No meu dia-a-dia, em transportes públicos e no bairro onde
vivo, é frequente assistir às litanias de queixas dos idosos. Sem pôr em causa
a legitimidade das suas queixas, confesso que é deprimente perceber que há
pessoas que chegam à velhice desiludidas, revoltadas, que apenas vêem razões
para refilar sobre tudo o que se passa no mundo.
Vem isto a propósito de Hans Küng. O teólogo suíço é
simultaneamente o porta-voz e o espelho de uma corrente dentro da Igreja que se
assume como crítica da hierarquia e, sobretudo, do Papa.
Tal como as velhinhas que ouço a falar no eléctrico, Hans
Küng só se sabe lamentar.
Há semanas, tendo sido convidado para participar num evento
comemorativo do Concílio Vaticano II, o teólogo suíço agradeceu mas recusou,
dizendo que no clima actual da Igreja, seria mais adequado um serviço fúnebre.
Agora, contudo, parece ter perdido completamente o norte e
num texto publicado num jornal alemão chega ao ponto de acusar o Papa de ser cismático. Sim, leram bem, não é Küng – que está impedido de ensinar teologia
católica, que abraça movimentos que fazem “apelos à desobediência” e que aceita
de bom grado prémios entregues pela maçonaria – que é cismático… é Bento XVI.
E porquê? Tudo porque o Papa cometeu o terrível pecado de
convidar de volta à comunhão da Igreja cristãos que estavam afastados há muito
tempo. Um gesto louvável de ecumenismo, dirão alguns… e não é Küng um grande
defensor do ecumenismo?
Mas o problema é que estes, que tudo indica irão agora
regressar à Igreja, são os cristãos errados. Não são os protestantes amigos de
Küng, são os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X, e para Küng, pelos
vistos, a hospitalidade ecuménica deve servir-se só a alguns.
Küng alerta que os tradicionalistas da SSPX são “ultra-conservadores,
anti-democráticos e anti-semitas”. Eu próprio já argumentei aqui que apesar de ser favorável a esta reintegração, os membros da SSPX são, em boa parte, gente complicada, triunfalista e arrogante.
Mas serão mais desagradáveis que os 400 ou mais padres que,
sobretudo na Áustria fazem “apelos à desobediência”, professam abertamente opiniões
que são incompatíveis com o catolicismo mas que, todavia, continuam em comunhão
com Roma? Devem uns estar dentro e outros fora?
No seu texto, Küng avisa que os bispos e padres
tradicionalistas têm ordens “certamente inválidas”. É uma opinião que alguns,
muito poucos, defendem, mas que o Vaticano sempre descartou. Tanto que qualquer
católico pode, sobretudo se não tiver um sacerdote ou uma paróquia “regular”
por perto, participar dos sacramentos com sacerdotes da SSPX.
Mas o mais curioso é que mais à frente Küng afirma que em
vez de perder tempo com estas criaturas terríveis, o Papa devia era “reconciliar-se
com as igrejas reformadas” [protestantes]. Sr. Padre Küng, se as ordens dos tradicionalistas
da SSPX são inválidas, as do clero das igrejas reformadas são o quê?
Humildade e
obediência
Küng está revoltado. Foi um dos protagonistas do Concílio Vaticano
II e é com horror que, perto do fim da sua vida, vê na Igreja um ambiente que
pretende recuperar alguma da herança que depois do Concílio se pensava perdida.
Ele, e outros, mostram-se muito ciosos dos documentos conciliares nesta altura,
esquecendo-se que nos mesmos documentos que juram estar a defender, não existe
qualquer abertura ao sacerdócio feminino, à aceitação das práticas homossexuais
ou à abertura da Eucaristia a todos, que tão vigorosamente advogam. É o
grande problema do “Espírito do Concílio”, aquela coisa vaga que serve para cada
um defender o que bem quiser com a suposta autoridade do Vaticano II.
Até coloco a hipótese, embora para mim pouco provável, de
Küng ter razão nos seus queixumes. Não há falta de exemplos de santos e santas
que foram injustiçados pela hierarquia e silenciados, tendo sido reabilitados
só postumamente. Mas a grande diferença entre esses e Küng é o espírito de
obediência, fruto de uma tremenda humildade. Coisa que quem promove “apelos à
desobediência” jamais compreenderá.
Sei que Hans Küng tem trabalho feito, e bem feito, na área
da Teologia. Que é um dos teólogos incontornáveis do século XX, sobretudo do
período do concílio.
Filipe d'Avillez


