quarta-feira, 30 de setembro de 2015

As Viúvas e os Órfãos dos Nossos Tempos

Howard Kainz
O cuidado pelas viúvas e pelos órfãos é um tema constante tanto no Antigo como no Novo Testamento. Há exortações e provisões sobre como devem ser tratados no livro de Deutoronómio e do Êxodo. O livro de Job, dos Psalmos e, em particular, dos profetas, aponta continuamente para o mau trato das viúvas e dos órfãos como um mal que será vingado por Deus.

No Novo Testamento Jesus critica os fariseus pelas suas injustiças para com as viúvas (Mt. 23,14). São Tiago sublinha o cuidado pelas viúvas e pelos órfãos como uma das grandes “obras” que deve caracterizar a fé dos cristãos (Ti. 1,27). Os convertidos gregos queixaram-se aos apóstolos de que as suas viúvas não estavam a ser tratadas da mesma forma que as hebraicas (Actos 6,1) e São Paulo aponta vários factores que devem orientar o tratamento das viúvas na congregação de Timóteo (1Tim. 5,3).

Nos primeiros anos do Cristianismo a esperança média de vida era cerca de 35 anos, sobretudo devido aos níveis extremamente altos de mortalidade infantil. Se ajustarmos a estatística tendo isso em conta, a esperança de vida aos 10 anos era cerca de 45 ou 47 anos. As mulheres, claro está, sempre viveram mais tempo que os homens, em média. Logo, as viúvas, incluindo viúvas com filhos, eram mais do que os viúvos. E para as comunidades cristãs iniciais a justiça social para com as necessidades de viúvas e seus filhos era um desafio constante.

Nos tempos modernos, apesar da maior esperança de vida, e das redes sociais que existem nos países industrializados, o problema de assistência a viúvas e suas famílias mantém-se. Mas talvez um problema ainda maior seja, agora, tanto para a Igreja como para os governos (no seguimento da revolução sexual e da era do divórcio fácil), o número enorme de divorciados que se tornam encarregados pobres de famílias monoparentais. As domésticas, que dependiam dos maridos para o sustento financeiro, são particularmente afectadas quando os seus maridos as abandonam. E depois há as trabalhadoras cujo rendimento após o divórcio é insuficiente para sustentar uma casa, filhos e tudo o resto.

Hoje a Igreja está a debater se as mulheres católicas, que se encontravam nestas situações e voltaram a casar, podem receber a comunhão. Às vezes estes casos envolvem divorciadas que foram abandonadas por maridos que decidiram que são homossexuais, ou que abusam fisicamente das mulheres e dos filhos, ou que simplesmente decidiram que querem ser livres dos filhos, ou para poder recasar. Certamente estas mulheres estão numa posição vulnerável para recasar, não apenas por amor e para ter companhia, mas também pelo motivo adicional de sobreviver e poderem criar as suas famílias, sobretudo onde não existe qualquer tipo de assistência estatal.

Em certo sentido, as mulheres recém-divorciadas são para nós o que eram as viúvas para os primeiros cristãos. Algumas paróquias têm organizações para pais solteiros, para ajudar a enfrentar o problema. Mas se a Igreja se vai manter fiel à indissolubilidade do casamento sacramental para pessoas que foram abandonadas pelos esposos, existe alguma medida efectiva para ajudar essas mães solteiras a manter a sua dignidade, manterem-se celibatárias e ao mesmo tempo sustentar os seus filhos e a sua educação?

Jesus cura o filho de uma viúva
Na minha própria família já vi casos em que mulheres divorciadas, com três filhos ou mais, acabaram por ter de ir viver para casa de parentes durante anos, depois de terem falhado todas as tentativas de independência económica. Mas estas combinações por vezes não existem e esta é uma causa que sem dúvida merece uma assistência organizada por parte da Igreja. Para muitas destas mulheres, não basta dizer “fiquem bem e sustentem as vossas famílias – mas se tiveram um casamento sacramental, lembrem-se que é indissolúvel”. Existem também as versões modernas dos “órfãos” dos cristãos primitivos. Provavelmente os exemplos mais visíveis são as crianças vítimas de divórcio, indesejados, sujeitos a negligência ou crueldade, por vezes fugitivos, passados de uma família de acolhimento para outra.

Hoje os orfanatos estão fora de moda, provavelmente devido aos efeitos de histórias como o “Oliver Twist”. E há casos reais verídicos, como as revelações recentes de escândalos nos orfanatos geridos pelos Irmãos Cristãos e as Irmãs da Misericórdia, na Irlanda, ou casos de abusos sexuais praticados contra órfãos, como no orfanato de St. Joseph, em Burlington, Vermont. Se for ao orphanage.org, verá que ainda há alguns orfanatos de católicos, protestantes ou privados. Mas muitos deles mudaram a designação ou então especializaram-se só em encontrar famílias adoptivas ou em tratamento para crianças com deficiência. Noutros casos os sites que aparecem quando se pesquisa por orfanatos são apenas para ex-alunos de orfanatos que entretanto deixaram de existir.

Antes de o aborto se ter tornado a solução fácil para crianças indesejadas, uma familiar minha colocou todos os seus filhos num orfanato católico gerido por freiras, na Califórnia. Mas agora, tal como com as escolas católicas, praticamente não existem freiras suficientes para dar seguimento a um ministério tão exigente.

Existem muitas organizações pró-vida que merecem o nosso apoio, mas quase nenhuma se dedica à adopção – o que parece ser a resposta positiva mais evidente para quem está a pensar abortar. Poucas organizações especializam-se em ajudar mulheres durante as suas gravidezes e também em ajudá-las a encontrar pais adoptivos bons e competentes.

Há muitos casais que querem adoptar crianças – um processo que envolve longos processos, custos consideráveis e burocracia. O Papa Francisco acabou de simplificar os processos de nulidade. Tornar a adopção mais fácil é não menos importante e pode ajudar a reduzir as nossas estatísticas de aborto assustadoras. Talvez alguns dos manifestantes à porta das clínicas de aborto deviam levar sinais a dizer que ajudam a completar um processo de adopção.

Claro que ainda existem muitas viúvas e órfãos no sentido tradicional, mas as mudanças na moral dos nossos dias e a existência de divórcios fáceis criaram problemas que são em tudo parecidos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 26 de Setembro de 2015)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Papa pede reforma do Conselho de Segurança

O Papa na ONU
Continuamos a acompanhar o Papa nos EUA, onde hoje fez um discurso à ONU e pediu – o que é inédito para um Papa – uma reforma do Conselho de Segurança. A Renascença preparou um explicador sobre o que está em causa com este pedido. Aqui, o essencial do discurso do Papa.

Francisco seguiu depois para o Ground Zero onde decorreu um encontro inter-religioso muito bonito e muito colorido e onde o Papa falou da esperança que nasce do local daquela tragédia.

Entretanto, ontem o Papa não se esqueceu de mencionar a tragédia de Meca. Morreram mais de 700 pessoas e a culpa, dizem os sauditas, é das próprias vítimas.

A visita termina apenas no domingo e até lá podem ir acompanhando toda a informação na Renascença.

Esta sexta-feira o Patriarca de Lisboa apelou ao voto nas eleições legislativas, lamentando ainda que não haja referências à família nos programas eleitorais dos partidos.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Papa faz história nos EUA, mais uma tragédia em Meca

O Papa Francisco protagonizou esta quinta-feira um momento histórico, ao discursar diante do Congresso americano. Foi um longo discurso em que Francisco falou de quase todos os temas importantes – como a pena de morte, aborto, ecologia, casamento, capitalismo, refugiados, migrações, etc. – e deixou o edifício sob uma ovação de pé.

Logo de seguida, Francisco foi almoçar com pobres e sem-abrigo. Aí fez um discurso muito mais rápido mas também muito profundo. Não há razão para as pessoas não terem casa, disse o Papa, e a oração é um veículo de nivelamento social, uma vez que na oração somos todos irmãos, afirmou.

Ontem, já depois de eu ter enviado o mail diário, Francisco celebrou a missa de canonização de Junípero Serra onde fez um apelo muito bonito e apaixonado pela evangelização.


Mudando de assunto, deu-se hoje uma terrível tragédia em Meca, onde milhões de muçulmanos congregam para a peregrinação anual. Mais de 700 mortos e centenas de feridos em mais uma debandada que resultou em esmagamentos.

Por fim, o Patriarca de Lisboa voltou a falar da questão dos refugiados, dizendo que estes precisam de casa, escola e trabalho.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Papa e Obama trocam elogios e alfinetadas

O Papa chegou ontem aos Estados Unidos e logo esta manhã foi recebido por Barack Obama. O Papa deixou recados para o presidente no seu discurso, Obama só fez elogios, mas a sua lista de convidados deixa mensagens claras.

Mais à tarde o Papa esteve com os bispos americanos e deixou-lhes várias indicações. Não é legítimo evitar temas como o aborto e a morte de inocentes, devem-se acolher os imigrantes da América Latina e Francisco elogiou ainda a forma como os bispos lidaram com o escândalo dos abusos sexuais de menores.

E haja sentido de humor! Um habitante de Washington DC iniciou uma petição online para pedir ao Papa que abençoe o metro da cidade… Para ver se funciona.

Mudando de ares, um Cardeal nigeriano quer que o Governo ofereça uma amnistia aos militantes do Boko Haram, acreditando que até 80% não partilham das ideias fundamentalistas do grupo.

Ultimamente tem-se debatido muito a questão do casamento e dos processos de nulidade. Alguns defendem que hoje em dia, nas nossas sociedades, muitos (se não mesmo a maioria) dos casamentos são nulos porque as pessoas não compreendem bem o conceito. Será assim? David Warren discorda, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

Por fim, partilho a pedido de uma leitora as datas de formação para a consagração total a Nossa Senhora na zona de Lisboa:

Em Lisboa: Basilica dos Mártires (Chiado) começa na quinta-feira, dia 22 de Outubro pelas 19h00 uma vez por mês - mais informação no local.

Em Oeiras: Igreja do Alto da Barra começa no Sábado, dia 24 de Outubro pelas 15h30, uma vez por mês - mais informação no local.

Estoril: Paróquia de S. João e S. Pedro do Estoril, começa no Sábado, dia 24 de Outubro pelas 15h30, uma vez por mês - mais informação no local

Cascais: Igreja dos Navegantes, começa no Sábado, dia 24 de Outubro pelas 15h30, uma vez por mês - mais informação na Paróquia.

O Casamento num Mundo de Ilusões

David Warren
Nota prévia: Hesitei antes de publicar este artigo, por uma série de razões. Em primeiro lugar porque o David Warren tem um estilo de escrita bastante difícil, ainda para mais quando é traduzido. Os seus textos e os seus raciocínios não são os mais fáceis de acompanhar.

Em segundo lugar, porque não concordo inteiramente com ele neste artigo em particular. Nunca tive a pretensão de apenas publicar artigos do The Catholic Thing com os quais estou 100% de acordo. Às vezes escolho os textos porque dizem respeito a temas actuais e contribuem para um debate inteligente sobre os mesmos.

Ao contrário do que o David dá a entender, eu não acho que a agilização dos processos de nulidade seja um erro ou que seja tudo mau. Mas estou de acordo com o seu principal argumento neste artigo. Isto é, que o casamento é uma instituição natural, em todos os sentidos da palavra, e que por isso a compreensão das suas exigências e dos seus objectivos está ao alcance até dos mais simples. Não tenho dificuldade em aceitar que há muitos casamentos nulos, por diversas razões, mas tenho a maior dificuldade em aceitar que os casamentos nulos sejam uma enorme proporção, ou até maioritários, porque a nossa geração é incapaz de compreender algo que estava perfeitamente ao alcance dos nossos antepassados mais recônditos e o está ainda dos nossos irmãos actuais nos pontos mais distantes do planeta.

Dito isto, deixo-vos com o artigo de hoje do The Catholic Thing.

Filipe d'Avillez

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Talvez devêssemos distinguir entre as coisas que as pessoas não compreendem e as coisas que as pessoas não querem compreender.

Permitam-me desafiar a ideia actualmente generalizada de que a natureza do casamento, os ensinamentos de Cristo sobre o casamento e os requisitos da Igreja Católica a este respeito não estão para além da capacidade de compreensão de metade da população. Eu tenho menos confiança do que a maioria das pessoas na “inteligência média”, mas neste caso acho que consigo ver o fundo.

Vou tornar esta história mais pessoal, a meu próprio custo. O meu próprio casamento (e foi apenas um) desintegrou-se há muitos anos. Não seria justo da minha parte explicar porquê num fórum público, mas bastará dizer que seria preciso estar sob o efeito de alucinogénios para acreditar que a minha ex-mulher carrega com todas as culpas.

Duas vezes estive quase a pedir uma “anulação”. Ambas as vezes reconsiderei.

Essa união resultou no nascimento de dois belos rapazes, actualmente crescidos. O mais novo tem Trissomia XXI. O seu nascimento em si forneceu prova suficiente de que existia um casamento, mesmo que tenha sido realizado numa igreja anglicana. Ambos os seus pais estavam apostados, por uma questão de princípio, a ficar com ele, mesmo que que tivesse oito pernas e cinco olhos.

Que provas?

Em primeiro lugar revelou uma compreensão do casamento, mesmo sob stress. Não se abandonam os filhos – sendo que aqui o termo “abandono” é suficientemente alargado para incluir matá-los. A taxa de aborto pode continuar a ser alta, mas a proporção de pessoas que pensa que o aborto é uma coisa boa mantém-se baixa. Vemos manobras intelectuais para o tentar justificar e o horror da imprensa sensacionalista quando um bebé é encontrado abandonado. As pessoas olham para o seu bebé e sabem que não se deve matá-lo ou deitá-lo fora.

A própria ideia de órfãos enche-nos de compaixão, porque antes mesmo de nos termos “objectivado” já criámos empatia com a criança. Até compreendemos a forma obsessiva como o órfão já adulto procura a sua mãe ou o seu pai biológico. Sabemos que estão também à procura de eles mesmos.

Em segundo lugar esta criança, que não é propriamente o Einstein, tinha uma compreensão plena do que é o casamento antes de ter sete anos. Notava-se nas palavras enternecedoras “somos família”, ou no recreio para onde eu o levava e onde – para minha grande vergonha – ele ia ter com estranhos e, apontando para mim, declarava: “Aquele é o meu pai!”

E quando estava perto dos 12 anos e os seus pais estavam claramente em fase de separação – nos momentos antes de eu perder o meu lar – ele suplicava: “Mas pai, casou com a mãe”. Estas são palavras que levarei comigo para a sepultura. Porque ele compreendia perfeitamente o conceito.

Talvez a própria simplicidade do rapaz tenha contribuído para a sua claridade nesta matéria.

Tanto quanto podemos ver, os camponeses medievais não tinham qualquer problema em compreender o casamento. Os verdadeiros pobres de Ásia e de África compreendem, como eu próprio já testemunhei. É preciso uma boa dose de sofisticação intelectual pós-moderna para ser incapaz de compreender o que é uma família, enquanto instituição permanente e fértil, fundada sobre uma mulher e um homem.

Uma “instituição” diferente em género de uma companhia limitada e que antecede (cronológica e logicamente) qualquer lei de contratos. Antecede de tal forma que me parece ser autoevidente, autoexplicativa e compreensível desde Adão e Eva. Atravessa todas as culturas e até nos costumes primitivos da poligamia mantém os temas de procriação e herança.

Já antes escrevi que há dois tipos de sofismas – e há boas razões pelas quais o segundo tipo raramente é examinado. Fingimos saber o que não sabemos; mas tais pretensões são fáceis de expor e nós próprios sabemos que estamos a mentir ou que nos estamos a armar. Mais destrutivo é quando fingimos não saber aquilo que sabemos.

A maioria tenderá a concordar que vivemos numa “era de ansiedade” e a ansiedade é suficiente para querermos saber qual é a causa subjacente. Na minha opinião trata-se da recusa em reconhecer coisas relativamente evidentes. Estamos a tentar viver “como se” certas verdades não fossem verdade, mesmo como se certas palavras não significassem o que sempre significaram.

Será mesmo tão difícil de compreender?
Este tipo de negação requer muita energia. Cansa as pessoas muito mais do que estarem sentadas todo o dia num cubículo com um teclado e um ecrã. Chegam ao fim do dia não fisicamente cansadas, mas emocionalmente de rastos. São anos de trabalho para esquecer porquê.

A vida familiar é demasiado dura para nós, nas condições actuais. É demasiado real. Estramos rodeados de opções irreais, desde os romances de escritório aos jogos de computador e todas as outras formas de evasão. Tal como aqueles órfãos, mas ao contrário, fugimos de toda a gente na tentativa de fugir de nós mesmos. O encontro com a realidade é demasiado difícil.

Quando clérigos, bem-intencionados mas imprudentes, dizem que metade dos casamentos são inválidos – seja na diocese de Buenos Aires ou na minha de Toronto – eu sei o que querem dizer com isso. Mas se é metade, então é mais que metade e nesse caso mais vale abolir os casamentos todos e recusarmo-nos a começar de novo.

Porque não agilizar o processo ainda mais, com o envio em massa de Declarações de Nulidade para toda a gente no correio? Depois, se formos honestos, recusamo-nos a recasar quem quer que seja, pois estamos a lidar com uma raça tão perversa que afirma nem saber o que é o casamento.

Refiro-me, claro está, à humanidade, a “raça fantástica” como Jonathan Swift os apelidou. Ele não usava o termo no sentido moderno de “maravilhosa” ou “fora de série”, mas no sentido mais antigo de “louca”, completamente maluquinha.

À Igreja cabe a tarefa de resistir a estes fantasmas, estas “falsa consciência” de que os homens precisam de pouca desculpa para cair no “pecado” que guia as nossas acções quando descarrilamos. Cabe à Igreja não se acomodar às ilusões.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 19 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Um aniversário especial para o Papa

Gewargis Sliwa, Patriarca da
Igreja Assíria do Oriente
O Papa Francisco já está em Cuba. Esta tarde celebrou missa em Holguín e fez uma homilia que à primeira vista é sobre a conversão de São Mateus, mas que na verdade deve ser muito mais pessoal.

Francisco chegou a Cuba no sábado e já se encontrou com Fidel Castro, mas não conseguiu encontrar-se com dissidentes, alguns dos quais foram detidos a caminho da missa ontem, em Havana.

O arcebispo de Cantuária tornou-se o mais recente líder cristão a abrir as portas da sua casa a refugiados. Uma família irá viver para o palácio de Lambeth, no Reino Unido.

A Igreja Assíria do Oriente tem um novo líder. Mar Gewargis era metropolita do Iraque e foi eleito para chefiar a mais pequena das igrejas com sucessão apostólica e sacramentos válidos.

E em Aleppo, a segunda cidade da Síria, a situação está cada vez pior. O arcebispo caldeu daquela cidade diz que os ricos já fugiram, a classe média está pobre e os pobres não têm nada

Não se esqueçam que amanhã há o lançamento do livro “Compartilhe a sua Fé com um Muçulmano”, em Benfica, não deixem de aparecer se o tema vos interessa.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Padre português é perito no sínodo da família

Padre Duarte da Cunha, perito no sínodo da Família
O padre Duarte da Cunha, que é actualmente secretário do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, vai estar no sínodo da Família, por nomeação do Papa Francisco. Nesta entrevista ele explica qual vai ser a sua função.

O Papa lamentou esta quinta-feira o facto de ninguém conseguir encontrar uma solução para a crise na Síria.

E no Iémen a coisa continua a ferro e fogo. Ontem foi mais fogo, com uma igreja católica na cidade de Aden a ser incendiada por fundamentalistas islâmicos.

Não deixe de ler o artigo de Randall Smith, do The Catholic Thing em português, no qual ele exorta os casais a amarem-se, mesmo que seja difícil, nem que seja unicamente para bem dos seus filhos.

Termino com um convite que não podia vir mais a propósito. Com tudo o que se passa no mundo actualmente, desde os conflitos no Médio Oriente até à previsível chegada de milhares de muçulmanos entre os refugiados que vêm para a Europa e para Portugal, é agora lançado o livro “Compartilhe a sua fé com um muçulmano”, do missionário americano Charles R. Marsh.

O livro é apresentado na próxima terça-feira, dia 22, na sede da Aliança Evangélica Portuguesa (Avenida Conselheiro Barjonas Freitas, 16-B,  1500-204 Lisboa) e eu estarei a moderar uma mesa redonda sobre o assunto. Não deixem de aparecer.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Amas os teus filhos? Então ama o teu esposo

Darwin reconhecia que não era cristão
O Papa Francisco segue em breve para Cuba e para os Estados Unidos, onde tem uma visita muito preenchida. Hoje pediu orações para que tudo corra bem.

Também hoje o Papa encontrou-se com os ministros do Ambiente dos vários países da União Europeia, a quem pediu responsabilidade para defender a criação.

A Ajuda à Igreja que Sofre diz que são cada vez mais os cristãos que fogem do Paquistão devido ao clima extremista.


A religiosidade de Darwin tem sido alvo de discussão há décadas, mas uma carta que vai a leilão no próximo dia 21 comprova que cristão não era certamente.

E porque hoje é quarta-feira, o The Catholic Thing tem um recado para si. Ama os seus filhos? Então faça-lhes um favor e esforce-se por amar o seu esposo ou esposa. Eles agradecem. Quem o diz é o grande Randall Smith.

Amai os Vossos Esposos

Randall Smith
Será que o mundo ainda não percebeu que a melhor coisa que um progenitor pode fazer pelo seu filho é amar o seu esposo, o pai ou a mãe dessa criança? Os estudos comprovam-no. Quantas vezes é que já ouviu um pai ou uma mãe a assegurar-lhe que ama muito os filhos e a dizer de seguida o quanto odeia o (habitualmente ex) esposo. Estes pais não pensam em como tais expressões de ódio afectam os seus filhos?

Se os estudos mostrassem que ler alto para os seus filhos todas as noites é extraordinariamente benéfico para o seu futuro sucesso e desenvolvimento (e mostram), não leria para os seus filhos? Ou se descobrisse que o seu filho era diabético, deixava-o comer montes de açúcar? Amar os seus filhos não tem a ver só com emoções fofinhas que sentimos quando olhamos para eles, é um compromisso que assumimos de fazer o que for preciso para o seu bem, mesmo quando é difícil.

Vejamos as coisas desta maneira: Se conhecesse uma mãe que insistisse que amava muito os seus filhos, mas que depois não tinha paciência para se levantar do sofá para lhes dar de comer, o que é que acharia? Até podia ser amor no sentido de emoções, mas não no sentido de compromisso.

As crianças precisam de mais do que apenas comida, água e roupa. Precisam tanto, se não mais, de cuidado e compromisso e um sentido de pertença. Se um progenitor não estiver disposto a pôr de lado as suas diferenças com o outro para dar estas coisas a um filho, o que devemos concluir?

Ninguém está a insinuar que esse tipo de reconciliação é fácil. Mas por outro lado também não é fácil aturar o chefe todos os dias, nem é fácil aturar o polícia que nos manda encostar por excesso de velocidade, mas aturamos.

Agora, aqui está um homem ou uma mulher ao lado de quem você se colocou, diante de toda a sua família e amigos, e jurou, diante de Deus, amar, honrar e proteger até ao fim da vida e não é capaz de dizer uma palavra simpática sobre ele ou ela, quando o que está em causa é o bem-estar dos seus filhos?

Conheço pessoas que insistem que seriam capazes de caminhar sobre brasas pelos seus filhos. Não sei como é que isso os poderia ajudar, mas imaginemos que ajudava. O que é que se passou de tão grave que não conseguem pôr o orgulho de lado para evitar infectar os seus filhos com ódio por um dos seus pais?

Não ignoro nem desprezo o facto de que “surgem problemas”. Os problemas surgem nos empregos. Surgem na escola. Surgem quando tentamos reparar a canalização ou mudar uma vela do carro. Digam uma actividade humana em que não surjam problemas? Os problemas surgem, é preciso lidar com eles. O que eu estou a sugerir é que esses problemas podem ser resolvidos (ou deveriam ser) se, como diz, ama verdadeiramente os seus filhos.

Há casos em que o pai ou a mãe dos seus filhos não é o seu esposo ou esposa. Estas situações prestam-se de forma particular a resultados trágicos. Já é difícil pôr de lado as diferenças e o orgulho quando estamos a lidar com uma pessoa que conhecemos, respeitamos e a quem nos comprometemos para a vida. Isso pode ser impossível quando se trata de alguém que mal conhecemos. Mas é por essa razão que a Igreja sugere que as pessoas não tenham relações sexuais com alguém a não ser que conheçam, respeitem e se tenham comprometido com ela para a vida. Este conceito será assim tão ridículo quanto a malta “fixe e sofisticada” faz crer?

Independentemente do que tais pessoas possam dizer, a realidade da reprodução humana implica que você será o pai biológico daquela criança para o resto da vida. Você e o seu parceiro criaram uma vida nova, algo inteiramente novo, sem precedentes e irrepetível no universo.

Criar uma vida nova é provavelmente a coisa mais fantástica que dois seres humanos podem fazer. Consegue pensar numa melhor? Uma grande tacada de golfe? Ganhar muito dinheiro a trabalhar para uma grande empresa? Marcar um grande golo? Nenhuma destas coisas é má, mas não se aproximam da criação de um novo ser humano.

O Dr. Frankenstein ficou famoso por dizer “Consegui! Arranjei um emprego bem pago na Google”? Ou “Afasta-te Igor, esta tacada vai espantar o mundo!”? Há sempre outro emprego melhor e uma tacada ainda mais incrível. Mas nunca, nunca haverá outra criança, com capacidades infinitas e que seja precisamente uma “imagem de Deus” como aquela que foi produzida por si e pelo seu esposo ou esposa.

Por isso não dê cabo de tudo, transformando o que devia ser o maior milagre que dois seres humanos podem alcançar juntos na pior tragédia da sua vida. Guarde as relações sexuais para alguém com quem se comprometeu a amar e servir para o resto da sua vida.

Se cometeu um erro e está a fazer o melhor que pode dessa situação, então que Deus o abençoe. Ele não o abandonará nem a si nem aos seus filhos. Não estou a escrever isto para condenar. Na minha experiência, estes pais seriam os primeiros a alertar outras pessoas para não cometerem os mesmos erros.

Para os restantes, por favor não se enganem a vós mesmos, pensando que podem amar os vossos filhos e dispor simplesmente do seu pai ou da sua mãe. As crianças não funcionam assim. Podemos desejar que sim, mas quantas vezes é que a realidade se conforma aos nossos desejos?

Precisamente. As crianças também não.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 9 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Entrevista do Papa à Renascença

Foi hoje divulgada a entrevista exclusiva do Papa Francisco à Renascença.


Há uma tradução para inglês também caso queiram partilhar com amigos estrangeiros.

Como é natural, uma entrevista destas mereceu já vários comentários de personalidades da sociedade civil, incluindo Eugénio da Fonseca, da Cáritas, que se mostra surpreendido pelo facto de o Papa dizer que confia na nova geração de políticos

A entrevista foi transmitida na íntegra em Português às 9h00 e repete esta tarde às 19h. Depois, a partir das 23h, podem ouvir um debate sobre a entrevista, com a presença de vários comentadores, incluindo Rui Marques e César das Neves.

Uma das respostas mais importantes do Papa, no meu entender, tem a ver com a crise dos refugiados. Francisco não nega que existe um perigo de infiltração de extremistas, mas apesar disso diz que é dever dos cristãos acolher, conforme nos dizem as escrituras. Nesta linha, destaque também para a nota da Comissão Nacional Justiça e Paz, que conclui precisamente que “Ser fiel às raízes cristãs da cultura europeia é adoptar comportamentos coerentes com a mensagem cristã. Não há coerência quando se recusa o acolhimento de refugiados por não partilharem a fé cristã”.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Tragédia em Meca e amnistia em Cuba

O momento em que a grua em Meca
atingida por um relâmpago
É já na próxima segunda-feira que a Renascença transmite uma entrevista exclusiva com o Papa Francisco. Às 9h passa na Rádio e a partir dessa hora já poderá ver a entrevista no site. Até lá, vai ter de se contentar com este “teaser” em que o Papa admite que a sua popularidade é também uma cruz: “Jesus, num certo momento, foi muito popular e depois acabou como acabou”.

Uma notícia trágica chega de Meca, onde esta tarde a queda de uma grua fez dezenas de mortos e centenas de feridos na principal mesquita da cidade. Recordo que sexta-feira é o dia santo para os muçulmanos, pelo que a mesquita teria mais pessoas do que noutro dia qualquer.

O Governo de Cuba anunciou esta manhã que vai libertar mais de 3500 presos por ocasião da visita do Papa Francisco, no próximo dia 19.

Ontem o Papa encontrou-se com membros das Equipas de Nossa Senhora, em Roma, a quem falou das ameaças ideológicas que a família enfrenta.


Por fim, o padre Lino Maia diz que devemos olhar para esta crise de refugiados à porta da Europa não como uma ameaça, mas como uma oportunidade. Amen!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Papa dá entrevista exclusiva à Renascença

A notícia do momento não é tanto uma notícia, antes uma antecipação de uma notícia.

A Renascença entrevistou ontem, em exclusivo, o Papa Francisco. Agora há uma série de passos que têm de ser seguidos, mas a entrevista será transmitida na íntegra às 9h00 de segunda-feira, com repetição às 19h do mesmo dia, com publicação no site também na segunda-feira de manhã. Não percam!


Esta quarta-feira o Papa Francisco repetiu, na sua audiência geral, que as Igrejas devem ter as portas abertas. As que não as têm, deviam chamar-se museus, afirmou.

Hoje publicou-se novo artigo do The Catholic Thing. O autor, George J. Marlin fala do livro de Mario Vargas Llosa “A Cultura do Espectáculo” e tira ilações sobre a nossa civilização actual. Não deixe de ler.

A Civilização do Espectáculo

George J. Marlin
Em 1948 o grande poeta anglo-americano e vencedor do prémio Nobel T.S. Eliot publicou uma curta obra chamada “Notas para uma Definição de Cultura”, onde argumentou que a cultura é “essencialmente a encarnação da religião de um povo” e que na Europa a religião que influenciava a cultura era o Cristianismo:

Foi no Cristianismo que as nossas artes se desenvolveram; foi no Cristianismo que as leis da Europa tinham – até recentemente – as suas raízes. É com o Cristianismo como pano de fundo que todo o nosso pensamento tem significado. Um europeu individual pode não acreditar que a fé cristã é verdadeira, porém o que diz, e produz e faz jorrará da sua herança de cultura cristã e dependerá dessa cultura para ganhar significado. Só uma cultura cristã poderia ter produzido um Voltaire ou um Nietzsche. Não creio que a cultura da Europa possa sobreviver ao desaparecimento completo da fé cristã.

Agora, num livro recém-traduzido [para inglês], “A Civilização do Espectáculo”, outro laureado com o Prémio Nobel da literatura, o romancista Mario Vargas Llosa, revisita a tese de Eliot e critica a era actual da cultura ocidental como sendo não só sub-cristã, mas por se ter tornado uma espécie de não-cultura.

Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, Vargas Llosa foi educado em colégios católicos e recebeu o seu doutoramento da Universidade Complutense de Madrid. Desde os 16 anos que foi jornalista amador e acabou por se mudar para Paris depois de terminados os seus estudos, onde tentou a sua sorte como escritor a tempo inteiro.

A Cidade e os Cães”, o seu primeiro romance, publicado em 1963 e que descreve a vida numa academia militar peruana, atraiu muitos elogios nos círculos literários e recebeu o Prémio da Crítica Espanhola, mas foi descartado como a obra de uma “mente degenerada” pela estrutura militar autoritária do Peru.

Rejeitando o marxismo e o socialismo, Vargas Llosa – que foi eleito presidente da PEN International em 1975 e concorreu, sem sucesso, à presidência do Peru em 1990 – sublinhou nos seus romances que se a América Latina quer sobreviver, as suas nações-estado devem abraçar a democracia liberal.

Em 2010, quando foi anunciado que Vargas Llosa ia receber o Prémio Nobel, o comité elogiou-o pela sua “cartografia de estruturas de poder e imagens mordazes da resistência, revolta e derrota do indivíduo”. Revendo a sua carreira, o conhecido crítico literário Clive James disse que ele “exemplificava da melhor maneira a relação entre a literatura e a política no final do século XX na América Latina”.

Tal como Eliot, Vargas Llosa acreditava que a cultura “nasce no seio de uma religião” e que apesar de a cultura ocidental ter evoluído para longe do Cristianismo nos tempos modernos, “estará sempre ligada, por uma espécie de cordão umbilical, à sua fonte de alimentação”.

As proclamações feitas por ideólogos do século XX de que Deus morreu, diz Vargas Llosa, “não significaram a advir do paraíso na terra, mas antes um inferno que já tinha sido prefigurado no pesadelo dantesco da Comédia… O mundo, liberto de Deus, tornou-se gradualmente dominado pelo demónio, um espírito do mal, da crueldade e da destruição que culminaria nas guerras mundiais, os crematórios nazis e os gulags soviéticos”.

Vargas Llosa revela desespero pelo facto de ter testemunhado, na sua vida, a diminuição da cultura à mão de vigaristas. As elites sociais já não se devotam a promover e preservar a alta cultura, mas são apenas snobs. Os artistas, músicos e autores raramente procuram criar obras que “transcendam o mero tempo presente” e “permaneçam vivos para futuras gerações”. Em vez disso as suas obras são “consumidas instantaneamente e desaparecem como bolo ou pipocas”. Os empreendimentos culturais têm de ter um valor comercial e não um valor intrínseco: “O que tem sucesso e vende é bom e o que falha ou não chega ao público é mau”.

Esta cultura gasta, conclui Vargas Llosa com tristeza, “privilegia a esperteza em vez da inteligência, as imagens sobre as ideias, o humor sobre a gravidade, a banalidade sobre a profundidade e a frivolidade sobre a seriedade”. Em resultado disso, mostra-se preocupado que os teólogos e os filósofos, que tradicionalmente ajudavam a formar a visão de uma sociedade, tenham sido substituídos por publicitários.

Lamenta que os concertos a abarrotar tenham substituído as cerimónias litúrgicas: “Nestas festas e concertos lotados os jovens de hoje comungam, confessam, alcançam redenção e encontram a realização através desta experiência intensa e elementar de se perderem de se próprios.”

Quanto à utilização de drogas, Vargas Llosa afirma que elas permitem às pessoas gozar de “prazer rápido e fácil”, evitando a busca de conhecimento que apenas se consegue através do pensamento introspectivo: “Para milhões de pessoas as drogas desempenham agora o papel, previamente desempenhado pela religião e pela alta cultura, de apaziguar as dúvidas e as questões sobre a condição humana, a vida, morte, o além, o sentido ou a falta de sentido da existência”.

Mas apesar destes declínios das normas culturais tradicionais e da crença de livres-pensadores, agnósticos e ateus de que os avanços científicos irão tornar a religião obsoleta, Vargas Llosa nota que a religião está viva e muito activa. Os secularistas não “conseguiram purgar Deus do coração dos homens e das mulheres, nem acabar com a religião”.

O facto de tantas pessoas ainda pertencerem a religiões estabelecidas e de os hippies e outros boémios dos anos sessenta, terem abraçado os ensinamentos religioso-psicadélicos de Timothy Leary ou voltado para a Igreja da Unificação Moonie, ou a Cientologia ou Budismo ou Hinduísmo apenas demonstra, na perspectiva de Vargas Llosa, que as pessoas precisam de alguma forma de consolo ou salvação.

Embora Vargas Llosa tenha abandonado a sua fé católica, ele admite que está constantemente em busca de uma nova. Isto porque está convencido que “uma sociedade não pode alcançar uma cultura democrática sofisticada – por outras palavras, não consegue ser verdadeiramente livre ou respeitadora da lei – se não for profundamente saturada de vida moral e espiritual, que para a imensa maioria dos seres humanos é indissociável da religião”.

Devemos esperar que quando o Mario Vargas Llosa chegar ao fim da sua busca a sua mente tenha redescoberto a religião da sua juventude.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 2 de Setembro de 2015 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Nulidade agilizada e solidariedade com refugiados

Os processos de nulidade dos casamentos católicos vão ser mais rápidos e simples a partir de Dezembro. Com as reformas introduzidas pelo Papa há mais responsabilidade do bispo local o que deverá resultar em menos espera por parte de quem se encontra nestas situações complicadas.

Um especialista português fala mesmo num conceito de “via verde” da nulidade.

Numa altura em que se continua a falar muito da crise dos refugiados, um bispo húngaro criticou os pedidos do Papa para acolher quem pede ajuda. Mas a conferência episcopal da Hungria, numa prova de unidade com Francisco, publicou ontem uma carta em que se coloca ao dispor para acolher quem precisar.

Em relação ao tema dos refugiados, a sociedade civil continua a mexer-se e as igrejas vão fazendo a sua parte. De um amigo evangélico recebi a informação deste evento de 24 horas de oração pelos refugiados, para o qual todos, católicos, protestantes ou outros, se devem sentir convidados!

Ao longo destes dias era suposto ter-se realizado uma visita da imagem peregrina de Fátima a Damasco, mas tal não foi possível por razões de segurança. Mas a oração é sempre possível e por isso a fundação Ajuda à Igreja que Sofre pede que se intensifique a oração pela paz na Síria nestes dias.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Bispos em Roma, refugiados em todo o lado

Adeptos alemães mostram-nos o caminho
Regressei hoje de férias e logo numa altura de enormes e importantes novidades em termos de notícias religiosas.

Comecemos pela visita ad limina dos bispos portugueses a Roma. Hoje ouviram palavras elogiosas, mas outras duras do Papa Francisco, que pergunta se a “nossa proposta de Jesus não convence os jovens”, que estão a abandonar a Igreja.

D. Manuel Clemente falou aos jornalistas em nome dos bispos e aproveitou para dizer que estes tinham falado directamente com o Papa sobre a questão dos refugiados, pondo-se ao dispor para receber e ajudar as famílias católicas a receber os que puderem.

E esta questão dos refugiados está na ordem do dia. Ao longo dos últimos dias tenho ficado profundamente chocado e triste ao ver pessoas a criticar o acolhimento de refugiados e, o que é para mim escandaloso, a fazê-lo em nome do Cristianismo. A minha opinião tentei deixá-la clara neste artigo, mas bastaria talvez ter ido buscar esta passagem da Bíblia:

“Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa. Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egipto.” Deuteronómio 10, 17-19

A minha entidade patronal, felizmente, deixou a sua posição bem clara também nesta nota de abertura que vale a pena ler.

Entretanto, ao longo destas semanas de férias publiquei três artigos do The Catholic Thing, que vos convido a ler se tiverem tempo.

Em Nossa Senhora da Realidade, Anthony Esolen procura uma nova invocação da Virgem para os nossos tempos, em que fingimos que o coração que bate não é vida e em que nos convencemos que podemos inventar e reinventar a nossa identidade ao sabor dos nossos caprichos.

O Padre Mark Pilon pergunta como é que a história vai julgar uma Igreja que permitiu que a confusão se semeasse entre os seus fiéis, com atitudes contraditórias e confusas em relação sobretudo a políticos que se dizem católicos e defendem o aborto.

E por fim, o Francis J. Beckwith sobre os “Dogmas materialistas” e os erros de lógica de quem parte do princípio que o sobrenatural não pode existir.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Nossa Senhora da Realidade

Anthony Esolen
Uma amiga nossa perguntou a um padre idoso e devoto porque é que os católicos pedem a intercessão de Maria sob vários títulos. “O que significa ter uma devoção a Nossa Senhora de Fátima ou a Nossa Senhora de Guadalupe”, perguntou, “quando afinal de contas é a mesma mulher, porque só existe uma Maria?”

Ele respondeu, recordando-lhe das circunstâncias da aparição de Maria a Juan Diego em Guadalupe e aos pastorinhos em Fátima. Veio esmagar a cabeça do paganismo azteca no México, com a adoração do sol e sacrifício humano. Veio avisar os homens ocidentais de uma enorme apostasia, exortando-os a rezar pela conversão da Rússia antes da revolução que veio elevar a impiedade a um princípio de governo.

Não é Nossa Senhora que está dividida, é a nossa atenção. Quando nos sentamos à cabeceira de uma criança moribunda, a quem nos podemos virar? Não ao estoico pagão Epictetus, que imaginou os seus discípulos a dizer: “O seu filho morreu”, ao que ele responde: “alguma vez eu disse que ele era imortal?”. Claro que os católicos se voltam para Deus, mas Deus também nos deu este dom inestimável da mulher pura e sem pecado, Maria, a segunda Eva, o exemplo do que seríamos se fossemos inocentes. Suplicamos a Nossa Senhora das Dores, que segurou o Cristo morto junto ao peito quando O desceram da Cruz, pedindo que ela reze por nós na nossa noite escura.

Quando nos encontramos numa encruzilhada, quando cada caminho diante de nós é incerto, quando seja qual for a nossa escolha esta implicará sofrimento, voltamo-nos para Nossa Senhora, Sede de Sabedoria, que carregou debaixo do seu coração a segunda Pessoa da Trindade, Cristo, a Sabedoria de Deus, e pedimos que ela reze por nós, para que possamos esperar pacientemente e calmamente para que a decisão correcta seja revelada. Ou então voltamo-nos para Nossa Senhora do Bom Conselho, que disse aos criados em Caná, “Façam tudo o que Ele vos disser”.

Essa conversa fez-me pensar, que título é que seria mais apropriado para Nossa Senhora se ela nos aparecesse agora? Consigo pensar em vários:

Para pessoas cuja alma foi deturpada por pornografia, Nossa Senhora da Pureza.

Para pessoas que dão mais importância à casa do que ao lar, e que entregam os filhos para serem criados por estranhos, Nossa Senhora da Vida Familiar.

Para pessoas que deixam aos filhos a factura da sua própria insensatez, hedonismo ou ambição, Nossa Senhora dos Santos Inocentes.

Para pessoas cuja atenção é deturpada pelas inanidades da política e do entretenimento de massas, Nossa Senhora das Horas Caladas.

Para pessoas que procuram preencher o vazio das suas vidas com coisas, Nossa Senhora da Pobreza.

Mas talvez haja um título que vá mais directamente ao cerne de toda a loucura que subjaz às nossas dificuldades. Achamos que uma coisa muda porque lhe damos um nome em vez de outro: Um homem torna-se uma mulher apenas porque diz que sim. Ou então recusamo-nos a acreditar que as coisas têm natureza sequer: Um homem não é um homem porque não existe sequer tal coisa. Ou catalogamos uma coisa de acordo com as suas características superficiais, e dizemos que algo é uma democracia só porque existem eleições, mesmo que a influência de um homem sobre o seu governo seja de facto menor que a de uma pulga sobre um elefante.

Ou então rimo-nos da ideia de que uma coisa possa ser melhor que outra, mais bonita ou mais verdadeira, e por isso temos os nossos museus de arte moderna cheios de coisas que pessoas saudáveis de outra cultura qualquer considerariam hediondas, absurdas, ineptas ou triviais e as bibliotecas, depois de terem vendido os seus livros verdadeiros a três dólares cada e despejado o resto em aterros, enchem as suas prateleiras de vazio.

Nossa Senhora da Realidade
O título em que estou a pensar é: Nossa Senhora da Realidade. Não estou a brincar.

Pensem em Maria na sua casa em Nazaré. Ela não sofreu com as desvantagens deste mundo. Nós somos bombardeados com irrealidades e a nossa relação com a criação sólida e misteriosa de Deus é ténue. Maria sofreu as desvantagens salutares de um mundo em que uma mulher simples, casada com um carpinteiro, tinha de mergulhar na realidade. Tinha de levar trigo para ser moído. Tinha de meter as mãos na massa, para trabalhar o fermento. Tinha de tecer a lã para fazer linha. Apenas um telhado de palha a separava do sol do Verão. Apenas uma parede forrada a lama servia de barreira ao frio invernal.

Quando ouviu dizer que a sua prima Isabel estava grávida apressou-se a ir para os montes, possivelmente de mula mas provavelmente a pé. Estava lá quando nasceu o Baptista. As suas mãos poderão ter sido mesmo as primeiras a tocar no corpo do recém-nascido. Quando nasceu Nosso Senhor, ela apertou-o junto ao peito enquanto os animais na manjedoura batiam os pés e se ajeitavam. Em Maria existe sempre esta firmeza que vem de estar ancorada na criação.

“Como será isso”, perguntou ao anjo, “se eu não conheço homem?” Essa é a pergunta de uma realista. Quando o anjo responde que o que será feito será obra do Espírito Santo – mais real que as coisas passageiras que seguramos nas mãos, mais verdadeiro do que nós próprios – ela submete-se à maior das realidades: “Seja feita em mim a Vossa vontade”.

Um dia a neblina dissipará e as sombras fugirão e tudo o que é irreal desaparecerá como um sonho. Aí poderemos ver o Filho que ela nos deu. Eu imagino-O a aparecer como um rapaz, a chamar por nós com a alegria juvenil nos olhos. “Vou subir para as montanhas”, diz. “Vem comigo”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 27 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Deixem-nos entrar!

A Europa está dividida sobre o que fazer em relação à crise dos refugiados que nos batem à porta a pedir uma oportunidade de vida. Dos refugiados que vêm de contextos de tal forma desesperados que estão dispostos a arriscar a vida só para tentar ter uma vida melhor.

Temos aqui vários dramas.

Em primeiro lugar há o drama dos que tentam fazer as viagens intermináveis por terra, ou mais curtas e letais por mar. Não é uma crise que se compreenda com números, é uma crise que se conta com vidas e histórias individuais. Cada refugiado que é retirado morto do Mediterrâneo ou do porão de um navio, é uma pessoa profundamente amada e desejada por Deus, uma pessoa com potencial para o bem e para o mal, para a grandeza; amada por um pai e por uma mãe, que ama profundamente os seus filhos, que brincou em criança, que correu e fez asneiras, que chorou um primeiro coração despedaçado. São homens e são mulheres e estão a morrer para tentar ter um pedaço desta vida que nós vivemos e que ainda nos atrevemos a dizer que é de crise.

Há ainda o drama dos países e das realidades de origem, que é um drama pintado em tons de guerra e de violência, razão da fuga.

Mas o drama que mais me aflige – já que os outros sempre os teremos connosco – é o drama de que nós somos personagens. Com estas vagas de pessoas a bater-nos à porta, a suplicar pelas suas vidas para entrar, que haja sequer um debate sobre como agir e se devemos abrir a porta ou não revela uma fraqueza moral da Europa de tal forma profunda que nos deve entristecer e chocar.

Deixem-me colocar isto na primeira pessoa, para não andar apenas pelo reino das teorias, que são tão fáceis… O meu avô inglês combateu na Segunda Guerra Mundial. Perdeu dois irmãos no conflito. Casou em Londres ao som de rockets V2 e teve o copo-de-água num hotel cuja parede tinha sido destruída na véspera.

O meu avô português era piloto da força aérea e durante a guerra foi para Inglaterra receber formação de jactos que Portugal ia comprar aos britânicos. Durante pelo menos uma das sessões de formação o instrutor inglês detectou aviões alemães e informou os seus formandos portugueses de que tinha de os atacar. Eles, contra todas as convenções e ordens, juntaram-se a ele.

Tenho como um dos maiores orgulhos do meu património familiar o facto de, numa altura em que a Europa se dividia entre o mais puro do mal e aqueles que resistiam, ambos os meus avôs não só estavam do lado certo como foram à luta. Ambos, certamente, agiram com base na sua educação e nos valores cristãos que sempre os animaram.

Eu sou também herdeiro desses valores. Num outro tempo, noutras circunstâncias, mas são valores que transpõem todos os tempos e todas as circunstâncias. A verdade é assim mesmo.

Portanto digo em nome próprio, a quem é de direita ou de esquerda, a quem é conservador ou liberal, a quem é ateu ou crente, a quem é católico ou protestante… Enquanto houver um homem ou mulher a bater desesperado à nossa porta e esta não se abrir, devíamos cobrir a cara de vergonha e lavar a boca antes de reivindicar uma cultura e valores cristãos.

Sim, eu ponho esta questão em termos religiosos porque é isso que sinto. Esta crise é uma prova ao nosso Cristianismo. E choca-me que aqueles que alertam para o perigo de uma “invasão” de estrangeiros para a cultura e civilização da Europa não percebam, pobres almas, que são eles mesmos o mais visível sinal da morte dessa mesma civilização.

Deixem-nos entrar.

Por amor do Santo Deus, do Senhor dos Céus e da Terra, do Cristo que foi refugiado no Egipto, deixem-nos entrar!

Ou então mantenham as portas fechadas, mas nesse caso retirem definitivamente os crucifixos das paredes, os nomes de santos às terras e às escolas e atirem-nos todos ao mar, porque definitivamente deixámos de os merecer.

Filipe d'Avillez

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