terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Manif contra a eutanásia, amanhã

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Vai haver amanhã uma manifestação contra a eutanásia, no dia em que o assunto começa a ser discutido no Parlamento. É em cima da hora, é a meio de um dia de trabalho… é tudo isso, mas é o que há. Se puder ir, vá; se não puder, divulgue. É o meu caso.

A paróquia de São Brás, em Évora, faz 50 anos. Há todo um programa de festejos.

Quem também faz 50 anos em breve é a Universidade Católica, que também organizou uma conferência para assinalar o facto. Tudo aqui.

O homem de 27 anos que ontem matou seis pessoas numa mesquita, no Canadá, é admirador de Trump e de Marine Le Pen, aparentemente.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Canadá, Trump e Ortiga

Protestos contra a medida de Trump
Ocorreu um atentado no Canadá, na noite de ontem. Dois homens mataram seis pessoas numa mesquita, mas ainda não se percebe muito bem a motivação. O Papa apressou-se a expressar a sua solidariedade para com as vítimas.


Vem aí novamente o debate sobre a eutanásia. D. Jorge Ortiga diz que a resposta não é essa, são os cuidados paliativos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Auschwitz recordado em dia de Marcha pela Vida

Cliquem para aumentar
Faz hoje 72 anos da libertação de Auschwitz. O assunto não foi esquecido pelo Papa, que recebeu em audiência líderes de comunidades judias na Europa. Também hoje se soube que na Alemanha, nos últimos tempos, os ataques a judeus duplicaram.

O Papa disse também esta sexta-feira que são as pessoas que vivem “situações miseráveis” que estão mais sujeitas ao fundamentalismo. Disse-o num encontro com representantes da Igrejas Cristãs do Médio Oriente.

Encontra-se em Portugal por estes dias um arcebispo paquistanês que vai deixar o seu testemunho sobre a perseguição por parte de fundamentalistas islâmicos. Saiba aqui onde e quando pode ir ouvir monsenhor Sebastian Shaw.

No final da semana de oração pela Unidade dos Cristãos, católicos e evangélicos assinam uma declaração comum sobre o valor da vida. Ontem sete associações de profissionais católicos assinaram uma declaração conjunta de apoio à petição que pede aos deputados que não aprovem qualquer legalização da eutanásia ou morte assistida.

Por falar em unidade dos cristãos, amanhã há um encontro em Sintra. Cliquem no cartaz para ver os detalhes.

Está neste momento a decorrer em Washington a marcha pela vida. São centenas de milhares de pessoas nas ruas, mas desta vez o alvo das críticas não é Trump, é o aborto.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Demissões Maltesas e igrejas feias, salvas

A malta não se curte
O grão-mestre da Ordem de Malta demitiu-se a pedido do Papa Francisco… Vejamos se esta medida põe termo à polémica… Não sei não…

A China reforça a repressão sobre religiões organizadas. Os católicos são perseguidos, mas não são os únicos.

O bispo de Bragança-Miranda diz que está a aguardar a visita do Papa em Maio com “oração, carinho e estima”.

No Porto há actualmente seis processos de canonização em marcha. O bispo quer reforçar o empenho nas iniciativas, que pode conhecer aqui.

No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, o nosso querido Randall Smith diz-nos onde encontra sinais de esperança para o futuro… É na arquitectura religiosa, nomeadamente em algumas das renovações de igrejas feias que se têm feito nos Estados Unidos. Já agora recupero um post que fiz no blog há vários anos sobre igrejas extraordinariamente feias… É sempre giro rever.

Sinais de Esperança na Arquitectura

Randall Smith
Estamos num novo ano e todos gostamos de começar com um sentido de esperança. Alguns depositam essas esperanças num novo presidente, outros estão aterrorizados. É essa a natureza imperfeita, e em última instância insatisfatória da política. A política é muito importante, claro, mas esperar que ela nos dê satisfação que perdure é como esperar que o castelo na areia sobreviva à maré cheia. Não vai acontecer.

Existem sinais de esperança mais duradouros? Creio que sim, como poderão ter visto a semana passada nas páginas do The Catholic Thing. Não, não foi nada que eu escrevi (como se isso fosse possível!), mas numa ligação que vos poderá ter passado despercebida.

Se forem como eu (Deus vos livre) e não costumam ver os anúncios no The Catholic Thing (vergonha!), então poderá ter-vos escapado o item no canto inferior esquerdo chamado “Sacred Spaces”, onde há pouco tempo estava o link “Antes e Depois: 13 Renovações de Igrejas que Vale a Pena Celebrar”. Ainda podem ver, basta clicarem aqui.

Se ainda não viu estas imagens, faça um favor a si mesmo e veja-as agora. Estes restauros de igreja dão-nos sinais de esperança depois de décadas debaixo da opressão da ideologia arquitectónica modernista – um regime tirânico que, não obstante aqueles que culpam tudo o que é mau no Concílio Vaticano II, data do início dos anos 50.

Nos anos que entretanto passaram, não só foram construídas muitas igrejas cinzentonas e sem vida, mas pior, centenas de outras igrejas foram despidas da sua beleza original, destruídas num assombro de iconoclasmo modernista que procurava transformar todos os santuários católicos em cópias dos interiores caiados, modernistas, estilo sala-de-estar e “church-lite” exibidos em Environment and Art in Catholic Worship (1963), o modelo modernista para a desconstrução eclesial cujas recomendações, apesar de nunca terem sido aprovadas pelos bispos americanos, foram impingidas a todas as paróquias dos Estados Unidos com um rigor estalinista.

O que estas renovações demonstram, porém, é que estamos finalmente a tirar fruto de uma resistência contra a tirania arquitectónica modernista dos últimos 50 anos. Deliciem-se com as melhorias! Reparem na beleza. Compreendam bem o que pode ser feito. Depois, quando o vosso pároco recomendar renovar a vossa igreja, não deixem que ninguém vos diga que este tipo de igrejas já não pode ser feita. Vão encontrar padres e “especialistas em liturgia” que insistirão no modernismo. Resistam. Mostrem-lhes estas fotos e digam: “Só se construírem algo assim”. Não voltaremos a ter igrejas belas outra vez a não ser que os católicos as comecem a exigir.

Enquanto vêem as fotografias, reparem que há duas categorias de edifícios. Os primeiros eram provavelmente muito belos quando foram construídos, mas foram pilhados pelo iconoclasmo dos anos 60 e 70. Agora estão a ser restaurados com a grandeza original. Um exemplo é o número 4: A Holy Name, em Brooklyn, Nova Iorque. Se forem ver a “história paroquial” notarão que o interior original era espectacular.

O que é que aconteceu para que esse interior tão belo fosse transformado no “antes” que se vê na imagem, a precisar tão desesperadamente de ser renovado? O site da paróquia diz, como se nada fosse, que “o interior da igreja foi modernizado e remodelado para permitir as reformas litúrgicas proscritas [sic] pelo Concílio Vaticano II”. A gralha diz tudo. Esta destruição nunca foi “prescrita” (exigida) pelo Concílio; pelo contrário, era “proscrita” (proibida). E apesar disso, estas mudanças foram impingidas às comunidades contrariadas em nome do Concílio. Outras igrejas que parecem encaixar nesta categoria são: (#6) Igreja de St. Mary, em Fennimore, Wichita; (#7) St. Mary em Durand, Illinois e (#10) St. Coleman, em Washington, Ohio.

Igreja de St. Mary, Fennimore
A outra categoria de renovações teve lugar nos produtos horríveis dos anos 50, 60 e 70. Sempre pensei que estes edifícios eram tão feios que não havia nada a fazer. Mas o génio de certos arquitectos provou, felizmente, que estava enganado.

Vejam, por exemplo, o que o meu amigo Duncan Stroik conseguiu fazer com o anteriormente enfadonho St. Theresa em Sugarland, no Texas. Depois vejam os milagres feitos com estas outras igrejas que muitos poderiam pensar que nunca seriam grande coisa. (#2) St. Louis; (#3) St. Peter the Apostle; (#7) Holy Trinity; (#9) St. Bede e, (#13) a capela do Mosteiro do Menino Jesus de Praga.

Mas o prof. Stroik ficaria muito triste comigo se eu não fizesse outro apelo. Por vezes ele queixa-se que há quem pense que a única maneira de conseguir igrejas bonitas é através da renovação. Mas também é possível construir igrejas belas de raiz. É, aliás, bem mais fácil do que tentar renovar um daqueles cubos de tijolo hediondos dos anos 50. Porquê contentarmo-nos com o feio? Não há necessidade.

Mas é preciso encontrar um arquitecto com talento. Muitas paróquias usam arquitectos que toda a vida apenas construíram igrejas feias, ou arquitectos especializados em escritórios e centros comerciais. É por isso que muitas igrejas acabam por parecer escritórios ou centros comerciais.

Há arquitectos treinados para construir igrejas belas. Dois dos melhores na América são o já referido Stroik e James McCrery. Há outros, muitos dos quais treinados na Escola de Arquitectura de Notre Dame. Enontrem um. Exijam melhor. Os padres do Concílio Vaticano II sorrir-vos-ão de lá de cima.

E quando alguém vos disser “sim, mas essas igrejas são mais caras para construir”, recordem-lhes que: (a) a beleza vale a pena; (b) Deus merece e (c) ou gastamos X a construir uma coisa que será feia agora e completamente desactualizada daqui a 20 anos, ou podemos gastar um pouco mais e ter um edifício belo que durará, como acontece com as igrejas medievais europeias, 500 anos ou mais. Imaginar o abater do empréstimo com um prazo desses coloca tudo em perspectiva.

Invistam em coisas que duram, tanto fisicamente como espiritualmente. Deixem de deprimir as pessoas com a ideologia modernista. Elevem-lhes os espíritos com a beleza.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Novo Prelado no Opus Dei, eu na FNAC de Santa Catarina

Foi ontem escolhido e confirmado o novo prelado do Opus Dei. Chama-se padre Fernando Ocáriz e tem 72 anos. Toda a informação aqui.

O Vaticano divulgou esta terça-feira a mensagem das comunicações sociais. Diz o Papa que os media deviam tentar comunicar de forma mais positiva.

Este é um assunto comentado por Paulo Rocha, da Ecclesia, que foi o convidado de Ângela Roque, na Renascença.

Na preparação para os meus artigos sobre o filme Silêncio, falei com três especialistas. Mas o mais interessante de todos foi sem dúvida o padre Adelino Ascenso, padre e missionário com mais de 10 anos de experiência no Japão, cuja tese de doutoramento foi precisamente sobre a obra de Shusaku Endo, autor do livro original. Depois de terem visto o filme, leiam a entrevista. É obrigatório. Sou eu que mando.

Um aviso a todos os que vivem para norte. Estarei amanhã na FNAC de Santa Catarina, no Porto, para moderar uma conversa sobre o filme Silêncio. Será às 18h, apareçam!

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing. A semana passada a escolha recaiu sobre Martin Luther King e a sua carta de umaprisão de Birmingham, a não perder.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

"Silêncio". Vota-se no Opus Dei

Actualidade Religiosa confirma que "Silas"
não será o próximo prelado do Opus Dei...
Mais de centena e meia de membros do Opus Dei estão reunidos em Roma para escolher o novo prelado. Saiba como funciona a eleição.

O Patriarca de Lisboa convocou uma assembleia diocesana para 2020, aproveitando a missa de Santo Estêvão para o anunciar.

O Papa Francisco deu uma entrevista ao jornal El País em que disse que prefere “esperar para ver” antes de comentar a eleição de Trump, mas alertou para o perigo de se escolher, em tempos de crise, um “salvador” que promete construir muros.

Silêncio já estreou há vários dias e muitos já foram ver. Se for o seu caso, não deixe de ler a minha opinião sobre o filme. Também tenho online as transcrições integrais das entrevistas que fiz para as reportagens sobre a obra de Martin Scorsese, que irei divulgando aqui ao longo desta semana.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing. De vez em quando o site publica um texto antigo e clássico de um autor conhecido. A semana passada a escolha recaiu sobre Martin Luther King e a sua carta de uma prisão de Birmingham, a não perder.

Silêncio não é sobre apostasia, mas sobre inculturação

Transcrição integral da entrevista que fiz ao padre e missionário Adelino Ascenso, que passou mais de uma década no Japão e fez a sua tese de doutoramento sobre a teologia da obra literária de Shusaku Endo. As reportagens podem ser lidas aqui e aqui. A minha visão pessoal do filme pode ser lida aqui e podem ainda ler as transcrições das entrevistas ao jesuíta José Maria Brito e a Brad Miner.


Tem havido várias críticas a dizer que o filme, e por conseguinte o livro, Silêncio é um exercício de justificação da apostasia. Era essa a intenção de Endo?
Não, de forma nenhuma.

Endo foi acusado precisamente de defender a apostasia, quando publicou o livro em 1966. E houve até algumas dioceses onde os prelados não permitiram a leitura desse livro aos católicos, ou aconselharam a que não lessem. Eu creio que foi uma interpretação errada da mensagem que o Endo quis transmitir.

O Shusaku Endo tinha uma grande preocupação. Naturalmente a maior preocupação era a sua própria fé. Ter aquele “fato” ocidental que não se adaptava bem ao seu corpo japonês, como ele o define, mas tendo esse problema com a sua fé, que é sempre uma busca, uma luta. Ele em relação aos “Kakure Kirishitan”, os cristãos ocultos, tinha uma simpatia muito grande. Estes Kakure, que renunciaram à sua fé, apostataram visivelmente, mesmo que fosse só um pró-forma, muitos deles mantiveram-se fiéis ao Cristianismo ao longo de 250 anos, durante as perseguições e em total isolamento, sem sacerdotes, sem nada. Eram os leigos que os orientavam, que baptizavam os filhos e que passavam as orações de geração em geração, ao longo de 250 anos.

Shusaku Endo tinha uma grande simpatia pelos descendentes desses cristãos ocultos e achava que havia aqui um silêncio, o “silêncio” do título do livro.

Mas o título do livro não é só o silêncio de Deus, porque quase sempre se fala só no silêncio de Deus, o Rodrigues que se interroga porque é que aqueles cristãos estão a ser martirizados e Deus está de braços cruzados em silêncio e não age. Claro que aí está o problema da teodiceia, portanto o problema da existência de Deus omnipotente e do mal no mundo, aí está um problema, sim, mas não é só esse silêncio, ele preocupava-se com o silêncio da Igreja-instituição, relativamente a esses cristãos ocultos, que tinha renunciado à sua fé, que tinham apostatado, mas que no seu coração continuavam a acreditar e continuavam com os seus ritos, com as suas orações, e a transmitir essas orações. Shusaku Endo tinha uma grande preocupação relativamente a este silêncio.

Ele quis, com esse livro, realçar não só o forte, porque o forte é o mártir, aquele que não renuncia à sua fé, não apostata e que é martirizado, mas também defender o fraco, o cobarde, o débil, aquele que, não aguentando a dor, ou por compaixão pelos outros, acaba por apostatar. Digamos que há uma dicotomia. A Igreja-instituição, valorizou sempre muito os mártires, mas esqueceu-se desses pobres que, tendo apostatado, eram escorraçados pelos outros e eram desprezados pelos outros.

Por um lado, em “Silêncio” vemos exemplos de tremenda fé por parte dos japoneses, mas também críticas de que o Cristianismo não pode lançar raízes no Japão. O termo usado é “pântano”. Acredita que é essa a opinião de Endo?
Não era a convicção de Endo, era a preocupação do Endo.

Desde que ele foi baptizado aos 10 anos, e principalmente depois, passados cinco ou dez anos, em que ele começou a reflectir sobre a sua fé e o que significava ser cristão e ser japonês, que ele notou que havia um abismo entre o Ocidente e o Oriente. O Cristianismo era a religião do ocidente, e ele era um oriental, japonês. Então ele tentou sempre, desde o início, procurar um caminho de conciliar esses dois mundos, o Oriente e o Ocidente.

Com Silêncio ele conseguiu, não totalmente, mas o facto de o próprio Rodrigues, e já lá iremos, o próprio ter apostatado – e sobre a apostasia podemos falar depois – ter sido um estrangeiro no Japão a apostatar nesse pântano que é o Japão, significa que houve uma aproximação à mentalidade japonesa, houve uma tentativa de inculturação por parte do Rodrigues. Digamos que houve uma conversão do Rodrigues depois da sua apostasia. O apostatar, para o Rodrigues, tem a ver com a inculturação, com um processo de inculturação. Nesse sentido, Endo conseguiu uma aproximação entre o Oriente e o Ocidente, que ele depois desenvolveria mais tarde noutras obras de ficção.

Como é que caracteriza o Catolicismo de Endo? Pode-se dizer que ele é típico de um católico japonês?
Penso que o Catolicismo de Endo, a fé de Endo, é referência para os cristãos que buscam e que pensam e que sentem a luta da fé no dia-a-dia.

Porque estamos a falar de um país em que os cristãos são 1% da população, onde os católicos são cerca de 0,3% da população. Onde muitas vezes numa única família de muitos membros há uma única pessoa católica ou protestante. E isto implica um diálogo permanente com os outros membros da família, uma luta permanente, um luta permanente na tentativa de inculturar esses elementos cristãos dessa religião estrangeira, de forma a que a pessoa não seja colocada num mundo diferente daquele do resto da família. E nesse sentido Endo é o ponto de referência para os cristãos que buscam, reflectem e que procuram um caminho de entrosamento. Um caminho de diálogo e encontro.

Quando diz que há famílias com apenas um cristão, estamos a falar de conversões mais recentes. Entre os descendentes dos Kakure Kirishitan que sobreviveram há famílias inteiras que se mantiveram fiéis, que vivem integradas no Japão, ou formam uma sociedade à parte?
Por aquilo que me foi proporcionado ver há algumas comunidades descendentes precisamente desses Kakure, sobretudo na região de Nagasaki. Há uma região a Norte de Nagasaki, que se chama Sotome, que é onde está o monumento ao silêncio, e onde está também o museu literário de Shusaku Endo, e que foi o palco do “Silêncio”.

Há aí umas ilhas que se denominam Goto, onde a população ainda orienta toda a sua vida de acordo com a Igreja. Isto é, a igreja ainda é o ponto aglutinador. As crianças vão para a escola, mas a caminho passam pela igreja. Aí sim, essas comunidades mantêm essa tradição religiosa cristã, desde esses tempos, século XVI e XVII.

Mas por exemplo em Osaka, onde eu estive, há umas montanhas, perto da paróquia onde estive a trabalhar os últimos anos, onde se refugiaram alguns Kakure que vieram de Nagasaki, e aí ainda há alguns sinais, mas muito diluídos. Depois, na própria cidade de Osaka e no resto do Japão, o Cristianismo está muito diluído na sociedade.

Agora, há um aspecto interessante... Uma vez encontrei um japonês em Coimbra, ainda eu não estava no Japão, e eu perguntei como era o Cristianismo no Japão. E ele disse que o Cristianismo no Japão compreendia cerca de 30% da população. Fiquei muito surpreendido e lembrei-me que devia haver um erro de cálculo.

Mas é curioso que cerca de 30% da população japonesa, não digo 30%, tem valores que nós podemos considerar cristãos. O cristianismo – Igreja Católica, protestante e ortodoxa – têm escolas, universidades, jardins-de-infância, hospitais, lares de terceira idade, etc. Têm muitas instituições onde transmitem esses valores. Por exemplo, nos jardins-de-infância as crianças são ensinadas a rezar. Esses valores ficam com a criança mesmo que não se converta ao cristianismo. Portanto o cristianismo é uma percentagem mínima, está muito entrosado na cultura e na sociedade japonesa e, penso eu, que há muitos valores que podemos considerar cristãos e que estão alicerçados no próprio contexto japonês.

Então não concorda com essa frase, de que o Japão é um pântano para o cristianismo...
Não concordo, mas concordo com a expressão do Endo. Aí está, precisamente. O cristianismo, como tinha sido, ou como foi ao longo dos tempos, transportado para o Japão como uma religião estrangeira, com esse Cristo estereotipado, um Cristo ocidental, que se transporta simplesmente para o Japão, dessa forma, cai num pântano. E nesse sentido eu estou de acordo.

Mas não estou de acordo que o cristianismo no Japão tenha que cair nesse pântano. Se não, não tinha estado no Japão. Tem de haver esse processo, esse exercício permanente de inculturação. E foi o que o Endo tentou fazer.

As missões actuais, a Igreja actual no Japão, tem feito essa inculturação? Ou ainda há caminho por fazer?
Há muito caminho por fazer. Há muito caminho por fazer e eu creio que o sucesso aqui, principalmente no Japão, não se mede por números. Porque basta dizer que os cristãos japoneses, ou os católicos japoneses da actualidade, são cerca de 400 mil, e isto é um número irrisório, e não há um aumento progressivo dos convertidos ao cristianismo. Portanto há um longo caminho a fazer. Mas eu penso que o caminho mais importante a fazer é esse do exercício constante, permanente, da inculturação.

Saiu um livro muito interessante e muito importante, publicado pela Conferência Episcopal Japonesa, aliás, pela secção de Diálogo Inter-religioso, que foi depois traduzido para inglês e para português, que é um compêndio sobre como um cristão, católico, deve agir perante situações numa sociedade que não é católica.

Por exemplo, se um católico é o único elemento da família e se há um membro da família que morre e que tem um funeral budista, se o católico pode participar no funeral; se participa, como deve participar?. Isto é muito importante. Os funerais são muito importantes não é propriamente o culto dos antepassados, mas há uma influência do confucionismo, que valoriza precisamente o culto dos antepassados.

Quando diz participar presumo que não seja só marcar presença, mas ter uma parte activa...
Pois, exactamente, aí está a parte mais delicada. Porque se um católico vai participar num funeral de uma celebração budista, não pode participar activamente. Quero dizer, se participar activamente na recitação dos sutras, usando o rosário budista, então está a fazer algo que é uma fachada, porque quando há um funeral de um católico numa Igreja e vêm budistas familiares a esse funeral, é evidente que eles não trazem o nosso rosário, trazem o rosário budista, porque se trouxessem o nosso, seria uma fachada, uma mentira. Portanto isso são aspectos muito delicados, que estão muito bem tratados nesse livro, um livro muito interessante.

A sua tese é precisamente uma leitura teológica da obra de Endo, nomeadamente da perspectiva do entendimento do sofrimento. Podemos então concluir que este não é só um tema que aparece em Silêncio, mas também noutras partes da sua obra?
Aparece no resto da obra. Silêncio é como que o eixo axiológico, onde se condensa a teologia do Endo. E depois há um outro romance que condensa de uma forma talvez mais abrangente e não tão profunda, a teologia do Endo, o Rio Profundo, o último romance.

Mas, por exemplo, um romance que também está traduzido para português e que eu aconselho vivamente é o Samurai. O Samurai é considerado um romance autobiográfico, ou seja, um "eu romance". Um romance autobiográfico de Shusaku Endo, mas autobiográfico do percurso espiritual de Shusaku Endo. O Samurai que vai para o México e depois para a Europa e que se vai encontrando com esse Cristo esquelético, cravado na Cruz, que está sempre presente nos quartos onde ele fica, nos mosteiros por onde passa... De certa maneira esse companheiro que nunca o abandona e, quando ele se sente abandonado por todos, especialmente pelo senhor feudal que ele servia, sente que o único que não o abandonou foi esse Cristo esquelético, e acaba por morrer como mártir por esse Cristo esquelético que nunca o abandonou. É um romance impressionante.

Depois tem outras obras, mais cristológicas, como "Uma Vida de Jesus", traduzido para português; depois tem também "Nas Margens do Mar Morto", que não está traduzido sequer para inglês;  E tem ainda "O Nascimento de Cristo", que também não está traduzido. E aí ele dedica-se mais ao seu estudo cristológico.

Eu quando li pela primeira vez "Uma Vida de Jesus", quando foi traduzido para português, há muitos anos, eu fiquei com a sensação que o Cristo ali tratado era excessivamente humano, por isso o livro não me cativou, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano. Mas depois de estudar Endo, de ver o seu percurso e analisar o seu percurso, cheguei à conclusão que não é um Cristo, excessivamente humano, é um Cristo profundamente humano. É o Cristo "companheiro", aquele que acompanha o sofredor sempre, em cada momento, como fez com o Rodrigues em Silêncio e só no final o Rodrigues percebe isso.

No livro, Ferreira argumenta que a fé praticada pelos Kirishitan não é sequer o Cristianismo como Rodrigues os entende. Tinha alguma razão?
Talvez ele tivesse uma certa razão.

O povo japonês, por natureza, é muito sincretista. Eles têm um panteão de Deuses, ou de divindades, os Kami, e este Deus que veio do Ocidente, que foi pregado pelo Francisco Xavier, era mais um Deus que entrava no seu panteão.

Penso que nessa altura, séculos XVI, XVII, certamente muitos japoneses ficaram com essa imagem, de um Deus que é mais um Deus, faz parte do panteão.

Mas há um aspecto curioso, e esse é que é o contraste... Como é que os japoneses, por exemplo aqueles que decidiram não apostatar, e que foram até ao fim, que são milhares e milhares, desconhecidos. Muitos foram beatificados, mas há muitos milhares que são totalmente desconhecidos. O que é que os levava a dar a vida por esse Deus?

Se fosse considerado como mais um Deus desse mesmo panteão, então não teriam coragem de dar a vida por esse Deus. Penso que o Ferreira poderá ter razão até certo ponto. Digamos, numa parte da população japonesa da época, talvez ele tivesse razão. Noutra parte não.

No livro há uma cena em que Rodrigues ouve a voz de Cristo a dizer-lhe para pisar o Fumie. Na sua leitura, essa é mesmo a voz de Jesus, ou pelo contrário, é a voz da tentação, ou mesmo do demónio?
É uma boa pergunta. Pois... Eu penso que é a voz de Jesus, mas há aqui dois aspectos importantes a ter em conta.

O primeiro é o significado da apostasia em si. O que é que o Rodrigues apostatou? Foi o verdadeiro Cristo? Ou foi a imagem estereotipada de Cristo que ele levava do Ocidente? Repare que no início Rodrigues tinha uma imagem de Cristo vigoroso, forte, valente, corajoso, poderoso... Depois, quando estava na prisão em Nagasaki, esse Cristo começou a ser um Cristo sofredor, de olhos tristes, e finalmente, quando está para pisar a imagem, olha para o Cristo e é um Cristo desfeito, de sofrimento.

Ao longo da sua peregrinação ele foi-se libertando dessa imagem estereotipada de um Cristo ocidental. Então ele, dizendo assim de uma forma sintética, ele apostatou um Cristo poderoso, que tinha trazido da Europa, um Cristo ocidental, e aceitou no seu coração o Cristo misericordioso. É aí que Cristo lhe diz, “podes pisar”.

Há um pormenor, e isso é o segundo ponto, que pode parecer insignificante, mas tem muita importância a nível teológico. O original japonês não é uma forma de imperativo “pisa”. Mas quando foi traduzido para inglês, em 1969, por William Johnston, ele traduziu pela forma imperativa.

Se Cristo, essa imagem da fumie de Cristo, lhe diz “pisa”, então o próprio Rodrigues não tem liberdade de decisão, é o Cristo que está a dizer para eu lhe pisar, eu piso porque Cristo me diz “pisa”, já não é responsabilidade dele.

Mas se Cristo lhe diz “podes pisar” a decisão é dele. Ele tem a liberdade para decidir. Ou pisa ou não pisa. Isto é um pormenor, pode parecer uma nuance, mas acho que tem muita importância ao nível teológico.

E eu creio que não é por acaso que Shusaku Endo não pôs aí de forma categórica uma forma verbal de imperativo.

Como disse, Rodrigues apostatou aquele Cristo estereotipado. É evidente que Cristo é sempre o mesmo, mas aquela imagem que ele trazia consigo, porque a imagem que temos de Cristo nunca é o Cristo completo, o verdadeiro, o verdadeiro ultrapassa muito a imagem que temos. É como Deus. Não podemos definir Deus. Porque se definíssemos ele cabia na nossa cabeça, na nossa capacidade de raciocínio. Então ele, uma vez mais, apostatou essa imagem que tinha levado e adoptou esse Cristo maternal, sofredor, débil, esse Cristo companheiro. Esse Cristo que tem a ver com a sua inculturação nesse pântano japonês.

Mas os que deram a vida por Cristo, como disse, certamente não a davam por um Deus entre muitos... Eles teriam essa imagem de Deus já inculturado?
Talvez ainda não tivessem totalmente...

No entanto eram japoneses e tinham-se apaixonado por esse Jesus... Ocidental.
Exactamente! Aí é algo misterioso...

Porque se compararmos a história do cristianismo no Japão e na Coreia, é completamente diferente. Na Coreia foram os coreanos que foram à China buscar o cristianismo. Fizeram do cristianismo uma coisa sua. No caso do Japão, foi do Ocidente que chegou ao Japão.

O japonês, como disse, é muito sincretista e é muito – a palavra tem uma conotação negativa – mas o japonês é muito utilitarista. Absorvem tudo. Tudo o que é útil, eles absorvem, acarinham e incluem na sua cultura. Aquilo que não lhes interessa, abandonam. Por isso é que eles têm muitos elementos da China... Aliás, os caracteres são chineses, com algumas modificações, o budismo chegou através da China, e têm muitos elementos da Europa e dos Estados Unidos.

Eles absorvem aquilo que lhes interessa e deitam fora aquilo que não lhes interessa.

Esses cristãos, no início, quando morriam por esse Deus desconhecido, que no fundo era um Deus desconhecido, que eles conheciam principalmente através dos missionários, eu não sei... Intelectualmente talvez esse Cristo não estivesse integrado na sua fé. Mas houve ali um encontro. Isto é o mistério do encontro. E o mistério do encontro, que é o mistério da fé, não pode ser explicado. E isso continuará a ser mistério. Porque é que tantos milhares deram a vida por esse Cristo!

Num seu artigo fala do livro como um protesto contra a imagem de Deus-juiz…
Naturalmente Deus é Pai, mas como o Papa Francisco tem referido, e acho que muito bem, Deus é Pai e Mãe, ou seja, Deus é Pai, mas com sentimentos maternais.

Heinrich Fromm, no seu livro “A Arte de Amar”, fazia a distinção entre o amor de Pai e o amor de Mãe. O amor de Pai exige sempre alguma coisa em troca. O amor de mãe é aquele amor que não exige nada em troca. Não sei se será bem assim, mas ele definia isto assim.

Eu acho que o Deus Pai, que foi naturalmente transmitido aos japoneses, eles sentiam-no como um juiz. Um juiz que estava ali – eles sentiam-no, não quer dizer que fosse – sentiam que estava ali para apontar as suas faltas.

O Japão no século XVI era um país miserável, feudal, a esmagadora maioria da população vivia na miséria. E o que eles necessitavam era como que o instinto maternal que os amparasse, que os acompanhasse, que lhes perdoasse as faltas. “Eu cometi um pecado, mas vem esse Deus com um instinto maternal que me perdoa”. O que eles necessitavam era disso, precisamente. A “conversão” do Rodrigues tem a ver precisamente com essa passagem da imagem de Deus Pai para o Deus de compaixão maternal. Aliás, é um Cristo que Shusaku Endo introduz nas suas obras desde “Obaka San, o Idiota Maravilhoso” – que ao que parece foi traduzido no Brasil, mas eu não li nessa tradução –, mas já ele tinha começado aí precisamente a estruturar esse Cristo, que depois, no Silêncio, está mais fortemente estruturado, e depois acaba por ser também, numa outra dimensão, mais bem estruturado nas suas três obras que referi à pouco da sua cristologia, e também no “Samurai”.

Quais são as características deste Cristo? É um Cristo que tem fundamentalmente as características de ser débil, não é um Cristo constantiniano, porque esse Cristo triunfalista já não atrai, nem sequer atrai na nossa época, portanto era um Cristo não triunfalista, mas um Cristo débil. Um Cristo que não está longe, perdido na transcendência, mas um Cristo que entra no lodo da nossa vida, um Cristo que está na trivialidade da nossa vida, como nosso companheiro, e é um Cristo que perdoa as nossas falhas, os nossos pecados, as nossas faltas, por muito graves que elas sejam, como uma mãe que abraça. E o japonês necessitava desse afecto. Todos nós necessitamos. Uma mãe que perdoasse as suas faltas. Principalmente esses que pisavam a imagem.

A pergunta que fazia Shusaku Endo, antes de escrever esse livro, quando viu a fumie no museu, em Nagasaki, era “Se eu tivesse vivido nessa altura, não teria eu também pisado a imagem?” Ele dizia que certamente que um preguiçoso como ele teria pisado a imagem. Depois, perguntava, que tipo de pessoas eram essas que tinham pisado a imagem? E uma outra pergunta: O que terão sentido ao pisar a imagem?

Ele tinha estas três perguntas em mente quando viu a fumie. Foi aí que ele pensou que tinha de escrever um romance sobre isto.

Portanto o Cristo é este Cristo destas três dimensões, e uma dessas dimensões é esse da compaixão maternal.

Afinal há uma grande carga de Cristianismo em vários dos livros de Endo. Como é que isto é recebido num Japão em que só 1% da população é cristã? Se um dos nossos grandes autores de referência escrevesse livros com uma forte componente hindu, dificilmente teria grande popularidade...
Ele é muito admirado no Japão, é muito famoso. Fez muitos programas na televisão.

Os romances dele são muito densos, muito dramáticos, normalmente muito intensos. Então ele precisava de algo que contrabalançasse com a intensidade dos seus romances e começou a fazer uns programas na televisão, o professor Korian - Korian Sensei. Escreveu muitos livros também sobre essa personagem, que são livros cómicos.

Mas a partir desses programas que ele fez na televisão, passou a ser famosíssimo em todo o Japão. Portanto é muito famoso no Japão. Poucas pessoas não o conhecerão, não terão lido algum livro dele. Agora, as pessoas quando lêem um livro dele, se não estudarem a teologia, acaba por ser um romance que se lê assim, superficialmente. Eu quando li “Silêncio” da primeira vez, era muito dramático, mas pronto, não aprofundei. Ou, como já referi há pouco, quando li “Uma Vida de Jesus” não fique muito contente, porque me pareceu um Cristo excessivamente humano, próximo de mim.

Ele é muito admirado, e isto é um aspecto muito positivo para o Cristianismo no Japão.

E que tem dado frutos, em termos práticos?
Sim. Eu conheci alguns fiéis, na paróquia onde estive, que decidiram ser cristãos a partir da leitura do livro de Shusaku Endo.

Em vida teve esse reconhecimento?
Sim. Teve até uma audiência com o Papa Paulo VI, que lhe dizia para continuar, por favor, o seu trabalho de evangelização no Japão. Não foi uma audiência privada, foi uma audiência geral, há fotografias.

Mas mesmo no Japão ele foi reconhecido mais tarde, não no tempo. Na altura da publicação de “Silêncio” houve algumas vozes discordantes. Houve ali, quanto a mim, uma interpretação incorrecta da mensagem que ele quis transmitir. Mas hoje é reconhecido pela hierarquia da Igreja.

Haverá o perigo, por assim dizer, de quem ver o filme, ou ler o livro, sem esse conhecimento todo, ser levado ao engano, ter uma ideia diferente daquilo que ele está a tentar transmitir. Que conselhos deixa a quem vai ver o filme pela primeira vez?
Que não tire conclusões precipitadas, que reflicta. Porque o livro deve levar-nos a reflectir.

Depois de fazer este estudo sobre Shusaku Endo, li “Silêncio” muitas vezes, tinha que ler, e ainda hoje continuo a reflectir sobre “Silêncio” e sobre a mensagem do “Silêncio”, porque se nós vamos ver o filme – principalmente ver o filme – e vemos o Rodrigues a pisar a imagem, a apostatar, e se chegamos à conclusão que ele apostatou, por isso é um fraco, o outro não apostatou, por isso é um forte, isto é uma precipitação.

Se nós analisarmos a apostasia de Rodrigues como um acto de compaixão para com os cristãos que estão a passar pelo martírio, para os libertar, não é um incorrecto pensar assim, é correcto. Ele decidiu apostatar para salvar os cristãos que estavam a ser martirizados, porque as autoridades tinham dito que se ele apostatasse, mesmo que fosse um pró-forma – porque eles queriam um padre, para dar o exemplo – seria libertado e os cristãos que estavam a sofrer seriam libertados. Por isso é que o próprio inquisidor lhe dizia que ele estava a fazer com que os japoneses sofram, través da tua teimosia, de não quereres apostatar.

Portanto, se nós virmos que ele apostatou por compaixão, aí está, por compaixão por aqueles que estão a sofrer, é uma interpretação correcta. Se a pessoa quiser aprofundar mais, e deve aprofundar mais, deve reflectir o que significou essa apostasia, o que é que ele apostatou, e porque é que ele, depois de ter apostatado, diz que a instituição e os seus irmãos jesuítas irão condená-lo, mas que ele continua a sentir-se o último padre no Japão, porque a partir do momento em que apostatou começou a amar Cristo de uma forma diferente, mas de uma forma mais intensa.

Se nós reflectirmos sobre o significado de tudo isto, então isso levar-nos-á muito longe. O que eu gostaria, de facto, era que todos nós cristãos reflectíssemos a partir daí, sem tomar decisões precipitadas, sem conclusões precipitadas, porque se fizermos interpretações precipitadas, ficamos na superfície.

Qual é a relevância da personagem Kichigiro?
Kichigiro é uma das personagens mais importantes do livro. Ele representa, de forma geral, Judas. Shusaku Endo colocou ali o Kichigiro para tentar provar que Jesus também salvou Judas. Ele tinha esse problema, da salvação de Judas.

E porquê? Porque o próprio Shusaku Endo sentia em si remorsos por ter traído pelo menos duas vezes a sua mãe. Quando ele estava na Manchuria o pai levava-o e ao seu irmão a passearem no parque, e a mãe ficava em casa, a trabalhar. Aos 10 anos ele apercebeu-se que o pai os levava a passear no parque para se encontrar com uma mulher.

Então o pequeno Shusaku pensou: “Se vou dizer à minha mãe, vou trair o meu pai, se não digo, estou a trair a minha mãe”. Então ele vivia naquele dilema e acabou por não contar nada à sua mãe e sentiu que traiu a sua mãe.

Tinha esse sentimento de traição, assim como tinha ao seu cão, “Negro”, que ele tinha na Manchuria, que era o seu confidente, com quem conversava precisamente sobre esses problemas. Estamos a falar de uma criança de dez anos...

E quando ele deixou a Manchuria com a sua mãe, o cão foi a correr atrás do carro, mas depois cansou-se e teve de parar, por isso ele sentiu também esse sentimento de traição em relação ao cão.

Em relação à mãe, voltou a ter um sentimento de traição quando, já de volta ao Japão, ele foi viver com o seu pai, que entretanto tinha contraído segundas núpcias. E mais uma vez depois de a sua mãe morrer, numa altura em que ele não estava em casa.

Tudo isto fez com que ele se identificasse muito com judas, com aquele que trai, e ele sentia que se Judas não fosse salvo, isso significaria que havia uma altura em que a graça não tinha sido suficiente para o pecado, ao contrário do que diz na Bíblia “onde abundou o pecado, superabundou a Graça”, por isso é que ele sentia que era necessário que Jesus tivesse salvo judas e Kichigiro representa isso.

No fim do livro Kichigiro e Rodrigues passam a viver juntos, em comunidade, o que representa não só a reabilitação de Kichigiro, como também “conversão” de Rodrigues a este Cristo “japonês”.

Silêncio: “Aquilo que Deus nos pede pode não ser o mais lógico”

Transcrição integral da entrevista feita ao padre jesuíta José Maria Brito, sobre o filme "Silêncio". As reportagens sobre o filme podem ser lidas aqui e aqui. Podem também ver a minha interpretação, bem como ler as transcrições integrais das entrevistas feitas a Brad Miner e ao especialista em Shusaku Endo, padre Adelino Ascenso.


Há quem diga que Silêncio é uma justificação da apostasia. Concorda?
Não me parece. Acho que não. Parece-me é que o filme nos coloca numa situação em que percebemos o que é que pode ser, num dado momento, as dúvidas de fé e as dúvidas sobre por onde passa, verdadeiramente, a fidelidade.

Nesse sentido não é um filme que nos dá uma resposta óbvia – por isso compreendo que essa leitura se faça – embora não seja a leitura que eu faça, mas compreendo essa leitura, porque realmente percebe-se que não é o facto de se temer o sofrimento que faz com que se opte pela aparente apostasia, o que de facto motiva a apostasia não é o medo do sofrimento, mas sim o desejo de expressar compaixão por pessoas muito concretas, pela comunidade que lhes tinha sido confiada.

E por outro lado também – o que creio que é importante neste caso – é recordarmos que a experiência de martírio que era e continua a ser um exemplo muito grande para os cristãos, não só um exemplo como um modo muito honroso de as pessoas se identificarem com Cristo, mas também de garantia de reconhecimento. Mas aqui eles sabem, até pela própria experiência que tinham, pelo impacto que a apostasia de Ferreira tinha tido na Europa, que optar por aquele caminho também os vai levar a ser tidos como loucos, desprezados pela sua própria comunidade. Por isso a opção, que é realmente difícil, não é uma opção que lhes garanta nenhuma honra ou glória. A vida deles, depois dessa opção, não se torna para eles mais prazenteira. Percebe-se que vivem uma certa morte espiritual, ou da sua dignidade como cristãos, e terem optado por isso e com a consciência disso, parece-me que de facto não é uma justificação da apostasia, mas sim o fazer-nos perceber que muitas vezes aquilo que nos é pedido pode ser contrário ao que aparentemente nos parece mais lógico e até mais conforme ao que é a proposta cristã.

O filme apresenta três reacções possíveis diante da perseguição. Há os que morrem pela fé, o que está constantemente a cair e a arrepender-se e por fim os que apostatam e parecem viver conformados com isso. A ideia é identificarmo-nos mais ou menos com alguma?
Acho que a leitura dessas diferenças é uma leitura possível. Mas não sei se é uma questão de nos identificar mais ou menos com uns ou outros. Não tenho tanta certeza de que vivam confortáveis, não faço essa leitura, de que os que fazem esta apostasia aparente vivam confortáveis com isso, porque me parece que eles têm consciência de que há ali uma certa perda da sua identidade e percebe-se nos seus diálogos interiores que eles mantêm a inquietação religiosa, a inquietação da sua fé, e acho que tanto o livro como o filme nos dá pequenas indicações que tornam possível a visão de que eles realmente não perdem a sua fé nem a sua confiança em Jesus.

Acho que o filme nos obriga, mais do que a identificar-nos com uns ou outros, a perceber como é que podemos viver os nossos combates interiores pela busca da fidelidade e como isso por vezes é menos óbvio do que gostaríamos e esse é o grande desafio da própria fé e do caminho da relação com Deus. Isso é o que me parece mais interessante no filme, mais desafiador, o que é realmente levar a nossa fé ao ponto de termos de tomar decisões que não são óbvias, mas em que procuramos a maior fidelidade possível daquilo que nos parece ser, naquele momento concreto, aquilo que Deus nos pede e o filme dá-nos um bocado essa indicação.

Considera que é um filme “perigoso”?
Não sei se é um filme perigoso. É um filme que implica uma certa cautela quando o vemos, para evitar juízos precipitados. O grande esforço que fazemos quando vemos este filme, ou outro, é perceber até que ponto isto apela a alguma experiência que tenhamos tido. Por isso é também nós procurarmos ler o filme a partir da nossa experiência de inquietação, de dúvida e perceber também as nossas experiências do silêncio de Deus.

Acho que não é um filme de fácil leitura e também pode implicar algumas leituras que podem ser precipitadas. Creio que se de alguma forma há uma mensagem, algo que o filme nos diz, é que a última palavra é de Deus. E por isso a última palavra que pode verdadeiramente julgar os actos humanos é de Deus e sinto que isso é talvez um dos pontos a que o filme apela e que se pudermos fazer a leitura a partir daqui, e por isso também suspendermos alguns dos nossos juízos, acho que o filme se torna um bocadinho menos perigoso.

Não deixo de sentir que o filme é de difícil leitura e que nesse sentido pode gerar muitos desconfortos e essas sensações de que falávamos antes, que há uma justificação da apostasia, por exemplo.

Mas o que creio que é o nosso desafio é lê-lo em profundidade.

Que conselhos é que dá a um católico que vá ver o filme?
O grande conselho que dou é que se deixem o interpelar, que recordem que a fé tem tons muito diferentes e que procurem ler o filme a partir das suas próprias inquietações, de dúvida e daqueles momentos em que procurar a fidelidade de Deus não foi óbvio na sua vida, e procurar ler o filme ligando à sua própria experiência e perceber onde podem ter passado por situações semelhantes. Ao mesmo tempo, voltando ao início, acho que é bom lembrarmo-nos de todas as situações de verdadeira perseguição, de cristãos que continuam a sofrer, e também ter isso presente.

"Shusaku Endo may have loved Christ, but he wasn’t fond of Christians"

This is a full transcript, in the original English, of my conversation with The Catholic Thing's Brad Miner on Martin Scorsese's "Silence". The news stories, in Portuguese, can be found here and here. My personal take on the film is here, also in Portuguese. Transcripts of my interview with  Jesuit Fr. José Maria Brito and with missionary and Shusaku Endo specialist Fr. Adelino Ascenso are also available, both in the original Portuguese.

Transcrição completa, no inglês original, da minha conversa com Brad Miner, do The Catholic Thing, sobre o filme "Silêncio" de Martin Scorsese. As reportagens estão aqui e aqui. A minha visão pessoal sobre o filme pode ser lida aqui. Transcrições integrais das conversas com o padre jesuíta José Maria Brito e com o missionário e perito em Shusaku Endo padre Adelino Ascenso também estão disponíveis.


Some say this film is a justification for Apostasy. Is that something that you agree with?
Yes it is.

I wouldn't say that Martin Scorsese, particularly, is certain of that. I don't think he is out to take a particular position that apostasy is a virtue, but rather that he does not believe that martyrdom is a virtue. That martyrdom serves the cause of Christ.

So apostasy, as one character says, in the film and in the book, is actually an act of love. It is what Christ would do. And I think that, obviously, is belied by the history in which there were so many martyrs, in Japan and elsewhere, who did give up their lives for Christ, who felt that enduring in the faith, over the course of great suffering, was the way in which Christians manifested love of God.

You go so far as to cast doubt on the completeness of Endo’s conversion...
It’s a speculation on my part, but I do think that he may have loved Christ, but was not particularly fond of Christians. One of the themes of the book, and of the film, is that Japan is not a place in which Christianity flourishes. Or so Endo believed in the 1960's and certainly the interlocutors of the various Jesuit priests who are tortured and then apostatize, in the book and in the film. They call it a swamp, a fen, a place where Christianity couldn't flourish. Although it had, obviously, prior to the persecution that began and that didn't cease until the Meiji era, which was some 100 years or more after the events which take place in silence.

Imagem do filme de Shinoda
In the many reviews I have read, you are the only one who has mentioned Masahiro Shinoda’s 1971 “Chinmoku”. How do the two compare?
Well Scorsese’s film is more interesting and is cinematically more compelling. The cinematography is more advanced, as you would expect a film made some 50 years later. However, there are great similarities between the two, and Endo's story is there, the apostasy is certainly there.

I guess there is a sense, in the earlier film, made by Shinoda, that the apostasy is perhaps more superficial than comes across in Scorsese’s film. Shinoda's film is darker, visually, but it is essentially the same story. I think both directors did justice to Endo and his vision.

And the acting in the earlier film is strange, in that the man who plays Sebastião Rodrigues does an awful lot of shouting. It is a peculiar thing. But as I also mention, what is remarkable is that the two American actors in the earlier film, both appear to speak Japanese, and that was a more interesting thing to watch in watching the film, because you really did get a sense that they really had, these two missionaries, immersed themselves in Japanese culture and understood, and were able to communicate with people in a way that doesn't really come across in the Scorsese film.

You also drew a comparison with the Joseph Conrad’s “Heart of Darkness”. Would you care to elaborate on that a bit?
I think many people know the story of the Joseph Conrad novel, of a man who is sent on a mission to try and find a fellow named Kurtz who has, as they say, gone native.

It takes place in Africa, and was, as many people now, remade by Francis Ford Coppola in his film Apocalypse Now, and set in Vietnam. The same character, Kurtz, is the man being sought. And again, it is very much a story about going native. Kurtz is an Ivory Trader in one film, and an American military commander in the other, he has become a kind of God-like figure to the people, to the natives in Africa, to the Montaignard tribesmen in Vietnam, and it is very much what is going on here, because going native is what happens to the characters in both Shinoda's film, in the book, of course, and in Scorcese's film.

Marlon Brando em "Apocalypse Now"
I think it is simply a carrying forward of this idea that Japan is a swamp, that there were times when a westerner goes into a situation trying to understand the people, and they end up kind of overwhelming him. He no longer wishes to be someone who imposes this foreign culture on the people he finds and the country he has come to serve.

In “Heart of Darkness” Kurtz writes letters back and forth to an organization Conrad calls the International Society for the Suppression of Savage Customs. Well, that is exactly, really, what the Jesuits have gone to Japan to do. And either you believe that that is valid, because they are bringing not only a series of new customs to replace the savage ones, but they are bringing the one true God into the understanding of people [or you don’t]. And I think that there is an anti-imperialist sense both in Conrad and in Endo and finally now, in Scorsese.

But when you say Endo must have been impressed by this concept of the Society for the Suppression of Savage Customs, do you know for a fact that he may have been influenced by it?
I do not know that for a fact, it is speculation.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O “Silêncio” de Scorsese: Três atitudes perante a perseguição

Antes de começar, dois pontos.

1º Este filme é baseado num livro de Shusaku Endo. Eu só vi o filme, não li o livro, embora tenha ouvido dizer que o filme é bastante fiel ao original, vou estar aqui a falar de subtilezas que são do filme e não sei se correspondem ao texto e às intenções de Endo.

2º Inevitavelmente, o texto terá spoilers, isto é, falará de várias coisas importantes no filme que, caso ainda não tenham visto, poderão afectar essa experiência e condicionar o visionamento. É um aviso. Se não viram, vejam, que vale mesmo a pena, e leiam o texto depois.


Antes de ir ver o “Silêncio” de Martin Scorsese, baseado no livro de Shusaku Endo, li várias recensões e falei longamente com pessoas que já conheciam o livro. As opiniões dividiam-se muito, mas reparei em muitos um medo ou uma preocupação de que o filme pudesse ser entendido como uma justificação da apostasia.

Depois de ter visto o filme, não concordo de todo com essa análise. Acho, até, que o que ele nos transmite é o contrário. Há várias razões para isso, mas apresento o que me parece ser uma chave de leitura do filme.

Scorsese apresenta-nos essencialmente três atitudes diferentes e possíveis diante da perseguição religiosa extrema. Em primeiro lugar temos os que não cedem e dão a vida pela sua fé. Neste filme este grupo de pessoas é representada essencialmente por pobres camponeses japoneses que praticavam o Cristianismo em segredo mas que, sendo descobertos, recusam a apostasia, preferindo a morte.

Depois há os que renunciam à fé, mas arrependem-se. Esta segunda categoria é representada por Kichijiro, um pescador que cresceu numa família cristã e que fugiu do Japão depois de toda a sua família ter sido martirizada. Nessa ocasião ele foi o único que renunciou, salvando a vida. Durante o filme vemos Kichijiro várias vezes a renunciar à fé, mas acabando sempre por pedir perdão e procurar a confissão sacramental.

Por fim há os que, após alguma resistência, renunciam e transformam-se, passando a viver uma vida consonante com a sua renúncia. Um exemplo é o padre Ferreira, um jesuíta português que, tendo cedido às torturas e à pressão das autoridades japonesas, comete apostasia e passa a viver como um japonês, com mulher e filhos, e é usado como instrumento para levar outros a abandonar a fé também, chegando a escrever um tratado sobre os “erros do Cristianismo”.

O filme começa com dois jesuítas portugueses – que ao contrário de Ferreira são figuras míticas, embora um deles se baseie numa figura real, mas não portuguesa – que partem para o Japão para saber notícias de Ferreira. Guiados por Kichijiro conseguem encontrar cristãos escondidos nas aldeias de pescadores, e desenvolvem os seus ministérios, para enorme alegria dos fiéis, até que são apanhados pelas autoridades.

Shusaku Endo
Uma vez capturados, o padre Francisco Garrpe não só recusa renunciar à fé como se lança à água para morrer juntamente com cristãos que estão a ser afogados pelos soldados. Já o padre Rodrigues, após uma longa batalha de vontades com o inquisidor japonês que quebrou Ferreira, acaba por ceder quando compreende que só assim consegue salvar a vida a cinco cristãos nativos que estão a ser torturados. Com o seu acto público de apostasia, pisando uma imagem de Cristo, passa a viver com todo o conforto, tal como Ferreira, sendo usado pelas autoridades para desmascarar cristãos e objectos de culto cristãos.

Qual destas atitudes é a certa? O filme não o diz explicitamente. Aliás, diria que é propositadamente dúbio. Somos levados a admirar os mártires, a sentir pena de Kichijiro e a compreender que Ferreira e Rodrigues renunciem para poder salvar inocentes.

Mas não havendo respostas explícitas, há sinais. A mim, o que me chamou mais atenção foi a questão da dignidade…

Aquilo que salta mais à vista na morte de todos os cristãos, durante o filme, é a enorme e admirável dignidade com que são representados. Desde os que são crucificados e deixados à mercê da maré enchente, chegando a cantar hinos religiosos enquanto são fustigados pelas ondas, aos que são lançados ao mar. Todos são um hino à dignidade. Mas há uma sequência que o mostra de forma muito explícita.

Quando vários cristãos são conduzidos de uma cela e convidados a pisar a imagem religiosa, todos recusam. Apesar de presos, estão vestidos de forma digna, e comportam-se assim, também. No final são todos reenviados para a cela, excepto um. Enquanto este espera, vemo-lo, surpreendentemente, a conversar de forma aparentemente relaxada com o guarda. Está de pé, de cabeça erguida, a falar com um guarda de igual para igual e a ser tratado como um homem. Do nada surge um dos inquisidores que lhe corta a cabeça, uma cena que recorda – duvido que não seja propositado – as decapitações de Cristãos na Síria, na Líbia e no Iraque nos últimos anos.

Logo a seguir, o inquisidor diz aos cristãos que há uma outra hipótese e manda chamar Kichijiro, que é convidado a pisar a imagem, penso que pela terceira vez desde o início do filme. O Kichijiro que aparece parece um primata. Vestido unicamente de cueca, sujo, desgrenhado, corre curvado, pisa a imagem medroso e foge de imediato para fora da prisão.

O contraste entre as duas posições não podia ser mais evidente. Os que morrem pela fé morrem inteiros e dignos. Os que abjuram, quanto mais o fazem, mais miseráveis ficam, por mais que se venham a arrepender. Mas há mais… Kichijiro ainda volta a aparecer, e no final do filme, inesperadamente, é-lhe descoberto um amuleto religioso. Nessa altura encontra-se já bem vestido e limpo. Quando tudo indica que a traição poderá novamente comprar-lhe a liberdade, é fiel aos seus amigos e, embora não se diga explicitamente, fica-se com a ideia de que acaba por ser martirizado. Quando os soldados o levam embora, vai direito, de cabeça erguida e a olhar em frente. Agora sim, um homem digno. Salvou-se no final, apesar de ter dado a vida.

E que dizer dos outros? A melhor expressão que encontro é que são carcaças de homem. Da primeira vez que Ferreira aparece, para tentar convencer Rodrigues a apostatar, nem lhe consegue olhar nos olhos, é todo ele autojustificação e arrogância. Mais tarde, quando Rodrigues lhe segue os passos, praticamente não voltamos a ver nele qualquer emoção. Não sorri, não revela compaixão por cristãos perseguidos. Está vazio. Se há alguma esperança de salvação para Rodrigues, esta parece chegar-lhe, surpreendentemente, de Kichijiro.

A apostasia é justificada? Scorsese não nos enfia uma resposta pela goela abaixo, mas penso que o seu filme deixa bem claro quais são as atitudes que mais respeitam a dignidade humana dos seus intervenientes.

Uma nota final, ligada a tudo isto… Várias vezes os inquisidores dizem aos cristãos que na verdade não querem saber daquilo em que acreditam ou não, apenas lhes interessa que façam o acto público, exterior, e serão deixados em paz. É a sedução do mal em todo o seu esplendor.

Mas outra coisa que ressalta muito claramente do filme, é que essas promessas são sempre falsas. Em primeiro lugar, vários dos cristãos que são mortos, segundo nos dizem, já renunciaram publicamente, mas são torturados para levar outros a renunciar. Em segundo lugar, nunca é só uma vez… Mesmo Ferreira e Rodrigues, que para todos os efeitos vivem vidas de exemplar colaboração com as autoridades, têm de assinar declarações de apostasia regulares e são repetidamente convidados a pisar publicamente as imagens sagradas em demonstração pública dessa mesma renuncia. Ou seja, a apostasia é um acto que nunca satisfaz quem o exige e nunca deixa em paz quem o pratica.


Podem ler as reportagens que fiz sobre o filme aqui e aqui. Aqui a opinião de Aura Miguel. Podem também ler as transcrições integrais das entrevistas que fiz para as reportagens, incluindo ao padre Adelino Ascenso, provavelmente o maior especialista sobre Shusaku Endo e a sua obra em Portugal. Aqui podem ler a transcrição da entrevista a Brad Miner e a do padre José Maria Brito.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Carta de uma prisão em Birmingham

Martin Luther King Jr.
16 de Abril de 1963
Meus caros amigos clérigos:

Durante o meu encarceramento na prisão municipal de Birmingham, deparei-me com as vossas declarações recentes apelidando as minhas actividades actuais de “insensatas e inoportunas”. Raramente páro para responder a críticas ao meu trabalho e ideias. Se tentasse responder a todas as críticas que passam pela minha mesa, as minhas secretárias mal teriam tempo para outra coisa que essa correspondência no decorrer do dia, e eu não teria tempo algum para o trabalho construtivo. Mas, como sinto que vocês são homens de genuína boa vontade e que as vossas críticas são expostas com sinceridade, quero tentar responder-lhes em termos que espero que sejam pacientes e razoáveis.

Estou em Birmingham porque a injustiça está aqui. Assim como os profetas do Século VIII a.C. abandonaram as suas vilas e levaram o seu “assim disse o Senhor” muito além das fronteiras de suas cidades natais, e assim como o Apóstolo Paulo abandonou sua vila de Tarso e levou o evangelho de Jesus Cristo às mais remotas partes do mundo greco-romano, também eu sou compelido a levar o evangelho da liberdade para além de minha própria cidade natal. Como Paulo, devo constantemente responder ao apelo macedónio por ajuda.

Além disso, estou ciente do inter-relacionamento entre todas as comunidades e Estados. Não posso ficar ociosamente parado em Atlanta e não estar preocupado com o que acontece em Birmingham. A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares. Estamos presos numa rede inescapável de mutualidade, atados num único laço do destino. Algo que aja sobre alguém directamente age sobre todos indirectamente. Não podemos nunca mais nos permitir viver com a ideia estreita, provinciana, do “forasteiro agitador”. Qualquer pessoa que viva dentro dos Estados Unidos não pode jamais ser considerada um forasteiro em qualquer lugar dentro de suas fronteiras.

Vocês deploram as manifestações que estão a ocorrer em Birmingham. Mas a vossa declaração, lamento dizer, não expressa preocupação semelhante com as condições que provocaram as manifestações. Tenho a certeza de que nenhum de vocês gostaria de se contentar com o tipo raso de análise social que trata meramente dos efeitos e não ataca as causas subjacentes. É lamentável que as manifestações estejam a ocorrer em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa.

Em qualquer campanha pacífica, há quatro passos básicos: Apuramento dos factos para determinar se existem injustiças; Negociação; Auto-purificação e acção directa. Efectuamos todos esses passos em Birmingham. Não se pode negar que a injustiça racial domina a comunidade. Birmingham é provavelmente a cidade mais completamente segregada dos Estados Unidos. A sua história feia de brutalidade é amplamente conhecida. Os negros experimentaram um tratamento grosseiramente injusto nos tribunais. Houve mais explosões não resolvidas de casas e igrejas negras em Birmingham do que em qualquer outra cidade no país. Esses são os factos duros e brutais da situação. Com base nessas condições, os líderes negros tentaram negociar com as autoridades da cidade. Mas estes recusaram-se consistentemente a tomar parte em negociações de boa-fé.

Sabemos por meio de experiências dolorosas que a liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido. Francamente, ainda não tomei parte em qualquer campanha de acção directa que fosse “oportuna” na visão daqueles que não sofreram indevidamente da doença da segregação. Já faz anos que ouço a palavra “Espere!” Ela ressoa nos ouvidos de cada negro com uma familiaridade aguda. Esse “espere” quase sempre se traduziu em “nunca”. Temos de chegar à percepção, junto com um de nossos eminentes juristas, de que “a justiça adiada por muito tempo é justiça negada”.

Existe uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. Pelo contrário, há uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas. Concordaria com Santo Agostinho em que “uma lei injusta simplesmente não é lei”.

Agora, qual é a diferença entre as duas? Como se pode determinar se uma lei é justa ou injusta? Uma lei justa é um código produzido pelo homem que se ajusta à lei moral ou à lei de Deus. Uma lei injusta é um código que está em desacordo com a lei moral. Para colocar nos termos de Santo Tomás de Aquino: uma lei injusta é uma lei humana que não está radicada na lei eterna e na lei natural. Qualquer lei que eleve a personalidade humana é justa. Qualquer lei que degrade a personalidade humana é injusta. Todos os estatutos segregacionistas são injustos porque a segregação desfigura a alma e danifica a personalidade.

Obviamente, não há nada de novo nesta forma de desobediência civil. Ela foi manifestada de maneira sublime pela recusa de Shadrach, Meshach e Abednego a obedecerem às leis de Nabucodonosor, sob o argumento de que estava em jogo uma lei moral mais elevada. Foi praticada soberbamente pelos primeiros cristãos, que preferiam enfrentar leões famintos e a dor torturante das mutilações a submeter-se a certas leis injustas do Império Romano. Até certo ponto, a liberdade académica é uma realidade hoje porque Sócrates praticou a desobediência civil. Na nossa própria nação, o Boston Tea Party representou um acto imponente de desobediência civil.

Antes, tentei dizer que esse desgosto normal e saudável pode ser canalizado por escapes criativos como a acção directa pacífica. E agora esse método está sendo denominado de extremista. Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação com o rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ama os teus inimigos, abençoa aqueles que te amaldiçoam, faz o bem àqueles que te odeiam e reza por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amós um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca pára”? Não era Paulo um extremista do Evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”?

…Devo salientar sinceramente que fiquei desiludido com a Igreja. Não digo isso como um daqueles críticos negativos que sempre conseguem encontrar algo de errado na igreja. Digo-o como um sacerdote do Evangelho, que ama a Igreja; que foi acalentado no seu seio; que tem sido sustentado por suas bênçãos espirituais e que permanecerá fiel a ela enquanto o fio da vida se estender.

Profundamente decepcionado, chorei pela frouxidão da Igreja. Mas podem estar certos de que as minhas lágrimas foram lágrimas de amor. Não pode existir decepção profunda onde não existe amor profundo. Sim, amo a Igreja. Como poderia não amar? Estou na posição um tanto singular de filho, neto e bisneto de pregadores. Sim, vejo a Igreja como o corpo de Cristo. Mas, oh!, como maculamos e deixamos cicatrizes nesse corpo por meio da negligência social e por meio do medo de sermos não-conformistas.

Se disse algo nessa carta que exagera os factos e indica uma impaciência imoderada, peço que me perdoem. Se disse algo que atenua os factos e indica uma paciência que me permite conciliar-me com algo menor do que a fraternidade, peço a Deus que me perdoe.

Espero que esta carta vos encontre fortes em sua fé. Espero também que as circunstâncias em breve permitam que me encontre com cada um de vocês, não como um integracionista ou um líder dos direitos civis, mas como um colega clérigo e um irmão cristão. Tenhamos todos esperança de que as nuvens negras do preconceito desapareçam em breve e a neblina profunda da incompreensão se dissipa das nossas comunidades amedrontadas, e que numa manhã não muito distante as estrelas radiantes do amor e da fraternidade brilhem sobre o nosso grande país com toda a sua beleza cintilante.

Sinceramente, pela causa da Paz e da Fraternidade, Martin Luther King, Jr.


Martin Luther King Jr. (1929-1968), um pastor baptista, foi presidente da Conferência de Líderes Cristãos do Sul. Recebeu o prémio Nobel da Paz em 1964 por causa da sua defesa da luta não-violenta a favor dos direitos civis. Em 1963 liderou a Marcha Sobre Washington onde fez o discurso “Eu Tenho um Sonho”, que marcou um ponto de viragem da História americana.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017)

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