terça-feira, 31 de março de 2015

Actualidade Religiosa: Figuras da Páscoa, Vias Sacras, vizinhos no Estado Islâmico

São Pôncio Pilatos? Para alguns, sim.
Já estamos na Semana Santa, auge do calendário cristão. Para melhor perceber a história da Paixão e da Páscoa, elaborámos uma interessante explicação sobre as personagens que compõem este quadro, incluindo não só os dados incluídos nos Evangelhos, como também alguns dados e factos apócrifos e interessantes. Leiam que vale bem a pena.

Na mesma linha, vejam esta reportagem vídeo sobre a Via Sacra, incluindo a história da devoção que marca tanto a vivência da Quaresma.

E há pessoas para quem a Quaresma não acabará esta semana, e nada tem a ver com calendários. São, entre outros, os refugiados no Médio Oriente para quem o sofrimento já dura há anos e promete durar bastante mais tempo. A Ajuda à Igreja que Sofre está no terreno e Catarina Martins fala do risco de desaparecer toda uma civilização.

Quem são os portugueses que estão no Estado Islâmico? Podiam ser os nossos vizinhos, diz Hugo Franco, o jornalista do Expresso que tem investigado a fundo esta questão e que foi entrevistado pelo meu colega Ricardo Rodrigues.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O que interessa o Iémen? e "Todo o mal tem um fim"

Houthis no Iémen: "We care a lot!"
Uma coligação de forças árabes prepara-se para intervir no Iémen. Eu sei o que estão a pensar… O que é que interessa o Iémen?! Foi por isso que escrevi este artigo, porque o Iémen interessa muito e, agora mais que nunca, podemos ver que grande parte do problema do Médio Oriente é o conflito entre o bloco xiita e o bloco sunita. Nesse sentido, o Iémen é apenas o mais recente e importante campo de batalha.

O Papa Francisco encontrou-se esta tarde com 150 sem-abrigo que estavam a ter uma visita guiada aos museus do Vaticano. Em Setembro vai à Casa Branca e encontrar-se-á com Barack Obama.

A Ajuda à Igreja que Sofre está de visita aos campos de refugiados no Líbano e no Iraque, onde “falta tudo menos a fé”.

A situação dos refugiados cristãos na Síria e no Líbano inspirou a organização a preparar uma Via Sacra Meditada pelas Famílias Refugiadas da Síria. Pode-se encomendar a Via Sacra directamente à AIS, mas há quem a esteja a passar à prática, como acontece no Porto, na Igreja do Marquês, no dia 30 de Março, pelas 21h15. Quem puder que apareça!

Em Portugal encontra-se por estes dias o paquistanês Paul Bhatti, activista pelos direitos das minorias, cujo irmão foi assassinado por defender o fim da lei da blasfémia. Bhatti acredita que a lei está destinada a acabar, porque “todo o mal tem um fim”. Aqui podem ler a transcrição integral da curta entrevista que lhe fiz e aconselho-vos ainda a ouvirem na Renascença a partir das 23h uma entrevista mais alargada, sobre outros temas, feita pelo meu colega José Pedro Frazão.

Resta dizer que Bhatti está em Lisboa para participar no Meeting, organizado pelo movimento Comunhão e Libertação. Aqui têm o programa completo e aconselho vivamente a participarem, se puderem.

"All evil has its end, and the blasphemy law is evil"

Full transcript of my interview with Paul Bhatti, ex-minister of Minorities in Pakistan and brother of Shahbaz Bhatti, who was killed for opposing the country's blasphemy law. See news story here (in Portuguese).

Transcrição integral da minha entrevista a Paul Bhatti, ex-ministro das minorias no Paquistão e irmão de Shahbaz Bhatti, morto em 2011 por se opor às leis da blasfémia. Ver reportagem aqui.
Bhatti está em Portugal para participar no Meeting Lisboa.


We hear a lot about the anti-blasphemy law in Pakistan. What is the situation at the moment?
The blasphemy law in Pakistan is one of the laws which has capital punishment. Anybody who violates this law is sentenced either to death or to a very long time in prison.

Unfortunately this law is often misused to settle personal scores. There are also many Muslims who have been victims of this persecution and these false accusations.

The general situation in Pakistan is very bad. We have political crisis, economic crisis, the country is unstable. This instability creates a fertile environment for those who want to impose their radical philosophy and who take advantage of these things, like false accusations to settle personal scores.

Unfortunately the religious minorities, in particular the Christians communities, belong to the most oppressed and marginalized sector of society, so they are easy victims of this. Doing that, it gives the message to entire world that they don't like Christians, they don't like minorities, they can do whatever they want, and they are in the media. 

This creates the kind of problems we are fighting, and my late brother Shahbaz's main objective was to promote religious freedom, bring in the mainstream of the society, the poor and marginalized sectors of the community. After his death I am carrying on his legacy, and we have a lot to do, but I think that there is hope, if we continue to follow this path. Our conviction is that we are right, we want to honour human dignity, we want to promote social justice, we are working for human equality.

But whereas there are false accusations and innocent victims, on the other hand there are hopes too. A lot of Muslim people support us, they share our feelings, they want to share the contribution to promote religious freedom and peace in the society. 

Do you believe that the anti-blasphemy laws might be abolished in the near future?
Surely. First of all, I am convinced that evil has its end, and this is evil. These things are evil. 

The second thing is that a lot of people of good faith want it to end. Now the sensibility of the international community, of a lot of good people in Pakistan, a lot of people who believe in religion... If these people come together, the opposition is rather small. I think sooner or later we will prevail.

The only thing is that the people who believe in justice, who believe in religious freedom, including the international community, have to unite. They should unite behind one platform and fight against the law, and that way it will end. But if they don't unite behind one platform, then they cannot get the advantage.

Could it be counterproductive for the international community and NGOs to criticize the law? Could that not make it more difficult to end the law as it makes it seem like the government is folding to Western pressure?
You are very right. I agree.

Raising one's voice for those who cannot raise their voice is good. But on the other hand we have to take concrete steps. These are, you have to enforce, support the local community to stand by themselves, to make them strong so that they can defend themselves and raise their voice. The basic problem is illiteracy, poverty and political representation of the religious minorities, including Christians, in the highest forum of society. 

We have to work along those lines so that people can come into the mainstream of society and do all these things.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Pizza para o Papa e Padre Condenado

Papa recebe Pizza em andamento
O ex-pároco da Golegã foi condenado hoje de dois crimes de abuso de menores. Apanhou 14 meses, mas de pena suspensa. É o mais recente caso envolvendo abusos na Igreja Portuguesa, recordo aos interessados que vou mantendo uma cronologia destes casos no blogue.

Por falar em casos de abusos, o Papa aceitou a renúncia do antigo Arcebispo de Edimburgo a todas as honras e privilégios do cargo de cardeal. Não é a primeira vez que um cardeal deixa de o ser, mas ainda assim é uma coisa muito rara.

Hoje o Papa Francisco voltou a criticar o desemprego, mas também recordou a publicação do Evangelium Vitae, por parte de João Paulo II, neste que é o dia Internacional do Nascituro.

Recentemente o Papa disse que às vezes só lhe apetecia ir comer uma pizza. Não é fácil, mas na sua visita a Nápoles um cozinheiro decidiu levar a pizza até ele.

O Boko Haram é suspeito de ter raptado mais meio milhar de pessoas na Nigéria, enquanto a Turquia afirma que já impediu 2,550 de se juntar ao Estado Islâmico.

Será que a fé é incompatível com o bem-estar material? Essa é a questão a que responde David G. Bonagura no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

A Fé pode sobreviver no “Primeiro Mundo”?

David G. Bonagura Jr.
“Com a subida dos rendimentos, descem os campanários… A felicidade chega e Deus põe-se a andar”.

Olhando para o chamado “primeiro mundo”, esta afirmação, no geral, parece ter algum mérito. Ao longo dos últimos séculos, à medida que os nossos confortos materiais se multiplicaram lentamente, o fervor religioso tendeu a diminuir. Mas este declínio não aconteceu da mesma forma nas partes menos abastadas do mundo. Uma vez que esta vaga de secularismo no mundo desenvolvido parece ter coincidido com uma era de avanço tecnológico e material, parece adequado perguntar se a fé religiosa pode sequer sobreviver neste clima.

A aparente incompatibilidade entre a fé e o conforto humano não é nova. O próprio Senhor anteviu esta tensão fazendo o aviso: “É mais fácil a um camelo passar no buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”, (Mt. 19,24). Esta admoestação seguiu-se à conversa entre Jesus e o jovem rico, que preferiu regressar triste para os seus muitos bens do que seguir Jesus.

Por outro lado, a fé parece ser mais firme quando as pessoas estão necessitadas. No seu desespero, dez leprosos procuraram Jesus. Satisfeitos os seus pedidos, apenas um se lembrou de prestar homenagem ao seu Salvador. A inspiração heróica dos mártires incentivou a fé de muitos crentes durante os tempos de opressão. Nos nossos dias, as Igrejas Católicas estavam significativamente mais cheias ao meio-dia de terça-feira, 11 de Setembro de 2001, do que na mesma hora uma semana antes ou nas terças-feiras seguintes.

Mesmo a nossa prática quaresmal parece apontar nesta direcção. Com o jejum privamo-nos deliberadamente de comida e outros confortos físicos para incentivar o crescimento espiritual. Na primeira semana da Quaresma pedimos a Deus: “Fazei que a nossa alma, purificada pela penitência corporal, resplandeça cada vez mais com a luz da vossa presença”.

Teria Marx razão? Será que a religião é o ópio do povo, destinado a ser erradicado mal se obtenha a quantidade certa de riqueza e bem-estar material? A fé no mundo desenvolvido e cada vez mais abastado está destinada a ser eliminada?

Em primeiro lugar, não há nada de errado com os bens materiais ou confortos físicos, em si. Depois, até ver, a fé tem claramente sobrevivido à disseminação de bens de luxo e à secularização. Muitos continuam a crer, mesmo de forma fervorosa, incluindo algumas das pessoas mais ricas e confortáveis de entre nós. Há paróquias e regiões no mundo desenvolvido onde a prática religiosa é fervorosa e há ricos e pobres que continuam a responder ao chamamento das vocações religiosas. Por isso não parece ser o caso que a riqueza e o conforto sejam incompatíveis com a fé.

Mas parece justo concluir que o estilo de vida do mundo desenvolvido, como o conhecemos agora, tem o potencial para ser hostil à fé. Os nossos corações irrequietos e destinados a Deus, nas palavras de Santo Agostinho, podem facilmente ser distraídos (no sentido literal de “arrastados para longe”) pela disponibilidade geral de confortos, conveniências e remédios que prometem a felicidade. Por entre o ritmo de vida incansável e o barulho de fundo constante do nosso mundo, a voz de Deus, que prefere o silêncio e a quietude, torna-se mais difícil de ouvir.

Generation Smartphone - No need for God?
Mas o primeiro mundo é bem mais do que um aglomerado de coisas, barulhos e actividades. O poder da tecnologia e dos bens materiais deu lugar a um espírito único, uma característica da era moderna que desembocou no mundo moderno: O serviço e a adoração de nós próprios como fim último para o qual estes bens existem. Em vez de encarar o nosso progresso como forma de construir o Reino de Deus, o mundo desenvolvido preferiu usar a tecnologia para banir Deus, numa tentativa de nos tornarmos soberanos auto-suficientes do Universo. Enquanto sociedade, permitimos que os materiais nos conduzissem ao materialismo – a crença de que apenas aquilo que é físico e tangível tem verdadeiro significado.

Neste ambiente, é difícil para uma fé num Deus invisível e imaterial, que não promete a eliminação dos nossos sofrimentos, mas a dádiva de um tipo de união com ele actualmente incompreensível, ganhar raízes em mentes já por si cativadas por bens materiais e as suas promessas. Imaginem a reacção de um adolescente típico à descrição das visões beatíficas enquanto o seu smartphone brilha com todo o tipo de imagens e mensagens. Claro que há adolescentes que perceberam o vazio do materialismo actual e abraçaram a fé, mas são relativamente poucos.

Hoje os inimigos da fé do mundo desenvolvido são tão formidáveis como em qualquer altura da história da salvação. E esta história demonstra que os católicos têm obtido os seus maiores sucessos na evangelização de povos inteiros quando motivados por duas crenças profundas: Um grande amor por Cristo, ao ponto de martírio, e o entendimento de que aqueles que encontram não podem ser salvos se não aceitarem o Evangelho.

Nosso Senhor prometeu que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja, mas isso não garante que as almas permaneçam dentro dela. Um número preocupante de concidadãos no mundo desenvolvido ouviram o Evangelho mas não escutaram. Se os nossos esforços de evangelização não forem tão zelosos como os dos missionários do passado, o mundo desenvolvido poderá tornar-se a razão da pergunta preocupante de Jesus: “Quando filho do homem vier, encontrará fé sobre a terra?” (Lc. 18,8).


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 22 de Março de 2015 no The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Terror na Tunísia e o direito a nascer

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Novo ataque terrorista, desta feita na Tunísia. Tendo em conta o que poderia ter acontecido, o rol de 21 mortos não é o pior cenário… Nada que surpreenda quem sabe que na Tunísia, a par de muitos turistas, há muito radicalismo.

Partiu hoje para o Líbano e para o Iraque uma delegação da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, para averiguar no terreno das condições dos refugiados da guerra na Síria e no Iraque. A presidente da AIS Portugal acompanha o grupo.

De vez em quando ouvem-se pessoas a queixar-se de que o Papa não fala o suficiente sobre questões como o aborto, mas a verdade é que Francisco já se referiu várias vezes ao tema e voltou a fazê-lo hoje, lamentando que a sociedade trate mal as crianças, privando-as até do direito a nascer.

Por falar em direito a nascer, há uma sessão de esclarecimento sobre a iniciativa legislativa de cidadãos que visa restringir a lei do aborto. É amanhã, em Sete Rios, para quem quiser saber mais.

Francisco escreveu ontem uma carta aos nigerianos, solidarizando-se com as vítimas do terrorismo do Boko Haram.

E esta quarta-feira publicamos mais um artigo do The Catholic Thing em português. O filósofo Daniel McInerny explica porque é que não se pode justificar o casamento homossexual com base no direito natural. O direito natural às vezes parece estar “fora de moda”, mas é um conceito crucial para o Cristianismo, e não só, diria mesmo para uma noção da dignidade humana.

Homossexualidade e Direito Natural

Daniel McInerny
No âmbito do seu corajoso esforço para proteger os estudantes católicos da sua diocese dos efeitos perniciosos da agenda homossexual, o Arcebispo Salvatore Cordileone, de São Francisco, invocou o direito natural para sublinhar a inaceitabilidade das relações homossexuais e do casamento homossexual.

Mas Gary Gutting, professor de Filosofia na Universidade de Notre Dame e colunista regular no New York Times, questionou a forma como o arcebispo compreende o direito natural. Ele acredita que, bem entendido, o direito natural apoia a prática e o casamento homossexual. Gutting está totalmente errado nesta sua visão e é importante que se perceba porquê.

Em primeiro lugar, porém, é preciso pegar em duas questões relativas ao direito natural. Como é que o direito natural se relaciona com a fé? E como é que funcionam os argumentos do direito natural?

O direito natural não é um conceito especificamente católico. Na praça pública, costumam ser os católicos a invocá-lo, mas isso é só porque costumam ter uma apreciação robusta da integridade e abrangência da razão natural – a utilização das nossas mentes independentemente de revelações divinas.

Esta luz natural do nosso intelecto é complementada e aperfeiçoada pelas revelações de Deus, especialmente pelos dogmas da nossa fé. Mas esta luz sobrenatural não diminui de forma alguma a integridade da razão natural, que é capaz de discernir as leis que governam o exercício virtuoso das nossas capacidades humanas.

Resumindo, o direito natural depende da razão e, por isso, está ao alcance, em princípio, das mentes de todo e qualquer ser humano, seja católico ou não.

O professor Gutting aprecia esta distinção. Ele não confunde os argumentos de direito natural com a teologia revelada. Na sua resposta ao arcebispo Cordileone, o principal objectivo é confrontar os seus argumentos no terreno dos princípios naturais ou filosóficos. (Depois, Gutting recorre às escrituras para atacar os argumentos contra a homossexualidade, mas deixemos isso para os biblistas).

Então como é que funcionam os argumentos do direito natural? Para responder a isto, temos primeiro de ver o que significa qualquer lei ou preceito. “A noção de um preceito”, escreve São Tomás de Aquino, “significa a ordem para um fim, na medida em que aquilo que é ordenado é necessário ou expediente para um fim”.

De igual modo, uma lei ou um preceito natural significa aquilo que é necessário ou expediente para um dos nossos fins naturais. E quais são os fins naturais do ser humano? São os bens que aperfeiçoam a nossa natureza, os bens para os quais fomos criados e que a nossa natureza anseia antes sequer de tomarmos decisões particulares: bens como a vida, a família, a educação, amizade, comunidade política, verdade e, acima de tudo, a verdade sobre Deus.

Um argumento de lei natural parte da examinação dos bens que aperfeiçoam ou cumprem a natureza humana. Estes argumentos procuram clarificar as leis ou os preceitos que governam a busca necessária ou expediente destes bens.

Gutting sustenta a sua crença de que o direito natural apoia a agenda gay em dois argumentos, o primeiro dos quais revela a fraqueza de ambos. Este argumento prende-se com aquilo que Gutting entende como sendo os efeitos benéficos sexo “não reprodutivo”, isto é, relações homossexuais.

Gary Gutting
O seu argumento é colocado em forma de pergunta: “Mesmo que o sexo não reprodutivo fosse de alguma forma menos ‘natural’ que o reprodutivo, não poderia desempenhar um papel positivo num amor humanamente satisfatório* entre duas pessoas do mesmo sexo?”

Tudo depende do que Gutting quer dizer por “satisfatório”. Como acabámos de ver, os preceitos da lei natural governam a busca de bens que satisfazem a nossa natureza humana. O professor Gutting limita-se a assumir uma noção particular de satisfação humana, concordando com o filósofo John Corvino que: “Uma relação homossexual, tal como uma heterossexual, pode ser um lugar significativo de sentido, crescimento, satisfação. Pode realizar uma variedade de bens genuinamente humanos; pode dar bom fruto… [para casais hétero ou homossexuais] o sexo é uma forma única e poderosa de edificar, celebrar e repor a intimidade”.

No seu ensaio, Gutting não apresenta argumentos neste sentido, dando como adquirido que esta é uma descrição genuína da satisfação para a qual nos impulsiona o direito natural. Mas a lei natural não está direccionada a uma qualquer noção de satisfação, mas sim, e apenas, à satisfação das nossas inclinações naturais, anteriores à escolha.

Mesmo que aceitássemos que uma relação homossexual possa ser um lugar de “sentido” que “repõe a intimidade”, continuaríamos com a questão de saber se este “sentido” e “intimidade” estão em sintonia com o verdadeiro florescimento da nossa natureza. Sem dúvida que os adúlteros também encontram algum “sentido” e “intimidade” nos seus casos extraconjugais, será isto base suficiente para declarar que o adultério satisfaz genuinamente a natureza humana e, por isso, é permissível à luz do direito natural?

Ao tentar colocar a tradição do direito natural no campo da agenda homossexual, Gutting insere no seu argumento uma noção de satisfação que nenhum defensor do direito natural aceitaria e, com base nesse subterfúgio, declara vitória.

Não deixa de ser interessante que no seu artigo Gutting nunca utiliza as palavras “casamento” e “família” como sendo sequer uma parte da satisfação da sexualidade humana. O mais próximo que chega são referências a “gravidez” e “reprodução”, como sendo aquilo que a tradição do direito natural indica como o propósito das relações sexuais.

Mas esta é uma deturpação gritante. O propósito natural do sexo não é, por si só, uma gravidez, mas sim um lar. E por “lar” estou-me a referir a um marido e uma mulher, casados, cujos actos procriadores resultaram, oxalá, no dom de crianças barulhentas, cansativas e exigentes, pelas quais os membros do casal estão dispostos a sacrificar as suas vidas.

Se Gutting não vai referir o bem do lar, então não está a falar do sexo no sentido usado pela tradição do direito natural.

Logo, a razão não está do seu lado na sua tentativa de colocar essa tradição ao serviço da agenda homossexual.


*O termo usado em inglês é “fulfilling”. A palavra “satisfatório” pode parecer ser referente apenas às necessidades ou desejos físicos ou superficiais, mas neste contexto deve ser entendido como algo que satisfaz inteiramente o homem, também a um nível mais profundo e espiritual.


Daniel McInerny é filósofo e autor de obras de ficção para crianças e adultos. Mais informação em danielmcinerny.com.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 14 de Março de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 17 de março de 2015

Atentado no Paquistão e "O Williamson ordena amigos"

"Negando o holocausto num dia, ordenando os amigos no seguinte"
A vida difícil de um bispo ultra-tradicionalista
Domingo foi mais um mau dia para os cristãos perseguidos. Morreram 14 pessoas no Paquistão, num duplo atentado que o Papa lamentou e pela qual a Igreja local culpa em parte o Governo.

Já esta segunda-feira surgiu o relato na primeira pessoa de um espanhol que foi refém do Estado Islâmico durante vários meses, isto no mesmo dia em que os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia disseram-se dispostos a recorrer a todos os meios para travar o grupo. O Vaticano também já disse que aceita o uso da força para travar o Estado Islâmico.

Outra história terrível, mas da Índia, onde uma freira de 71 anos foi violada no decorrer de um assalto.

Há muito tempo que não ouvíamos falar dele, mas parece que o bispo que se mostrou demasiado tradicionalista até para os lefebvrianos da SSPX, vai ordenar pelo menos mais um bispo entre os seus seguidores. Ao fazê-lo entrará para a história como uma das poucas pessoas a ser excomungada duas vezes…

E terminemos com uma coisa mais alegre. Durante a Quaresma a Renascença tem feito reportagem com pessoas que ajuda outras. Desta vez damos a conhecer o trabalho dos ministros extraordinários da comunhão que levam Jesus aos doentes e acamados.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Papa convoca ano jubilar da misericórdia

Ano Jubilar para todos!
O Papa Francisco acaba de convocar um ano jubilar! Será dedicado ao tema da misericórdia e, em atenção à minha data de casamento, começa no dia 8 de Dezembro próximo.

Este anúncio foi feito no decurso das 24 horas de oração. Em todo o mundo houve movimentos e igrejas a aderir, e Portugal não foi excepção, como comprova esta reportagem feita em Évora e esta, em Lisboa, na Igreja de Santa Isabel.


Ontem D. Manuel Clemente celebrou uma missa em memória de D. José Policarpo, que morreu o ano passado, lembrando um homem de Fidelidade e de Esperança.

Esteve em Portugal o Cardeal Erdo, de Budapeste, que para além de presidente da Comissão das Conferências Episcopais da Europa é o relator do sínodo para a Família. Aura Miguel falou com ele sobre vários assuntos.

A mesma Aura Miguel conversou ainda com Austen Ivereigh, jornalista do The Tablet e autor de um livro sobre o Papa Francisco: “O Grande Reformador”.

Na quarta-feira falei do justíssimo prémio atribuído a Jean Vanier, que dedicou uma vida à dignificação dos deficientes mentais. Ontem falámos com Alice Cabral, uma das figuras de proa do movimento Fé e Luz, fundado por Vanier, em relação a este prémio e a sua missão.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Mais um jihadista português morto e prémio para Jean Vanier

Jean Vanier, um hino à humanidade
Começo com uma notícia que me deu a maior alegria poder escrever. Jean Vanier, o fundador das comunidades L’Arche, que tanto tem feito pela dignificação das pessoas com deficiência mental, venceu hoje um importante prémio, no valor de 1,8 milhões de euros, que serão doados às organizações com as quais trabalha.

Ao que parece, morreu mais um português que estava a combater pelo Estado Islâmico. Ainda não há muitas certezas, mas a informação parece ser credível. Melhor a atitude do Vaticano que vai destinar os ofertórios de Sexta-feira Santa aos refugiados na Síria.

O Papa Francisco elogiou esta quarta-feira os idosos que se dedicam à oração, dando como exemplo o Papa emérito Bento XVI.

A diocese de Bragança-Miranda inaugurou um centro para a preservação do património religioso.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Anthony Esolen sublinha uma das grandes incongruências da sociedade actual, que insiste que os homossexuais “nascem assim”, mas que os meninos que se comportam como meninos “normais” são todos “socialmente condicionados”.

Nasceu Assim

Anthony Esolen
Em 1892 uma amante do teatro chamada Mabelle Webb mudou-se para Nova Iorque com o seu filho de três anos. Abandonou o pai da criança, um mero vendedor de bilhetes de combóio, afirmando que “ele não gostava do teatro” e impediu-o de desempenhar qualquer papel na vida do filho, recusando até o seu apelido. Introduziu logo o rapaz no mundo das artes de palco, treinando-o nos ramos de música e dança. O jovem abandonou a escola aos 13 anos e entrou para o teatro, acabando por se tornar uma figura popular de Hollywood, desempenhando personagens parecidas consigo: sofisticados, condescendentes, mimados. Foi sempre o “pequeno Webb” da sua mãe. Ela era conhecida por ter um papel excessivo na sua vida e viveu com ele até morrer aos 91 anos. Eram sufocantemente próximos. Quando ela morreu, na sua tristeza ele deixou a sua saúde deteriorar-se. Nunca casou, mas levou uma vida homossexual discreta, com o conhecimento da sua mãe.

Clifton Webb nasceu assim.


Em 1934 um rapaz de 13 anos, excepcionalmente bonito, estava num cinema londrino a ver filmes de terror. O seu lar feliz tinha sido destroçado quando era mais novo, por causa de um arranjo profissional que obrigava o pai a ficar na cidade enquanto ele era educado pela irmã, a ama e, mais tarde, uma tia. Era vulnerável e isso não passou despercebido a um jovem estudante de medicina. Depois de terem visto um filme sobre múmias, o estudante convidou-o a voltar com ele para o seu apartamento, para lhe dar uma experiência de mumificação, se estivesse interessado.

O rapaz concordou. Mais tarde, na sua biografia, escreveria que nessa altura não “sabia nada” da vida. O estudante deu-lhe uma bebida com droga, despiu-o totalmente e embrulhou-o com ligaduras, dos dedos dos pés até à cara, deixando apenas os seus órgãos genitais descobertos. Depois pegou numa faca fria e encostou-a aos seus órgãos genitais, sussurrando que poderia matá-lo ou mutilá-lo, se quisesse, mas claro que não o faria, porque não era isso que queria. O coração do rapaz acelerou, aterrorizado. Pensava que ia morrer. O estudante abusou dele, libertou-o, deixou-o vestir-se e ir-se embora. “Ao menos agora já sabia”, escreveria, trinta anos mais tarde. Nunca chegou a casar. Entrou para o mundo dos espectáculos e tentou ter casos com uma ou duas mulheres, mas não duraram. Eventualmente passou a viver com outro homem.

Dirk Bogarde nasceu assim.


Em 1949 um juiz no Bronx apresentou um menino de 10 anos com uma escolha. Podia ir viver para um centro de detenção de menores, ou ser enviado para longe da família, para uma escola de actores. Escolheu a escola de actores. Em termos práticos, parece ter sido a melhor opção. Os seus pais, imigrantes sicilianos, já não tinham mão nele. Tinha sido expulso do colégio católico onde andava e juntara-se a um gangue de rua, vindo a ser condenado por assalto à mão armada. Mais tarde viria a ser conhecido como “Switchblade Kid” [Navalhas]. Uma das relações que teve com uma actriz acabou numa gravidez abortada. Durante vários anos, com a sua voz de veludo, pele morena e olhos grandes, era o quebra-corações em Hollywood. Também teve casos com homens e produziu e representou numa peça de teatro em que constava uma violação prisional em que ele fazia de violador. Nunca teve uma vida familiar normal.

Sal Mineo nasceu assim.


Sal Mineo, "The Switchblade Kid", nasceu assim
Em 1933 um rapaz de 13 anos que tinha conseguido um papel num espectáculo em Broadway decidiu permanecer em Nova Iorque, longe da sua família. O seu pai era um alcoólico abusivo e violento e a mãe gastava grande parte das finanças em viagens para descobrir a sua linhagem aristocrática. Mais tarde diria que não se lembrava de nada da sua infância, para além de não ter estado no mesmo sítio por muito tempo. Tornou-se um grande actor, com mais de 20 papéis principais em alguns dos melhores filmes feitos nos Estados Unidos. O pai que tanto odiava contribuiu para o seu sucesso, uma vez que sempre que precisava de uma imagem mental de teimosia e ignorância, contra os quais revoltar-se com uma fúria incontrolável, pensava nele. Era uma alma caridosa que procurou no realizador John Huston o pai que nunca tivera, de facto. Também esteve envolvido com outros homens e acabou por morrer prematuramente devido ao uso excessivo de álcool e drogas.

Montgomery Clift nasceu assim.


Era inevitável, quando nasceu Rock Hudson, que os seus pais se iriam divorciar quando ele ainda era novo, e que seria criado numa quinta por avós de quem não gostava. Era inevitável, quando Tab Hunter nasceu, que a sua mãe divorciaria o pai que abusava deles e lhes retiraria o seu apelido. Era inevitável, quando Raymond Burr nasceu, que a sua mãe divorciar-se-ia do seu pai canadiano, mudando-se para a Califórnia, criando o filho com os seus pais. Alcoolismo, ódio, solidão, pais ausentes, violação e abuso sexual, atenção excessiva das mães, tudo isto é inevitável quando um certo tipo de rapaz nasce.

Um dos alunos mais emocionalmente perturbados que conheci enquanto professor gostava de falar durante as aulas, de forma totalmente irrelevante, sobre como o actor Elijah Wood lhe dava banho em pequeno. O seu pai tinha-se suicidado quando ele tinha apenas nove anos e a mãe voltou a casar, com um homem que ele odiava. Tudo isso era inevitável, claro. O rapaz nasceu assim.

Os únicos rapazes que não nasceram assim são os rapazes normais que, se lhes dermos a possibilidade, jogam aos polícias e ladrões, formam equipas de futebol, constroem carrinhos de rolamentos, passeiam pela floresta, caçam pequenos animais, memorizam tudo sobre o que mais lhes interessa, brincam com fogo, electricidade ou catapultas e começam a reparar nas meninas bonitas que durante anos tentaram ignorar. Esses são socialmente condicionados, mas de forma mágica, tendo em conta que o mesmo comportamento pode ser encontrado entre rapazes de todas as idades e em todos os locais e culturas conhecidas pelo homem.

Somos loucos, completamente loucos.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 4 de Março de 2015 em The Catholic Thing)

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terça-feira, 10 de março de 2015

Sacrifícios quaresmais islâmicos e latinices

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O Conselho de Segurança das Nações Unidas vai discutir a perseguição aos cristãos no Médio Oriente. Vai ser no dia 27 e quem propõe é o Governo francês.

Este fim-de-semana cumpriram-se 50 anos desde que Paulo VI celebrou a primeira missa em italiano depois do Concílio Vaticano II e a efeméride foi assinalada pelo Papa Francisco.

Na sexta-feira divulguei uma entrevista sobre o assunto. Agora, como na altura prometi, um outro artigo com dois protagonistas, um sacerdote que defende a reforma, outro que valoriza a importância do latim na liturgia.

Para melhor poderem conhecer as suas posições, publiquei no blog as transcrições integrais de ambas as entrevistas. Aqui o padre Luís Manuel Pereira da Silva e aqui a do padre Manuel Vaz Patto.

Acredite ou não, há muçulmanos a fazer sacrifícios esta Quaresma, em solidariedade para com os cristãos. Falei com o fundador da campanha, saiba do que se trata este fenómeno! Aqui, mais uma vez, a transcrição completa da entrevista, no inglês original.

O presidente da Hungria esteve em Lisboa este fim-de-semana para homenagear o padre Kondor, que promoveu a causa da beatificação dos Pastorinhos.

A cerimónia decorreu em Fátima que, como sabemos, está no centro de várias teorias da conspiração, tema do mais recente artigo do The Catholic Thing em português.

Termino com duas notas. Em primeiro lugar o aviso para uma conferência sobre o Santo Sudário, na quarta-feira (ver imagem). O orador é o meu bom amigo João Paulo Sacadura, que é um apaixonado pelo tema e que vale bem a pena ver!

E por fim, depois de na semana passada ter incentivado a irem ver o musical Godspell, fui ao espectáculo na sexta-feira. Posso-vos dizer que gostei mesmo muito! Estava mal influenciado pela adaptação cinematográfica, que é terrível, mas esta versão está muito bem feita, inspiradora, extremamente bem encenada e com músicas bem adaptadas pelo sempre surpreendente Gimba. Não deixem de ir, se puderem.

segunda-feira, 9 de março de 2015

#Muslims4Lent: “If anything this is strengthening our faith”

Full transcript, in the original English, of my interview with Bassel Riche, founder of the #Muslims4Lent campaign. The news piece and video, in Portuguese, are here.

Transcrição integral, no inglês original, da entrevista a Bassel Riche, fundador da campanha #Muslims4Lent. A reportagem e video estão aqui.

How did #Muslims4Lent start?
I was in the University of Houston and as part of the Muslim Student Association, every Ramadan, which is like the “Muslim Lent”, we would have a drive which would basically encourage non-Muslims to sign up to join us for one day in fasting and, at the end of the day, we would have a big meal together and talk about interfaith dialogue, share commonalities and stuff like that.

It was a very nice experience and a few years later I decided, on a personal level, that there seemed to be a good amount of people who did things to try and understand the Muslim community and reach out to the Muslim community, and so I felt that t was right for us to reach out to the Christian community and show them that we in turn also have very high respect for them.

On a personal level I would do it, I'd put up a Facebook status, saying what I was giving up. Then this year was a little different, I created a group, I took a picture of myself with the sign, and encouraged others to do the same, and it caught on.

How many people have joined this campaign?
I wish I knew. I wish I could see how many times it has been tweeted and retweeted.

Honestly it is easily in the thousands, but I'm not sure. To go through and count all the pictures on twitter and on Instagram would be quite a task. But it’s definitely enough that we feel we have made a big impact and created lots of conversations around the world.

Is the current climate, with issues such as the Islamic State and fundamentalist Muslim violence, a factor as well?
Absolutely. Because people can be so caught up in their routine, understandably so, we are all busy with work and with our family, and people get into these routines, sometimes when something is foreign to them it can be perceived as scary.

Right now, particularly in America, there is a sentiment amongst some that the Muslim community is that scary variable, nobody really knows much about them, and that is one of the goals, to put ourselves out there in everyday life, and encourage the people who might have these opinions to talk to us.

The shootings that happened in Chapel Hill, a few weeks ago, when they studied the person that shot those people they said that he clearly had racial and religious prejudice against the victims. Hopefully when you reach out to these people and engage in dialogue respectfully, it helps curb us away from that sort of extremist and “us versus them” mentality.

Then we begin to realise that we have a lot more in common than we will ever have different, and if we spend the time talking about our similarities, we probably won't even have time to talk about our differences.

You have also received a fair amount of criticism, correct?
We have criticism on both sides.

On the Christian side we have had people saying that “This isn't actually what Lent is about, so you guys are missing the whole point of what Lent is”, and they will explain that giving something up has nothing to do with Lent. And my response to them would be, that's a good thing to bring up from a knowledge and understanding point of view, but it still means a lot to a lot of people.

If Lent has changed in the way it has been practiced over two thousand years, I don't know, but present day, 2015, this sacrifice of something, is a meaningful gesture and it means a lot to a lot of people, and the tweets on the hashtag #Muslims4Lent proves that. So maybe we can do a better job of understanding what it’s all about, but even something small like this seems to have resonated with quite a lot more people and it seems that it’s the minority of people who are against it.

On the Muslim side there is a similar idea, there are people saying we shouldn't partake in the religious actions of other religions, we should stick to our own, and for that I would say that if you are not part of the solution you are part of the problem.

People have compared it and said that doing something like this is compromising our faith, but how? If anything, this is something which is strengthening our faith, because we are reconnecting and putting ourselves in a position to receive questions from other people and hopefully that will drive us to research more and understand our religion better, so we can in turn present it correctly.

So on both sides it seems to come from a place of not really understanding what we're all about, and it seems that you can't please everybody, and most people are just going to dismiss something that is outside their box of comfort, without trying to understand it.

Were you born in the USA?
American born and raised to Lebanese-Syrian parents.

Have you ever been to Syria?
It’s been a while, but I have, yes.

So it must be particularly painful for you to see what is happening there…
It’s painful every day, whenever I talk to my cousins, because of everything going on... Some of them are my age and they feel that they have been robbed of their future.

When they were younger they had hopes, but one of my cousins has been doing her PHD in Belgium and is set to return to Syria to be a teacher, and even when I talk to her it’s truly sad, because she had high hopes. She wanted to go and change the education system, and advance it in Syria, and then all this happened and now she feels like, who knows? So it is truly sad.

Do you identify as Sunni or Shia?
I don't identify. I prefer just to identify as Muslim. I think that the sectarian division in Islam is one of the dark spots in our religion.

There was no mention of sect in the Koran and Mohammed wasn't sectarian, so I think it is one of the things, internally in the Muslim community, that I try to push on and hope that people start following suit and stop putting labels on ourselves that only serve to divide our own community. 

“A liturgia é sagrada e o latim ajuda-nos a lembrar isso”

Paulo VI celebra a missa pré-conciliar
Transcrição integral da entrevista ao padre Manuel Nogueira Mouzinho Vaz Patto, sobre o valor do latim nas celebrações da Igreja. A reportagem está aqui. Ver também, sobre o mesmo assunto, a entrevista ao padre Luís Manuel Pereira da Silva.


O que significa o rezar e celebrar em Latim e não no vernáculo?
O Latim sempre teve lugar na Igreja, e continua a ter, sobretudo no Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concilium é reforçado o valor do latim, como sendo o vulgar. Infelizmente deixou de ser o vulgar para ser inexistente na Igreja, por isso qualquer fiel comum não pode ter acesso ao latim na liturgia, o que não é previsto no concílio.

De facto o latim tem um valor muito importante, em primeiro lugar porque remete para a sacralidade, para que a liturgia seja uma coisa diferente das coisas comuns, como acção sagrada que é e pela presença de Deus. A liturgia é a acção de Deus, em primeiro lugar, que desce à Terra e, pela presença de Jesus, pode trazer-nos as graças de Deus e levar as nossas súplicas até Deus.

Por isso a liturgia é sagrada e o latim ajuda-nos a lembrar isso, que a liturgia não é uma coisa comum, habitual, como uma refeição ou um encontro nosso. O latim tem esse valor que o concílio Vaticano II lhe dá e que infelizmente se tem perdido e é bom, de facto, sermos fiéis ao concílio e como os últimos Papas, Francisco e Bento XVI nos têm alertado, é preciso cuidarmos muito da liturgia como acção sagrada, para que possa ser um espaço de encontro dos homens com Deus.

O latim pode ter e tem, em muitas pessoas, essa possibilidade de ajudar ao encontro com Deus.

Celebra a maioria das suas missas no vernáculo, certamente. Sente alguma diferença quando celebra em latim?
O vernáculo tem muito lugar na Igreja, é importante que as pessoas compreendam sobretudo a palavra de Deus, para que se possam alimentar dela, portanto o vernáculo tem no rito antigo, mas sobretudo no novo, um lugar muito importante. As pessoas devem tentar compreender e foi esse o esforço do concílio, para que as pessoas compreendessem, mas sem tirar o carácter essencial da liturgia. Portanto a liturgia no vernáculo faz sentido, mas deve ser mantido também o uso do latim.

No pontificado de Bento XVI falava-se na reforma da reforma. Imagina uma situação em que nas missas em todo o mundo algumas orações sejam feitas em latim, como sinal de unidade?
A respeito da reforma da reforma, isso pode acontecer, depende dos fiéis, basta que os fiéis queiram.

O essencial é celebrar a liturgia com o cuidado que merece como acção sagrada. Portanto em cada gesto, em cada palavra, que pode ser no vernáculo ou em latim, deve estar presente esse carácter sagrado, de acção de Deus. Por isso o vernáculo faz sentido mas também o latim, sobretudo nos cânticos, que é o mais fácil e o mais adequado, que nos ajuda a rezar a elevar-nos para Deus.

Deve ter lugar e os fiéis reconhecem que os ajuda na sua intimidade e relação com Deus.

"Rezar numa língua que não se entende pode-se transformar numa cacofonia"

Paulo VI a celebrar missa pós-conciliar
Transcrição integral da entrevista ao padre Luís Manuel Pereira da Silva, sobre a abertura da liturgia ao vernáculo. A reportagem está aqui. Ver também a entrevista, no sentido contrário, ao padre Manuel Vaz Patto.

Faz 50 anos que Paulo VI celebrou a primeira missa no vernáculo. Que diferença é que isto fez na vida dos católicos?
Foi uma das grandes realizações da reforma que o concílio promoveu, o acesso às línguas vernáculas. É certo que o concílio não acabou com a missa em latim, ela sempre foi possível, inclusive o missal de Paulo VI também está em latim, e sempre a Igreja teve a faculdade de celebrar o latim, se se justificar.

Todavia, o Papa Paulo VI celebrar pela primeira vez no vernáculo é uma forma de chancelar toda uma reforma litúrgica que estava a ser empreendida e que era um desejo de grandes sectores da Igreja.

Antes do concílio o Movimento Litúrgico, uma das ideias e sugestões que fazia à Santa Sé era para que a celebração fosse na língua que as pessoas percebessem.

Rezar numa língua que não se entende pode-se transformar numa cacofonia. A prova disso é que as pessoas, quando queriam rezar, rezavam na sua língua própria. Rezavam o terço, tinham orações nos missais em português, porque é a forma de expressão.

Aliás a Igreja reza, em cada sítio, conforme a língua que usa, tal como no tempo de Jesus e tal como na história da salvação. Quando o povo de Deus falava aramaico ou hebraico, rezava em hebraico e escreveu parte da Bíblia em hebraico.

No tempo de Jesus, a língua maioritária do Império Romano era o grego, tanto que a Igreja nascente celebrou em grego até ao Papa Dâmaso e o Papa Dâmaso morre no século IV. Por isso é que os Evangelhos, à excepção do Evangelho de São Mateus, estão escritos em grego.

Quando o latim começou a ser a língua maioritária a Igreja também começou a rezar em latim. O que se sucedeu é que a liturgia continua a ser celebrada em latim, uma língua que o povo cada vez mais não percebia, sobretudo a partir do século IX, quando começam a surgir as línguas nacionais. O que depois se sentiu, e cada vez mais se acentuou, foi um desfasamento entre a língua oficial da liturgia e a língua em que o povo reza, canta e louva o senhor.

Portanto, voltar à língua vernácula é voltar ao contexto natural, porque não há línguas sagradas. Nosso Senhor não falou latim. Não era a língua do seu tempo. Quando vemos algumas tendências para endeusar o latim… Hoje em dia quem é que entende o latim e se expressa em latim? Ninguém.

A oração é a oração do povo de Deus, unido à sua cabeça que é Cristo. E cada povo tem a sua língua, cada povo tem a sua forma de se expressar e a celebração em vernáculo é uma consequência natural de uma oração que se quer participada pela comunidade, conscientemente celebrada, conscientemente vivida e que se torna, como diz o Concilio, a glorificação de Deus e a santificação do homem.

Faria sentido haver algumas orações das missas em latim, como sinal de unidade a nível global?
É uma possibilidade e é uma prática já que existe.

Nas grandes celebrações internacionais o Ordo, o Kyrie, o Santo e o Agnus Dei muitas vezes são em latim. Às vezes o Pai Nosso, o Credo ou o Glória, mas o Credo e o Glória, como hino e como afirmação de fé, mesmo nas celebrações internacionais, se quisermos ser objectivos, em que estejam 100 mil pessoas, dessas quem é que entende o latim? É o querer manter uma coisa, a meu ver, que não faz contexto.

Aliás o motu próprio de Bento XVI diz isso com clareza, logo ao princípio. Quando a assembleia e o grupo celebrante percebe o latim, justifica-se. Quando isso não acontece, não há condições reunidas para se manter. Portanto eu, que até defendo essas grandes orações, acho que não é por isso que há mais unidade. A unidade faz-se à volta do mistério que celebramos. As outras formas são apenas formas de celebrar.

Quem vê as celebrações de Fátima vê que é muitas vezes assim. Na Santa Sé, chega-se a certos momentos e reza-se em latim, sem problema nenhum.

Os documentos do CVII promovem o vernáculo, mas de modo algum prescrevem o latim. Na prática viu-se o quase desaparecimento total do latim da vida diária dos fiéis. Foi-se longe de mais?
Não. Seguiu o curso natural das coisas. O contexto do Sacrosanctum Concilio é de 1963 e portanto na Igreja que ainda não tinha optado pelo vernáculo, não podia dizer outra coisa. A prática das comunidades cristãs, das conferências episcopais, da realidade da Igreja, é que ajudou a aclarar o que aconteceu. De facto, as pessoas optaram pela língua vernácula.

Veja, em Lisboa, houve missa em latim durante décadas depois do concílio, concretamente na Igreja de Santo António, e acabou porque não tinha povo. Manteve-se, porque era permitido, era normal e depois teve de acabar, porque não vinha ninguém.

Portanto não foi um abuso, nem um ir para lá do que diz o concílio. Foi um actualizar o que o concílio abre e responder às necessidades e à tendência que havia na Igreja.

Mas o latim continua a ser uma língua importante para a Igreja…
Claro que o latim continua a ser a língua oficial da Igreja, porque os documentos principais estão escritos em latim. Mas depois o que é que se tem de fazer? Traduzir tudo para as línguas vernáculas. Quem é que lê, hoje, uma encíclica do Papa em latim?

Um grupo que saiba latim e que reze em latim, tudo bem. De resto, pode-se tornar o pegar numa coisa para fazer dela um ex-libris, mas de quê?

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nimrud - Era uma vez um tesouro da humanidade

Nimroud, antes...
Não há dia em que o Estado Islâmico não nos dê notícias frescas. Hoje surgiu a informação da destruição da cidade de Nimrud, um tesouro arqueológico que data do século XIII antes de Cristo.

Desde os budas dinamitados no Afeganistão até este último incidente, são já vários os episódios de violência contra o património cultural do mundo. Porquê? É o que tento explicar aqui.

Amanhã faz 50 anos que o Papa Paulo VI celebrou a primeira missa em italiano, selando a reforma litúrgica que permitiu missas no vernáculo. Hoje temos o padre Vasco Pinto de Magalhães sobre o tema, a dizer que a missa em Latim deixava o povo de fora. Amanhã teremos mais uma reportagem sobre o assunto, com perspectivas diferentes.

Existe marketing religioso? Claro que sim, dizem os especialistas. E faz falta.

quarta-feira, 4 de março de 2015

As conspirações de Fátima e os novo pecados mortais

O Papa disse esta quarta-feira que o abandono dos idosos equivale a um “pecado mortal”. Bem dito.

Não sabemos se foi por influência directa ou não, mas ontem Francisco recebeu uma colecção das obras completas do padre António Vieira

Foi publicada ontem nova legislação que regulará a reforma dos assuntos económicos. Segundo um influente observador do Vaticano, o cardeal australiano George Pell sai reforçado com estas mudanças. Vamos ver no que dá.

Entretanto ontem foram libertados mais quatro cristãos na Síria. Neste artigo damos algumas das explicações possíveis por detrás desta atitude do Estado Islâmico, embora não haja certezas para além do facto de que ainda há cerca de 200 cristãos detidos pelos terroristas.

Hoje é dia de artigo do The Catholic Thing, este diz-nos directamente respeito, enquanto portugueses. Howard Kainz fala de Fátima e das teorias da conspiração que existem à volta das aparições. A não perder!

Não esqueçam que é já amanhã que estreia o Godspell. Não percam a oportunidade de ver!

Fátima e as Teorias da Conspiração

Howard Kainz
As aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, em 1917, que culminaram em Outubro desse mesmo ano com o maior milagre público da história, diante de 70,000 pessoas, é um exemplo formidável da intervenção amorosa de Nossa Senhora, para alertar o mundo para as ameaças vindouras e oferecer formas de evitar as guerras e alcançar a paz.

Mas é da maior importância fazer uma interpretação correcta de Fátima.

Há várias décadas que o padre canadiano Nicholas Gruner, conhecido como o “padre de Fátima”, e o Fátima Center que ele fundou, afirmam que os males deste mundo e, sobretudo, os que a Igreja está actualmente a sofrer, podiam ser evitados se o Papa e os bispos do mundo tivessem consagrado a Rússia correctamente, tal como Nossa Senhora pediu à irmã Lúcia a 10 de Dezembro de 1925. Correctamente, para o padre Gruner, significa mencionar a Rússia pelo nome.

Em Dezembro de 1983 o Papa João Paulo II consultou a irmã Lúcia, a única vidente de Fátima que ainda estava viva, sobre o cumprimento do desejo manifestado por Nossa Senhora. Enviou cartas para todos os bispos do mundo para se juntarem a ele na consagração da Rússia e do mundo a 25 de Março de 1984. Isso foi feito e o Papa acrescentou, diplomaticamente, talvez tendo em conta as ameaças soviéticas ao movimento Solidariedade na Polónia: “De forma especial, confiamos e consagramos-te todos os indivíduos e as nações que precisam de ser confiados e consagrados de forma particular”.

Mais tarde, a irmã Lúcia escreveu que o Papa tinha cumprido a vontade de Nossa Senhora e, anos mais tarde, o mundo assistiu à queda do muro de Berlim e ao desmantelamento da União Soviética. Como já escrevi noutro lado, e ainda noutro artigo, a prometida “conversão” da Rússia parece já ter começado, com liberdade religiosa, uma grande proliferação de igrejas, mosteiros e seminários e níveis de prática religiosa comparáveis aos de Portugal onde, como Nossa Senhora prometeu à irmã Lúcia, “a doutrina da fé será sempre preservada”.

Mas o padre Gruner e o seu séquito de Fatimistas mantêm que a consagração tem de ser repetida, mencionando a Rússia especificamente, e que os cinco minutos passados a fazê-lo farão surgir uma conversão milagrosa, como o mundo nunca viu. Gruner até recomenda a leitura de um romance, “Russian Sunrise”, no qual o seu “avatar” aparece com o nome Nicholas Gottschalk, e finalmente convence o Papa a seguir o seu conselho, levando a mudanças milagrosas na Rússia.

A alegada “conspiração” de silêncio em relação a Fátima não fica por aqui mas, de acordo com os Fatimistas, o terceiro segredo de Fátima, revelado pelo Papa João Paulo II em 2000, contém uma segunda parte essencial que tem sido escondida. A própria irmã Lúcia, quando revelou o terceiro segredo em 1944 e enviou para o Vaticano em 1957, disse que apenas podia dar os detalhes daquilo que tinha visto mas que não estava autorizada a fornecer a interpretação que Nossa Senhora lhe tinha revelado.

Mas os Fatimistas não têm a menor dúvida. Eles desconfiam que o “texto que falta” diz respeito, de forma apocalíptica, “à visão, em que a Virgem explica pelas suas próprias palavras que uma crise interna de fé e disciplina da Igreja será acompanhada por um grande castigo a todo o mundo”. Ou então, talvez, que “o segredo previa as mudanças do Concílio Vaticano II, sobretudo no que diz respeito à liturgia e ao diálogo ecuménico, como fazendo parte da ‘grande apostasia’ que os líderes da Igreja se recusam a reconhecer”.

Deixando as teorias da conspiração de parte, devemos focar-nos no essencial da mensagem de Fátima. Nas aparições de Maio e de Junho de 1917 Nossa Senhora pediu aos três pastorinhos que rezassem o terço todos os dias, para que acabasse a Primeira Guerra Mundial e pela paz no mundo. Este foi o seu principal pedido.

Padre Nicolas Gruner
A 10 de Dezembro de 1925, Nossa Senhora fez outro pedido/promessa extraordinária – Os cinco primeiros sábados. “Prometo assistir à hora da morte, com as graças necessárias para a salvação, todos aqueles que, nos primeiros sábados de cinco meses consecutivos, se confessarem, comungarem, recitarem cinco dezenas do Rosário e me façam companhia durante 15 minutos enquanto meditam nos 15 mistérios do Rosário, com a intenção de me fazer reparação”.

Porquê os “cinco” Primeiros Sábados? Para fazer reparação pelas cinco blasfémias contra o Coração Imaculado de Maria. A 29 de Maio de 1930, Nosso Senhor explicou à Irmã Lúcia que blasfémias são essas:

1. Contra a Imaculada Conceição de Maria. Embora o próprio Martinho Lutero acreditasse tanto que Nossa Senhora viveu uma vida toda sem pecado, como na Imaculada Conceição, os protestantes, em geral, negam estes conceitos devido à ausência de confirmação explícita na Bíblia. Muitos ortodoxos também duvidam, porque isso implicaria uma limpeza do pecado original antes da chegada do Redentor.

2. Contra a Virgindade Perpétua de Maria. Embora Lutero, Calvino e Zwingli tenham afirmado todos a virgindade perpétua de Maria, muitos protestantes agora negam-no, concluindo que as referências bíblicas aos irmãos e irmãs de Jesus dizem respeito a irmãos biológicos e não, como acontece frequentemente na Bíblia, a primos ou outros parentes. Como se, depois de ter dado à luz ao Filho de Deus, Maria estivesse interessada em ter outros filhos! Ou como se Maria tivesse tido outros filhos mas nenhum deles pudesse tomar conta dela depois da crucifixão. Pelos vistos São João seria a única pessoa disponível.

3. A sua divina maternidade e maternidade de toda a humanidade. Embora Lutero, Calvino e Zwingli desencorajassem a veneração de santos, abriram excepções para a Virgem Maria. Os Ortodoxos também reverenciam tradicionalmente a Theotokos (Portadora de Deus). Porém, hoje muitos protestantes ignoram Maria e a possibilidade da sua intercessão. Mesmo alguns fundamentalistas, devotos da Bíblia, são hostis, considerando que a devoção a Maria prejudica a fé em Cristo.

4. A tentativa pública de implantar no coração das crianças uma indiferença, ou mesmo desprezo e ódio, pela sua Imaculada Mãe: É triste ver a atitude de alguns protestantes que pensam estar a prestar um serviço a Deus ao inculcar hostilidade para com Nossa Senhora nos seus filhos e ainda mais triste pensar que há católicos liberais ou feministas que temem que qualquer exposição a Maria venha a dar aos seus filhos uma visão ideologicamente inaceitável da condição da mulher.

5. A ofensa de todos os que a insultam directamente, profanando as suas imagens sagradas: Temos visto numerosos incidentes destes ao longo dos últimos anos. Em 1999 uma pintura incluída numa mostra num museu de Brooklyn chamada “Sensation” mostrava Nossa Senhora coberta de fezes de elefante. Em 2011 na Nova Zelândia a Igreja Anglicana fez um cartaz que mostrava a Virgem Maria com um teste de gravidez numa mão e a outra a tapar a boca aberta, com ar de surpresa. Em 2012 protestantes em Belfast colocaram uma estátua de Nossa Senhora numa fogueira, durante as tradicionais festas de Shankir. Em 2014 o Estado Islâmico destruiu a imagem de Nossa Senhora da Igreja de Mosul e fez explodir a igreja. Em Janeiro deste ano em Perugia, Itália, cinco muçulmanos destruíram a imagem de Nossa Senhora da capela de São Barnabé, e urinaram-lhe em cima. Este tipo de incidentes está a tornar-se cada vez mais comum, juntamente com a destruição de igrejas católicas no Médio Oriente.

Na missa do Primeiro Sábado deste mês fiquei admirado com o número reduzido de pessoas presentes, para além dos habitués da missa diária. Haverá tão poucos católicos interessados em responder ao pedido do Céu de fazer reparação pelas múltiplas ofensas à Virgem Maria? Será que cumprem os primeiros sábados uma vez que seja, para poderem beneficiar das extraordinárias graças prometidas por Maria? Quantos católicos rezam o terço diariamente – o primeiro e certamente o mais importante e simples pedido de Nossa Senhora de Fátima?

Milagre do Sol, Fátima 1917
Existe um mandato divino urgente para reparar os insultos feitos ao Imaculado Coração de Maria. Nosso Senhor, no seu corpo glorificado, presumivelmente tem emoções corporais. O recente comentário do Papa Francisco sobre a reacção natural de um homem ao ver a sua mãe insultada talvez seja uma boa analogia.

Mas os fatimistas acreditam mesmo que se o Papa “consagrar a Rússia” de novo, utilizando a expressão exacta, em cinco minutos, de repente vamos assistir a conversões milagrosas por todo o lado, entre as multidões de cristãos actualmente a utilizar contraceptivos como os pagãos, a promover a homossexualidade e a profanar o casamento?

A União Soviética já não está a perseguir cristãos nem a “espalhar os seus erros pelo mundo”. Isso agora cabe aos islamitas. Nossa Senhora não divulgou qualquer segredo sobre o Islão em Fátima. Não é preciso “segredos” especiais para aqueles que seguem as notícias, mesmo de vez em quando, a crise espiritual é evidente. Mas a solução principal que Maria ofereceu em Fátima mantém a sua relevância. Se pensam que o mundo está no mau caminho, chegou a altura de começar a seguir os pedidos simples de Nossa Senhora – o terço diário e os cinco Primeiros Sábados.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 28 de Fevereiro de 2015)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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