segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Black and White no Vaticano

O Papa encontrou-se esta segunda-feira com o Patriarca da Igreja Ortodoxa da Etiópia, proporcionando fotos muito giras.

Um homem saudita de 28 anos foi condenado a 10 anos de cadeia e 2.000 chibatadas por promover o ateísmo.

Entretanto no Paquistão o ex-guarda-costas que assassinou Salman Taseer por este ter apoiado a cristã Asia Bibi, acusada de blasfémia, foi enforcado na madrugada de hoje. Houve manifestações contra a execução por parte de apoiantes.

O debate sobre a eutanásia continua a dar que falar, depois de a bastonária da ordem dos enfermeiros ter dito que esta já é praticada no SNS (apesar de depois ter vindo dizer que não disse, ouça você mesmo e decida).

Pela minha parte publico hoje mais um artigo sobre este assunto. Há quem acuse os defensores da eutanásia de serem nazis só porque foram os nazis os primeiros a legalizar a prática. Não, os pró-eutanásia não são nazis. Mas a eutanásia é, como explico.

Nota para quem tem crianças. Thereza Ameal escreveu o livro: “Lúcia – A vida da Pastorinha de Fátima”. Conheça melhor o projecto aqui.

Eutanásia e nazismo, unidos pelo “Lebensunwertes Leben”

Francisco a dar-nos lições sobre dignidade
Há uma coisa que irrita profundamente os defensores da eutanásia e que é muito usada pelos seus opositores. Trata-se da evocação do facto de que na história moderna o primeiro Estado a atrever-se a legalizar e codificar a eutanásia foi o III Reich de Adolf Hitler.

Mas este argumento, por si só, é perigoso. As coisas não são más só porque os nazis as defenderam e fizeram. Não é o facto de os nazis terem usados comboios para transportar judeus para os campos de concentração que torna o transporte ferroviário imoral para toda a eternidade. Haverá um sem número de coisas perfeitamente normais e banais que os nazis fizeram e fizeram bem, algumas das quais são boas, a maioria perfeitamente amorais. Obviamente, e bem, nós lembramo-nos dos nazis pelo imenso e incomensurável mal que fizeram à Europa e ao mundo, e não pelo facto de terem tido aumentado os níveis de literacia infantil, ou qualquer coisa do género.

Os defensores da Eutanásia que têm dado a cara nestes debates públicos não são, manifestamente, nazis. Nunca disse que eram nem o direi. O problema é que a esmagadora maioria dos alemães também não eram nazis. O grande drama da Europa foi o facto de incontáveis alemães aparentemente bem-educados, bem-intencionados e talvez até afáveis, se deixaram enrolar e alinharam nas terríveis ideias de Hitler e dos seus capatazes.

O recurso ao exemplo histórico dos nazis neste debate sobre a eutanásia não é um mero recurso manhoso dos defensores da vida. Vem totalmente a propósito porque os argumentos usados então e hoje para defender a legalização desta prática, parecendo muito diferentes, têm a mesma, perigosa e terrível raiz.

Os nazis inventaram um termo “Lebensunwertes Leben”, que significa “Vida indigna de ser vivida”. Aplicaram-na aos deficientes, aos “impuros”, aos doentes. Hoje os defensores da eutanásia diferem apenas (e por enquanto) nos alvos da lei que propõem. O facto de insistirem (por enquanto) que a lei que defendem apenas permitirá a eutanásia por livre vontade do doente é um detalhe. O grande problema da lei nazi não era a falta de consentimento dos eutanasiados, era precisamente o pressuposto de que eles não eram dignos de viver. E isso – que há vidas que não são dignas de serem vividas – é o centro do argumento moderno pela eutanásia. Não é uma coisa escondida, um detalhe, é mesmo a pedra angular.

Porque a não ser que estejamos a dizer que a dignidade não é uma coisa inerente à condição humana, mas que depende das nossas vontades e da nossa autonomia – do estilo, hoje tenho dignidade, mas amanhã já não me apetece, quinta-feira logo se verá –, então estamos a dizer que há homens emulheres que são mais dignos que outros, em função das suas capacidades físicasou mentais. Se esse é o caso, então o que nos impede de concluir que a vida do deficiente mental, ou do tetraplégico, é “Lebensunwertes Leben”? Afinal de contas o que estavam a fazer os nazis se não levar um passo mais longe a mesma lógica que hoje os bem-pensantes do progressismo social apregoam?

A despenalização da eutanásia não é apenas nazi, está intimamente associada ao núcleo intelectual e racional do nazismo: A ideia de que uns têm uma vida digna de ser vivida, mas outros não.

Eu não direi que os defensores da eutanásia são nazis porque para ser nazi é preciso mais do que apenas isso. Mas que a ideia que defendem tresanda a nazismo digo sem medo de me acusarem de demagogia, porque a raiz é a mesma e é por isso que o fruto também é o mesmo: A morte.

Leia também: Eutanásia, dignidade e individualismo

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

BE? LOL...

Responsável pela comunicação do BE?
Hoje só se fala do cartaz do Bloco de Esquerda. A Igreja lamenta a falta de respeito pelas convicções religiosas dos cristãos, o PSD diz que este cartaz revela que o interesse das crianças nunca foi o motor do debate sobre a adopção por homossexuais e o CDS queixa-se de “ofensa gratuita”. Raquel Abecasis, da Renascença, só tem coisas boas para dizer ao Bloco.

Eu, se fosse bloquista, mais do que ter ofendido milhões de pessoas, estaria preocupado com o facto de as campanhas partidárias serem pensadas, aparentemente, por miúdos de 13 anos, leitores do Charlie Hebdo e com a mania que são rebeldes.

Bem mais interessante é a reportagem que publiquei ontem, o segundo da série que estou a fazer ao longo do Jubileu da Misericórdia. Nesta, sobre a confissão, o padre Bernardo Magalhães explica os efeitos que confessar tem sobre os padres e admite que gosta mais das pessoas depois de conhecer os seus pecados.

Realiza-se amanhã, sábado, a primeira Jornada Diocesana da Comunicação, em Lisboa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O dia em que o Papa disse ACAB

Clueless...
O Papa Francisco utilizou esta quarta-feira a história do Rei Acab, de Israel, que matou Naboth para lhe roubar a vinha, como base para criticar as autoridades modernas que exploram os pobres e os fracos.

Boas notícias do Médio Oriente – e não falo dos acordos de cessar-fogo, pois aí mais vale esperar para ver – com informação de que foi libertado o último grupo dos cerca de 200 cristãos que tinham sido raptados há um ano. Há também a história de uma jovem sueca que foi para a Síria com o namorado e foi libertada do Estado Islâmico agora, podendo regressar a casa (na foto).

O bastonário da Ordem dos Médicos diz que a aprovação da eutanásia é uma medida “anti-social” e que não se pode falar em liberdade de escolha sem investir nos cuidados paliativos.  Sobre este assunto, volto a chamar atenção para o meu artigo no blog em que falo dos perigos sociais da eventual legalização da eutanásia.

Mais três países juntaram-se ao lote dos que formalmente aboliram a pena de morte.

Um Homem para os Nossos Tempos

David Warren
Não é preciso ser católico para manter a sanidade mental, mas ajuda. Tenho pensado muito nisso desde que soube da morte de Antonin Scalia.

Muito antes de me converter ao catolicismo já o admirava, e muito daquilo que eu admirava tinha a ver com a sua formação religiosa. Era uma pessoa segura de si mesma, ancorada de uma forma que excluía a arrogância. Sabia o que estava correcto e o que estava errado. Não podia ser intimidado.

Claro que tudo isto é possível sem ser católico. Já conheci protestantes que possuíam estas qualidades e achei-os geralmente generosos – livres de intolerâncias sectárias ou, de outra perspectiva, abertos à verdade e ao conhecimento da herança cristã. Modestos, justos, santos, queridos, boa gente.

Nos meus tempos de jornalista tive a honra de entrevistar líderes religiosos desde o Grão-sheikh do Al-Azhar, no Cairo, ao Supremo Patriarca dos Sangha, na Tailândia e também eles me pareceram sólidos, seguros, ancorados numa ordem moral que procede de um Amor que é tudo menos fofinho.

Também já conheci católicos severos e de mente fechada, sem amor e cruéis. A Palavra torna-se meras palavras quando se lhe retira o espírito; e palavras podem ser usadas para o mal quando a fé que as sustenta é trocada por outra coisa.

Sei que corro o risco de parecer um liberal. Deus bem sabe que não o sou. Nem estou a propor uma “folga ecuménica” do chamamento divino para o campo de batalha na luta contra Satanás. Estou simplesmente a afirmar que os homens são formados ou deformados em tradições que podem ser boas ou más e que abordar um homem bom implica respeitar as suas boas tradições.

Scalia entendia isto. Ele tinha noção que a América tinha sido fundada sobre valores protestantes e que a Constituição americana que ele defendia era, na sua natureza, uma coisa bela mas finita, que o tribunal em que se encontrava não era a Rota Romana.

Muitos dos seus amigos católicos mais eruditos discutiam com ele – sempre da forma mais agradável, tanto quanto sei – sobre a questão do “direito natural” no qual essa constituição “positiva” assenta. Em público, contudo, Scalia não tocava esse assunto. Na sua mente americana havia uma separação muito clara entre Igreja e Estado e ele não era nem político nem filósofo.

O melhor que ele podia fazer era servir o tribunal, aplicando a lei da forma como estava escrita. Ele nem o entendia como sendo um Tribunal Constitucional (tal como existem em muitos países na Europa), era simplesmente o mais alto tribunal de recurso nos Estados Unidos, uma última defesa contra os erros judiciais dos tribunais menores. Esta defesa não podia ser dominada por uma agenda.

Por exemplo, enquanto católico ele opunha-se profundamente ao aborto. A sua mulher Maureen, mãe de nove filhos, desempenhou um papel activo e incansável na luta contra este horror monstruoso, que clama aos Céus por justiça. Scalia foi criticado mais do que uma vez pelas actividades privadas da sua mulher, com a sugestão de que se devia recusar – talvez juntamente com todos os outros católicos do tribunal – de qualquer caso com implicações morais.

Tratava-se de uma injustiça ridícula. A posição de Scalia era a de um advogado. Não existe qualquer “direito da mulher ao aborto” na Constituição americana. O caso Roe v. Wade inseriu-a lá, de forma fantasiosa, e ao fazê-lo arrogou à judiciária um poder inconfundivelmente legislativo. Enquanto advogado e mais tarde juiz, Scalia nunca se opôs a algo por razões puramente morais, nunca invocava qualquer argumento que não fosse a lei, tal como aparece escrita.

O padre Paul Scalia faz a homilia na missa fúnebre do seu pai Antonin. 
Ver sobretudo a partir de 2'30"

Se a América quisesse ter aborto, que tivesse; se quisesse ter casamento homossexual e “eutanásia” ou qualquer outro mal, que tivesse, desde que por actos legais produzidos aos níveis estatais ou federal. Estas coisas podiam até ser incluídas na Constituição através da passagem formal de uma emenda. Mas enquanto não fossem, não podiam ser impostas por advogados. Os direitos eram-no na lei e não através de apelos a abstracções, e isso valia para todos os tribunais.

Eis, por isso, o paradoxo: Scalia, enquanto advogado, evitava cuidadosamente qualquer referência a códigos religiosos, qualquer interpretação de um anterior “direito natural” – apesar de ser um católico praticante. Os seus adversários “liberais”, porém, faziam-no de forma negligente, lendo na Constituição “direitos” que nunca lá tinham sido escritos.

São eles, e não Scalia, que podem ser vistos como defensores de um qualquer “direito natural” – embora estejamos a falar de um conceito inerentemente fátuo e que muda ao sabor dos tempos.

Tal como Scalia avisou, quando se envereda por esse caminho passa a valer tudo. Uma vez que ficou estabelecido que advogados em altos cargos podiam reescrever leis consoante os seus caprichos – tal como aconteceu em Roe v. Wade – deixou de haver quaisquer limites. Tinha-se feito à lei americana algo comparável com o que seria feito aos bebés americanos.

Antonin Scalia
São Tomás Moro adoptou uma posição semelhante à de Scalia no que diz respeito às leis inglesas quando foi Chanceler. Alguns leitores poderão recordar-se da sua posição, parafraseada na peça “Um Homem para Todas as Horas” em resposta “reformador” Roper – um idealista que propunha ceifar todas as leis que via como obstáculos ao que imaginava ser a justiça perfeita:

“Ai sim? E quando a última lei fosse abrogada e o Demónio se virasse contra ti – onde te esconderias, Roper, estando todas as leis espezinhadas? Se este país está semeado grossamente com leis de costa a costa – leis dos homens e não de Deus – e se tu as cortas – e quem mais senão tu? – pensas mesmo que te aguentarias de pé diante dos ventos que então soprariam? Sim, eu daria o benefício da lei ao Diabo, para minha própria protecção”.

Descansa em Paz, Nino Scalia. Ele não tinha de ser católico para defender tão nobremente a sua posição. Mas ajudou.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eutanásia fracturante e Marcelo em procissão

Marcelo na procissão do Senhor dos Passos
O Patriarca de Lisboa diz que temas como a eutanásia são fracturantes precisamente porque nos “fracturam uns contra os outros”.

Algumas semanas depois de o debate ter arrancado, escrevi um texto de opinião no meu blog sobre Eutanásia em que explico porque é que a legalização é má e porque é que o assunto nos diz respeito a todos, e não apenas a quem quer deixar de viver.

Ontem decorreu em Lisboa a procissão do Senhor dos Passos. Os presentes foram surpreendidos pela presença de Marcelo Rebelo de Sousa e também da chuva.

Também ontem, o Papa apelou ao fim da pena de morte em todo o mundo.

No mail que mandei na quinta-feira passada falei dos comentários do Papa sobre o Cristianismo (ou falta dele) de Donald Trump. O Trump não gostou e ripostou.

Eutanásia, dignidade e individualismo

Propaganda nazi pró-eutanásia
Hoje os idiotas são outros.
O debate da eutanásia já chegou, fruto de um manifesto e da promessa de uma iniciativa legislativa do Bloco de Esquerda.

Os argumentos e as estratégias a que estamos a assistir são os mesmos de sempre, que já foram usados noutros países, incluindo aqueles que começaram por prometer só eutanásia voluntária para doentes terminais e agora já matam crianças, idosos a pedido das famílias e pessoas com meras depressões.

Em primeiro lugar está sempre o chavão da dignidade. E quem é que pode ser contra a dignidade? Ninguém, claro. A questão está então em saber se aquilo que é proposto é realmente algo que dignifica as pessoas ou não. E não é, muito pelo contrário.

Ao dizer que as pessoas têm o direito a uma morte digna, o que os defensores da Eutanásia estão a dizer implicitamente é que existe algo de indigno numa morte natural que possa envolver sofrimento ou degeneração física. Isso é, pura e simplesmente, uma monstruosidade.

Cada homem e cada mulher tem uma dignidade que é inviolável, que não lhe pode ser tirada e que é inerente ao próprio facto de ser humano. Quando dizemos que alguém está a fazer uma coisa indigna – se uma mulher se torna prostituta ou um homem comete um crime horrendo – não estamos a dizer que perderam a sua dignidade mas sim que esse acto ou essa escolha nos choca precisamente pelo contraste com o respeito que essa dignidade pede e merece.

O toxicodependente mais degradado do mundo não é menos digno que o Papa ou que um deputado ou deputada. É porque tem essa dignidade indelével que nos custa tanto vê-lo no estado em que está.

Se a dignidade não pode ser afectada ou diminuída pelos nossos actos ou pelas nossas escolhas, menos ainda pode ser afectada ou diminuída por um processo natural de envelhecimento ou doença. Dizer que sim implica dizer que o homem só é verdadeiramente digno quando está no auge da sua saúde e desenvolvimento. À medida que decai, torna-se menos digno e, por isso, menos humano. Esta noção terrível é, infelizmente, uma consequência lógica da ideia de que os nascituros são menos humanos que os que já nasceram e estão mais desenvolvidos.

E é isto que nos leva à segunda questão. O que é que eu tenho a ver com isso? Se o Sr. José quer morrer, quem sou eu para me colocar entre ele e a sua ideia de “morte digna”? Não temos cada um direito a escolher o nosso próprio destino?

Eis-nos perante o triunfo do individualismo. A minha vida, os meus direitos, o meu destino, as minhas escolhas, o meu corpo… O único problema com este raciocínio é que nós não somos, nenhum de nós, unicamente indivíduos, somos pessoas que vivem em sociedade, em grupos, em famílias, em nações.

É evidente que temos direito a tomar decisões sobre a nossa vida, mas não na medida em que afectam de tal forma a sociedade que tornam a vida mais perigosa para todos os outros. Não posso, usar “o meu tempo” e “a minha vida” e “o meu dinheiro” para mandar construir “a minha central nuclear” na “minha quinta”. É tudo meu, menos o custo social…

E qual é o custo social da legalização da Eutanásia? Porque é que a escolha individual do Sr. José tem alguma coisa a ver comigo? Porque a consagração dessa opção como um direito põe em causa o pilar central da sociedade em que eu vivo e que as leis existem para sustentar.

Porque a legalização da Eutanásia diz-me a mim e à minha família que vivemos num país em que a dignidade das pessoas se mede pela sua aptidão física ou ao sabor das suas vontades. E está também a abrir as portas da legitimidade a todas as pressões que a partir de agora os idosos e doentes passarão a sentir por serem fardos para os seus familiares.

A aprovação desta lei fará com que eu e a minha família passemos a viver num país que em vez de dizer aos cidadãos mais frágeis “estou aqui para te ajudar” passa a dizer “estou aqui para te ajudar a morrer”, como se isso fosse resolução não só para o seu problema mas para o nosso também.

E por fim, e acima de tudo, obriga-me a viver num país que assume que entre duas pessoas, uma tem dignidade e outra não. E essa é uma ideia tão perigosa que em nada nos surpreende que o primeiro regime na história moderna a legalizar e codificar a eutanásia assentava precisamente sobre ela.

Por isso não, esta não é uma questão que diz respeito apenas a cada um, diz respeito a todos. E é uma questão que não precisa de eutanásia, precisa de ser abortada mesmo antes de vir a nascer.

Leia também: Eutanásia e nazismo, unidos pelo “Lebensunwertes Leben”

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Aborto = Máfia, mas Trump não é Cristão

Francisco equiparou esta quinta-feira o aborto aos crimes da máfia. Na sua habitual conversa com os jornalistas, no avião que o trouxe do México, o Papa falou também do Donald Trump e da patética notícia da BBC sobre uma alegada relação “íntima” de João Paulo II com uma mulher polaca.

Tudo isto na viagem que marcou o final da visita ao México, onde ontem Francisco visitou Ciudad Juárez, um dos locais mais perigosos do país.

Francisco esteve numa prisão, onde fez um belíssimo discurso desafiando os reclusos a serem profetas para a sociedade para evitar que outros cometam os mesmos erros.

Depois, o Papa esteve num encontro com representantes do mundo do trabalho, onde avisou que os “esclavagistas modernos” vão ter de prestar contas a Deus e defendeu a Doutrina Social da Igreja.

Na sua última missa no México, Francisco alertou para o escândalo do abuso dos migrantes.

Ontem, por ser quarta-feira, publiquei novo artigo do The Catholic Thing em português. Randall Smith volta à carga com um texto de leitura obrigatória tanto para os “tradicionalistas” que actualmente falam mal do Papa Francisco como pelos “liberais” que ontem diziam mal de Bento XVI. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Erros papais

Randall Smith
Em 1986 o Papa João Paulo II organizou o Dia Mundial da Paz, em Assis, para o qual convidou 160 líderes religiosos, incluindo judeus, budistas, sikhs, hindus, jains, zoroastrianos e membros religiões tradicionais africanas. Alguns católicos ficaram escandalizados. Mais tarde, João Paulo viria a publicar as encíclicas Centesimus Annus (1991), Veritatis Splendor (1993); Evangelium Vitae (1995); e Fides et Ratio (1998). Pergunto: Se um católico tivesse ficado enfurecido pelo encontro de oração de Assis, ele ou ela continua a ser obrigado a oferecer aos ensinamentos destas encíclicas a “submissão religiosa de intelecto e vontade”?

Em 1929 Pio XI assinou o Tratado de Latrão com o Governo fascista de Benito Mussolini, que reconheceu o Vaticano como Estado independente e garantiu à Igreja o apoio financeiro do seu Governo. Muitas pessoas – na altura e desde então – criticaram esta decisão, não só por ter sido um pacto celebrado com fascistas, mas também porque Pio tinha cedido a sua autoridade tradicional sobre os Estados Pontifícios. Esses católicos que acreditam que a decisão de Pio foi um erro são obrigados pelos ensinamentos do Quadragesimo anno, Quas primas, ou Divini Redemptoris?

Em 1633 o Papa Urbano VIII recusou determinantemente a decisão de membros do seu próprio tribunal da inquisição, de que Galileu devia ser perdoado pelo “erro” de publicar o seu “Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo”. Urbano, que tinha sido um patrono e defensor de Galileu, estaria ofendido pelo facto de este ter colocado um dos seus argumentos na boca da sua personagem “Simplício” (o simplório). A decisão do Papa de colocar Galileu em prisão domiciliária teve repercussões negativas para a Igreja até hoje. Esta decisão torna tudo o resto que ele ensinou, sobre fé e moral, inútil?

Há que fazer algumas distinções. A Igreja defende que os papas podem, em determinadas circunstâncias e quando o pretendem explicitamente, pronunciar-se de forma infalível sobre questões de fé e de moral. Em toda a história da Igreja há talvez oito proclamações que encaixam nesses requisitos. A maioria dos ensinamentos dos papas acarretam autoridade, mas não infalíveis, pedindo não o “assentimento da fé”, como fazem os infalíveis, mas “a submissão religiosa de intelecto e de vontade”.

Pode, então, ser lícito a um católico fiel discordar de um ensinamento com autoridade mas não infalível de um Papa? Sim, pode. Se a pessoa tiver investigado diligentemente o ensinamento em questão e se, depois de séria reflexão e oração, sentir que é necessário proceder a uma correcção fraterna, então poderá expressar publicamente o seu desacordo desde que: A) As suas razões forem sérias e bem fundamentadas; B) a discordância não impugnar ou questionar a autoridade da Igreja para ensinar e C) se a natureza da dissensão não for tal que dá origem a escândalo.

Já várias vezes pensei que estas regras servem igualmente para qualquer outra situação em que estamos em desacordo com alguém. Devemos ter boas razões por detrás da nossa posição; devemos fazer todos os esforços para não impugnar a integridade ou as boas intenções do nosso interlocutor; e devemos argumentar de forma a não criar escândalo. Raramente conquistamos os outros (incluindo os meros observadores) adoptando uma atitude agressiva. Normalmente só se consegue dar má imagem do nosso lado.

Estamos conversados, portanto, quanto a ensinamentos do Papa.

João Paulo II no encontro de Assis
E sobre as acções do Papa? Será que em conjunto com o dom da infalibilidade, os Papas têm também o dom da impecabilidade? Um carisma especial que os impede de cometer qualquer erro?

A Igreja nunca defendeu tal coisa. Muito pelo contrário, aqueles que mais acerrimamente defenderam a infalibilidade sempre fizeram questão de a distinguir de impecabilidade precisamente porque A) é claro que vários Papas cometeram pecados graves e, B) é uma questão de fé acreditar que todos os papas são pecadores, tal como qualquer um de nós, necessitados da Graça salvífica de Deus, conquistada através da morte e ressurreição de Cristo. Não adoramos o homem; respeitamos o seu cargo e temos fé nas promessas de Cristo de estar com a Sua Igreja até ao fim dos tempos e de enviar o seu Espírito Santo para a guiar e proteger.

Há anos alguém me disse que o Papa João Paulo II não dava comunhão na mão, o que provava que estava a condenar essa prática. Eu sugeri que se o Papa quisesse comunicar tal mensagem, então tinha diversos canais oficiais pelos quais o podia fazer. Existe uma espécie de idolatria papal que, a longo prazo, não é útil. Que diria hoje esse meu amigo? Se continua a confundir as acções pessoais do Papa com ensinamentos oficiais, então deve estar confuso – e zangado.

Observar cada acto do Papa para discernir o seu significado político é o tipo de tolice que levou certas pessoas a condenar Cristo por comer com prostitutas e cobradores de impostos. Dizia-se que tais actos “causavam escândalo”, “semeavam discórdia” e “revelavam apoio aos inimigos da Igreja”. Talvez, talvez não. “O tempo dirá onde se encontra a sabedoria”.

Alguns papas cometeram grandes erros. Mas todos os papas cometem alguns erros, afinal de contas, são humanos. Se anda à procura de perfeição e impecabilidade, está à procura de uma Igreja que não existe, uma promessa vazia do Pai das Mentiras, e não aquela que foi fundada por Cristo.

Ficar confuso ou desapontado com um papa é coisa que não falta na história da Igreja. Mas os católicos que imaginam que eles é que têm a autoridade para estabelecer a fasquia canónica pela qual o ensinamento deste ou de qualquer outro papado pode ser julgado estão simplesmente a demonstrar que afinal de contas sempre foram protestantes e que a sua visão da autoridade é a mesma que caracteriza em demasia a política americana, a ideia de que a função da autoridade é fazer o que eu mando e esmagar os meus opositores.

A Igreja nem sempre foi bem servida pelos seus papas. Mas por outro lado, sempre esteve bem pior nas alturas em que cedeu às vozes moralistas da multidão – especialmente quando clamam “crucifica-o”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2016 em The Catholic Thing)

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A riqueza do México aos pés do Papa

O Papa Francisco continua no México onde hoje teve um encontro com os jovens. Ninguém diria que tem 79 anos e está no final de uma viagem desgastante! Foi o delírio…

Antes, Francisco teve com religiosos, a quem pediu que não se resignem às injustiças e ao sofrimento.

Os mexicanos não têm desiludido. Esta tarde a cidade de Morélia recebeu o Papa com um mosaico humano do seu rosto!

Há jovens “betinhos” que passam os seus tempos livres a visitar presos e jovens detidos, aproveitando quando podem para evangelizar. Saiba mais aqui.

Morreu esta terça-feira Boutros Boutros-Ghali, o ex-secretário-geral das Nações Unidas que foi o primeiro africano a ocupar o cargo e pertencia a uma influente família cristã do Egipto. Que descanse em Paz.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Famílias feridas são melhores que sociedade que não sabe amar

Crianças indígenas no México aguardam o Papa
O Papa Francisco encontra-se no México em visita pastoral. Hoje participou num encontro com famílias. Primeiro ouviu quatro impressionantes testemunhos e depois disse aos presentes que prefere ver famílias feridas do que uma sociedade com medo de amar.

Ainda esta segunda-feira Francisco encontrou-se com indígenas de Chiapas, dizendo que há que fazer um exame de consciência sobre a forma como estes foram tratados no México.

A visita do Papa já decorre desde sábado. Aqui pode encontrar várias notícias, mas uma das coisas mais significativas foi o encontro ainda na sexta-feira, em Havana, com o Patriarca de Moscovo. Saiba aqui porque é que se trata de um momento tão histórico.

Entretanto o debate da Eutanásia continua em força. Os bispos já avisaram que não vão ficar calados. Os juristas católicos já vieram dizer que a eventual despenalização será inconstitucional, os médicos católicos também tomaram posição pública contra e a associação de cuidados paliativos lamenta que se esteja a considerar sequer o assunto. Já agora, veja aqui exactamente do que é que se fala quando se fala em eutanásia, e em que é que difere de outros termos como distanásia e ortotanásia, por exemplo.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Pax Romana e padres confessem-se!

Há coisas que são demasiado boas para serem inventadas. Eu também duvidei ao início, mas ao que parece é verdade que o Papa está a promover um combate de boxe, em Las Vegas, entre um muçulmano e um católico, em nome da paz! Podem-se rir, mas na verdade a ideia não é de todo absurda…

Mas por enquanto ainda estamos na Quaresma, e por isso temos a recomendação de um livro escrito por Isabel Figueiredo que nos ajuda a olhar a Via Sacra pelos olhos de Maria.

Ontem foi dia de audiência geral e o Papa aproveitou para condenar a usura que traz “desespero” às famílias.

O Bispo de Vila Real divulgou a sua mensagem de Quaresma, onde pede aos padres que dêem o exemplo, confessando-se com regularidade.

Anda a circular uma notícia de que o Vaticano está a dizer aos bispos para não denunciarem os casos de abusos sexuais às autoridades. A verdade não é tão simples, como explico aqui.


E por fim, um apelo dos organizadores da iniciativa dos 40 dias pela vida. Tem havido poucas inscrições por enquanto. Eu estou de folga amanhã e vou procurar ir pelo menos uma hora…

O Papa vai amanhã para o México, acompanhem tudo na Renascença!

E deixo-vos com este trailer, que vem muito a propósito...

O Vaticano está mesmo a dizer aos bispos para não denunciarem casos de abuso às autoridades?

Será assim?
Está a circular uma notícia que indica que o Vaticano defende que os bispos católicos não devem informar as autoridades dos seus países aquando de acusações de abuso sexuais praticados por membros do clero.

Há aqui muita coisa que é preciso esclarecer.

Tudo começou numa notícia do vaticanista John Allen Jr. que numa coluna de opinião indicou que durante uma formação para novos bispos, estes tinham sido informados pelo formador que “os bispos não têm o dever de informar a polícia de alegações, esta é uma escolha que cabe às vítimas e às suas famílias”.

Daqui foi parar ao Guardian e do Guardian apareceu na imprensa portuguesa, mas já com indicação de que o Vaticano está a dizer que os bispos “não devem” informar as autoridades destes casos.

O principal ponto do artigo de Allen, que os outros relegaram para segundo plano, é que a comissão criada pelo Papa para lidar com o assunto dos abusos não está envolvida nesta formação. Allen critica isto, com toda a razão.

Quanto ao que foi dito na formação, há vários pontos a ter em consideração.

Para quem vive num Estado de direito parece evidente que a Igreja deve informar as autoridades, que agirão em conformidade. Mas as indicações do Vaticano são universais e nem todos os bispos e católicos vivem em estados de direito. Há países em que a denúncia oficial às autoridades faria mais mal que bem.

Por exemplo, um bispo clandestino na China deveria denunciar um padre suspeito de abusos às autoridades? O que poderia acontecer tanto ao padre (inocente até prova em contrário) como ao próprio bispo e à vítima?

Em partes de África, onde sabemos bem que a homossexualidade é duramente reprimida, um bispo deveria colocar tanto vítima como abusador em perigo de vida, denunciando o caso às autoridades?

As indicações do Vaticano têm sido claras no sentido de que nos Estados de direito e democracias, como é o caso de Portugal, existe essa obrigação. Roma exigiu já há vários anos que cada país elabore um guião de conduta para estes casos. Portugal já o fez e essas indicações são claras.

“Ao serviço da humanidade, sem procurar servir-se a si mesma, cada pessoa jurídica canónica cooperará com a sociedade e com as respetivas autoridades civis; tomará em atenção todas as indicações que lhe cheguem e responderá com transparência e prontidão às autoridades competentes em qualquer situação relacionada com abuso de menores, na salvaguarda dos direitos das pessoas, incluindo o seu bom nome e o princípio da presunção de inocência.”

Em todo o caso, em 2013 passado houve uma situação em que houve uma suspeita de abusos no norte do país e a PJ só soube através da imprensa. Na altura falei com um jurista, pensando que ele me diria que a Igreja tinha errado ao não informar logo as autoridades do caso, mas ele disse que sendo a Igreja uma instituição jurídica internacional, deveria ter autonomia para poder, primeiro, averiguar se o caso era credível, antes de falar com as autoridades.

Fiquei admirado com a resposta, e sublinho que o jurista em causa, muito respeitado, tanto quanto sei não é católico por isso dificilmente pode ser acusado de estar a proteger a Igreja.

Concluindo, há ainda muito para fazer neste campo e certamente os novos bispos beneficiarão de uma formação mais completa que será possível com a participação da comissão para a protecção dos menores. Contudo, já muito foi feito e é simplesmente errado fazer manchetes a dizer que a Igreja está de algum modo a aconselhar os bispos a não colaborar com as autoridades em casos de abusos sexuais.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Quarta de cinzas e jejum por perseguidos

Frei Bartolomeu dos Mártires
Hoje é Quarta-feira de Cinzas e por isso os cristãos são convidados a fazer jejum e abstinência. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre pede que hoje, em particular, esse jejum e a oração sejam reforçados e em favor dos cristãos perseguidos no Médio Oriente.

Para quem ainda não sabe o que sofrem os cristãos – e outros, incluindo muçulmanos, claro – em países como o Iraque e a Síria, este artigo do The Catholic Thing em português ajuda a clarificar.

Por cá, hoje voltam à Assembleia da República as leis do aborto e da adopção por pessoas do mesmo sexo. Se tudo correr conforme se espera os partidos de esquerda ignorarão o pedido do Presidente de um debate mais aprofundado e aprovarão novamente. É uma situação que os juristas católicos, e não só, lamentam e criticam.

Como já era de esperar o debate da eutanásia também já chegou em força. O Patriarca de Lisboa diz que o que faz falta é mais acompanhamento, e não mais eutanásia; o director do Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina do Porto diz que este debate nem devia estar a acontecer agora; a reportagem na unidade de cuidados paliativos do IPO do Porto conclui que “sem o sofrimento e a dor, as pessoas querem viver” e o presidente da Associação de Médicos Católicos quer que o assunto vá a referendo. Ainda pode ler aqui a opinião de Graça Franco, directora de informação da Renascença.

Numa nota mais encorajadora, por estas semanas há milhares de jovens em missão por todo o país. As missões universitárias são um fenómeno incrível em Portugal, que pode conhecer melhor aqui.

E ainda, Portugal vai ter mais um santo. Frei Bartolomeu dos Mártires vai ser oficialmente canonizado

Cristãos Perseguidos no Médio Oriente em 2015

George J. Marlin
Em 2015 houve mais cristãos perseguidos do que membros de qualquer outra religião no mundo. A perseguição religiosa tem sido também a principal causa do grande aumento de migração forçada a nível global. De acordo com as Nações Unidas, o número de deslocados internos e refugiados atingiu um pico, no ano passado, de 60 milhões de pessoas.

Este ciclo persecutório cada vez maior criou também o mais significativo êxodo de cristãos na história do Médio Oriente.

Com populações inteiras a fugir das suas casas, os cristãos estão rapidamente a desaparecer de regiões inteiras – e não é só no Médio Oriente, mas também em África, onde várias dioceses se esvaziaram.

Em grande parte, esta migração é causada pela limpeza étnica motivada por ódio religioso. Os responsáveis por esta violência e intimidação sistemática são principalmente grupos terroristas islâmicos, em particular o Estado Islâmico.  

A perseguição levada a cabo pelo Estado Islâmico encaixa perfeitamente na definição de genocídio das Nações Unidas:

quaisquer dos seguintes actos cometidos com a intenção de destruir, em todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como por exemplo: matar membros do grupo e causar danos sérios corporais ou mentais aos membros do grupo…

Os actos de genocídio do Estado Islâmico são dirigidos em primeiro lugar contra os cristãos. Na sua revista online “Dabiq”, os militantes afirmam que vão “conquistar a vossa Roma, quebrar as vossas cruzes e escravizar as vossas mulheres, se Allah o permitir.”

O Estado Islâmico é liderado por fanáticos ideológicos que aderem a uma forma extremista de Islão salafita, que afirma que apenas eles são verdadeiros muçulmanos. Esta seita requer a criação de um califado para purificar o Islão do xiismo e da presença de infiéis. De acordo com Abu Bake Naji, um conhecido intelectual do Estado Islâmico, isto significa que os terroristas devem recorrer à jihad, definida como “nada se não violência, brutalidade, terrorismo, o aterrorizar de pessoas e massacres”.

Na Síria, esta política do Estado Islâmico e a guerra civil são responsáveis pela morte de mais de 250 mil pessoas e a deslocação de 11,6 milhões – metade da população do país. Pelo menos 3,9 milhões destas pessoas estão retidas no Líbano, na Jordânia, no Iraque e na Turquia. Incrivelmente, 25% da população do Líbano é agora composta por refugiados sírios. Porém, a maioria dos cristãos exilados recusam-se a ir para campos de refugiados ou a registarem-se com as agências de ajuda humanitária, com medo de serem raptados ou hostilizados por muçulmanos. Em vez disso dependem da ajuda de agências de auxílio internacional católicas, como a Ajuda à Igreja que Sofre, ou outros cristãos que os alimentem, vistam e ajudem a educar os seus filhos.

O Estado Islâmico espera apagar o passado, presente e futuro do Cristianismo. Em 2015 foram destruídas igrejas, locais de interesse histórico e manuscritos antigos. Um rico património está em perigo – uma herança que é séculos mais antiga que o próprio Islão.

Mais de 150 igrejas, centros pastorais e mosteiros foram danificados ou destruídos na Síria, incluindo a histórica igreja de São Jorge, em Qaber Shamiya, que foi pilhada antes de ser incendiada. A Igreja Apostólica Arménia dos Quarenta Mártires, em Alepo, foi destruída em resposta a eventos dos cristãos para comemorar o 100º aniversário do genocídio arménio.

As 45 igrejas cristãs em Mosul, no Iraque, ou foram destruídas ou transformadas em instalações militares ou então convertidas em mesquitas. Em Janeiro de 2016, imagens de satélite confirmaram que o mais antigo mosteiro do Iraque, Santo Eliseu, localizado no topo de um monte nos arredores de Mossul desde o ano 590 tinha sido reduzido a um monte de entulho pelo Estado Islâmico.

Estado Islâmico e cristãos coptas
Outros países do Médio Oriente também têm assistido a uma intensa perseguição, como podemos ver:

Irão: Os cristãos têm sido atingidos por rusgas e detenções em cada vez maior número. O número de cristãos atrás das grades duplicou em 2015, apesar de promessas do Governo para promover a tolerância religiosa.

Arábia Saudita: Esta nação, que não permite a construção de qualquer igreja cristã e continua a ter o pior registo de abusos em relação à liberdade religiosa. O novo rei já augurou uma abordagem ainda mais severa.

Sudão: O Presidente Omar al-Bashir elevou a intensidade da sua promoção do Islão de ala dura. O número de cristãos no país continua a diminuir a um ritmo acelerado.

Turquia: Apesar de promessas de reformas por parte do Governo, os cristãos ainda são tratados como cidadãos de segunda. Os cristãos temem ainda o aumento do Islão radical na Turquia.

Egipto: Os ataques a igrejas diminuíram desde que o Presidente Morsi abandonou o cargo, mas os cristãos continuam a ser alvo de ataques ao nível individual. A 7 de Janeiro de 2015 o Presidente el-Sisi deu um forte sinal de apoio quando participou numa celebração de Natal ao lado do Papa copta Tawadros II, na Igreja de São Marcos. Também condenou a violência do Estado Islâmico e de outros grupos radicais numa celebração do nascimento de Maomé. “É inconcebível que a ideologia que nos é mais cara transforme todo o mundo islâmico numa fonte de ansiedade, perigo, morte e destruição para o resto do mundo”. Foram palavras e gestos de importância monumental. Infelizmente, têm tido pouco eco no resto do Governo egípcio, em termos de garantir direitos básicos aos cristãos. 

Em relação aos governos ocidentais, enquanto muitos condenaram os crimes contra a humanidade dos radicais islâmicos, não implementaram quaisquer planos efectivos para pôr termo à violência ou para assegurar que os cristãos e outras minorias recebam protecção ou um espaço seguro onde viver. Contudo, ainda o outro dia o Parlamento Europeu declarou que o Estado Islâmico está a levar a cabo um genocídio e pediu aos estados-membro que façam chegar a todos os grupos que são alvo desta crime “protecção e ajuda, incluindo ajuda militar e humanitária” em conformidade com o direito internacional.

Mas enquanto grande parte do Ocidente continua a olhar, muitos cristãos do Médio Oriente continuam a manter-se firmes, independentemente das dificuldades. A posição dos cristãos em dificuldade foi bem descrita pelo Arcebispo Melquita de Alepo, Jean-Clement Jeanbart:

Estamos a confrontar um dos desafios mais importantes da nossa história bi-milenar. Lutaremos com todas as nossas forças e agiremos com todos os meios possíveis para dar ao nosso povo razões para ficar e não abandonar; sabemos que o caminho que temos pela frente será muito difícil; não obstante, estamos convencidos que o nosso amado Senhor Jesus está presente na Sua Igreja e que jamais nos abandonará. Sabemos que nada pode intrometer-se entre nós e o amor de Jesus Cristo – e que através de todos estes desafios triunfaremos através do poder daquele que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Fevereiro de 2016 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Centenário de Fátima com Papa de quem não é preciso gostar

Foi anunciado hoje o programa oficial das comemorações do centenário das aparições de Fátima, que começam a 1 de Dezembro e dos quais será ponto alto a visita do Papa Francisco ao santuário.

A propósito, a Aura Miguel falou com o reitor do santuário, padre Carlos Cabecinhas, que diz que Fátima quer adoptar uma nova linguagem para atrair os que não costumam prestar atenção ao local e ao fenómeno.

Um estudo divulgado ontem revela que os jovens revelam um grande interesse pelo fenómeno da vida religiosa.

Desde a eleição do Papa Francisco que têm aumentado de tom as críticas, sobretudo por parte de conservadores/tradicionalistas. Não é nada de novo… Alguns liberais/progressistas faziam-no durante o pontificado de Bento XVI em tons igualmente desagradáveis. Tanto para uns como para outros, o grande Randall Smith escreve, no artigo do The Catholic Thing publicado esta semana em português, que não é preciso gostar do Papa. Respeitar a sua posição é outra coisa.

Termino com um desafio. Tal como nos últimos anos, os 40 dias de oração pela vida voltam a coincidir com a Quaresma. Não deixem de participar. Inscrições em www.40diaspelavida.org / 9340404097 ou e-mail 40diaspelavidaportugal@gmail.com

Não é Preciso Gostar do Papa

Randall Smith
Deixem-me esclarecer uma coisa: Não é preciso gostar do Papa. Não é preciso gostar da maneira como ele fala com os jornalistas, da maneira como fala com em público ou do tipo de sapatos que usa. Nem é necessário gostar da forma como aborda diferentes assuntos. Mas é preciso respeitar a autoridade do seu cargo quando ele a exerce de forma oficial.

Ao fazer esta afirmação estou simplesmente a repetir o que o Papa João Paulo II escreveu em Ad Tuendam Fidem, um documento composto com o propósito de “proteger a fé da Igreja Católica contra os erros que se levantam da parte de alguns fiéis”, considerando ser “absolutamente necessário que, nos textos vigentes do Código de Direito Canónico (…) sejam acrescentadas normas, pelas quais expressamente se imponha o dever de observar as verdades propostas de modo definitivo pelo Magistério da Igreja”.

Daí que na Profissão de Fé da Igreja podemos encontrar esta afirmação: “Adiro com submissão da vontade e do intelecto aos ensinamentos aos ensinamentos que o Pontífice Romano ou o Colégio Episcopal enunciam no exercício do seu Magistério autêntico, mesmo que não tencionem proclamar esses ensinamentos por um acto definitivo”. Aliás, de acordo com a Lumen Gentium, “esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.”

Um católico desapontado com o Papa é um católico desapontado. É uma coisa relativamente frequente na história da Igreja. Mas um católico que imagina que participa mais inteiramente do que o Papa no carisma da autoridade magisterial dada pelo Espírito Santo ao próprio Papa, e que decide que ele ou ela é que tem autoridade para estabelecer a fasquia pela qual os ensinamentos oficiais de um pontificado podem ser julgados (e rejeitados), está a cometer o mesmo erro que Lutero. É o mesmo erro cometido por muitos teólogos liberais, que se estabeleceram como a pedra de toque, a fasquia, a autoridade, e o Papa, seja quem for, deve, insistem, pôr-se de acordo com o que eles pensam, ou então ser cuspido como se fosse uma peça de fruta estragada. Este é o caminho da loucura e da divisão.

Devemos aprender tudo o que podemos dos ensinamentos da Igreja, cada bocado de sabedoria. Devemos deixar-nos envolver e desafiar, especialmente quando estes repetem algo que foi ensinado insistentemente por Papas cuja santidade e sabedoria estão acima de qualquer suspeita.

E, francamente, se alguém estiver em desacordo com algum desses ensinamentos deve estar pronto a fornecer contra-argumentos sérios em vez de simplesmente dar aso a expressões infantis de desacordo e desapontamento. Escusado será dizer que a citação descontextualizada de documentos de papas que estavam a lidar com problemas séculos atrás para convencer os católicos contemporâneos de que fazem parte de uma Igreja corrupta é tão convincente como ver protestantes evangélicos a citar textos bíblicos fora de contexto para convencer os católicos em geral de que pertencem a uma igreja corrupta.

De facto, as semelhanças entre o protestantismo e muitas das formas contemporâneas de tradicionalismo antipapal são maiores do que se poderia esperar. É importante recordar que Lutero não tinha qualquer intenção de fundar uma igreja “protestante”, antes pensava em si mesmo como um conservador a reformar a verdadeira Igreja que se tinha perdido no caminho ao fazer acrescentos corruptos à tradição autêntica.

Da mesma maneira, muitos dos ditos “tradicionalistas” vêem-se a si mesmos como estando a preservar a tradição católica autêntica que a dada altura se perdeu – apesar de muitos destes “tradicionalistas” olharem apenas para um período da história da Igreja (normalmente até bastante recente) ou para um documento em particular como a única fasquia que define “a tradição”, tal como Lutero clamava por uma igreja cristã “pura” que imaginava que tinha existido nos primórdios da Igreja, logo a seguir à morte de Cristo (mas que de facto nunca houve) e para as epístolas de Paulo (como ele, Lutero, as entendia).

Se é um “conservador” que acha mais importante o “conservadorismo” ao estilo americano do que ser católico, isso é consigo. Mas aí não tem margem para responsabilizar o liberal que acha mais importante o “liberalismo” à americana do que ser católico. Se é católico, seja católico, e os católicos têm a tradição magisterial e apostólica. A Igreja não é um clube, uma seita ou um partido político.

Por estas razões e por outras, não pode permitir que a sua irritação com o estilo pessoal de qualquer Papa em particular, mesmo que faça coisas que eu e você possamos achar tolices, o distraia dos ensinamentos oficiais deste ou qualquer outro pontificado. Nem sempre temos o Papa que queremos. Às vezes levamos com um pescador tonto que negou três vezes que conhecia Cristo precisamente quando Jesus mais precisava dele. Não acreditamos no homem, independentemente do quão sábio ou santo ele possa ser. A nossa fé encontra-se na promessa de Cristo de estar com a Sua Igreja até ao fim dos tempos e de enviar o seu Espírito para a guiar.

Se acha que há problemas na Igreja (e há sempre, porque somos um povo peregrino), então jejue e reze. Redobre os seus esforços para viver a sua vocação em santidade. Mas se acha que vai ajudar a Igreja com especulação infindável sobre a política interna do Vaticano ou lamentos intermináveis sobre várias pessoas na cúria, então está a deixar que o espírito de divisão penetre onde deve estar apenas o espírito da união e da caridade.

Deixe o Espírito Santo guiar a Arca da Igreja através da actual tempestade. Já temos preocupações suficientes para cultivar as vinhas no nosso próprio quintal.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 28 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Basílica reabre e ano da Vida Consagrada acaba

Reabriu esta tarde a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, a “antiga” basílica de Fátima. A Aura Miguel esteve na missa de reabertura e conta aqui o que viu.

Entretanto chegou ao fim o Ano da Vida Consagrada. O Papa Francisco assinalou ontem o encerramento do ano com uma audiência, onde disse que a “A Vida Consagrada deve levar à proximidade física e espiritual com as pessoas”.

A Renascença procurou também a opinião de D. José Cordeiro, membro da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios, que diz que a vida consagrada é um dom, uma graça e uma profecia e não existe para ser publicitada.

Braga tem um novo bispo-auxiliar, que foi ordenado em Viseu no fim-de-semana.

Por fim, fica o alerta para mais uma edição da Faith’s Night Out, uma excelente iniciativa das Equipas de Jovens de Nossa Senhora, que decorre este ano no dia 20 de Fevereiro, no Estoril, e conta com um excelente painel de oradores, como podem ver pela imagem anexa. Os bilhetes estão à venda… Não percam tempo porque costuma esgotar.

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