sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Vou ali já venho, em 2014

Este é o último resumo de 2013, volto em 2014 para vos ajudar a manter informados sobre o que se passa no mundo da religião. Se conhecerem mais pessoas que gostariam de receber este serviço avisem-me, se quiserem sair não façam cerimónia, não levo a mal.





Da minha parte desejo-vos um excelente 2014 e deixo-vos esta citação que li hoje:
“Como se o homem pudesse ter inimigo mais pernicioso que o ódio com que o odeia, ou como se pudesse causar a outrem maior dano, perseguindo-o, do que causa a seu próprio coração, odiando!” in, “As Confissões de Santo Agostinho”

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Natal no Iraque pouco adocicado

Conto de Natal adocicado... not
Ao longo dos últimos anos o Natal tem sido sempre marcado por atentados contra cristãos nalgum lado. Este ano a fava calhou ao Iraque e o saldo foi de 34 mortos.

A situação no Iraque não foi esquecida pelo Papa Francisco, que nomeou ainda muitos outros países na sua bênção “Urbi et Orbi” do dia 25. Já hoje, o Papa recordou no Angelus o Santo Estêvão, primeiro mártir, e disse que a sua comemoração no dia 26 serve para afastar a ideia de que o Natal é um conto de fadas adocicado.

O Natal é frequentemente descrito como a festa da família. Que o diga o padre Marcos Castro, oitavo de 13 filhos, que nos ajuda a compreender que contributo é que o Cristianismo teve para a noção de família que hoje persiste.

Este ano a publicação do artigo do The Catholic Thing calhou mesmo no dia de Natal. Por isso optei por vos trazer esta interessante reflexão do jesuíta James V. Schall sobre o verdadeiro sentido do Natal [dica: não é um conto de fadas adocicado… caso ainda pensassem que sim].

Por fim, ao longo dos últimos dias publiquei os três textos que faltavam da minha análise à Exortação Apostólica do Papa Francisco. No blogue, o que o Papa tem a dizer aos que estão longe da Igreja, aos ricos e, por fim, a mim

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Despertai humanidade!

James V. Schall S.J.
A sequência – Trindade, Logos, criação, a queda, a promessa, o povo escolhido, as profecias, a Imaculada Conceição, a Anunciação, a Palavra encarnada e a Natividade – explicam-nos aquilo que aconteceu no Natal. Não se tratou de um evento isolado, apesar de ter acontecido num local inconsequente, num canto obscuro do mundo. Tudo se encaixa num plano cujos contornos são claros. Devemos debruçar-nos sobre “plano”, como São Paulo lhe chamava.

A segunda leitura no breviário para a véspera de Natal é de um sermão de Santo Agostinho. Começa assim: “Despertai, humanidade! Por vós Deus se fez homem (…) teríeis sofrido a morte eterna se Ele não tivesse nascido no tempo.” Agostinho parte do princípio de que não estamos a prestar atenção ao que é mais importante. Por isso grita: “Despertai!”. E quem é que procura acordar? “Humanidade”, todos nós, cada um de nós.

O que se passou que, adormecidos, não tenhamos notado? “Deus se fez homem”. Porque é que o fez? Admira-nos não só que o possa fazer mas também que o tenha feito. Mas foi isso que aconteceu. Onde? “Na história”, dizem-nos. Sabemos o local: Belém. Sabemos o tempo: Quando César Augusto era imperador de Roma e publicou um édito, que levou um casal peculiar da casa de David a voltar à sua origem.

Em Belém a mãe, Maria, deu à luz um rapaz, a quem devia chamar Emmanuel, “Deus connosco”. Porque é que Deus precisa de estar “connosco” desta forma? Evidentemente, a humanidade tem um problema. Sem o seu nascimento “no tempo” a humanidade, deixada à sua sorte, teria “sofrido a morte eterna”. Não é um destino muito simpático.

Porque é que a humanidade estava sujeita à “morte eterna”? É aqui que entra o “plano”. A maior parte da humanidade, ao longo do tempo, reconheceu que há algo de desordenado que paira sobre a nossa espécie. Somos tentados a pensar que podemos lidar com o assunto sozinhos. As provas, contudo, mostram que estamos basicamente na mesma situação que qualquer outra geração desde o princípio do tempo. A verdade é que não conseguimos lidar com este assunto sem ajuda.

Para resolver este problema, “Deus fez-se homem”. “Despertai!” Não poderia ter encontrado uma forma mais simples? Bom, foi isto que se passou. Lidou com o problema directamente, tornando-se homem. A vida interior de Deus é Trinitária. A Segunda Pessoa, o Logos, a Pessoa que reflecte por inteiro o ser do Pai, fez-se homem. Depois de nascer, os pais levaram o menino ao Templo. Lá, encontraram um idoso a quem tinha sido prometido que não morreria sem contemplar a “salvação” de Israel. Quando ele viu o menino sabia que estava a olhar para o Senhor. Simeão disse a Maria, contudo, que o seu coração seria trespassado pelo sofrimento. Ela meditou sobre estas palavras.



Mas agora esta Criança nasceu “no tempo”. No momento do seu nascimento as coisas não ficam na mesma. Nos campos os pastores estão acordados, mas vêm ver o que se passa. Este nascimento não saiu nos jornais de Jerusalém, Atenas ou Roma, mas chegou-nos de fonte segura. As testemunhas e aqueles que ouviram falar relataram o que viram. Algo mudou no mundo. O que é que foi?

Nos limites do mundo já não se encontrava apenas o mundo. Agora, o mundo continha, do lado da humanidade, um recém-nascido que era também o Logos feito carne. Ele “viveu entre nós”. Esta vinda não se destinou apenas a reparar a desordem das nossas almas, mas a trazer-nos o propósito para o qual fomos criados em primeiro lugar. Não existimos apenas por razões humanas, mesmo quando existimos enquanto seres humanos.

“Despertai!” Agostinho pergunta: “Que graça maior poderia Deus ter feito nascer sobre nós do que fazer o seu filho unigénito tornar-se filho do homem, para que um filho do homem pudesse, por sua vez, tornar-se filho de Deus?” É claro, não há graça maior que esta. Este é o plano. Mas depende de estarmos despertos. Podemos rejeitar o plano, como se fosse tonto ou inferior a nós. A Natividade do Filho de Deus, nascido entre nós, não nos obriga. Apenas nos oferece um dom, um dom que explica o que somos, porque sentimos aquilo que sentimos.

As últimas palavras de Agostinho são estas: “Pergunta se este plano foi merecido; pergunta pela sua razão, pela sua justificação e vê se encontras outra resposta para além da mera Graça”.

Neste tempo de Natal estas são as únicas palavras que ouvimos. É tudo Graça, é tudo dado.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013 em The Catholic Thing)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Para Mim

Por fim, nesta série de textos, abordo as passagens que me tocaram mais directa e profundamente, por diversas razões.

Quando se procura ouvir o Senhor, é normal ter tentações. (#155)
A Igreja não fala o suficiente disto e penso que faz mal.

Uma das grandes surpresas deste pontificado tem sido a insistência de Francisco em falar de Satanás. Pois se ele existe, não pára quieto e as pessoas que mais gosta de desviar são aquelas que estão a voltar a face para Deus, a iniciar uma caminhada de regresso a casa. Imagino apenas as vezes que ele deve ter sussurrado ao ouvido do filho pródigo que o exercício de regressar à casa do pai era em vão! Os obstáculos que não deve ter lançado no caminho!

Os cristãos têm o direito de saber que é precisamente quando começam a tentar melhorar a sua vida, a viver mais próximos de Deus, que o demónio ataca com mais força, que o caminho de repente parece mais íngreme, que as tentações sobejam e tudo parece mais difícil.

Se assim fossem avisados e se percebessem que diante dessas tentações não devem desesperar mas antes gloriarem-se de serem merecedores de tal atenção do inimigo de Deus, então talvez encontrassem forças para combater com mais ferocidade. Talvez percebessem que quando sucumbem a algumas dessas tentações – e sem dúvida a algumas irão sucumbir – não devem desesperar, mas sim levantar-se e combater de novo.

Triste a vida do homem que não é tentado. É sinal que nem o demónio se digna a lutar pela sua miserável alma.

Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. (#201)
De toda a exortação apostólica, esta foi a passagem que mais me custou a ler. E ainda custa. Porque nela me revejo inteiramente e sinto vergonha e sinto que tenho de fazer algo para mudar. Obrigado Francisco.

Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo. (#270)
Não sei se é da tradução, mas eu adoro a palavra “maravilhosamente” aqui. “Complica-se maravilhosamente”, não há melhor expressão para a experiência cristã.

Estávamos nós tão bem nas nossas vidinhas quando veio este tal Jesus Cristo e olhou-nos, e tocou-nos, e falou-nos... e as nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Complicaram-se. Sim. Mas complicaram-se maravilhosamente!

Nunca nos podemos esquecer que o nosso Deus é um Deus flagelado, que gritou e sangrou e caiu e enlameou-se e foi furado com uma lança. O nosso é um Deus que não se coibiu de sofrer a maior das indignidades. Quem somos nós para virar as costas ou ter nojo das chagas dos nossos irmãos? Quem somos nós para tapar o nariz quando o sem-abrigo entra na nossa carruagem do metro? Quem somos nós, que nos alegramos por termos sido salvos por um homem que tentaram apedrejar, para atirar pedras aos incompreendidos ou aos verdadeiramente maus dos nossos dias?

Não podemos. Não podemos, graças a Deus. É verdade que ter de olhar nos olhos ao mendigo, mesmo que seja para lhe dizer que hoje não há nada para dar, pode ser complicado. Mas é uma maravilhosa complicação. Graças a Deus.

A Alegria do Evangelho - Os Ricos

"For he had great possessions", Watts (detalhe)
Embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal interpretada, a palavra «solidariedade» significa muito mais do que alguns actos esporádicos de generosidade; supõe a criação duma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. (#188)

É preciso recordar-se sempre de que o planeta é de toda a humanidade e para toda a humanidade, e que o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente. É preciso repetir que «os mais favorecidos devem renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais liberalidade, os seus bens ao serviço dos outros». (#190)

A dignidade da pessoa humana e o bem comum estão por cima da tranquilidade de alguns que não querem renunciar aos seus privilégios. (#218)
Aqui a palavra “apropriação” poderia dar a ideia de que o Papa está a falar para os corruptos, mas penso que não é o caso. Ele está a falar para quem, de facto, tem mais que os outros. Bastante mais. E a mensagem, parecendo evidente, não deixa de ser significativa. Homem rico: Não contestamos o teu mérito, não contestamos a legitimidade do que é teu. Mas o que é teu não é só para ti e quando o partilhas não é apenas magnanimidade da tua parte. É tua obrigação, porque a vida, e uma vida digna, do teu vizinho pobre, tem prioridade sobre os teus bens e a tua propriedade privada e até da tua tranquilidade.

A solidariedade é uma reacção espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde. (#189)
Para quem acusava o Papa de ser marxista, este parágrafo não podia ser mais claro.

A Igreja reconhece o direito à propriedade privada, ao contrário do marxismo, mas reconhece-a com certos limites e como instrumento para melhor alcançar aquilo que está consagrado na doutrina social da Igreja: O destino universal dos bens.

Ou seja, propriedade privada; riqueza privada; sim. Mas não como fins em si mesmos. Isso é que é crucial perceber.

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A Alegria do Evangelho - Os que Estão Longe

Eu gostaria de dizer àqueles que se sentem longe de Deus e da Igreja, aos que têm medo ou aos indiferentes: o Senhor também te chama para seres parte do seu povo, e fá-lo com grande respeito e amor! (#113)
É de notar que o Papa não distingue aqui entre os que estão longe porque são ateus, porque são agnósticos, porque são de outras confissões cristãs, porque simplesmente deixaram de confiar na Igreja ou porque são preguiçosos.

O seu convite é para todos os que estão longe, independentemente das razões, e desta forma Francisco mostra compreender que o seu papel não é simplesmente de administrar os assuntos dos católicos, mas sim, enquanto vigário de Cristo na Terra, convidar todos os homens a viver em relação com Cristo.

Nesta passagem a palavra chave é “respeito”. O Papa não se pode sobrepor ao respeito que Deus tem pela liberdade do homem, liberdade de O seguir ou de O rejeitar. Por isso o Papa convida, procura atrair, mas não impõe nem ameaça.

A adesão a Cristo ou é livre, ou não é.

Alguns crêem-se livres quando caminham à margem de Deus, sem se dar conta que ficam existencialmente órfãos, desamparados, sem um lar para onde sempre possam voltar (...) O acompanhamento seria contraproducente, caso se tornasse uma espécie de terapia que incentive esta reclusão das pessoas na sua imanência e deixe de ser uma peregrinação com Cristo para o Pai. (#170)
Uma das grandes iniciativas dos últimos anos da “Nova Evangelização” foi o “Átrio dos Gentios”, que acabou por se traduzir essencialmente num conjunto de encontros entre a elite intelectual da Igreja e a elite intelectual da sociedade civil.

Neste tipo de iniciativa há sempre o risco de os encontros se tornarem pouco mais do que exercícios de exaltação mútua ou, pior, de os elementos da Igreja procuraram de tal forma encontrarem o outro no seu terreno que deixam Cristo para trás. O Papa Bento XVI, que lançou a ideia, deu alguns avisos neste sentido pouco antes de resignar.

Penso que aqui Francisco está a tentar fazer um alerta semelhante. É muito bom a Igreja ir para as periferias para estar com aqueles que estão normalmente longe dela. Mas a ideia não é que permaneçam eternamente longe dela, podendo agora dizer que até têm amigos que são cristãos.

Cristo também ia ter com os marginais. Há de se ter encontrado com milhares deles, mas os únicos que ficaram para a história são aqueles que se deixaram tocar e mudar por Ele.

Da mesma maneira, o objectivo de quem acompanha pessoas que estão longe da Igreja, sejam intelectuais, artistas, toxicodependentes, loucos, prostitutas, new age, ateus ou outros quaisquer, deve ser sempre de introduzir nas suas vidas aquele ingrediente, aquele grão de mostarda, que tudo vai mudar.

Os não-cristãos fiéis à sua consciência podem, por gratuita iniciativa divina, viver «justificados por meio da graça de Deus» e, assim, «associados ao mistério pascal de Jesus Cristo». Devido, porém, à dimensão sacramental da graça santificante, a acção divina neles tende a produzir sinais, ritos, expressões sagradas que, por sua vez, envolvem outros numa experiência comunitária do caminho para Deus. Não têm o significado e a eficácia dos Sacramentos instituídos por Cristo, mas podem ser canais que o próprio Espírito suscita para libertar os não-cristãos do imanentismo ateu ou de experiências religiosas meramente individuais. (#254)
Esta é uma passagem muito importante, porque é um reconhecimento, da parte do Papa, de que até os não crentes, ou os não cristãos, podem desempenhar um papel importante na história da salvação e que Deus também pode agir através das suas boas obras.

Francisco não está a dizer que “é tudo a mesma coisa, basta ser boa pessoa”, mas está a dizer que não é por ser ateu, ou não cristão, que uma pessoa boa está automaticamente condenada. O que já por si é significativo.

Claro que algumas pessoas poderão deitar as mãos à cabeça e dizer que com este tipo de linguagem vai haver pessoas que pensam que nesse caso não vale a pena ser praticante. Talvez seja verdade. Mas queremos uma Igreja que reduz toda a mensagem de Deus ao nível dos mais infantis de entre nós? Ou queremos um povo de Deus adulto? A minha experiência mostra-me que quando queremos que alguém se comporte como um adulto devemos tratá-lo como tal. Isto é linguagem para pessoas que são adultas na fé. E um adulto na fé não amua porque tem de fazer mais sacrifícios que o vizinho do lado só para descobrir que no fim o vizinho também se salvou. Aliás, a parábola dos trabalhadores que chegam mais tarde mas recebem o mesmo salário, não se aplica também a estas situações?

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Para Mim

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Católicos e anglicanos armados com tacos

Tudo a comprar bilhetes de avião! É em Setembro que se realizará o primeiro jogo de criquete entre católicos e anglicanos. Têm nove meses, portanto, para aprender as regras deste jogo indecifrável.

Notícias mais sérias… Espanha aprovou uma lei que restringe o acesso ao aborto, equiparando a lei actual à de 1985. Disseste alguma coisa Edite Estrela? Se calhar fui eu que imaginei.


Obrigado a todos os mais atentos que me avisaram da gralha do mail de ontem. O tempo passa depressa, mas claramente Francisco não é Papa há nove anos, mas sim há nove meses.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Papa aniversariante e poligamia nos EUA

A Bíblia King James é entregue ao Rei
O grande evento desta semana foi os 77 anos do Papa. Aproveitámos para fazer um balanço destes nove meses de pontificado… surpreendentes. Também os nossos colegas da WebTV juntaram algumas das frases mais marcantes de Francisco, que vale a pena recordar.

Com tanta coisa a passar-se no Vaticano, não surpreende portanto que a Santa Sé tenha contratado a McKinsey para tentar coordenar os seus esforços. Durante o pontificado de Bento XVI já tinham contratado Gregg Burke para fazer o mesmo, mas a ideia é que lhe dão pouco espaço para trabalhar. Vejamos que resultados é que isto vai ter.

Um bispo americano é acusado de conduta imprópria. As alegações parecem ténues, mas o comportamento da diocese até agora é um exemplo de como a crise dos abusos mudou as práticas nos EUA. O próprio bispo comunicou o caso de imediato à polícia e suspendeu-se a si próprio para que um inquérito possa averiguar os factos. Um exemplo a seguir mas que levanta algumas questões, como pode ler na notícia.

Poligamia a caminho da legalização nos Estados Unidos? Já estivemos bem mais longe…


E de manhã houve uma notícia bizarra e perturbadora. Um homem tentou imolar-se pelo fogo na Praça de São Pedro! Não se sabe ainda porquê.

Ontem foi dia de novo artigo do The Catholic Thing. O tradutor Anthony Esolen recorre a um termo da Bíblia King James para analisar exactamente o que sentiram os pastores quando o anjo lhes anunciou o nascimento de Jesus. É uma leitura fascinante. Não percam.

Também nestes dias publiquei mais dois textos de análise à exortação apostólica do Papa. Desta feita olho mais de perto para os recados mandados aos conservadores e aos liberais.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Feridos de Medo

[Nota prévia: O The Catholic Thing é uma organização não-lucrativa que depende unicamente de donativos dos seus leitores e benfeitores. Todos os anos, por esta altura, faz-se uma angariação de dinheiro. Qualquer valor é bem-vindo para poder ajudar o site a publicar um artigo novo, todos os dias do ano, em várias línguas diferentes. O Actualidade Religiosa tem um acordo com o The Catholic Thing e publica um desses artigos por semana. Contudo, como já referi várias vezes, os vossos donativos irão directos para o The Catholic Thing e não passam por aqui. Para fazer uma contribuição basta clicar aqui]

Anthony Esolen
“Não há por aí ninguém”, clama um Charlie Brown desconsolado, “que me possa dizer qual é o verdadeiro sentido do Natal?”

“Claro, Charlie Brown”, responde o Linus. Ele é um pequeno teólogo, apesar da mantinha. “Eu posso-te dizer qual é o verdadeiro sentido do Natal”. Então, com um foco centrado nele, o mesmo rapaz que nunca consegue memorizar as duas ou três linhas para a festa de Natal recita, palavra por palavra, estes versículos da Bíblia de King James*:

Nas proximidades havia pastores que estavam nos campos e que durante a noite cuidavam dos seus rebanhos. E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu a eles e a glória do Senhor reluzindo os envolveu; e ficaram feridos de medo.
Todavia o anjo lhes revelou: “Não temais; eis que vos trago boas notícias de grande alegria, e que são para todas as pessoas:
Hoje, na cidade de David, vos nasceu o Salvador, que é o Messias, o Senhor! Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em panos e deitado sobre uma manjedoura”.
E no mesmo instante, surgiu uma grande multidão do exército celestial que se juntou ao anjo e louvavam a Deus entoando:
“Glória a Deus nos mais altos céus, e paz na terra às pessoas que recebem a sua graça!”

“E esse, Charlie Brown, é o verdadeiro significado do Natal”, diz o Linus.

Sim, eu sei que é apenas uma banda desenhada, mas o rapaz que nunca faz nada bem, que é gozado por todos, incluindo os seus colegas e até mesmo o seu cão, grita do fundo da sua angústia e da sua solidão. É noite. Para o pecador, é sempre anoitecer, ou noite, ou luz dura e metálica, acompanhada do som das suas tentativas desesperadas para tentar manter a noite afastada.

Porque é que partimos do princípio que alguém ficaria contente por vislumbrar a glória do Senhor? Os pastores não ficaram contentes. A sua noite calma e ordeira foi destroçada. Temeram com grande temor, diz São Lucas, que falava fluentemente grego, mas que aqui usou uma frase de origem semítica, como se tivesse a traduzir algo que um falante de aramaico, ainda atónito, lhe tivesse relatado.

As novas traduções retiram a duplicação e mudam a frase para “E tiveram muito medo”. Os tradutores da versão King James, que normalmente tinham cuidado para preservar o som e a cor do original, aqui forçam um bocadinho a linguagem à procura de algo que dê ideia não só do grau do medo, mas do tipo de medo. Por isso, de forma incaracterística, transformam um verbo no seu adjectivo e adicionam um modificador raro: “They were sore afraid” [não tendo encontrado qualquer versão satisfatória em português, penso que a expressão “Ficaram feridos de medo” melhor traduz o espírito e o sentido desta expressão].

Os pastores não são os primeiros nas Sagradas Escrituras a sentir medo. Zacarias fica perturbado de medo quando lhe aparece o anjo Gabriel, trazendo-lhe a boa notícia de que iria ter um filho, João, que seria grande aos olhos do Senhor. Maria também se sentiu perturbada quando Gabriel lhe apareceu para dar a boa notícia de que iria ter um filho, Jesus, que seria chamado Santo, o Filho de Deus.
 
Linus a brilhar
Agora estes homens simples, no meio das tarefas comuns de uma vida dura, acordados debaixo das estrelas ou a dormir aconchegados contra o frio, ouvem uma Boa Nova destinada à humanidade e também eles sentem medo. É como se este primeiro encontro com a Glória de Deus trouxesse consigo a dor – a dor da primeira e humilde tentativa do homem pecador e finito que convida Deus Santo e Todo-Poderoso a entrar no seu covil.

Já ouvi dizer que palavra “sore” na versão antiga, era usada como um intensificador, como a sua prima alemã “sehr”, que significa “muito”. Mas não é o caso; no Inglês Antigo, “sar” significava “sore”, tanto a ferida como a dor, e ganhou a sua força adverbial desse significado fundamental; alguém que é “sorely” desejada não é simplesmente alguém que é muito desejada; aquele que deseja, deseja de forma sofrida. E quem foi, ou é, mais desejado que Jesus?

Os pastores, então, estavam de facto “feridos de medo”: como estaria qualquer pessoa com um mínimo de reverência. Quando Isaías viu os anjos a servir ao altar de Deus, clamou que certamente deveria morrer, pois ninguém pode contemplar O Santo e viver.

Maria contemplaria a face do menino Jesus, sabendo de uma forma que dificilmente conseguiria explicar, que estava a contemplar a divindade. O seu medo surgiu antes do momento da concepção, mal viu o anjo. O nosso medo, o medo sofrido da humanidade, vem depois, quando ouvimos as notícias que abalam o mundo.

Nós, católicos, temos como dogma que Nossa Senhora não sentiu dores de parto. Somos nós que devemos sofrer para o receber e então, com a ajuda de Nossa Senhora das Dores, aguardar a sua vinda consumada, pois a mulher que está a dar à luz sofre dores e tem medo, porque chegou a sua hora; mas, quando o bebé nasce, ela já não mais se lembra da angústia, por causa da alegria de ter vindo ao mundo o seu filho.

Mas este não é um medo que paralisa. Longe disso. O medo é sofrido, mas traz de volta o sentido aos nossos membros, faz fluir sangue para corações de pedra, obriga os olhos e os ouvidos a abrirem-se.

Conduz os pastores primeiro a Belém e depois a toda a terra envolvente, louvando a Deus. Conduz os apóstolos a todas as nações do mundo, para dar testemunho da única coisa verdadeiramente nova que aconteceu neste velho mundo; leva-os ao machado e à Cruz. É a primeira e assustadora luz da alegria.

“No mundo tereis tribulações”, diz Jesus, na noite antes da sua morte, “mas não temais; eu venci o mundo”.

*A Bíblia King James é considerada uma referência para as traduções inglesas da Bíblia, completada em 1611, para uso da Igreja Anglicana.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

A Alegria do Evangelho - Os Liberais

Repito aqui o que disse em relação aos “conservadores”. O rótulo “liberal” é vago e é obviamente uma caricatura, que abarca muitos géneros diferentes.

No entanto, apesar de os liberais gostarem de pensar que têm este Papa no bolso, há muitas áreas em que ele os vai desiludir, como fica claro ao longo deste documento.

Isto só serve para nos recordar que nem tudo encaixa nos nossos esquemas. O Papa não é “nosso” nem “deles”, é de todos.

O sacerdócio reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia, é uma questão que não se põe em discussão, mas pode tornar-se particularmente controversa se se identifica demasiado a potestade sacramental com o poder. (...) O sacerdócio ministerial é um dos meios que Jesus utiliza ao serviço do seu povo, mas a grande dignidade vem do Baptismo, que é acessível a todos. (#104)
Às vezes fico com a ideia de que o Papa bem pode repetir isto as vezes que quiser, que há pessoas para quem estas palavras simplesmente não entram. Eu nem digo que deviam abandonar as suas ideias, apenas que deixem de acreditar que Francisco concorda com elas. “Não se põe em discussão”. Parece-me bastante claro.

A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja. (#131)
Incluí esta passagem também no texto sobre os “conservadores” e penso que se aplica a ambos os lados da barricada, pelo que me limito a repetir aqui a minha reflexão:

Esta passagem é muito importante para os nossos dias, quando os novos meios de comunicação tornam cada vez mais fácil encontrar quem pensa como nós e assim formarmos grupinhos e grupetas, cuja legitimidade reivindicamos em nome da diversidade.

Por outro lado, não deixa de ter piada ver a ala mais liberal a exigir o fim sem tréguas de tudo o que é movimento e grupo mais conservador, contrariando precisamente essa diversidade que, supostamente, tanto prezam.

O Papa dá aqui uma resposta que desarma ambos esses excessos. A diversidade e a unidade não são incompatíveis… Desde que verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. E essa confirmação vem-nos pela oração, antes de mais, mas vê-se também nos frutos. De resto o Espírito Santo não é monopólio nem de conservadores nem de liberais, mas serve os propósitos de Deus, sempre.

Desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária. (#200)
Estas palavras são dirigidas directamente para aquelas pessoas, e não são poucas, que começaram a acreditar que havia uma incompatibilidade entre a evangelização e a justiça social. Essa crença fez pessimamente à Igreja nas últimas décadas, legando-nos uma classe de religiosos que acredita que a sua missão é apenas e só melhorar condições de vida, abrir clínicas e fazer campanhas.

Não nos enganemos. Essas coisas são todas fundamentais, mas não são nem podem ser fins em si mesmas. A nossa principal missão enquanto baptizados é levar Cristo ao mundo. Como? Nalguns casos a celebrar missas, nalguns casos a constituir família, nalguns casos a ensinar catequese, nalguns casos a abrir escolas e sim, nalguns casos, a cuidar dos mais pobres de entre os pobres e a acolher os moribundos.

Há um mundo de diferença entre o trabalho que fazia Madre Teresa de Calcutá e o que fazem as freiras radicais americanas que andam há anos a desafiar abertamente a autoridade dos bispos e os ensinamentos da Igreja, apesar de todas poderem dizer que estão a ajudar os pobres e os fracos. Mas essas freiras americanas são apenas uma face mais visível de um problema que afecta toda a Igreja em todo o mundo, incluindo em Portugal.

Acredito que a principal questão aqui é que quando começamos a tentar acabar com os problemas do mundo, mas deixando Jesus em casa, como se Ele fosse um obstáculo – isto quando não O reinventamos como um activista político revolucionário – leva-nos facilmente a acreditar que a solução para os problemas do mundo está em nós, na nossa dedicação e na nossa força.

Essa perda de humildade é o primeiro passo da queda. É um mal terrível e que urge combater a todo o custo. Ajudar sim, ajudar quem mais precisa, ajudar aqueles que metem nojo aos nossos irmãos, claro! Mas sempre com Cristo a guiar-nos o caminho e levando Cristo, que é o verdadeiro tesouro, a todos.

Entre estes seres frágeis, de que a Igreja quer cuidar com predilecção, estão também os nascituros, os mais inermes e inocentes de todos, a quem hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que apetece, tirando-lhes a vida e promovendo legislações para que ninguém o possa impedir. Muitas vezes, para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano. (...) Se cai esta convicção, não restam fundamentos sólidos e permanentes para a defesa dos direitos humanos. (#213)

E precisamente porque é uma questão que mexe com a coerência interna da nossa mensagem sobre o valor da pessoa humana, não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana. (#214)
Palavras para todos aqueles que esfregaram as mãos de contentes quando o Papa disse, numa entrevista, que a Igreja às vezes parecia estar obcecada com questões fracturantes.

Não. Este não é o Papa que se vai render ao mundo na questão do aborto. Este não é o Papa que vai abandonar a luta pelos mas fracos de entre os fracos.

Porquê? Primeiro, porque ao contrário do que alguns querem dar a entender, o Papa é católico e segundo porque ele mostra entender que esse desrespeito pela vida dos nascituros é a pedra angular de todos os desrespeitos por todas as formas de vida que infestam actualmente a nossa sociedade.

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A Alegria do Evangelho - Os Conservadores

Antes sequer de começar, eu sei que estes rótulos “conservador” ou “liberal” são muito redutores. Mas por outro lado também são indicativos, desde que nos lembremos que são estereótipos, e tenhamos algumas reservas.

O problema é que conservador abarca tanto as pessoas que são ultra-tradicionalistas como outras que simplesmente estão com a Igreja em questões fracturantes como o aborto, casamento, ordenação de mulheres etc.

Dito isto, muitas pessoas têm dito que este documento, à imagem de todo o pontificado, tem posto os conservadores “nervosos”. Os conservadores, por seu lado, sobretudo os mais conservadores, fazem logo questão de desmentir e insistir que não há aqui nada de novo.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. É verdade que muitos conservadores sustêm a respiração cada vez que o Papa diz ou escreve alguma coisa. É uma questão de hábito, também… estavam habituados à total segurança de Bento XVI e com Francisco há surpresas. Mas às vezes a ginástica torna-se absurda, como quando alguns insistiram que nesta exortação não há qualquer crítica ao capitalismo, porque o Papa nunca menciona a palavra capitalismo… please!

Vejamos então algumas passagens.

“A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho.” (#40)
A questão aqui é que, por mais que isso custe a alguns, a Igreja é de facto uma casa de variedades. Poderão dizer, sim, é certo, mas ao menos em relação à doutrina não há dúvidas. O Papa aqui não usa a palavra dúvidas, mas usa nuances… é mais neutro. Doutrina só há uma, mas como a entendemos? Como a ensinamos? A Igreja não ensina que há hierarquias de verdades? Penso que será essa a janela que o Papa está a abrir aqui.

“Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave.” (#41)
“O risco mais grave”… Isto não é brincadeira. E isto sim é algo que eu identifico com alguma facilidade no “campo” conservador. A rigidez da defesa da doutrina, sendo louvável em si, não pode abafar a surpresa e a frescura que deve ser a mensagem cristã. Conhecer Cristo tem de ser mais do que simplesmente ter a fórmula certa na cabeça e observar os rituais.

Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. (#43)

Nalguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história. Assim, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos. (#95)
Lamento, mas esta é uma forma querida e simpática de o Papa dizer aquilo que muitos de nós, e uso o “nós” de propósito, temíamos. Francisco está a falar precisamente das tradições de que tanto gostamos e que ao longo das últimas décadas têm sido abandonadas. Liturgias elaboradas, ritos diferentes e antigos, dos incensos aos paramentos pretos… E fala também de outras curiosidades que Bento XVI estimava mas que Francisco mostrou desde cedo não querer. Os sapatos encarnados, os mil e um apetrechos que, de facto, fazem parte da história e da cultura da Igreja.

Mas não demos um passo maior que as pernas. Francisco não tem paciência para estas coisas, mas não diz que devemos enterrá-las, como muitos andam a tentar fazer desde o Concílio, baseando-se no tal “espírito” vago, que não está na letra dos documentos.

E por isso mesmo, esta atitude do Papa e as suas palavras não deixam de ser absolutamente certeiras. Porque para muitos os paramentos, os incensos, as liturgias, a língua e a orientação do padre deixaram de ser setas a apontar no sentido de Cristo e passaram a ser o próprio objectivo e destino. O Papa não nos diz que estas coisas são más em si, só nos diz que na medida em que não contribuem para iluminar o caminho para Cristo, são dispensáveis.

E não iluminam? Nalguns casos, provavelmente não. Noutros, sim. É esse discernimento que é preciso saber fazer. Não guardar a tradição só porque é antigo e tradicional, mas sim na medida em que contribui para o conhecimento da verdade.

A todos os que sentem agora a tentação de citar estas palavras para celebrar liturgias francamente feias, e igrejas que mais parecem contentores e armazéns, não esqueçamos que o mesmo Papa, neste mesmo documento, pede liturgias belas. Para Jesus o melhor, só o melhor. O melhor tem muitas formas e feitios. Não tem de ser sempre igual e parado no tempo. Mas é sempre belo.

A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa. (#47)
Esta foi uma passagem que levou muita gente a pensar que o Papa preparava terreno para permitir que os divorciados recebam os sacramentos. Eu também a assinalei por causa disso. Contudo, na sua mais recente entrevista, publicada pelo “La Stampa”, o Papa desmente essa ideia e diz que não era isso que queria dizer, que pensava mais especificamente na situação de quem recusa baptizar filhos de mães solteiras e que, no caso dos divorciados “recasados”, o impedimento de comungar não é uma sanção.

A outra maneira é o neopelagianismo auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado. É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. (#94)
Nada a acrescentar a estas palavras, que são muito claramente direccionadas a um estilo de tradicionalistas que, infelizmente, cumpre criteriosamente cada ponto da descrição.

A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja. (#131)
Esta passagem é muito importante para os nossos dias, quando os novos meios de comunicação tornam cada vez mais fácil encontrar quem pensa como nós e assim formarmos grupinhos e grupetas, cuja legitimidade reivindicamos em nome da diversidade.

Por outro lado, não deixa de ter piada ver a ala mais liberal a exigir o fim sem tréguas de tudo o que é movimento e grupo mais conservador, contrariando precisamente essa diversidade que, supostamente, tanto prezam.

O Papa dá aqui uma resposta que desarma ambos esses excessos. A diversidade e a unidade não são incompatíveis… Desde que verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. E essa confirmação vem-nos pela oração, antes de mais, mas vê-se também nos frutos. De resto o Espírito Santo não é monopólio nem de conservadores nem de liberais, mas serve os propósitos de Deus, sempre.

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

14 mil inquéritos e 11 milhões de fãs do Pontifex

Foi assim que aconteceu...
A conta do Twitter do Papa fez um ano ontem. Pontifex já tem 11 milhões de seguidores. Eu tenho algumas dezenas, mas também ainda não tenho um ano disto


Ao todo cerca de 14 mil pessoas responderam ao inquérito sobre a Família, só através do site do Patriarcado de Lisboa. Nada mau!

Hoje coloquei online a transcrição integral das três entrevistas que ainda faltavam daquela série de reportagens sobre os direitos humanos. Temos Alfredo Bruto da Costa a criticar o sistema económico e a dizer que a pobreza é a rejeição dos direitos do homem. Temos Salvador de Mello, da José de Mello Saúde, a dizer que os critérios morais têm de anteceder os económicos e temos o testemunho do padre Abel Bandeira, que se encontra a servir os pobres em Moçambique.


Este fim-de-semana estou de serviço e folgo de segunda a quarta, por isso os mails apenas regressam na quinta-feira. Mas fiquem atentos ao site da Renascença ao Facebook e Twitter para se manterem bem informados!

"A pobreza é uma rejeição dos direitos humanos"

Transcrição integral da entrevista a Alfredo Bruto da Costa, sobre os Direitos Humanos de uma perspectiva católica e missionária. A notícia está aqui.

Como encara as palavras do Papa Francisco na sua exortação apostólica sobre o sistema financeiro internacional?
É tremendamente crítico, mas compreensivelmente. Não é nenhuma novidade. Já Bento XVI, na encíclica Caridade na Verdade já fazia algumas observações muito críticas ao sistema económico e financeiro. Nós é que não estamos habituados a levar a sério este tipo de críticas, quando estão escritas através de uma linguagem menos incisiva.

Uma das grandes vantagens das mensagens do Papa Francisco é que ele tem uma linguagem extremamente expressiva, por exemplo quando fala da economia e finanças que causa exclusão, ele tem uma frase que é “Esta economia mata”. É uma frase que até podemos tomar literalmente, porque de facto há gente que morre por razões do sistema económico e financeiro global.

O que o Papa Francisco vem trazer é uma revisão de antigos princípios que foram proclamados pela Igreja e que os próprios cristãos não tomaram devidamente a sério. Se fosse assim não teríamos nenhuma razão para pensar que esta insistência e esta forma aguda como ele coloca o problema teria alguma coisa de novo. A meu ver não tem, só tem porque não temos levado a sério essas advertências feitas quer pelos doutores da Igreja, quer pelos últimos Papas, em documentos a esse respeito.

De que forma é que a pobreza pode afectar os direitos humanos?
A pobreza é uma rejeição, uma negação clara dos direitos humanos. Fiz parte de uma comissão criada pela UNESCO, precisamente para explicitar a relação da pobreza no mundo com os direitos humanos. A relação é claríssima.

Se pegarmos na declaração dos direitos humanos um dos principais direitos é o direito à existência. Ora bem, a interpretação desse direito implica que a gente possa ter uma existência digna. Portanto o próprio direito fixado em 1948, interpretado como deve ser, leva a que situações de miséria sejam negações claras de direitos humanos básicos.

Outra questão é quanto à noção de liberdade. Quando pensamos em direitos, em democracia, por exemplo, fixamo-nos bastante na noção de liberdade. A liberdade de expressão, de pensamento, etc. Hoje sabemos que considerando a liberdade numa perspectiva existencial, uma pessoa com fome não é livre. Por este caminho nós temos uma forma muito clara e consistente de mostrar que o próprio conceito de liberdade e de democracia, etc. quando as pessoas não têm de comer, vivem na miséria, não têm maneira de satisfazer as suas necessidades básicas, não são livres. E não são livres de duas formas. Por um lado não são livres de comer, poder comer é uma forma de liberdade,  mas por outro lado está provado, como a própria intuição humana diz, uma pessoa com fome, na miséria, desinteressa-se por outras formas de liberdade, mesmo que elas existam. Portanto não ter para comer ou para viver dignamente é duplamente falta de liberdade, porque não pode comer e depois porque não comendo não pode exercer as outras formas de ser livre.

Indo directamente ao assunto, acredita que as medidas de austeridade que têm sido impostas pelo Governo podem pôr em causa os direitos humanos dos mais pobres?
Não tenha dúvidas. Repare que o tema dos direitos humanos é um tema que está completamente banido do debate político nacional. Ninguém fala dos direitos humanos. Porquê? Por um lado porque se criou uma mentalidade em que, sabendo que estamos numa situação de emergência e de excepção, justifica tudo, justifica apagar todos os direitos excepto o direito perante a “troika”, o direito perante os credores, aparece como um dever para Portugal e um dever que tem de ser respeitado a todo o custo. Os outros compromissos do Estado perante os cidadãos portugueses estão afastados, não fazem parte do debate, não fazem parte da equação dos diplomas dos políticos, portanto voltando à sua questão, não tenho a mais pequena dúvida de que o problema dos direitos humanos está completamente ausente do debate político e das preocupações nacionais, desde que estejamos a executar o memorando de entendimento com a “troika”.

Acredita que há solução, tanto para o sistema internacional como para Portugal?
A solução nunca é uma coisa estática, é um caminho, um dinamismo. O que lhe posso dizer é que estamos perante um conjunto de bloqueios que impedem que a gente pense na viabilidade de qualquer alternativa. Dou-lhe exemplo: Temos um contexto europeu em que o poder da Alemanha é absolutamente soberano e de um autoritarismo a toda a prova, é uma coisa que tinha de ser tratada e se me disserem que Portugal é um país muito fraco para resolver um problema tão grande, diria que por definição, pertencermos a um grupo de países do Euro ou da União Europeia, dá a possibilidade de associar-nos a outros países que também não vejam com bons olhos esta hegemonia despropositada e infundada da Alemanha.

Por outro lado o discurso do nosso Governo tem dado razões para pensar que o Governo faz as coisas não só porque a “troika” impõe, mas porque o próprio Governo pensa que é por aí que temos de ir. Às vezes dizem que não podem fazer de outra forma porque a “troika” impõe, mas normalmente o discurso é que isto é que está certo, o caminho é por aí, e ponto final.

Trata-se de uma preferência de uma teoria económica que não é a única que existe. Há grandes economistas no mundo fora, inclusivamente pessoas altamente colocadas em instituições que fazem parte da “troika” que fazem pronunciamentos ao invés do que se ouve dizer entre nós. Por exemplo este problema de que sem investimento, sem possibilidades de crédito a pequenas e médias empresas, sem acesso ao crédito não temos possibilidades de criar emprego, nem crescimento económico.

Ora bem, há aqui um grande campo de discussão, há quem diga que de facto temos grandes autoridades em matéria económica que discordam desta forma de orientar as coisas, mas para além disso temos uma verificação prática do que se passou nos últimos dois anos, em que a população teve por cima medidas que trouxeram um sofrimento, que continua, e que é muitíssimo sério e por outro lado os principais objectivos da dívida e do défice público não têm sido atingidos de acordo com o que estava previsto.

Há aqui sinais claros de que a política foi concretamente ao longo dos últimos dois anos um falhanço nos seus objectivos, nem assim a “troika” e o Governo querem mudar de política, portanto dizer que não há alternativa não é teoricamente fundado, sobretudo tendo do outro lado o sacrifício humano, com o qual não podemos fazer experiências nem termos birras sobre preferências sobre modelos económicos.

A Igreja Católica tem um papel a desempenhar na promoção e defesa dos direitos humanos?
Eu sempre pensei, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, que quando falamos de Igreja não podemos limitar-nos ao conceito de hierarquia. Aqui temos claramente que distinguir a Igreja-povo dos crentes, que tem um papel igual, ou mais exigente. Como dizia um teólogo francês, em rigor os cristãos deveriam estar na primeira linha do combate a favor dos direitos humanos. Isto é o que decorre da mensagem evangélica. Não tenho dúvidas, penso que a postura do Papa Francisco, no seguimento de Bento XVI, distinguindo o papel da hierarquia, que não é fazer política no sentido de acção política mas sim de influenciar, através da difusão dos valores e das exigências éticas que a fé cristã coloca na organização e no funcionamento das sociedades. Os leigos estão de mão dada com os que não têm fé cristã, quando muito, como disse, a particularidade seria de estarem na primeira linha da luta a favor dos direitos humanos.

"Não pode haver critério económico sem critério moral"

Transcrição integral da entrevista a Salvador de Mello sobre os Direitos Humanos de uma perspectiva católica e missionária. A notícia está aqui.

A declaração universal dos direitos humanos indica (artº 23) o direito ao emprego e a um salário justo que assegure condições de vida dignas. Enquanto gestor, tem de tomar decisões que influenciam a vida dos seus funcionários. Acredita que o facto de ser católico e do Grupo Mello ter uma identidade católica, influencia as suas decisões e a conduta do grupo?
Procuro que assim seja. O facto de ser católico e ter fé leva-me a procurar agir de acordo com aquilo em que acredito e influenciar quem me rodeia. Aliás, li recentemente um livro bastante inspirador, escrito pelo meu amigo António Pinto Leite, presidente da ACEGE, que fala do Amor como Critério de Gestão, que dá uma definição interessante, do meu ponto de vista, que no fundo é que o Amor é a capacidade de tratarmos os outros como gostaríamos de ser tratados se tivéssemos no lugar deles, com a informação de que dispomos. Parece-me um princípio prático e concreto e que pode ser aplicado.

Certamente já teve de tomar decisões que implicam despedimentos ou rescisões. Quando isso acontece as decisões são tomadas com critério puramente económico, ou entram também valores morais?
O que me parece é que não pode haver critério económico sem antes haver critério moral. Penso que a ética deve enquadrar e sobrepor-se aos puramente económicos. Não pode valer tudo, obviamente, e os valores são fundamentais para discernir e para nos dar rumo e consistência. A minha experiência diz-me que é exactamente nas decisões mais difíceis que o dom da fé e a ética são mais importantes.

Muitas vezes temos decisões difíceis para tomar e é nessa altura que o facto de termos uma bagagem de princípios onde ir buscar orientação e inspiração é importante.

Têm pessoas a ganhar ordenado mínimo? E é possível viver uma vida com condições de dignidade a ganhar menos de 500 euros por mês?
Penso que a dignidade humana é muito importante e aliás o valor da dignidade humana é um dos valores pelos quais o grupo José de Mello Saúde se rege. Dito isto, vivemos num contexto muito difícil, temos de ter equilíbrio nas decisões que tomamos e nas decisões dos ordenados que estabelecemos, mas nem sempre é possível pagar aquilo que gostaríamos que as pessoas ganhassem e que nós próprios gostaríamos que as pessoas ganhassem. Vivemos num contexto difícil e é a situação que temos.

Trabalha na área da saúde, um sector muito sensível também a este respeito. Acredita que as medidas de austeridade que o Governo tem aplicado estão a chegar ao ponto de pôr em causa os direitos humanos dos portugueses, nomeadamente das franjas mais frágeis da sociedade?
Penso que o processo de ajustamento pelo que estamos a passar tem por objectivo e finalidade a melhoria das condições de vida dos portugueses e do país, e não o contrário. Não me parece que seja esse processo que ponha em causa os direitos dos portugueses, mas sim a acumulação de dívida pelo que o país passou nas últimas décadas.

Houve nos últimos 20 anos um excesso de endividamento colectivo que não resultou num crescimento da riqueza do país e essa foi uma irresponsabilidade que agora todos estamos a pagar. Penso que não há alternativa a este esforço colectivo, mas encaro o futuro com esperança. Penso que depois deste ajustamento duro por que o país e todos os portugueses estão a passar, o país sairá mais forte, mais capaz de enfrentar os desafios do futuro, e acho que aquilo que se tem estado a passar em Portugal tem sido um exemplo cívico extraordinário, as pessoas têm compreendido que a rota que estávamos a seguir não era viável e que tinha de sofrer correcções. Penso de facto que este processo era necessário e não vejo alternativa a ele.

A recente exortação apostólica do Papa Francisco tem palavras muito duras sobre o sistema económico em Portugal. Leu? Concorda com as críticas que ele faz?
Li com muito interesse a exortação apostólica e confesso que não a encaro tanto como uma crítica mas sim a um apelo à responsabilidade de todos, seja em Portugal seja no resto do mundo. O que o Papa faz, no meu ponto de vista, é um apelo colectivo a que ninguém deve ficar indiferente. O Papa diz-nos o que todos sabemos mas que às vezes queremos esquecer, é preciso fazer mais por um mundo mais justo. Este é um tema no qual todos somos jogadores, ninguém pode ficar no banco ou na bancada. Somos todos chamados a contribuir para um mundo mais justo, por isso parece-me um apelo à responsabilidade muito bem-vindo.

Mesmo com termos como “Esta economia mata”?
Acho que é mais um apelo à responsabilidade, é assim que o encaro, acho que há muito a fazer e foi o que me fez sentir, um apelo à responsabilidade e a fazer mais e melhor.

Algumas das suas passagens são mais directamente dirigidas a quem tem mais posses. Como é que reage a este tipo de parágrafos?
No fundo é como na parábola dos talentos. Quantos mais temos mais obrigação temos de os pôr a render a favor da sociedade. Parece-me isso natural e justo.

Ainda por cima acredito sinceramente que quanto mais damos mais recebemos. Não é só, nem sobretudo, nos bens materiais, mas na entrega aos outros. Quanto mais damos, mais recebemos e somos mais felizes e portanto, cada um fala por si, cada um dá aquilo que quer e pode dar. Mas acho que de facto essa parte da exortação fez-me lembrar a parábola dos talentos e é assim que vejo assunto.

"Igreja não pode separar a Caridade da Evangelização"

Transcrição integral da entrevista ao padre Abel Bandeira sobre os Direitos Humanos de uma perspectiva católica e missionária. A notícia está aqui.

Pode dar-nos uma ideia do seu percurso nos jesuítas? Por onde já andou e em que missões esteve?
Eu comecei como sacerdote a trabalhar no Monte da Caparica, num bairro de inserção social, depois também passei pelo ensino no Colégio São João de Brito, como professor de religião. Ultimamente tenho estado em Moçambique como pároco responsável pela paróquia de São João Baptista na arquidiocese da Beira. Este é o meu percurso durante  15 anos como sacerdote.

Tanto na Caparica como agora, na Beira, lida com pessoas em estado de pobreza…
Exactamente. No monte da Caparica, juntamente com outro jesuíta, vivemos numa casa de um bairro social. Estávamos com as pessoas que tinham sido inseridas quando vieram das antigas colónias, e outras famílias, estávamos num meio pobre. Agora aqui na paróquia de São João Baptista também é uma paróquia que apanha pessoas da periferia da cidade da Beira e tocamos a pobreza de uma forma muito directa.

As pessoas com quem trabalha gozam em pleno dos seus direitos humanos?
Sinceramente não. Aqui na paróquia praticamente todos os dias vêm pessoas pedir comida, outras que dormem ao relento e pedem dinheiro para voltar à sua terra natal, porque vieram para a Beira iludidos com pensamentos de que podiam arranjar trabalhar e acabam por ficar desalojados. Aqui na paróquia temos essa experiência de, por um lado, ajudar pessoas que precisam de comida e por outro ajudar pessoas a voltar para as suas terras para poderem voltar a ter uma ligação às suas raízes.

De que forma é que a igreja, no seu entender, ajuda a garantir os direitos humanos destas pessoas?
A Igreja, pela graça de Jesus, impele-nos à caridade. Somos convidados por Jesus a ajudar aquele que tem fome, que tem sede, daquele que precisa de roupa, do que está doente, do que está preso. O imperativo da caridade é urgente, está sempre a acontecer, temos de o actualizar permanentemente, e a Igreja só se realiza quando executa esse mandamento.

Graças a esse mandamento a Igreja está presente nos lugares mais pobres do mundo. Não é por acaso que encontramos a Igreja em bairros sociais, a fundar as escolas e hospitais em países pobres que precisam de educação e de melhoramentos de saúde. A Igreja no seu todo, e de modo especial nas periferias, marca presença para ser uma presença de Jesus Cristo através de cada um de nós que somos baptizados.

É possível separar a assistência humanitária da evangelização?
A Igreja não pode separar as duas coisas. Temos de ajudar as pessoas e também levar-lhes a Boa Nova. A Boa Nova leva-se através de obras, porque as obras falam mais alto que as palavras. A Igreja, por exemplo, acolhe refugiados de todo o mundo e muitos deles não são católicos, não são cristãos. Mas o exemplo de acolher o irmão que está numa situação de guerra e precisa de apoio. Por isso a Igreja anuncia o Evangelho com obras e também o deve fazer com palavras. Como dizia São Francisco, primeiro anunciem o Evangelho com obras e depois, se for preciso, com palavras.

Os jesuítas trabalham muito na área da educação. Até que ponto o direito à educação, que também é um direito humano, no meio dos outros direitos?
O direito à educação é uma base muito importante para o desenvolvimento da personalidade de qualquer pessoa humana. Se a pessoa tiver educação facilmente terá acesso a outros direitos, à dignidade pessoal, à defesa do bom nome, todos os direitos que estão consignados na carta dos direitos humanos. A educação é de facto uma arma muito poderosa, se conseguirmos através da educação incutir os valores do Evangelho, estamos a semear com muita força e estamos a preparar um futuro com mais êxito e sucesso.


O Papa tem também palavras muito duras nesta exortação em relação ao sistema económico internacional. Vivendo aí nas periferias, sente que essas críticas são justas? E acredita que há alternativas ao sistema actual?
O Papa tem falado concretamente do fetichismo do dinheiro. O dinheiro é uma coisa que enfeitiça as pessoas, as pessoas levantam-se da cama por dinheiro, perdem energias por dinheiro, separam-se dos irmãos do sangue. De certa maneira o Papa tem razão ao dizer que é preciso por o dinheiro ao serviço da pessoa humana e não o contrário. Não deixar que as bolsas sejam mais importantes que as pessoas que morrem todos os dias nas cidades das grandes metrópoles mundiais.

É possível uma alternativa económica, não podemos ser escravos desta conjuntura económica que é oferecida, nos grandes mercados, da banca internacional. É preciso uma alternativa que seja mais humana, mais solidária com os mais pobres, neste caso com os mais pobres do hemisfério sul.

Vivendo em África, como encara as queixas de alguns portugueses que dizem que as medidas estão a pôr em causa a dignidade dos portugueses e a empobrecer o país?
Eu tive o privilégio de passar aí 45 dias em Portugal e ver a diferença entre Moçambique e Portugal. Evidentemente as pessoas têm os seus direitos, têm direito a uma boa reforma, a cuidados de saúde, essas coisas são importantes. Mas para mim foi claro ver que Portugal tem muita coisa boa, por exemplo estradas sem buracos. Entrar numa auto-estrada e fazer 200 km, sem um buraco, é uma riqueza muito grande. Aqui em Moçambique é impossível pensar nisso. Outra coisa que se vê é que mesmo os hospitais portugueses estão muito bem apetrechados.

Como as pessoas vivem no seu ambiente e não têm a capacidade de comparar com outros ambientes é difícil relativizar. Quem chega de fora a Portugal vê que o país, apesar da forte crise que está a viver, de certa maneira está a fazer um caminho de purificação. Porque muitos portugueses criaram a ilusão de que poderiam ter um nível de vida mais elevado, mas essa ilusão desmoronou-se e agora é preciso enfrentar uma realidade, uma realidade que é dura, mas temos de lidar com o real porque o real é que nos cura. Não vamos viver na ilusão. Entre o real e a ilusão temos de viver com o real. Agora, acho que a Igreja portuguesa, nomeadamente a Conferência Episcopal, e os sacerdotes, vão chamando atenção para as situações de carência que existem em certas zonas do país, é preciso estar atento, a Igreja precisa de estar solidária, não deve deixar esses irmãos bater no fundo ou entrar em becos sem saída onde o desespero toma posse e deixa de haver esperança.

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