Por esta altura já toda a gente sabe que Gentil Martins
deu uma entrevista em que disse uma coisa inadmissível. Mas a maior parte das
pessoas está zangada pela razão errada.
Os progressistas pedem a cabeça de Gentil Martins numa
bandeja por ele ter dito que a homossexualidade é uma anomalia. A frase exacta
foi: “Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio
da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam.”
Gentil Martins, dizem, não pode ser bom médico, nem boa
pessoa, nem bom da cabeça, se acha que a homossexualidade é uma anomalia. É
indiferente ele ter dito que quando tem um doente à frente se está nas tintas
se é homossexual ou não. Se não afirma a “identidade sexual” do doente, devia
ir preso.
Mas para tudo isto ser verdade, para esta indignação ter
pés e cabeça, é necessário que o que Gentil Martins disse seja errado. E para
ser errado é necessário que se saiba explicar, de forma clara e sem margem para
dúvidas, o que faz com que as pessoas sejam homossexuais. Alguém descobriu isso
nos últimos tempos sem que eu tenha reparado?
A indignação implica que a homossexualidade seja uma
coisa tão normal como a heterossexualidade. Ou seja, implica que o
desenvolvimento natural do aparelho reprodutor e do instinto sexual de algumas
pessoas sejam direccionados a algo que não conduz à reprodução.
É possível que assim seja? Talvez, já li sobre bastantes
teorias nesse sentido. Está provado? Mostrem-me onde.
Enquanto não estiver provado, a opinião de Gentil Martins
pode ser mais ou menos simpática, mais ou menos sensível à luz das modas dos
nossos tempos, mas não pode ser crime nem pode ser motivo para esta perseguição
que se tem movido.
Sobretudo quando vemos que a moda de dizer que a religião
é uma doença mental ou uma forma de abuso infantil não merece a mesma
condenação por parte dos arautos do politicamente correcto, ou será que houve
uma indignação liberal contra Richard Dawkins, o querido do movimento
secularista anti-religioso, que me passou despercebida?
Mas eu comecei este texto por dizer que Gentil Martins
tinha dito uma coisa inadmissível, e mantenho que o fez. A frase é esta. “Sou
completamente contra os homossexuais, lamento imenso”.
Porque é que esta frase não causou mais indignação? Como
é que alguém pode dizer que é “completamente contra” um grupo abstracto de
pessoas sem que isso seja mais polémico que fazer uma afirmação que está em
sintonia com aquilo que era consenso científico até há alguns anos e é assumido
pelas principais religiões de todo o mundo?
Gentil Martins é contra os homossexuais? Todos? Porquê?
São generalizações como estas que são fáceis de fazer mas
que vão cavando um fosso cada vez maior entre as pessoas levando os
homossexuais a sentir que pessoas como eu – que acham que o ideal para as
crianças é terem pai e mãe; que acham que o casamento só faz sentido se for
entre pessoas de sexo diferente e que têm uma visão da sexualidade e de família
que choca com a visão socialmente dominante – estão do lado de lá de uma
barricada.
Mas eu não quero estar numa barricada. Eu recuso a imagem
da fortaleza sitiada da Cristandade ou da guerra cultural. Tenho adversários
ideológicos, mas não quero ter inimigos, mesmo que eles me odeiem, como sei que
alguns odeiam.
Nós não podemos ser “contra os homossexuais”, menos ainda
“completamente contra os homossexuais”, primeiro porque isso pressupõe que
todos os homossexuais são iguais e pensam da mesma maneira, o que é obviamente
um disparate, e segundo, porque isso reduz um grupo grande de seres humanos,
com toda a sua complexidade, com a sua indelével dignidade, profundamente amados
por Deus, a uma única característica que ainda-por-cima não é escolhida.
Não conheço pessoalmente Gentil Martins mas acredito que
se ele lesse estas palavras concordaria com elas e compreenderia que a frase
que usou foi infeliz. Mas é precisamente porque muitos de nós continuamos a
deixar escapar essa e outras frases infelizes com demasiada frequência que
sinto que devo chamar atenção para isso, sabendo porém que a minha voz
dificilmente se fará ouvir entre os clamores dos gritos por causa da outra
situação, muito menos relevante.