita falta isso.

Alguns pensam que estas coisas são pequenas, mas muitas coisas neste mundo são pequenas e tornam-se importantes para quem as ama.


Existe uma versão actualizada, já reformada do rito bracarense…

O rito bracarense nunca foi reformado, foi traduzido só. Há um livro do ordinário da missa que foi publicado no tempo de D. Francisco Maria da Silva, e distribuído a todas as paróquias da arquidiocese de Braga e de Viana de Castelo, naquele tempo, que tem de um lado o rito em latim e do outro em português, mas sem alteração nenhuma, porque a Santa Sé rejeitou as mudanças que foram propostas. E está na carta do arcebispo Bugnini, na introdução, que diz que foi decido que para manter a integridade do rito bracarense não se muda nada. E acabou.

Por isso se agora querem fazer outra examinação, isso é com o Sr. Arcebispo de Braga.

Tuesday, 27 March 2012

A Igreja tem de reconciliar-se com a sua própria cultura

Quem quer ter uma relação profunda com alguém deve primeiro estar em paz consigo mesmo. Por essa razão, diria que a coisa mais importante a fazer neste campo é a Igreja reconciliar-se com a sua própria cultura.

Não estamos a falar de uma instituição que nasceu ontem, ou há uma década. A Igreja tem dois mil anos de cultura, fora outros tantos milhares que herdou da civilização judaica no seio da qual nasceu. Durante centenas de anos esta Igreja não só interagiu com a cultura dominante como foi a sua principal impulsionadora e mecenas.

Este estado de coisas levou a uma certa reacção. O mundo da cultura revoltou-se contra a Igreja e toda a tradição cristã, ao ponto de ambos os universos terem ficado quase de costas voltadas. Mas a revolta não se deu só do lado da cultura, também a Igreja se revoltou, em larga medida, contra si mesma. Um mal definido “espírito” do Concílio Vaticano II foi interpretado por muitos como uma licença para ignorar dois milénios de cultura católica, na vã esperança de que diluindo essa identidade a instituição se tornasse mais apelativa a quem tinha criado anticorpos a tudo quanto era clerical.

Modernizou-se a liturgia, tudo bem. Mas era preciso criar um clima em que o mero interesse pela liturgia antiga fosse vista praticamente como crime? Quantas dioceses em Portugal aplicaram o Summorum Pontificum? Não é por falta de interessados.

Existem na Igreja Ocidental três dioceses que têm o privilégio de usar uma variante distinta do rito romano. Milão, Toledo e Braga. Os dois primeiros cultivam e protegem essa riqueza. Por cá, quantos dos leitores já assistiram a uma celebração do rito Bracarense?

Damos por nós, enquanto Igreja, a incentivar os cristãos orientais a redescobrirem as suas raízes e a manterem as suas tradições e culturas distintas (e que fontes de riqueza são!), ao mesmo tempo que fechamos os olhos a séculos de cultura litúrgica e espiritual ocidental. Sempre achei a pior forma de paternalismo lutar pela cultura alheia enquanto tudo se faz para suprimir a nossa, dando a ideia que somos muito modernos mas que os outro devem ser preservados, quais peças de museu, para podermos observar e admirar.

Mais grave, ao abandonar a nossa herança permitimos que estes domínios se tornem bandeira quase exclusiva de movimentos tradicionalistas, e por vezes cismáticos, de carácter frequentemente duvidoso.

Hoje em dia percebemos cada vez melhor que não podemos ir ao encontro de outros sem conhecer algo sobre eles. Vemos a um ritmo quase diário o custo da falta de preparação cultural de agentes ocidentais que actuam em regiões como o Médio Oriente ou, para citar um caso mais recente, no Afeganistão.

Não temos então a obrigação de nos reconciliarmos com a nossa própria cultura? Familiarizar-nos com ela, explorá-la, recuperar o que for para recuperar, antes de nos sentirmos capazes de olhar nos olhos os nossos interlocutores do mundo da cultura?

Penso que sim. Sei que há uma nova geração, quer de leigos quer de padres, menos próximos do Concílio e que rejeitam o ambiente de ruptura que dele surgiu em muitos lados. Caberá a estes cristãos pôr fim a uma guerra fratricida com o qual não nos identificamos e que apenas prejudica a Igreja. Acredito mesmo que é urgente fazê-lo, sob pena de o mundo cultural nos considerar insignificantes e não ver qualquer utilidade em dialogar connosco.

Filipe d’Avillez

Friday, 13 January 2012

Herança Moçárabe em Portugal

No dia 15 de Janeiro começam os festejos jubilares dos 1100 anos da mais antiga Igreja em Portugal.

A Igreja de São Pedro, de Lourosa é, segundo o seu pároco, o único exemplo de uma Igreja Moçárabe em Portugal.

Quem eram os moçárabes?
Os moçárabes eram os cristãos que viviam na península ibérica durante o domínio árabe. Desenvolveram uma liturgia própria, com muitas influências árabes (não confundir com islâmicas). Depois da reconquista a influência de Roma tornou-se mais forte e, à excepção de Braga, onde vigorava o Rito Bracarense, e Toledo, que sempre manteve o Moçárabe, toda a Península adoptou o rito romano.

Dizia, portanto, que em Toledo ainda se celebra o rito Moçárabe com frequência. Há mais alguns pontos de Espanha onde também se celebra, mas o rito é próprio de Toledo, uma das mais importantes dioceses da Península Ibérica.

Tempos houve em que o rito Moçárabe teria sido o mais usado em Portugal, mas hoje em dia não se celebra em lado nenhum. Tanto quanto consegui apurar houve uma celebração extraordinária na Sé Velha de Coimbra, em 2008.

A Sé de Lisboa tem o privilégio de poder celebrar também o Rito Moçárabe. Já ouvi dizer que só no dia de São Vicente, e numa capela lateral, mas há uns anos o Cónego Lourenço disse-me que esse direito aplica-se todo o ano e em toda a Catedral. Segundo o mesmo, quando foram feitos novos missais Toledo enviou cópias para Lisboa.

Que pena que este rito não seja mais conhecido em Portugal!

Este aniversário parece-me ser uma excelente oportunidade para se promover uma celebração no rito original da Igreja de São Pedro de Lourosa, em Oliveira do Hospital.

No vídeo acima podem ouvir o Pai Nosso cantado segundo o estilo musical próprio do rito Moçárabe, e aqui por baixo podem ver uma reportagem em espanhol sobre esta celebração.



Filipe d'Avillez

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