quinta-feira, 12 de abril de 2012

Bodleian e Vaticano de mãos dadas, tensão na Guiné

Bodleian Library


O único ministro católico do Paquistão esteve em Bruxelas e foi recebido pelas entidades europeias. Paul Bhatti pediu protecção para os cristãos do seu país. Paul é irmão de Shahbaz Bhatti, que foi ministro antes dele e foi assassinado por ser cristão.

Na Guiné Bissau os ânimos estão exaltados por causa do período eleitoral. Os bispos pedem calma e serenidade e apelam à reconciliação.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Corrupção em Timor, silêncio tradicionalista

O Patriarca de Lisboa fez ontem um discurso sobre a missão da Renascença. Como tende a acontecer quando fala de improviso, D. José Policarpo foi simples, muito simpático e divertido.

Menos positivo foi o Bispo de Baucau, em Timor-Leste, que falou da existência de corrupção no seu país.

Do Irão chega-nos uma notícia preocupante de 12 cristãos que foram detidos e poderão enfrentar a pena de morte se forem condenados por “crimes contra a ordem pública”.

Faltam quatro dias para que a Sociedade de São Pio X faça chegar a Roma a sua resposta em relação à proposta de reintegração plena na Igreja Católica. Ao contrário de prazos anteriores, este não tem sido antecedido de comentários públicos por parte dos bispos da Sociedade. No meu entender, isto pode ser bom sinal.

E porque hoje é quarta-feira temos um novo artigo de The Catholic Thing. “Nesta curta vida temos duas hipóteses. Andamos à volta da igreja, ou andamos em direcção a ela”, escreve Ashley McGuire, curiosamente a primeira mulher que figura nos artigos deste site que traduzimos até agora.

Marchemos, meus irmãos católicos

Texto de Ashley McGuire
Há quatro anos, na manhã de Páscoa, despertei de um sonho com suores frios.

Estava a andar no meio de uma multidão, sem conseguir ver nada para além das pessoas que me apertavam de todos os lados. Não via para onde íamos, apenas sabia que andávamos à volta de alguma coisa num grande círculo. De repente parei e, contrariando o fluxo, fui em direcção ao centro.

Quando cheguei a uma clareira vi-me frente-a-frente com um ancião, sentado em cima de uma rocha. Era a única coisa que se encontrava ali.

Chamou-me pelo meu nome e perguntou-me se eu sabia quem ele era. Respondi: “És um discípulo de Cristo. És Pedro.” (Já na altura não fazia a menor ideia de onde me tinha vindo essa resposta.)

Respondeu, “Sim. E chegou a hora de vires comigo.”

Acordei exaltada. Horas mais tarde encontrava-me nos bancos de uma igreja protestante, com os pensamentos à deriva no meio de uma homilia pascal. Peguei na Bíblia e abri-a em Mateus 16,18: “Tu és Pedro e sob esta rocha edificarei a minha Igreja.”

Exactamente um ano mais tarde tornei-me católica.

Há alguns domingos, enquanto atravessava a Pennsilvania Avenue em Washington, D.C. para entrar numa igreja com o meu marido ao meu lado, o vento fez esvoaçar a blusa à volta da minha barriga, inchada com nova vida.

Os transeuntes tinham o olhar cansado e vago de uma noite de excessos. Havia lixo no passeio. Tanto as pessoas como os papéis atravessavam à frente da porta da Igreja, soprados lentamente pelo vento, como se aquela nem lá estivesse, sem qualquer destino concreto.

Por breves instantes senti-me de volta ao meu sonho, um pé suspenso por cima da passagem de peões, a minha bainha a subir lentamente em direcção às portas. O vento também me tentava empurrar, mas tinha o olhar fixo em São Pedro e na sua Rocha.

Era Domingo Laetare. A missa era da comunidade filipina, o padre era africano, duas mulheres traduziam os cânticos para língua gestual. A Igreja Universal. Apertada entre o mercado e a loja de ferragens. As leituras versavam uma das aparentemente incontáveis destruições deste ou daquele templo. O padre recordava-nos que cada vez que sentíamos o aperto do nosso sacrifício quaresmal, dávamos mais um passo em direcção a Cristo.

Nesta curta vida temos duas hipóteses. Andamos à volta da igreja, ou andamos em direcção a ela.

É assim tão simples. Ou caminhamos atrás de Cristo, a sacudir os demónios que pousam sobre os nossos ombros, sob o peso terrível do pecado. Caindo ao chão para sentir o sabor do Sangue. Um doce toque da Carne. Ou estamos de pé, nas margens, a observá-Lo.

No passado fim-de-semana, durante o Tríduo Pascal, os católicos americanos fizeram uma pausa de todo o caos da discussão do decreto da HHS [que visa forçar instituições católicas a suportar o custo de serviços contraceptivos e abortivos para os seus funcionários] para permanecer aos pés da Cruz. Ficámos lá num silêncio tão profundo que alguns conseguiam ouvir o madeiro a ranger no vento.

Naquele espaço de tempo entre a Quaresma e a oitava da Páscoa em que nos encontramos agora, o tempo fica suspenso e agarramo-nos à Cruz. Sentimos as suas farpas na nossas face molhada. Dormimos sonos irrequietos enquanto os agentes de Satanás, com as suas memórias truncadas, pensam por uma questão de horas que a vitória lhes vai sorrir.


E depois regozijamos na glória da Páscoa. O sepulcro está tão vazio, o mundo tão cheio. A vida é novamente sensual. As nossas almas cheias.

E então chega a segunda-feira de manhã e o Cardeal Dolan está de volta à televisão a defender a Igreja contra o decreto da HHS e Ross Douthat recorda-nos da crescente polarização da religião na América.

O nosso “inbox” está zangado por termos tirado o fim-de-semana para seguir a Cristo na sua Via Sacra, de nos termos colocado ao lado da sua mãe enquanto Ele morria e festejado com as mulheres, carregadas de óleos, quando vimos que o seu corpo tinha desaparecido no Domingo de manhã.

Mas a Páscoa acaba, o mundo volta à carga. Satanás pega na sua arma chamada “mundano”.

Aconteça o que acontecer com este decreto da HHS, não nos esqueçamos que a nossa é uma Igreja que já sobreviveu a mais do que um abuso burocrático. Sobreviveu a séculos de guerra e perseguição. Viu os seus templos arrasados, reconstruídos e demolidos de novo. Sobreviveu até à fumaça de Satanás no seu seio.

Actualmente sobrevive a um período de grande descrença e hostilidade. De facto, prospera misteriosamente.

Por isso enquanto descemos do Calvário e regressamos ao tempo comum mais uma vez, encontraremos novamente os males diários que atravessam os nossos caminhos. Tal como o decreto da HHS.

Deixem-me ser clara. O decreto da HHS é talvez o mais grave atentado contra a nossa Igreja que alguma vez se viu na América moderna. Estes não são tempos comuns para os católicos americanos

Mas a nossa Igreja está edificada na mais eterna das rochas.

E as portas do Inferno não prevalecerão contra Ela.

Marchemos, então, meus irmãos católicos.


Ashley E. McGuire é directora da AltCatholicah.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 11 de Abril 2012 em www.thecatholicthing.org)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Que horas em Moscovo? Hora de Borrego no Alentejo

Começaram hoje as celebrações dos 75 anos da Renascença. D. Nuno Brás, que presidiu a uma missa de acção de graças, considera que os ouvintes esperam ver nos funcionários da Renascença o Rosto de Deus. Cá vamos fazendo os possíveis.


Hoje, no Alentejo, o Borrego é rei e senhor… Pelo menos na medida em que representa o “outro” Senhor…


Terminamos com duas notícias do mundo islâmico. Um diz respeito ao jovem cristão que foi condenado a três anos de prisão no Egipto, por blasfémia, outro diz respeito à existência, ou não, de igrejas na Península Arábica. Um responsável turco diz que sim, em nome da tolerância muçulmana.

Silêncio prometedor da Sociedade de São Pio X?

A seis dias do prazo dado por Roma para uma nova resposta dos responsáveis da Sociedade de São Pio X (SSPX), fundada pelo falecido arcebispo Marcel Lefebvre, o que mais me surpreende é precisamente o silêncio acerca deste assunto.

Vamos recapitular. Depois de alguns anos de conversações a Igreja fez uma proposta concreta à Sociedade, que se encontra fora de comunhão com Roma. Caso a Sociedade aceite um “preâmbulo doutrinal”, cujo conteúdo não foi revelado, terá direito a um lugar especial, com bastante autonomia, dentro da Igreja, com a sua situação canonicamente resolvida. Mais uma vez, os detalhes não são certos, mas foram descritos como bastante generosos.

A Sociedade, chefiada actualmente pelo Arcebispo Fellay, enviou uma resposta para Roma que foi considerada insuficiente. Depois de algum estudo Roma disse-o e afirmou que esperava outra resposta até ao dia 15 de Abril. O termo “ultimato” nunca foi usado, mas tem sido entendido como tal por muitos.

Acontece que antes da Sociedade enviar a sua resposta inicial o arcebispo Fellay falou em público em várias ocasiões deixando várias vezes a impressão de que ela seria negativa.

Agora, pelo contrário, parece reinar o silêncio. Com o tríduo pascal não têm faltado ocasiões para fazer homilias em que possa expressar novamente essas ou outras opiniões, mas Fellay não o tem feito, contrastando claramente com atitudes anteriores, sobre os quais escrevi aqui e aqui.

Que quer isto dizer? Será o silêncio um bom sinal? Talvez as declarações negativas de há meses tenham sido uma forma de “bater o peito” e mostrar que a Sociedade não iria ceder de mão beijada. Não leiam isto como uma crítica, pode ser uma forma de tentar manter unida a Sociedade, onde certamente existem opiniões divergentes.

Dia 15 de Abril a resposta da SSPX será conhecida. Se é para ser tornada pública no imediato ou não, não sei, mas estaremos atentos.

Todos aqueles que desejam que essa união aconteça devem seguir o principal conselho tanto de Roma como dos membros da SSPX e rezar. Mas este silêncio, em minha opinião, pode ser um sinal prometedor.

Filipe d’Avillez

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Liberdade, potencial e Interrupção pascal

Ícone Etíope da Crucifixão de Jesus
Começou hoje a passar na Renascença uma série de cinco reportagens sobre palavras que associamos à Semana Santa mas que também atravessam o nosso quotidiano. São trabalhos de Aura Miguel e de José Pedro Frazão, que passam em Antena a seguir ao jornal do meio-dia e que não devem perder.



Ontem o Patriarca de Lisboa proferiu a sua última catequese quaresmal de 2012, dirigido aos jovens. Estes devem ter a “coragem de olhar de frente o mistério de Jesus”, afirmou.

No Egipto os coptas abandonaram a comissão que está a preparar a nova Constituição, por esta estar totalmente dominada por muçulmanos fundamentalistas.

Esta semana não haverá mais mails, mas volto a seguir à Páscoa. Por essa razão antecipei a publicação do artigo desta semana de The Catholic Thing, no qual o filósofo Francis J. Beckwith reflecte sobre a diferença entre “pessoas em potência” e “pessoas com potencial”.

“Pessoas em potência” na discussão sobre “Aborto pós-parto”

Francis J. Beckwith  
Como os leitores de The Catholic Thing bem sabem, o Journal of Medical Ethics, um periódico para o qual já contribuí, publicou recentemente um artigo controverso, “Aborto pós-parto: Porque é que o bebé há-de viver?”, escrito pelos filósofos Alberto Giubilini e Francesca Minerva.

Ao longo do artigo os autores referem-se a fetos e a recém-nascidos como “pessoas em potência”, um termo que certamente parecerá um estranho neologismo para aqueles que não estão habituados às lides da filosofia contemporânea. É, contudo, um termo que tem sido usado na literatura de bioética há mais de quatro décadas.

Segundo Giubilini e Minerva, “fetos e recém-nascidos são pessoas em potência porque podem desenvolver, graças aos seus mecanismos biológicos, aquelas propriedades que as tornarão ‘pessoas’ no sentido de ‘sujeitos com um direito moral à vida’: isto é, o ponto a partir do qual poderão traçar objectivos e apreciar as suas próprias vidas.”

É por isto que, argumentam os autores, é moralmente permissível matar tanto fetos como recém-nascidos. São apenas pessoas em potência, não são pessoas de verdade.

Os autores “definem ‘pessoa’ como significando alguém que é capaz de atribuir à sua própria existência (pelo menos) algum valor, ao ponto de que a privação da mesma seria entendida como uma perda para ela.” Daí, um feto não é uma pessoa porque não tem maturidade suficiente para apreciar os seus próprios interesses. Mas essa é a própria definição de feto. Logo, um feto não é uma pessoa, porque é um feto. É um argumento sem brechas pela simples razão de que é perfeitamente circular.

Apesar de “pessoa em potência” ser uma etiqueta comum no mundo académico da bioética, os dois termos “potencia” e “pessoa” têm um longo e rico historial que poucos no mundo da bioética, incluindo Giubilini e Minerva, parecem compreender.

Por exemplo, o carvalho no meu jardim é uma secretária em potência, ou seja, um carpinteiro pode construir uma secretária com as partes que em tempos foram o meu carvalho. Quando o carvalho é morto, antes de o carpinteiro começar a trabalhar nele, a sua existência cessa em termos literais. Não há nada na natureza do carvalho que o ordena a ser uma secretária, nem quando era bolota nem quando foi ordenado a tornar-se uma versão madura de si mesmo.

Por isso quando os autores dizem que um feto é uma “pessoa em potência” não se estão a referir a este tipo de potencial, porque consideram que o feto continua a ser o mesmo ser, antes e depois de se “tornar” pessoa.

Talvez por potência queiram dizer no sentido em que eu sou um “potencial membro do corpo docente da faculdade de Amhurst”. Mas isso não me parece correcto, porque esse potencial é o de adquirir uma propriedade acidental que não é essencial à minha natureza. Isto é, se eu permanecer em Baylor, continuo a ser eu. Quero eu pese 87 ou 93 quilos, seja um canalizador, um professor, um padeiro ou um artesão de candelabros, não afecta aquilo que eu sou enquanto ser.


Mas como já vimos, Giubilini e Minerva afirmam que todos os fetos têm a mesma natureza, “porque podem podem desenvolver, graças aos seus mecanismos biológicos, aquelas propriedades que as tornarão ‘pessoas.’”

Em conclusão, segundo Giubilini e Minerva, nós somos o mesmo ser que eramos enquanto fetos e o nosso potencial para exercer certos poderes pessoais – incluindo o potencial de exercer as capacidades de “traçar objectivos e apreciar a [nossa] própria vida”, não são acidentais à nossa natureza. Logo, o feto não é uma pessoa em potência no sentido em que se “torna” outra coisa – como o carvalho se “torna” uma secretária. E não é uma pessoa em potência no sentido em que a aquisição de poderes pessoais é acidental à sua natureza – como quando o meu peso passa de 93 para 87 quilos.

O que significa que a capacidade de exercer estes poderes pessoais é essencial à natureza do feto, uma natureza que retém antes e depois de se tornar capaz de os exercer.

Nesse caso, porém, o feto não é uma pessoa em potência. É aquilo que é: um ser com uma natureza pessoal e, por essa razão, tem propriedades essenciais que incluem a capacidade para a expressão pessoa, pensamento racional e acção moral. A maturação destas capacidades são aperfeiçoamentos da sua natureza e por isso, contrariamente ao que Giubilini e Minerva defendem, o feto humano pode ser injustiçado ainda antes de ter consciência de que o foi.

Imagine, por exemplo, que um cientista cria vários embriões através de fertilização in vitro. Depois implanta os embriões em úteros artificiais e, enquanto se desenvolvem, obstrui os seus tubos neurais de maneira a que nunca adquirem funções cerebrais superiores e por isso nunca se podem tornar aquilo que Giubilini e Minerva consideram “pessoas”. O médico age desta forma para poder colher os órgãos destes fetos.

Imagine que, depois de saber desta experiência terrível, um grupo de radicais pró-vida entra no laboratório do cientista e transporta todos os úteros artificiais, com os embriões intactos, para outro laboratório, localizado nas caves do Vaticano. Ali, vários cientistas pró-vida injectam os embriões com medicamentos que restauram os seus tubos neurais, permitindo que os seus cérebros se desenvolvam normalmente. Depois de nove meses os ex-fetos, agora recém-nascidos, são adoptados por famílias.

Se considera que aquilo que os cientistas fizeram foi não só bom, mas um acto que justiça requer, então resulta que acredita que os embriões são seres de natureza pessoal, ordenados para certas perfeições que, quando obstruídas, resultam numa injustiça. Mas nesse caso os embriões não são pessoas em potência, são só pessoas com potencial.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 16 de Março 2012 em www.thecatholicthing.org)  

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É um dos quatro principais autores de Journeys of Faith: Evangelicalism, Eastern Orthodoxy, Catholicism and Anglicanism (Zondervan, 2012), a ser publicado brevemente.

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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