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Monday, 23 January 2017

"Shusaku Endo may have loved Christ, but he wasn’t fond of Christians"

This is a full transcript, in the original English, of my conversation with The Catholic Thing's Brad Miner on Martin Scorsese's "Silence". The news stories, in Portuguese, can be found here and here. My personal take on the film is here, also in Portuguese. Transcripts of my interview with  Jesuit Fr. José Maria Brito and with missionary and Shusaku Endo specialist Fr. Adelino Ascenso are also available, both in the original Portuguese.

Transcrição completa, no inglês original, da minha conversa com Brad Miner, do The Catholic Thing, sobre o filme "Silêncio" de Martin Scorsese. As reportagens estão aqui e aqui. A minha visão pessoal sobre o filme pode ser lida aqui. Transcrições integrais das conversas com o padre jesuíta José Maria Brito e com o missionário e perito em Shusaku Endo padre Adelino Ascenso também estão disponíveis.


Some say this film is a justification for Apostasy. Is that something that you agree with?
Yes it is.

I wouldn't say that Martin Scorsese, particularly, is certain of that. I don't think he is out to take a particular position that apostasy is a virtue, but rather that he does not believe that martyrdom is a virtue. That martyrdom serves the cause of Christ.

So apostasy, as one character says, in the film and in the book, is actually an act of love. It is what Christ would do. And I think that, obviously, is belied by the history in which there were so many martyrs, in Japan and elsewhere, who did give up their lives for Christ, who felt that enduring in the faith, over the course of great suffering, was the way in which Christians manifested love of God.

You go so far as to cast doubt on the completeness of Endo’s conversion...
It’s a speculation on my part, but I do think that he may have loved Christ, but was not particularly fond of Christians. One of the themes of the book, and of the film, is that Japan is not a place in which Christianity flourishes. Or so Endo believed in the 1960's and certainly the interlocutors of the various Jesuit priests who are tortured and then apostatize, in the book and in the film. They call it a swamp, a fen, a place where Christianity couldn't flourish. Although it had, obviously, prior to the persecution that began and that didn't cease until the Meiji era, which was some 100 years or more after the events which take place in silence.

Imagem do filme de Shinoda
In the many reviews I have read, you are the only one who has mentioned Masahiro Shinoda’s 1971 “Chinmoku”. How do the two compare?
Well Scorsese’s film is more interesting and is cinematically more compelling. The cinematography is more advanced, as you would expect a film made some 50 years later. However, there are great similarities between the two, and Endo's story is there, the apostasy is certainly there.

I guess there is a sense, in the earlier film, made by Shinoda, that the apostasy is perhaps more superficial than comes across in Scorsese’s film. Shinoda's film is darker, visually, but it is essentially the same story. I think both directors did justice to Endo and his vision.

And the acting in the earlier film is strange, in that the man who plays Sebastião Rodrigues does an awful lot of shouting. It is a peculiar thing. But as I also mention, what is remarkable is that the two American actors in the earlier film, both appear to speak Japanese, and that was a more interesting thing to watch in watching the film, because you really did get a sense that they really had, these two missionaries, immersed themselves in Japanese culture and understood, and were able to communicate with people in a way that doesn't really come across in the Scorsese film.

You also drew a comparison with the Joseph Conrad’s “Heart of Darkness”. Would you care to elaborate on that a bit?
I think many people know the story of the Joseph Conrad novel, of a man who is sent on a mission to try and find a fellow named Kurtz who has, as they say, gone native.

It takes place in Africa, and was, as many people now, remade by Francis Ford Coppola in his film Apocalypse Now, and set in Vietnam. The same character, Kurtz, is the man being sought. And again, it is very much a story about going native. Kurtz is an Ivory Trader in one film, and an American military commander in the other, he has become a kind of God-like figure to the people, to the natives in Africa, to the Montaignard tribesmen in Vietnam, and it is very much what is going on here, because going native is what happens to the characters in both Shinoda's film, in the book, of course, and in Scorcese's film.

Marlon Brando em "Apocalypse Now"
I think it is simply a carrying forward of this idea that Japan is a swamp, that there were times when a westerner goes into a situation trying to understand the people, and they end up kind of overwhelming him. He no longer wishes to be someone who imposes this foreign culture on the people he finds and the country he has come to serve.

In “Heart of Darkness” Kurtz writes letters back and forth to an organization Conrad calls the International Society for the Suppression of Savage Customs. Well, that is exactly, really, what the Jesuits have gone to Japan to do. And either you believe that that is valid, because they are bringing not only a series of new customs to replace the savage ones, but they are bringing the one true God into the understanding of people [or you don’t]. And I think that there is an anti-imperialist sense both in Conrad and in Endo and finally now, in Scorsese.

But when you say Endo must have been impressed by this concept of the Society for the Suppression of Savage Customs, do you know for a fact that he may have been influenced by it?
I do not know that for a fact, it is speculation.

Friday, 20 January 2017

O “Silêncio” de Scorsese: Três atitudes perante a perseguição

Antes de começar, dois pontos.

1º Este filme é baseado num livro de Shusaku Endo. Eu só vi o filme, não li o livro, embora tenha ouvido dizer que o filme é bastante fiel ao original, vou estar aqui a falar de subtilezas que são do filme e não sei se correspondem ao texto e às intenções de Endo.

2º Inevitavelmente, o texto terá spoilers, isto é, falará de várias coisas importantes no filme que, caso ainda não tenham visto, poderão afectar essa experiência e condicionar o visionamento. É um aviso. Se não viram, vejam, que vale mesmo a pena, e leiam o texto depois.


Antes de ir ver o “Silêncio” de Martin Scorsese, baseado no livro de Shusaku Endo, li várias recensões e falei longamente com pessoas que já conheciam o livro. As opiniões dividiam-se muito, mas reparei em muitos um medo ou uma preocupação de que o filme pudesse ser entendido como uma justificação da apostasia.

Depois de ter visto o filme, não concordo de todo com essa análise. Acho, até, que o que ele nos transmite é o contrário. Há várias razões para isso, mas apresento o que me parece ser uma chave de leitura do filme.

Scorsese apresenta-nos essencialmente três atitudes diferentes e possíveis diante da perseguição religiosa extrema. Em primeiro lugar temos os que não cedem e dão a vida pela sua fé. Neste filme este grupo de pessoas é representada essencialmente por pobres camponeses japoneses que praticavam o Cristianismo em segredo mas que, sendo descobertos, recusam a apostasia, preferindo a morte.

Depois há os que renunciam à fé, mas arrependem-se. Esta segunda categoria é representada por Kichijiro, um pescador que cresceu numa família cristã e que fugiu do Japão depois de toda a sua família ter sido martirizada. Nessa ocasião ele foi o único que renunciou, salvando a vida. Durante o filme vemos Kichijiro várias vezes a renunciar à fé, mas acabando sempre por pedir perdão e procurar a confissão sacramental.

Por fim há os que, após alguma resistência, renunciam e transformam-se, passando a viver uma vida consonante com a sua renúncia. Um exemplo é o padre Ferreira, um jesuíta português que, tendo cedido às torturas e à pressão das autoridades japonesas, comete apostasia e passa a viver como um japonês, com mulher e filhos, e é usado como instrumento para levar outros a abandonar a fé também, chegando a escrever um tratado sobre os “erros do Cristianismo”.

O filme começa com dois jesuítas portugueses – que ao contrário de Ferreira são figuras míticas, embora um deles se baseie numa figura real, mas não portuguesa – que partem para o Japão para saber notícias de Ferreira. Guiados por Kichijiro conseguem encontrar cristãos escondidos nas aldeias de pescadores, e desenvolvem os seus ministérios, para enorme alegria dos fiéis, até que são apanhados pelas autoridades.

Shusaku Endo
Uma vez capturados, o padre Francisco Garrpe não só recusa renunciar à fé como se lança à água para morrer juntamente com cristãos que estão a ser afogados pelos soldados. Já o padre Rodrigues, após uma longa batalha de vontades com o inquisidor japonês que quebrou Ferreira, acaba por ceder quando compreende que só assim consegue salvar a vida a cinco cristãos nativos que estão a ser torturados. Com o seu acto público de apostasia, pisando uma imagem de Cristo, passa a viver com todo o conforto, tal como Ferreira, sendo usado pelas autoridades para desmascarar cristãos e objectos de culto cristãos.

Qual destas atitudes é a certa? O filme não o diz explicitamente. Aliás, diria que é propositadamente dúbio. Somos levados a admirar os mártires, a sentir pena de Kichijiro e a compreender que Ferreira e Rodrigues renunciem para poder salvar inocentes.

Mas não havendo respostas explícitas, há sinais. A mim, o que me chamou mais atenção foi a questão da dignidade…

Aquilo que salta mais à vista na morte de todos os cristãos, durante o filme, é a enorme e admirável dignidade com que são representados. Desde os que são crucificados e deixados à mercê da maré enchente, chegando a cantar hinos religiosos enquanto são fustigados pelas ondas, aos que são lançados ao mar. Todos são um hino à dignidade. Mas há uma sequência que o mostra de forma muito explícita.

Quando vários cristãos são conduzidos de uma cela e convidados a pisar a imagem religiosa, todos recusam. Apesar de presos, estão vestidos de forma digna, e comportam-se assim, também. No final são todos reenviados para a cela, excepto um. Enquanto este espera, vemo-lo, surpreendentemente, a conversar de forma aparentemente relaxada com o guarda. Está de pé, de cabeça erguida, a falar com um guarda de igual para igual e a ser tratado como um homem. Do nada surge um dos inquisidores que lhe corta a cabeça, uma cena que recorda – duvido que não seja propositado – as decapitações de Cristãos na Síria, na Líbia e no Iraque nos últimos anos.

Logo a seguir, o inquisidor diz aos cristãos que há uma outra hipótese e manda chamar Kichijiro, que é convidado a pisar a imagem, penso que pela terceira vez desde o início do filme. O Kichijiro que aparece parece um primata. Vestido unicamente de cueca, sujo, desgrenhado, corre curvado, pisa a imagem medroso e foge de imediato para fora da prisão.

O contraste entre as duas posições não podia ser mais evidente. Os que morrem pela fé morrem inteiros e dignos. Os que abjuram, quanto mais o fazem, mais miseráveis ficam, por mais que se venham a arrepender. Mas há mais… Kichijiro ainda volta a aparecer, e no final do filme, inesperadamente, é-lhe descoberto um amuleto religioso. Nessa altura encontra-se já bem vestido e limpo. Quando tudo indica que a traição poderá novamente comprar-lhe a liberdade, é fiel aos seus amigos e, embora não se diga explicitamente, fica-se com a ideia de que acaba por ser martirizado. Quando os soldados o levam embora, vai direito, de cabeça erguida e a olhar em frente. Agora sim, um homem digno. Salvou-se no final, apesar de ter dado a vida.

E que dizer dos outros? A melhor expressão que encontro é que são carcaças de homem. Da primeira vez que Ferreira aparece, para tentar convencer Rodrigues a apostatar, nem lhe consegue olhar nos olhos, é todo ele autojustificação e arrogância. Mais tarde, quando Rodrigues lhe segue os passos, praticamente não voltamos a ver nele qualquer emoção. Não sorri, não revela compaixão por cristãos perseguidos. Está vazio. Se há alguma esperança de salvação para Rodrigues, esta parece chegar-lhe, surpreendentemente, de Kichijiro.

A apostasia é justificada? Scorsese não nos enfia uma resposta pela goela abaixo, mas penso que o seu filme deixa bem claro quais são as atitudes que mais respeitam a dignidade humana dos seus intervenientes.

Uma nota final, ligada a tudo isto… Várias vezes os inquisidores dizem aos cristãos que na verdade não querem saber daquilo em que acreditam ou não, apenas lhes interessa que façam o acto público, exterior, e serão deixados em paz. É a sedução do mal em todo o seu esplendor.

Mas outra coisa que ressalta muito claramente do filme, é que essas promessas são sempre falsas. Em primeiro lugar, vários dos cristãos que são mortos, segundo nos dizem, já renunciaram publicamente, mas são torturados para levar outros a renunciar. Em segundo lugar, nunca é só uma vez… Mesmo Ferreira e Rodrigues, que para todos os efeitos vivem vidas de exemplar colaboração com as autoridades, têm de assinar declarações de apostasia regulares e são repetidamente convidados a pisar publicamente as imagens sagradas em demonstração pública dessa mesma renuncia. Ou seja, a apostasia é um acto que nunca satisfaz quem o exige e nunca deixa em paz quem o pratica.


Podem ler as reportagens que fiz sobre o filme aqui e aqui. Aqui a opinião de Aura Miguel. Podem também ler as transcrições integrais das entrevistas que fiz para as reportagens, incluindo ao padre Adelino Ascenso, provavelmente o maior especialista sobre Shusaku Endo e a sua obra em Portugal. Aqui podem ler a transcrição da entrevista a Brad Miner e a do padre José Maria Brito.

Thursday, 29 September 2011

Iraniano condenado à morte por apostasia

Os judeus entraram ontem à noite no ano 5772, um bom ano para todos aqueles que recebem estes e-mails!
Quanto a notícias, o cristão iraniano Yousef Nadarkhani recusou hoje pela quarta vez renegar a sua fé diante do tribunal. Pode agora ser executado a qualquer momento.
Todos aqueles que se interessam por arquitectura gostarão de saber que já existe um curso para arquitectura de igrejas.

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