quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A caminho do 3º cardeal e eleições nos EUA

Portugal poderá passar a ter três cardeais, um marco notável para um país pequeno. D. Manuel Monteiro de Castro foi hoje nomeado para um cargo na Cúria Romana que deve conduzir ao cardinalato… poderá ser já em Fevereiro, amanhã deve-se saber.

Mitt Romney venceu ontem as primárias de Iowa do partido republicano. A religião já está a assumir um papel de peso nestas eleições, esse peso ainda deve aumentar.

Falando de política e religião, voltamos ao tema da Constituição da Hungria, agora com uma notícia mais especificamente religiosa. Com a entrada em vigor da constituição, e das leis específicas que a acompanham, várias religiões perderam o seu estatuto legal no país.

Recordo que este tema tem dado que falar no blog, tanto aqui como aqui


Por fim, chamo a vossa atenção para uma série de conferências que se vão realizar na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, subordinadas ao 50º aniversário do Concílio Vaticano II. A não perder.

Vaticano II em discussão em Santa Isabel

ENCONTROS DE SANTA ISABEL 2012
Segundas-feiras 21h30
Sala Alberto Lourenço
O Vaticano II, 50 anos depois

Dia 9
Aggiornamento: que aprendemos com o Concílio quanto ao “estilo” de ser Igreja, hoje?
Alfredo Teixeira

Dia 23
Chaves de leitura do Concílio.
J.E. Borges de Pinho

Dia 30
Vaticano II: memórias e ecos.
António Marujo dialoga com Olga Pinheiro e João Lamas

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Hungria (again), coptas e hinduísmo à americana

Cem mil cristãos coptas já abandonaram o Egipto desde Março. O sol da primavera quando nasce, pelos vistos, não é para todos.


A discussão sobre a constituição da Hungria continua em alta. Há uns comentários interessantes ao meu post de ontem sobre o assunto e, hoje, revisitei o tema.


D. António Marto está em Angola, onde falou sobre a crise… em Portugal.

Por fim, normalmente irrita-me ver jovens ocidentais a “brincar” a festivais de religiões orientais, sejam budistas ou hindus. Mas confesso que isto, é espectacular!

Festival das Cores nos EUA

O que é que acontece quando se junta uma tradição milenar hindu com jovens universitários ocidentais e um bom operador de câmara?

Deliciem-se!


Optimist from Brian Thomson on Vimeo.

Sobre o festival das cores, ou Holi, podem ler aqui

Constituição húngara revisitada

Alguns leitores afirmaram, na caixa de comentários ao meu último post sobre a Constituição da Hungria, que eu tinha caído no logro da propaganda liberal sobre este assunto.

Tendo lido a constituição devo concluir que, de facto, não encontro nela provas claras que sustentem a maioria das acusações que tenho lido e que repeti no meu texto de ontem. As conclusões gerais do texto, contudo, mantém-se, uma vez que não dependem deste caso específico.

Contudo, na constituição encontrei alguns sinais de alarme, vejamos:

O artigo D e H referem que “that there is one single Hungarian nation that belongs together,
Hungary shall bear responsibility for the fate of Hungarians living beyond its borders, and shall facilitate the survival and development of their communities; it shall support their efforts to preserve their Hungarian identity, the assertion of their individual and collective  rights,  the  establishment of their community  self-governments,  and  their prosperity in their native lands, and shall promote their cooperation with each other and with Hungary” e que “Hungary shall protect the Hungarian language”

Isto levanta muito perigo de ingerência nos assuntos de outros. Há minorias de etnia húngara em vários dos países vizinhos da Hungria, incluindo a República Checa e a Sérvia, por exemplo, no passado tem havido tensões por causa disto e o tom do que está escrito na constituição não é particularmente amigável.

Contudo, o que está escrito mais à frente parece equilibrar e dar um sentido de reciprocidade: “Nationalities living in Hungary shall be constituent parts of the State. Every Hungarian citizen belonging to any nationality shall have the right to freely express and preserve his or her identity. Nationalities living in Hungary shall have the right to use their native languages and to the individual and collective use of names in their own languages, to promote their own cultures, and to be educated in their native languages.
Nationalities living in Hungary shall have the right to establish local and national self-governments

Adiante.

Article O: Every person shall be responsible for his or herself, and shall be obliged to contribute to the performance of state and community tasks to the best of his or her abilities and potential
Isto significa o quê, precisamente? É demasiado vago para o meu gosto.

No artigo VIII vemos isto, respeitante a partidos políticos. Recordo que uma das acusações que se fazia era que a nova constituição tornava o maior partido de oposição de esquerda ilegal.

Every person shall have the right to peaceful assembly.
Every person shall have the right to establish and join organisations.
The right to freedom of association shall allow the free establishment and operation of political parties. Political parties shall  participate in the formation and proclamation of people’s will. No political party may exercise public power in a direct way.

The detailed rules for the operation and financial management of political parties shall be regulated by a cardinal Act.”

Ora, à primeira vista nada de grave. A questão está em saber o que se encontra no tal “cardinal Act”, pois isso pode fazer toda a diferença, e aí confesso não fazer a menor ideia. [Ver adenda]

Pode-se dizer o mesmo em relação à imprensa e ao tribunal constitucional:

“The detailed rules for the freedom of the press and the organ supervising media services, press products and the infocommunications market shall be regulated by a cardinal Act”

“The detailed rules for the competence, organisation and operation of the Constitutional Court shall be regulated by a cardinal Act.”

Escrito este texto fiz mais umas pesquisas e verifiquei que as minhas preocupações coincidem, no essencial com as da Comissão de Veneza, um órgão do Conselho da Europa, como se pode ver por este parágrafo da conclusão:

“The significant number of matters relegated, for detailed regulation, to cardinal laws requiring a two-thirds majority, including issues which should be left to the ordinary political process and which are usually decided by simple majority, raises concerns. Cultural, religious, moral, socio-economic and financial policies should not be cemented in a cardinal law.”


Salvaguardo que não sou nem constitucionalista, nem de direito. Os comentários nestes assuntos são sempre bem-vindos!

ADENDA

Chamo atenção para este texto, que esclarece um pouco o que são os "Cardinal laws" e o conteúdo daqueles que têm sido passados nas últimas semanas. Se Paul Krugman tiver razão, e não tenho razão para pensar que não tenha, então definitivamente penso que estamos perante um texto problemático. Ironicamente o problema não será tanto a Constituição, mas sim as "outras coisas" (novamente as "outras coisas"), nomeadamente as Cardinal laws.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Debate episcopal, mortes missionárias e viagens papais

Espero que todos tenham entrado bem no novo ano!

A jornalista Aura Miguel reuniu os três bispos mais novos de Portugal para um debate sobre o estado da Igreja em Portugal. Pode ler a notícia aqui e ainda ouvir o debate completo.

No mundo morreram, em 2011, 26 missionários católicos. A América Latina continua a ser o local mais perigoso para ir pregar o Evangelho.

Ontem entrou em vigor a nova constituição da Hungria. O documento consagra a herança cristã do país, defende o casamento e a vida, mas limita seriamente os direitos individuais, de imprensa e outros. A minha opinião aqui.


Depois do Reino Unido os EUA já têm um ordinariato pessoal para acolher anglicanos que queiram entrar em comunhão com Roma.

Deus na constituição, ao lado das "outras coisas"

Entrou ontem em vigor a nova constituição da Hungria.

Entre outras coisas a nova lei fundamental daquele país reconhece o carácter cristão da nação húngara, afirmando ainda respeitar todas as religiões no país, e consagra o direito à vida desde a concepção até à morte natural.

O documento afirma que o casamento é entre um homem e uma mulher, colocando de parte a possibilidade de legalizar o casamento homossexual, e diz que o país encorajará os seus cidadãos a ter filhos.

Até aqui tudo bem. Alguns cristãos, sobretudo os mais conservadores, dão vivas e lançam foguetes. O problema está nas outras coisas.

É que a partir de ontem a Hungria criminaliza o maior partido da oposição à esquerda e controla de forma inacreditável a comunicação social. Coloca ainda em perigo a independência dos tribunais e até do Banco Central.

Naturalmente a opinião pública está revoltada e a discussão ameaça ganhar contornos de choque cultural entre conservadores e liberais, cristãos e ateus, direita e esquerda.

Será necessário? Não haverá o bom senso de perceber que se pode achar bem algumas das medidas da nova constituição sem, no entanto, concordar com as restantes?

Os cristãos devem aceitar uma constituição destas só porque lhes dá algumas das coisas que reclamam? E as outras coisas, não interessam? Desde quando é que a luta pela verdade, pela vida, pela liberdade religiosa se tornou um concurso de engolir sapos?

Se fosse só a Hungria era um mal menor, mas os sinais mais preocupantes vêm dos EUA onde os candidatos das primárias republicanas se atropelam para afirmar as suas credenciais conservadoras e cristãs ao mesmo tempo que fazem declarações que roçam por vezes o lunático.

É altura, digo eu, dos cristãos pensarem muito bem se aceitam serem empurrados para um canto político. Têm noção do preço a pagar por essa estratégia? Uma coisa é a participação activa dos cristãos na vida política, outra é o erguer de políticos como messias e defensores do sagrado.

Mas a estratégia não pode resultar? Pensem em quantos políticos foram canonizados e em quantos dos mártires perderam a vida às mãos de políticos e façam as contas.

Filipe d’Avillez

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