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Wednesday, 9 May 2018

Duas filosofias de vida

No pós-Segunda Guerra Mundial, um cientista de Oxford escreveu um livro curto e tocante em que examina as verdades da fé cristã de “forma científica”. A obra é pouco conhecida hoje, mas as ideias exploradas em “Two Ways of Life” de Sherwood Taylor, são relevantes para a situação presente no Ocidente pós-cristão.

Taylor examina duas formas de vida – a cristã e a materialista – perguntando que impacto visível é que cada uma destas filosofias tem sobre o indivíduo e a sociedade. É, admita-se, uma abordagem simples, mas uma que pode ser iluminadora para qualquer tempo e para as verdades da Fé. Como o próprio Cristo disse, “pelos seus frutos conhecê-los-ão”.

A nossa vida interior tem impacto sobre tudo e sobre todos. O cristão sabe o propósito da sua vida: servir a Deus e salvar a alma. Como guias neste caminho, tem a vida e os ensinamentos de Jesus, a sabedoria das Escrituras e a autoridade da Igreja. Toda a sua vida é marcada por diversos amores que radicam, como diz Dante, no “amor que move o sol e as outras estrelas”. Anseia imitar Nosso Senhor, um objectivo gloriosamente alto.

No quadro geral do Cristianismo, uma criança é acolhida no mundo como um dom, não como um fardo. É baptizada como criatura de Deus. Rapidamente aprende sobre Cristo e sobre a natureza incomensurável da Encarnação.

Aprende que não pode servir a Deus e ao dinheiro, que os poderes desta vida não lhe devem dizer respeito e que o sofrimento – se vier – deve ser acolhido como forma de se configurar com a vida divina. Vê a beleza da criação em todas as coisas. Tenta colocar o amor no centro da sua vida. Falhando isso, pede perdão. Quando a morte chegar, não é o fim. Reza para que possa alcançar o Céu.

Já o materialista parte de uma posição desprovida de finalidade. A livre vontade é impossível. Tudo acontece por necessidade e a ideia de escolha é uma triste ilusão. Como é que se vive depois de rejeitar a existência de um propósito no cosmos?

A sua vida é preenchida com diferentes objectivos e preocupações. Tudo o que o ajude a evitar ponderar o sem sentido do vazio. Nas palavras de Sherwood Taylor, “quem rejeita a crença no espírito deve esforçar-se por esquecer a escuridão do sepulcro sem fim, distraindo-se com brinquedos”. E que brinquedos são estes? Dinheiro, prazer, poder – as diversões do costume.

Claro que, em si mesmas, estas coisas apenas podem redundar num sentimento de vazio. Enquanto o cristão sabe que “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”, o materialista tem sempre presente um sentimento de vazio interno. Sherwood cita o Fausto, de Goethe, para o ilustrar:

Em mal, que é certo.
Quanta ciência em mente de homem cabe
Toda em balde juntei; por mais que explore,
Força nenhuma se criou cá dentro;
Não cresci a grossura de um cabelo,
E em nada do infinito estou mais perto.

Frank Sherwood Taylor
Claro que não há falta de materialistas que, de facto, procuram o bem – a maioria das vezes, porém, através de formas de altruísmo que radicam nas brasas adormecidas das sociedades cristãs. Não encontramos muitos materialistas a apoiar publicamente atitudes pré-cristãs para com os pobres e deficientes, por exemplo. É excepcionalmente difícil fazer uma defesa racional do altruísmo materialista.

Da perspectiva do materialismo, muita sorte tem a criança a quem é permitido sair do ventre. Se o fizer, rapidamente absorverá a moralidade da moda, a que falta qualquer base objectiva. É-lhe dito que as suas acções são simplesmente “claramente certas ou erradas”. Virá a perceber que a não ser que mate alguém, é provavelmente uma “boa pessoa”, seja o que for que isso significa.

Aprende que a prosperidade é algo da maior importância, que o sexo é separável do amor e do casamento e que vive num período de grande liberdade e progresso. Procura encher a sua vida com confortos. No fim, enfrenta sozinho o vazio. Não passa de um “conjunto de átomos” sem qualquer importância num universo vasto e indiferente. Será de admirar que os idosos e os “economicamente inúteis” são descartados nas nossas sociedades progressistas?

Ao nível da sociedade, as filosofias cristã e materialista propõem visões francamente diferentes do Estado ideal e das suas relações com a pessoa. Sherwood Taylor nota que o cristão preocupa-se com uma sociedade enquanto composta por indivíduos, enquanto o materialista vê a sociedade como uma massa.

O cristão é chamado a amar o seu próximo como a si mesmo, sendo o seu “próximo” qualquer pessoa que encontrar. Ele sabe que é responsável diante de Deus pelos seus actos, sobretudo para com os pobres e oprimidos: “Pois eu tinha fome, e deste-me de comer”. Mas o materialista contemporâneo, pelo contrário, preocupa-se com conceitos abstratos e grupos de interesse. Assim se explica o surgimento de “comunidades” e “identidades” particulares, que requerem intervenção social e a intrusão do Estado em cada faceta da vida.

Os seres humanos tornam-se meros números com os quais a burocracia do Estado pode interferir na sua busca pela utopia terrestre. De acordo com este esquema, o indivíduo existe para benefício do Estado. O Estado torna-se um novo Deus, com a política no lugar da religião. Os adversários políticos são a encarnação do mal e ultraje falso substitui o discurso político racional.

A análise de Sherwood Taylor é incrivelmente potente. Claro que o impacto desta ou daquela filosofia de vida não nos dá toda a certeza sobre a sua veracidade. Mas não deixa de comprovar muita coisa. Desde os tempos de Sherwood Taylor assistimos a uma grande mudança moral no Ocidente. A rejeição do código moral cristão não se traduziu numa população emancipada e racional. Pelo contrário, resultou numa terrível e triste confusão tanto na vida pública como privada. O que é que isto nos diz?


Christopher Akers é escritor e vive na Escócia. Licenciado pela Universidade de Edimburgo, inicia este ano outra licenciatura em Oxford em Literatura e Artes. É autor de artigos sobre estética e o crescente poder do Estado Britânico na vida dos indivíduos.


(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 3 de Maio de 2018 em The Catholic Thing)


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Wednesday, 12 July 2017

Nova via para beatos que lêem livros perigosos

Caminho aberto para beatificação?
O Papa criou ontem uma nova categoria para processos de beatificação. É uma novidade interessante que vem clarificar a distinção entre quem dá a vida como mártir e quem a dá por amor ao próximo.

O mesmo Papa escreveu o prefácio para a Bíblia Jovem YouCat, advertindo que a Bíblia é um livro extremamente perigoso. Pode ler o texto completo do Papa aqui.

Um ano depois de terem ido à Polónia para participar nas JMJ, um grupo de portugueses recebeu os seus amigos polacos no santuário de Nossa Senhora das Dores, na Guarda.

Deus e a Moralidade Objectiva

Christopher Akers
Existe um argumento filosófico simples, mas hoje em dia raramente invocado, que nos pode ajudar a concluir pela existência de Deus. Tem o potencial de tocar os corações e as mentes daqueles que o consideram de forma séria.

Resumidamente, o argumento estipula que a existência de um sistema moral objectivo requer a existência de Deus. Para que um sistema moral seja verdadeiramente objectivo, a lei moral deve ter a sua origem numa fonte exterior à humanidade. Caso contrário tudo o que temos são opiniões morais humanas e subjectivas, independentemente da roupagem que lhes pusermos. As implicações são particularmente fascinantes, sobretudo tendo em conta que a vasta maioria dos não crentes vive e age como se acreditasse num sistema moral objectivo, embora o seu próprio sistema de crenças o impossibilite.

A meditação sobre estas questões desempenhou um papel fundamental para a minha própria conversão à Igreja. Pensar seriamente sobre a moralidade objectiva obriga-nos a colocar questões sobre porque agimos como agimos no dia-a-dia e que tipo de racionalidade sustenta as nossas escolhas morais.

Se utilizarmos a lógica isenta, a conclusão é só uma: sem um legislador divino as escolhas e as acções morais só podem ser subjectivas e, no final de contas, sem sentido. É aterrador compreender as verdadeiras implicações das palavras de Ivan em “Os Irmãos Karamazov”, que “sem Deus tudo é permitido”.

Chegados a este ponto temos apenas Deus e o niilismo. Os ateus mais inteligentes compreendem isto muito bem e é por isso que o tema raramente é discutido. Em vez disso os actos mais horrendos são simplesmente descritos como “claramente errados”, sem que se procure investigar mais a fundo do porquê de o serem.

Mas uma moralidade destas, sem bases, é literalmente disparatada. Faz-nos lembrar a máxima atribuída a Chesterton de que “quando um homem deixa de acreditar em Deus não passa a acreditar em nada, acredita em qualquer coisa”.

Reiterando, a maioria dos indivíduos vive como se existisse um sistema moral objectivo, mas sem Deus esse sistema não pode existir. C.S. Lewis disse de forma lúcida, nas primeiras secções do livro “Mero Cristianismo”, que as pessoas “apelam a um tipo de padrão de comportamento que esperam que os outros conheçam” em alturas de desacordo moral.

É assim ainda nos nossos dias, porém de acordo com as normas da sociedade moderna não existe ninguém (mais especificamente, nenhum Deus) que forneça esse padrão. Logicamente, se é esse o caso, então o próprio padrão colapsa.

Já debati este ponto várias vezes com amigos ateus, alguns dos quais procuraram oferecer formas “objectivas” alternativas para se compreender a moralidade. Certo interlocutor sugeriu que um exemplo de sistema moral objectivo não-teísta seria o utilitarismo.

Porém, o utilitarismo é meramente uma teoria filosófica colocada pelo homem. Mesmo que toda a gente no mundo aceitasse o utilitarismo, ninguém seria obrigado a segui-lo da forma como nos vincula a lei moral do Criador do Céu e da Terra. A utilidade é nada quando comparada com o amor, como os nossos leitores tão bem saberão. Não se trata de uma diferença subtil, a distância entre estes dois conceitos é grande e evidente.

Utilitarismo biológico...
Outro amigo sugeriu que apenas nos comportamos como o fazemos por causa da biologia e argumenta que podemos extrair verdades morais objectivas a partir da contemplação da nossa composição biológica e do ambiente em que vivemos. Mas este seria um mundo em que apenas agimos por interesse próprio, em que o auto-sacrifício é uma mentira e o amor é meramente uma “reacção química no cérebro”.

Seja qual for a perspectiva, este argumento é simplesmente incompreensível. Porque se Deus não existe, então quem é que pode dizer se é certo ou errado seguir determinadas vontades biológicas? Peguemos no exemplo horrível da violação. Se seguirmos um sistema moral baseado apenas na biologia darwiniana, em que o objectivo da vida é, em última análise, a propagação dos genes, então a violação não poderia ser entendida como um bem na medida em que assegura uma transmissão mais alargada desses mesmos genes?

Não estou a sugerir que o meu caro amigo alguma vez argumentaria neste sentido, mas este é um exemplo evidente do absurdo de reduzir a moralidade à biologia. Não é preciso ir mais longe do que dizer que há um mundo de diferença entre a beleza do amor sexual humano e o copular violento de muitas espécies do reino animal.

À nossa volta podemos ver a desintegração da ética civilizada que resultou da confusão sobre a moralidade objectiva. E a confusão é agravada pelas pessoas bem-intencionadas que nos rodeiam e que falam como se a moralidade objectiva existisse enquanto rejeitam todas as coisas, incluindo Deus, que têm de a sustentar.

O que resta de ética civilizada de que ainda gozamos deve-se apenas aos resquícios de uma civilização cristã, se nada for feito a nossa herança poderá ser completamente varrida. A ligação entre Deus e a moralidade objectiva deve ser reafirmada claramente e com frequência por padres, apologistas, filósofos, catequistas e todos os outros. Deve, aliás, ser proclamada aos quatro ventos!


Christopher Akers, que se juntou agora à equipa do The Catholic Thing, é escritor e vive na Escócia. Licenciado pela Universidade de Edimburgo, inicia este ano outra licenciatura em Oxford em Literatura e Artes. É autor de artigos sobre estética e o crescente poder do Estado Britânico na vida dos indivíduos.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 8 de Julho de 2017 em The Catholic Thing)


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