sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As notícias debaixo de uma não-notícia

Hoje os meios de comunicação social, que tanto gostam de ignorar os assuntos religiosos, acordaram em sobressalto com a notícia de uma “Conspiração para matar o Papa”.

Olhando mais de perto esta notícia, supostamente alarmante, estava tão cheia de buracos que mais parecia um passador.

Então o que se passou foi mais ou menos o seguinte: O Cardeal Romeo, Arcebispo de Palermo, na Sicília (nem de propósito…), foi à China em Novembro de 2011. Não se percebe muito bem o que é que lá foi fazer, mas no decurso da visita teve um encontro com empresários italianos.

Durante um jantar, (talvez para o final do jantar?), começou a debitar “informações” sobre a política interna do Vaticano. Que o Papa não gosta do Cardeal Bertone (Secretário de Estado, logo nº 2 da hierarquia); que o quer substituir mas não sabe por quem; que Bento XVI quer que quem o suceda seja o Cardeal Angelo Scola, novo arcebispo de Milão e que ele, o Cardeal Romeo, forma juntamente com o Papa e Scola uma “troika” de pessoas de confiança. Deve ser pela discrição…

Cardeal Paolo Romeo, membro da "Troika"

No meio desta conversa Romeo terá dito que o Papa estaria morto dentro de 12 meses. Os seus interlocutores ficaram alarmados e um deles acabou por contar a história ao Cardeal colombiano Castrillon Hoyos, que trabalhou durante muitos anos na Curia Romana. Hoyos terá escrito então uma nota para o Papa Bento XVI informando-o das conversas e da alegada “conspiração”, em Janeiro de 2012.

O documento chegou entretanto ao jornal italiano “Il Fatto Quotidiano” que hoje publicou a tal notícia da “conspiração para matar o Papa”.

O vaticanista Andrea Tornielli garante que o documento original existe e que foi mesmo recebido na secretaria de Estado, onde “depois de uma primeira leitura e alguns risos não se deu mais importância ao assunto, apesar de ter sido dado conhecimento ao Papa”.

Segundo o “Il Fatto Quotidiano” Romeo “jamais teria imaginado que os seus comentários chegariam ao Vaticano”, porque evidentemente o Cardeal confundiu com um conclave o seu jantar bem regado com empresários.

Na verdade Romeo nunca fala numa conspiração, tanto quanto sabemos poderia estar a falar de uma doença ou, até, não saber do que estava a falar…

E assim, meus amigos, se fazem manchetes com base numa não notícia.

Mas neste caso da “conspiração para matar o Papa”, haverá notícia debaixo da não-notícia? Talvez. É que a “conspiração” pode ser absurda, mas as palavras sobre Bertone são graves e não aparecem num vácuo.

Cardeal Bertone

Quem conhece a Igreja sabe que o Vaticano não é necessariamente um local muito simpático para trabalhar. Há muita política, muita luta pelo poder… coisas que deixariam qualquer devoto deprimido. O verdadeiro alvo de toda esta questão poderá ser Bertone, cuja actuação tem sido alvo de muitas críticas.

Lembram-se da recente notícia do actual Núncio Apostólico nos Estados Unidos que denunciou casos de corrupção no Vaticano? Também nessa notícia, que resultou da divulgação de cartas pessoais à imprensa, quem ficou pior na fotografia foi Bertone.

Afinal, se calhar, a conspiração existe. O alvo pode é não ser o Papa…

Filipe d’Avillez

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Karmapa Lama e John Coltrane, ora pro nobis


A questão da auto-imolação já foi explorada em mais detalhe no blogue, aqui.


E como hoje há pouca coisa chamo a vossa atenção para um vídeo que revela o quão bizarro se pode tornar o mundo da religião. Apresento-vos a Igreja Ortodoxa Africana de São John Coltrane…

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Obama recua? "Omerta" na Igreja

Estará Obama a ceder na sua “guerra” com os bispos americanos? É o que parece, embora os democratas queiram que pareça outra coisa…


Em Roma continua o simpósio sobre abusos sexuais. Um alto-funcionário do Vaticano comparou o encobrimento de casos a uma cultura mafiosa. Palavras duras, sobretudo em contexto italiano, que terão deixado algumas orelhas a arder.

E numa altura em que cresce a contestação ao regime iraniano e ao seu projecto nuclear, eis que Ahmadinejad decide dizer que gostaria muito de receber o Papa em Teerão. As relações entre o Irão e a Santa Sé estão repletas de nuances e de curiosidades, que pode conhecer aqui.

Não se esqueçam que as notícias mais interessantes/importantes são lançadas na hora no Facebook… apareçam.

O novo Anticatolicismo

por Francis J. Beckwith

O anticatolicismo antigo encontrou expressão em meados do século XIX quando a primeira onda de imigrantes católicos chegou aos Estados Unidos. Alguns destes grupos estabeleceram escolas religiosas privadas. Muitos dos americanos não-católicos, porém, estavam convictos de que as escolas católicas doutrinavam os alunos com superstições que eram incompatíveis com os princípios da democracia americana. Logo, para ter a certeza que estas escolas não recebessem financiamento público, foi proposta legislação que proibia o uso de recursos públicos para propósitos “religiosos”, leia-se católicos.

A tentativa mais ambiciosa para transformar este sentimento em lei foi a chamada “Emenda Blaine”, baptizada com o nome do congressista que a propôs. No seu texto lê-se: “Nenhum Estado fará qualquer lei respeitante ao estabelecimento nem ao impedimento de livre prática de uma religião; nem o dinheiro dos impostos cobrados para o financiamento de escolas públicas, nem qualquer quantia de fundos públicos, nem quaisquer terrenos públicos poderão ser cedidos a qualquer seita religiosa, nem estes dinheiros ou terrenos poderão ser divididos entre seitas religiosas ou denominações.

Apesar de nunca se ter tornado parte da Constituição, alguns estados individuais passaram leis ou emendas constitucionais deste género que ainda estão em vigor. O espírito destas leis, bem como o anticatolicismo que motivaram, apenas começaram a dissipar-se depois da eleição de John F. Kennedy, o primeiro presidente católico da América, em 1960.

Mesmo uma das grandes figuras da história da minha universidade, J.M. Dawson (1879-1973), escreveu as seguintes linhas no seu livro “Separate Church and State Now”, de 1948: “Os católicos... aboliriam o nosso sistema de ensino público, que é o principal factor de unidade nacional, e substitui-lo-iam pelas suas escolas paroquiais medievais do velho-mundo, com as suas culturas estrangeiras. Ou então tornam claro que querem que sejam instalados meios para ensinaram a sua religião nas escolas públicas.

Este sentimento encontrava-se de tal forma generalizado que Kennedy foi forçado a confrontá-lo num discurso que proferiu no Greater Houston Ministerial Association durante a sua campanha presidencial.

Por mais fragilidades que o antigo anticatolicismo tivesse e por mais que fosse alimentado por preconceitos nalguns sectores, jamais exigiu ao Governo que obrigasse a Igreja Católica a alterar as suas práticas e crenças nos vários meios em que servia o povo americano. Por exemplo, não teria ocorrido aos antigos anticatólicos sugerir ao Governo que penalizasse de alguma forma hospitais católicos, organizações caritativas ou escolas caso estas não praticassem coisas que a Igreja considera gravemente imorais.

Isto porque o antigo anticatólico típico considerava-se guardião da tradição de separação entre a Igreja e o Estado proposta por James Madison e Thomas Jefferson, bem resumida nestas palavras de Jefferson: “Seja portanto decretado por esta Assembleia Geral que nenhum homem deve ser forçado a frequentar ou apoiar qualquer serviço religioso, lugar ou ministério que seja, nem será forçado, restringido, molestado ou ferido no seu corpo ou nos seus bens, nem sofrerá de qualquer forma por causa das suas crenças e da sua opinião religiosa; mas que todos os homens sejam livres de professar, e manter, livremente discutindo, as suas opiniões em matéria de religião, e que estas não sirvam para diminuir, engrandecer ou afectar as suas capacidades civis.

Thomas Jefferson
Uma vez que o antigo anticatólico defendia este princípio jeffersoniano, ele respeitava o direito dos católicos à liberdade religiosa e a desenvolver as suas instituições de saúde, académicas ou caritativas, para melhor poder praticar e propagar aquilo que acreditavam ser os ensinamentos de Cristo e da Sua Igreja. Desde que o Católico não exigisse que o Governo usasse o dinheiro do anticatólico para financiar estas instituições este estava mais que disposto a praticar a verdadeira tolerância para com o católico e a Sua Igreja, apesar de, tipicamente, considerar o Catolicismo uma religião falsa e repugnante.

O tempo do antigo anticatolicismo acabou há muito, mas há um novo anticatolicismo, assim apelidado pelo respeitado historiador Philip Jenkins, meu colega em Baylor. Expressa-se na hostilidade e profundo desprezo das muitas posições morais defendidas pela Igreja Católica. Em questões como o aborto, a eutanásia, as práticas homossexuais, o “casamento” homossexual, ordenação de mulheres e contracepção, o novo anticatolicismo é firmemente contra ecclesia.

Mas este novo anticatolicismo não adopta a postura do crítico humilde, disposto a aprender, que procura dialogar com a Igreja sobre assuntos acerca dos quais cidadãos racionais com diferentes tradições teológicas e morais podem discordar. Pelo contrário, recorre ao poder coercivo do Estado para forçar as instituições da Igreja a violar a teologia moral da própria Igreja e assim comprometer, ou tornar menos acessível, a sua missão de caridade e esperança.

O caso mais evidente foi a recusa recente por parte do Departamento de Saúde e Serviços Humanos de emendar os novos regulamentos que obrigariam todos os planos privados de saúde, incluindo aqueles oferecidos por instituições católicas, a fornecer contraceptivos, esterilização e alguns medicamentos abortivos sem taxa ou comparticipação. A única isenção religiosa é tão restritiva que não impede o Governo de obrigar praticamente todos os hospitais, universidades e organizações de identidade católica a cooperar materialmente com actos que a Igreja ensina que são gravemente imorais.

O novo anticatolicismo não só rejeita o princípio jeffersoniano; vira-o de pernas para o ar. Em vez de exigir que a Igreja Católica o deixe em paz, como defendia o antigo anticatólico, é o novo anticatólico que não deixa a Igreja em paz. O antigo anticatólico consideraria deselegante e mesmo antiamericano usar coerção do Estado para obrigar o católico a apoiar e pagar coisas que violem a sua consciência. O novo anticatólico está apostado em liderar um Movimento para Ocupar o Vaticano.


Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É um dos quatro principais autores de Journeys of Faith: Evangelicalism, Eastern Orthodoxy, Catholicism and Anglicanism (Zondervan, 2012), a ser publicado brevemente.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 3 de Fevereiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Vaticano discute abusos e bahá'ís perseguidos no Irão

No Vaticano por estes dias discute-se a questão dos abusos sexuais. Segundo o padre Morujão, que representa os bispos portugueses, “não se quer só falar, quer-se falar para agir”. Há várias notícias de ontem e de hoje sobre o assunto, podem começar por esta e seguir as ligações.


Hoje entrevistámos um representante da religião Bahá’í que nos falou sobre a perseguição a que são sujeitos os seus correligionários no Irão. A entrevista está transcrita aqui e nela podem aprender mais sobre esta religião a que pertence o nosso medalhista olímpico Nelson Évora.


E por falar em futebol e religião (uma mistura sempre fascinante), cliquem aqui para ver o vitral de um futebolista numa igreja…

Os bahá’í vivem numa espécie de “apartheid religioso” no Irão

Transcrição completa de entrevista com Marco Oliveira, da Comunidade Bahá’í em Portugal. Vejam a notícia aqui.

Últimamente tem aumentado a perseguição aos bahá’í no Irão, mas a religião Bahá’í nasceu no Irão. Pode-nos contar brevemente a história das origens?
A Fé Baha’i nasceu no Irão no século XIX. O fundador foi um nobre persa chamado Bahá'u'lláh que começou por apoiar um movimento messiânico, o Babismo, que é referido por Eça de Queirós. Por causa desse apoio foi exilado para o que é hoje o Iraque.
No Iraque começou a organizar os seguidores da religião Babí e anunciou ser ele o profeta prometido pelo fundador da religião Babí, o Bab. Posteriormente foi novamente exilado, primeiro para Constantinopla, depois para Adrianópolis, ainda no império Otomano, e eventualmente para a fortaleza de Akká, na Palestina Otomana e hoje fica no Estado de Israel. Hoje há cerca de cinco milhões de Bahá’ís espalhados por todas as religiões do mundo.

E no Irão, quantos há?
Actualmente vivem no Irão cerca de 300 mil bahá’ís, são a maior minoria não muçulmana no Irão.

Portanto a religião nasceu no seio do islão, mas os bahá’í consideram-se muçulmanos?
A fé Baha’i é uma religião independente, tem os seus próprios livros sagrados, as suas próprias leis e a sua própria administração. A relação que tem com o Islão é a mesma que o Cristianismo tem com o Judaísmo, isto é, nasceu num meio islâmico mas mostrou rapidamente que era uma religião independente. 

Templo Bahá'í
No Irão há também comunidades cristãs e judaicas que até são respeitadas. Porque é que os bahá’í são tão perseguidos?
Há sobretudo um aspecto teológico-religioso na base dessa perseguição. Para os muçulmanos o Judaísmo e o Cristianismo são religiões do Livro. Os muçulmanos aceitam Moisés e aceitam Jesus como profetas legítimos e divinos, mas segundo o Islão Maomé terá sido o último dos profetas. A Fé Baha’i ensina que não houve um último dos profetas, mas que há uma sequência contínua de profetas e que o mais recente foi Bahá'u'lláh. Isto contraria aquilo em que os muçulmanos acreditam e é isso que está na base das perseguições.
Para além disso os Bahá’í têm um conjunto de ensinamentos que o clero muçulmano mais tradicional não aceita, como por exemplo a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a necessidade de investigação da verdade e a abolição de todas as formas de preconceito. Portanto há um conjunto de circunstâncias que tornam a Fé Bahá’í um alvo preferencial das ditaduras islâmicas.

E recentemente tem havido um aumento da perseguição?
É verdade. Temos assistido com muita preocupação a um conjunto de medidas que visam descriminar e ostracizar a fé Baha’i no Irão. Em termos simplistas diria que se está a criar um sistema de apartheid religioso em que os Bahá’ís além de não terem direitos de cidadania, porque não estão defendidos pela constituição iraniana, neste momento estão impedidos de um conjunto de actividades. Por exemplo os jovens não podem ingressar na universidade, quando ingressam acabam por ser expulsos passados alguns meses. Os bahá’ís não podem ser funcionários públicos, os reformados viram canceladas as suas reformas e foram obrigados a devolver o que já tinham recebido, várias pessoas que têm pequenos negócios de comércio têm visto as suas licenças revogadas, há lares e propriedades destruídas ou incendiadas e tudo isto nos cria uma situação que nos preocupa verdadeiramente e para a qual temos chamado a atenção da comunidade internacional nos diversos fóruns internacionais e junto de Governos em todo o mundo.

E em Portugal também há bahá’ís de origem iraniana?
Em Portugal há cerca de sete mil bahá’ís. Alguns destes são pessoas que nasceram no Irão e, devido às perseguições que lá ocorrem, tiveram que vir para Portugal como refugiados e acabaram por fazer aqui a sua vida. A maioria encontra-se hoje plenamente integrada na sociedade portuguesa. Há médicos, engenheiros, professores universitários, plenamente integrados na sociedade portuguesa. 

Nélson Évora é talvez o mais famoso bahá'í português

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Diabo Vermelho que está numa Igreja

Muitos são os jogadores de futebol que são venerados como santos pelos seus adeptos, mas poucos têm direito a serem imortalizados num vitral de igreja.

Apresento-vos o que penso ser um caso único (para futebol pelo menos). As imagens são da Igreja de Saint Francis, em Dudley, Inglaterra. O jovem rapaz representado é Duncan Edwards, um dos jogadores do Manchester United que morreu no desastre aéreo de 6 de Fevereiro de 1958.

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Edwards tinha apenas 21 anos e era uma das estrelas da equipa. Morreu juntamente com outras 21 pessoas, incluindo sete jogadores do United.

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Como eram treinados por Matt Busby e devido à baixa média de idades, ficaram conhecidos para a posteridade com os "Busby Babes".

Um dos sobreviventes da tragédia foi o famoso Bobby Charlton.

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