segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Carne de porco à recluso

Halal pork? Vai-te sair caro...
Já há data para a canonização de João Paulo II e João XXIII. Será a 27 de Abril. Saiba porquê, e mais detalhe, aqui.

Foi um “daqueles” dias no Vaticano. De manhã o Papa esteve com representantes da Comunidade de Santo Egídio e disse que a religião não pode justificar a violência. O Vaticano também publicou esta segunda-feira a mensagem para a jornada das Comunicações Sociais.

Amanhã a comissão dos oito “super-cardeais” reúne com o Papa para discutir as reformas na curia romana.

Começa a ganhar forma a viagem do Papa à Terra Santa, para comemorar os 50 anos de um dos mais importantes abraços da história.

Se a religião não pode justificar a violência, alguém se esqueceu de avisar o Boko Haram, que ontem matou pelo menos 40 estudantes de agronomia.

Também não avisaram os sunitas no Iraque, que mataram 50 xiitas num funeral



Termino com um pequeno gesto desavergonhado de auto-promoção, um artigo sobre a minha viagem ao Michigan, escrito para o site da Universidade

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Catequistas encarquilhados e com medo

Papa não quer catequistas destes
Dois assaltos violentos, com agressões, em dois dias… os padres de Viana estão em alerta máximo!

Hoje foi um dia grande para catequistas de todo o mundo que se encontraram com o Papa em Roma. Entre eles estiveram 32 portugueses, pelo menos, que ouviram do Papa a seguinte pergunta: “Algum de vós quer ser cobarde, estátua de museu ou estéril?” Consta que ninguém levantou a mão.

Os bispos sírios raptados em Abril estarão vivos? As notícias têm sido contraditórias, mas agora parece haver garantias (na medida em que valem as garantias nestas ocasiões), de que estarão ainda vivos… rezemos que sim.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Longe de vencer o fundamentalismo

Lançamento amanhã. Não perca!
Na sequência do terrível atentado no Quénia, e de um trágico massacre de cristãos no Paquistão, Tony Blair diz que “estamos longe de vencer o fundamentalismo religioso” e deixa a sua receita.


Morreu um monge budista japonês que privou com João Paulo II e tinha o privilégio de poder entrar no palácio do imperador sem se descalçar. Vale a pena conhecer esta vida singular.


Termino com dois convites: Aura Miguel estará presente no Darca, às 19h00, para falar do Papa e da juventude. A entrada é livre e a morada é: Av. Professor Aníbal Bettencourt, nº 5, Lisboa (rua que liga o Campo Grande ao ISCTE).

E amanhã quem puder não deixe de ir ao lançamento do livro “Filosofias” de José Luís Nunes Martins, que costuma escrever brilhantemente no jornal i, abordando muitas vezes questões de fé. “Filosofias” será apresentado amanhã, dia 27 de Setembro, pelas 19h30, na Biblioteca Municipal Palácio Galveias, em Lisboa. A apresentação estará a cargo do padre Gonçalo Portocarrero de Almada. "Booktrailler" disponível aqui. Mais informações sobre o livro aqui.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

40 dias pela vida, sem privatizações

Chegou ao fim o drama do conflito em Nairobi. Curiosamente os militares terão conseguido capturar 11 dos militantes, o que é um feito tendo em conta que este tipo de terrorista costuma combater até à morte… A situação continua confusa, ao longo dos próximos dias mais detalhes emergirão certamente.

O Papa Francisco recordou hoje os cristãos perseguidos e pediu para que não se tente privatizar a Igreja. É um discurso precisamente contra os lobbies, as alas e os grupinhos em que tantas vezes nos inserimos…

Entretanto a entrevista de Francisco continua a dar que falar. No artigo desta semana de The Catholic Thing, Robert Royal pergunta se depois de o Espírito do Vaticano II vamos ter de lidar com o Espírito Bergoglio, independentemente do verdadeiro sentido das palavras do Papa…

Se ainda não o fizeram, não deixem de ler o artigo que publiquei no blogue, que procura explicar quem apoia quem na Síria, um conflito com muitas ramificações complexas.

Não se esqueçam que começam hoje os 40 dias de oração pela vida. Quem quiser fazê-lo publicamente deve inscrever-se aqui, quem preferir rezar em privado que o faça. Mas façam-no.

O Espírito de Bergoglio?

Quem costuma falar ou escrever em público sabe que dizer uma coisa é diferente de comunicá-la. Qualquer afirmação pode ser mal interpretada e é preciso ter coragem, ou ser simplesmente impertinente, para arriscar dizer o que quer que seja.

É por isso que, como Richard Weaver argumenta de forma brilhante, existe uma ética da retórica. É preciso ter cuidado não só com o que se diz, mas como se diz. O como faz parte do quê. Um apelo moral cuidadosamente preparado mas insípido não chega a lado nenhum. A apresentação descuidada de um argumento complexo deixa as pessoas mais incertas e ansiosas do que antes.

O que nos conduz à recentemente publicada e longa entrevista com o Papa Francisco. Os media agarraram-se a várias frases sobre como a Igreja não deve falar sempre e só de aborto, contracepção e homossexualidade, que precisa de “um melhor equilíbrio”, com mais enfoque no amor de Deus e menos “insistência” ou “obsessão” sobre regras rígidas e por vezes triviais. Previsivelmente, a imprensa está a clamar que o Papa quer dizer que os ensinamentos morais da Igreja mais controversos são “secundários”.

Têm surgido defesas eloquentes do Papa, entre os quais destaco esta do meu ex-colega George Weigel. O George contextualiza correctamente as afirmações de Francisco – bem como o seu papado em geral – numa ofensiva evangélica. Ao colocar as pessoas novamente em contacto com o amor de Deus, argumenta o Papa, elas estarão disponíveis novamente para acatar os ensinamentos morais mais difíceis.

Quem quiser sentire cum Ecclesia (pensar com a Igreja) e acredita que o Espírito Santo age nas eleições papais, tem de adaptar-se a este novo espírito de Francisco.

Já devem estar a antever um “mas”, por isso deixem-me pôr o dedo na ferida. Não obstante tudo o que escrevi acima, quando este Papa dá entrevistas (algo que não gosta de fazer), o resultado é quase sempre desconcertante. E pode haver boas razões para isso. Não se pode impedir as pessoas de nos interpretar mal, mas entre outras coisas o Papa é um professor, e um bom professor tem uma responsabilidade moral para se proteger das más-interpretações.

Já lá vou às especificidades, mas quero só indicar – na esperança de que esteja enganado – algo que temo já ter começado.

Depois do Vaticano II a Igreja atravessou décadas de sobressalto por causa do “Espírito do Vaticano II”, um espírito que contradizia muitos dos documentos conciliares e muita da história do Cristianismo, mas isso não interessa, esse “espírito” progressista levava tudo à sua frente.

Creio que estamos perto do que se poderá chamar o “Espírito de Bergoglio”, outro período de confusão baseado, mais uma vez, não nas palavras do Papa, mas nas emoções desequilibradas que algumas das suas afirmações mais casuais provocam.

As palavras em si, embora sempre ortodoxas, não deixam de ter os seus problemas. O meu colega Brad Miner realça que 1.300.000.000 bebés foram abortados em todo o mundo desde os anos 80. A Igreja acabou de falar firmemente sobre a necessidade de se impedir a morte de inocentes na Síria. É uma obsessão gritar aos quatro ventos sobre a enorme matança moderna dos inocentes?

O Papa tem razão quando diz que é um erro pastoral obcecar ou insistir a toda a hora sobre certos pecados. É completamente contraproducente, de um ponto de vista meramente humano, interagir com as pessoas dessa forma.

A questão aqui, porém, não tem tanto a ver com uma abordagem pastoral. Devo admitir que não sei a quem é que o Papa se referia em relação à obsessão, para além de uns poucos zelotas. Nos Estados Unidos – e podemos dizer o mesmo sobre a Europa e a América Latina – temos falado do amor salvífico de Deus para com os pecadores há décadas. Os papados de João Paulo II e de Bento XVI não foram eras de moralismo autoritário. Foram esforços sofisticados para nos dar o verdadeiro Concílio Vaticano II – uma proclamação do poder salvífico de Deus e um claro farol moral, em conjunto. Essa é que tem sido a experiência da maioria de nós na Igreja ao longo das últimas décadas.



Mas o Papa Francisco acrescenta algo:

Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais.

Essa urgência, irradiação e frescura são novas – e bem-vindas.

Mas se o Papa me ligasse – e ele é o género de fazer essas coisas, mas não vou esperar sentado – eu apontar-lhe-ia a frase ambígua com que inicia a passagem. É verdade: nem udo no Catolicismo se encontra no mesmo plano. Bento XVI e os bispos americanos, por exemplo, tentaram durante anos explicar que a vida tem precedência sobre questões secundárias de política. Não duvido que Francisco esteja de acordo, mas antes de chegar ao seu ponto forte evangélico, concedeu a todos os que gostariam de distorcer-lhe as palavras uma abertura desnecessária.

Aqueles que travam estes combates em público já conseguem prever as bocas do outro lado: “E se parassem de falar o tempo todo sobre o aborto [ou contracepção ou casamento gay]. Até o Papa já vos pediu para largarem o osso”. E não estarão totalmente errados.

O mundo agradece que a Igreja abandone o campo de batalha e permita ao mundo secular continuar a matar bebés em quantidades inimagináveis, destruir o casamento e, pelo caminho, reduzir a liberdade religiosa. Nenhuma destas coisas será benéfica para os esforços de Francisco a longo prazo.

Francisco procura trazer um novo espírito católico para o mundo, e isso é louvável. Esperemos que o resultado seja o que ele procura, e não um espírito progressista que outros imponham a ele e à Igreja.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 21 de Setembro 2013 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Irão e EUA friends 4ever?

Imagem divulgada na conta do Twitter do Al-Shabaab
De religião, pura e dura, não há muita coisa hoje. O Papa pede uma mudança de atitude face à imigração e, em Portugal, Setúbal vai acolher a primeira igreja ortodoxa construída de raiz. (Já existe uma capela, leia para saber um pouco sobre a sua história).

Pensa que Francisco é o único Papa que responde às cartas que lhe escrevem? Bento XVI também o faz, e de forma bem franca!

Mas há muita coisa indirectamente ligada a religião…


E muita atenção ao que se passa nestes dias nas Nações Unidas. Para além da Síria, uma das grandes questões é a aproximação entre os Estados Unidos e o Irão, o que pode afectar de forma importantíssima toda uma região onde a religião tem um enorme peso.

Há precisamente um ano, em Roma, um especialista falava-nos do potencial de uma reviravolta nas relações entre o Irão e o Ocidente, veja o que escrevi nessa altura e muita atenção ao que se vai passar por estes dias!

Obama também falou muito da Síria. Porque a questão é muito complexa e pode ser difícil saber quem quer o quê, publiquei um texto no blogue que procura responder às questões essenciais. Comentários são bem-vindos!

Uma primavera persa?

Há quase precisamente um ano estava em Roma e assisti a uma conferência após a qual escrevi o seguinte:

"Michelle Zanzucchi, director da revista Cittá Nuova, do movimento Focolares, falou longamente sobre a questão da Primavera Árabe e da situação dos cristãos no mundo árabe e no Médio Oriente. Uma coisa que retive de forma particular foi em relação ao Irão, o menino mau regional. Segundo Zanzucchi a Arábia Saudita vai explodir dentro dos próximos 8-10 anos, e isso terá influências no resto do Médio Oriente. Nessa altura, acredita, o Irão, que deverá sofrer uma importante transição nos próximos quatro anos, será fundamental para ajudar a pacificar a região, isto porque, segundo ele, o Irão é de longe o país do Médio Oriente que é mais próximo, em termos de mentalidade, do Ocidente.

É uma perspectiva interessante. De facto o Irão não é um país árabe, mas sim indo-europeu e quem conhece a realidade persa actual diz que o fundamentalismo islâmico do regime praticamente não tem raízes no país, sobretudo na capital."

Agora, na Assembleia Geral das Nações Unidas, uma das grandes questões em cima da mesa é a aproximação entre os Estados Unidos e o Irão... a ver, a ver... mas isto pode ser histórico.

Síria – Quem apoia quem?

A situação na Síria está mais complexa que nunca. Aqui pretendo elencar as diferentes partes interessadas, tanto internamente como externamente, para benefício dos leitores que estão por fora do assunto.

Internamente:

Sunitas: Os muçulmanos sunitas são a maior percentagem de sírios. Actualmente a esmagadora maioria dos rebeldes são sunitas, incluindo vários grupos de militantes que vêm de fora do país para combater a ditadura de Bashar al-Assad. Contudo, isto não é o mesmo que dizer que todos os sunitas apoiam os rebeldes. A família Assad estabeleceu uma série de alianças complexas, sobretudo com as classes mercadoras de sunitas nas principais cidades da Síria. O grão-mufti, supostamente o líder espiritual dos sunitas na Síria, é um acérrimo apoiante de Assad. Ainda há sunitas influentes no regime, mas é curioso notar que praticamente todos os militares e políticos que abandonaram o regime, desde o início da guerra, são sunitas.

Alauítas: Os alauítas são um ramo do Islão Xiita e na sua quase totalidade apoiam o regime de Assad que é, ele mesmo, um alauita. Numa região em que a fidelidade à tribo ou à religião é muito importante, é com naturalidade que a maioria dos alauitas começou por apoiar Assad, mas há um outro factor muito importante a ter em conta. É que os alauitas não passam de cerca de 12% da população, apesar de terem, desde a ascensão da família Assad ao poder, um poder desproporcional, dominando as Forças Armadas e os aparelhos do Estado. Neste momento existe um enorme medo, fundamentado, de que a subida ao poder dos sunitas resulte em vinganças sobre os alauitas. É um ciclo vicioso, quanto mais os alauitas o temem, mais duramente lutam e mais aumenta a possibilidade de vinganças, como aliás até já tem acontecido em diversas ocasiões nas zonas controladas pelos rebeldes.

Cristãos: São o terceiro maior grupo religioso do país, apesar de estarem divididos em diversas confissões, ortodoxas e católicas. Os cristãos tendem a ser bem educados e ocidentalizados, contudo na esmagadora maioria não apoiam os movimentos democráticos que combatem Assad, precisamente porque têm medo de que no final não seja a democracia que resulte da queda do regime, mas sim um Estado islamista onde eles se tornem cidadãos de segunda e sejam perseguidos, como tem acontecido no Egipto e no Iraque. Contudo, apesar de, tendencialmente apoiarem o regime, os líderes cristãos têm sido firmes em impedir que os seus fiéis se juntem a milícias pró-regime, apelando sempre a uma solução sem recurso às armas. Há, como é evidente, cristãos a servir nas forças armadas, como quaisquer outras religiões.

Druzos
Drusos: O quarto grupo religioso na Síria, os drusos são relativamente poucos, tendem a viver concentrados nas mesmas áreas e, por regra, tendem a ser cidadãos leais aos países em que vivem (Síria, Líbano e Israel). Neste caso os drusos têm-se mantido bastante à parte da revolta, não se querendo associar nem a um lado nem a outro.

Curdos: Os curdos não são um grupo religioso, mas sim étnico, na esmagadora maioria muçulmanos sunitas. Contudo, os curdos estão mais interessados em aumentar a sua própria autonomia. Por isso, estão dispostos a lutar contra qualquer grupo que sintam ser uma ameaça. Combateram ao lado dos rebeldes de início mas, quando chegaram grupos islamistas que quiseram impôr-lhes a sua versão do Islão, lutaram contra eles também. Os casos mais recentes de tensão levaram o curdistão iraquiano a ameaçar intervir para proteger os curdos na Síria.

Externamente:

Hezbollah: Antes de entrar pelos países, há que ver o Hezbollah, o principal partido e força armada do Líbano. O Hezbollah é um partido xiita, fortemente apoiado e armado pelo Irão. As armas iranianas chegam ao Líbano através da Síria, que fecha os olhos ao tráfego. Por isso o fim do regime de Assad poderia ser desastroso para o Hezbollah. O partido sempre apoiou Assad mas, mais recentemente, os seus soldados entraram em força na Síria para combater ao lado das tropas sírias. Os dirigentes do Hezbollah mandaram também aos militantes do Hamas, o movimento islamista na Palestina, deixar de apoiar os rebeldes. O Hamas é sunita mas depende muito do Hezbollah para apoiar a sua luta contra Israel.

Líbano: O Líbano é o país com maior diversidade de religiões e grupos étnicos. Os xiitas, como já vimos, apoiam o Assad, mas os sunitas tendem a apoiar os rebeldes. Isto já levou a conflitos no Líbano e muitos temem que todo o país se desestabilize e volte a guerra civil dos anos 80. Os cristãos, que formam cerca de 40% da população, tanto quanto me tem sido possível perceber ao longo destes dois anos, não sentem grande afinidade pelos seus correligionários na Síria e guardam ainda grandes ressentimentos pela ocupação do seu país por parte da Síria durante longos anos.

Irão:  O Irão é a grande potência xiita do mundo islâmico e está constantemente envolvido num braço de ferro com os países de maioria sunita, para ganhar influência na região. A queda de Saddam Hussein foi uma bênção para o Irão, pois permitiu à maioria xiita ganhar o poder naqueles país, mas a queda de Assad seria uma derrota. Por isso o Irão tem feito tudo para apoiar Assad e tentar manter a Síria na sua esfera de influência.

A manutenção do regime também é importante para o Irão conseguir enviar armamento para o Hezbollah, no Líbano.

Iraque: Durante muitas décadas o Iraque era dominado pelo regime de Saddam Hussein que priviligiava a minoria sunita (cerca de 40%) e reprimia a maioria xiita (cerca de 60%). Desde a queda desse regime os xiitas ganharam o poder e o país tem-se visto mergulhado numa terrível onda de violência entre as duas comunidades. Essa violência acalmou nos últimos anos, mas a crise na Síria veio reacender a rivalidade e este ano os níveis de mortandade voltaram aos de 2006.

Do Iraque têm partido ondas de voluntários para a Síria. Xiitas para combater pelo regime, sunitas para combater pelos rebeldes. Quanto ao Governo, não tem criado grandes ondas, talvez para não desestabilizar ainda mais o país, mas tenderá a apoiar Assad. O Iraque é um país através do qual o Irão faz chegar armas à Síria, e também ao Hezbollah, através da Síria.

Turquia: Durante anos a Turquia esteve virada para a Europa, na esperança de conseguir entrar na União Europeia. À medida que essas esperanças arrefecem, e sobretudo depois do começo da Primavera Árabe, os turcos perceberam que podiam tornar-se uma das grandes influências no Médio Oriente e no mundo islâmico.

Sendo um país de maioria sunita, os turcos colocaram-se ao lado da oposição, a quem dão cobertura, permitindo que as chefias se organizem, treinem e reúnam em território turco.

Arábia Saudita: Tal como a Turquia, a Arábia Saudita também quer ser uma das grandes influências no Médio Oriente. Os sauditas julgam-se guardiões da ortodoxia islâmica, são exclusivamente sunitas e odeiam o Irão, que para além de xiita não é sequer árabe, mas persa. Por isso os sauditas têm todo o interesse em apoiar os rebeldes para acabar com um regime “herético” e aumentar a esfera de influência sunita na região. Contudo, os sauditas também temem o aumento da influência dos grupos mais fanáticos dos rebeldes, pois internamente tem problemas com islamistas que consideram que o regime saudita é corrupto e foge à essência do Islão.

Israel: A posição de Israel é, no meu entender, um pouco mais difícil de explicar. Historicamente Israel tem estado em conflito com a Síria, sobretudo por causa da região fronteiriça, que Israel ocupou depois da guerra dos seis dias. Várias vezes os israelitas bombardearam a Síria para destruir o que consideravam ser o começo de construção de instalações nucleares e de facto ninguém em Israel morre de amor por Assad.

Mas por outro lado, imagino que os israelitas também estejam preocupados com o regime que o possa substituir, pois uma Síria islamista seria uma maior dor de cabeça na fronteira com Israel do que o regime de Assad que, para além de retórica, raramente incomodava.

Por outro lado, o fim do regime poderia acabar com o fornecimento de armas por parte do Irão ao Hezbollah, enfraquecendo aquela que tem sido a maior espinha no lado de Israel na última década.
Friamente diria que aos israelitas interessa sobretudo que o país se mantenha no caos o máximo tempo possível, pois enquanto aquela guerra continuar a maior parte dos inimigos de Israel tem mais com que se ocupar do que atacar o estado judaico.

Egipto: A posição do Egipto em relação à Síria alterou-se 180º com a queda do regime apoiado pela Irmandade Muçulmana. Os islamitas apoiavam os rebeldes, mas o novo regime militar, que detesta a Irmandade, cortou com todo esse apoio. O apoio egípcio era importante para a oposição, uma vez que aquele país é uma espécie de farol para o mundo islâmico sunita. A posição do Egipto assemelha-se, por isso, ao da Argélia, que apesar de ser sunita, apoia o regime sírio porque não quer encorajar movimentos semelhantes no seu país.

Rússia: Mais que tudo a Rússia quer mostrar que continua a ser uma grande potência, com influência a nível mundial. Ao contrário dos americanos, que apoiaram algumas das ditaduras que depois vieram a criticar, Putin quer mostrar que é leal às suas alianças, e a Rússia, de facto, é aliada da Síria há muitos anos. Os russos têm uma base naval na Síria e querem também defender esses interesses, para além de esta ser mais uma oportunidade para se oporem aos EUA, ainda por cima, até agora, com considerável sucesso.

Há, contudo, alguns factores religiosos que entram em jogo também. Sendo a maioria dos cristãos sírios de igrejas ortodoxas, esta é uma oportunidade para os russos poderem armar-se em defensores mundiais da ortodoxia, com o argumento de que uma vitória dos rebeldes seria má para os cristãos.
Por outro lado, os russos têm muitas dores de cabeça com grupos islamistas nas suas regiões orientais e quer tudo menos uma vitória islamista na Síria para dar força a esses grupos.

John Kerry
EUA: Por regra, os Estados Unidos têm apoiado sempre os movimentos revolucionários nestas ditaduras árabes. É por isso natural que o façam novamente na Síria. Mas apesar disso, o apoio tem sido pouco mais do que da boca para fora e tem havido enorme relutância em meter tropas no terreno.

Mais recentemente Obama disse que a utilizaçção de armas químicas seria algo inaceitável, que levaria a uma intervenção. Em Agosto os EUA e grande parte da comunidade internacional concluíram que o regime tinha de facto usado armas químicas contra a sua própria população.

A resposta da Administração Obama, contudo, tem sido um total fracasso. O Presidente começou por dizer que era urgente fazer alguma coisa, mas decidiu submeter a proposta de atacar a Síria ao Senado e depois ao Congresso. Isso é um processo que leva semanas, portanto logo ali verificava-se a estranha situação de Obama dizer algo do género: “Vamos atacar, se nos deixarem, talvez, daqui a muito tempo”, dando oportunidade para Damasco se preparar e bem.

Depois houve a aparente gaffe de John Kerry que, questionado se havia alguma coisa que Assad pudesse fazer para mudar a opinião do regime, disse, aparentemente sarcástico, que só se ele entregasse as armas à comunidade internacional. Os russos aproveitaram para apresentar formalmente essa proposta e Assad, evidentemente, aceitou, retirando ainda mais legitimidade a um ataque americano.

Perante isto, Obama foi à televisão pedir ao Congresso para adiar a votação e dizer que então os Estados Unidos esperariam para ver se de facto era possível essa outra solução, entregando de bandeja o iniciativa aos russos.

Há quem diga que, sabendo que ia perder a votação no congresso, a gaffe de Kerry tenha sido propositada para abrir uma porta de saída de toda a situação, sem que Obama passasse uma vergonha interna ou fosse forçado a entrar numa guerra que a que a esmagadora maioria da população se opõe.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

81 novos mártires no Paquistão

Lágrimas e fé no Paquistão
Foi um fim-de-semana cheio de notícias religiosas, algumas boas, outras muito, muito tristes.

O Papa esteve na Sardenha onde se encontrou com pobres e deixou este recado: “Sabem, às vezes encontra-se também arrogância no serviço aos pobres! Alguns fazem boa figura, enchem a boca com os pobres, alguns instrumentalizam os pobres para interesses pessoais ou do próprio grupo”… ouch!


Passando para as notícias mais tristes… 81 cristãos foram mortos num atentado numa igreja anglicana no Paquistão. A Igreja Católica local reagiu decretando três dias de luto. A tragédia consegue sempre ofuscar mesmo as maiores diferenças doutrinais…

No Quénia estará por horas o fim do ataque ao Centro Comercial de Nairobi que foi tomado de assalto no sábado por islamitas do Al-Shabaab. A Igreja queniana condenou o ataque e enviou ajuda material aos sobreviventes.

Apesar de o Al-Shabaab operar a partir da Somália, muitos dos seus militantes são estrangeiros. Suspeita-se que neste ataque haja pelo menos três americanos, alguns árabes e talvez até uma britânica.

Será o fim da Primavera Islamita no Egipto? A Irmandade Muçulmana e todas as suas actividades acaba de ser proibida... Há meses, supostamente, eram eles que mandavam no país.

Pensava que a santidade era só para super-homens? Desengane-se!

Morreu o padre jesuíta Alfredo Dinis, que se dedicava muito ao tema da relação entre a fé e a ciência e que certa vez disse o seguinte: “Procurei como filósofo compreender o mundo. Estranhamente, sinto que o mundo tem um lado incompreensível. O mundo talvez exista não para ser compreendido, mas para ser amado!"

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Falemos de aborto, (mas não só!)

A entrevista que o Papa deu ontem continua nas bocas do mundo. Passadas mais de 24 horas, podem ler aqui as minhas reflexões sobre os principais temas de que ele fala.

O padre António Vaz Pinto, responsável da Brotéria, onde a entrevista foi publicada em português, acredita que o Papa não vai fazer “revolução” em temas fracturantes.

Entretanto, depois de ter dito que a Igreja não pode falar “só” de temas como o aborto, o Papa passou a manhã a falar sobre… o aborto. Deixou claro, dúvidas houvesse, que a defesa da vida é uma prioridade absoluta do magistério.

Por falar em aborto (mas prometo que não vou falar só de aborto), começam no dia 25 de Setembro os 40 dias pela vida. Este ano em Portugal reza-se nas mesmas datas que o resto do mundo. Quem quiser mais informação ou, de preferência, participar nas vigílias, deve dirigir-se aqui. Não é só para católicos!


Reflexões sobre a “grande entrevista” do Papa

Ontem, entre tomar conhecimento da entrevista do Papa (no instante em que saiu, graças ao twitter), ler, sublinhar as partes importantes e fazer os dois textos para a Renascença, não restou muito tempo para reflectir a fundo sobre o seu conteúdo.

Claro que a principal “notícia” na entrevista foi o que o Papa disse sobre aborto, homossexualidade e contracepção. A citação completa é esta: “Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente.”

Alguns criticaram a imprensa que escolheu dizer que o Papa tinha sugerido que a Igreja está obcecada por estes temas. De facto, seria melhor escrever que o Papa lamenta que “pareça” que a Igreja está obcecada por estes temas. Mas o vocabulário que ele usa sugere, de facto, a ideia de obsessão.

Para começar, parece-me que o Papa atira ligeiramente ao lado com o que diz. É mesmo a Igreja que parece obcecada com estes assuntos? É que normalmente quem eu vejo a falar insistentemente de aborto, casamento homossexual e contracepção são as pessoas que querem mudar os ensinamentos da Igreja. Qual foi a última vez que ouviram um padre, numa homilia por exemplo, a abordar estes temas?

Mas não acho que isso seja o mais importante. Para mim estas palavras têm de ser lidas à luz da imagem que o Papa dá do “hospital de campanha”.

“Aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto. Curar as feridas, curar as feridas... E é necessário começar de baixo.”

A meu ver, o que o Papa está a dizer é que os fenómenos como o aborto, o casamento homossexual e a mentalidade contraceptiva mais não são que sintomas de uma “doença” muito mais grave. O que é preciso é curar essa doença. Não adianta só pregar contra o aborto se não pregarmos também contra a mentalidade que encoraja as pessoas a verem a vida humana como descartável, para usar um termo que o próprio Papa adoptou ainda hoje.

De resto, a entrevista tem muita coisa riquíssima, mas há um detalhe que penso que não tem merecido a devida atenção. Reparem nesta citação: “Penso também na situação de uma mulher que carregou consigo um matrimónio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois esta mulher voltou a casar e agora está serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito e está sinceramente arrependida. Gostaria de avançar na vida cristã. O que faz o confessor?”

Alguns interpretaram isto como se o Papa estivesse a dizer que agora os padres podem absolver mulheres que abortaram e estão arrependidas, como se isso fosse uma grande novidade. Mas há aqui um detalhe que poderá apontar noutro sentido.

É que no cenário que o Papa apresenta, esta mulher não se poderia confessar de todo, uma vez que vive num segundo casamento. A não ser que viva com o seu novo marido “como irmãos”, o que sendo possível não é provável, se não tem intenção de sair dessa relação, na qual tem cinco filhos, não se pode confessar e por isso também não pode ser absolvida pelo pecado do aborto, uma vez que não se podem fazer confissões selectivas.

Posso estar enganado, mas não estará o Papa a dar aqui uma “achega” para a tal reflexão que quer promover sobre o casamento e as segundas uniões? Não quero deduzir nada, nem o Papa dá uma resposta, termina antes com uma pergunta, mas é certamente um tema que ainda vai dar muito que falar.

Filipe d'Avillez

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Voltei voltei, voltei de lá!

Passei a última semana toda nos Estados Unidos e só hoje consegui regressar ao serviço dos mails. Ao longo das próximas semanas, se tudo correr bem, sairão algumas reportagens que fiz por lá.

Entretanto a situação na Síria deu umas voltas, parece que tão depressa não vai haver intervenção. Coincidência a reviravolta ter sido depois da jornada de oração e jejum? Sabe-se lá… Mas é preciso continuar a rezar e foi isso que o Papa voltou a pedir esta manhã.



E o Papa voltou, na segunda-feira, a falar da necessidade de se reflectir sobre o casamento e as segundas uniões. Preparem-se, independentemente do que for decidido vem aí muita discussão e alguma polémica. Quando vinha do Rio de Janeiro o Papa apontou para o exemplo oriental. Se não conhece leia aqui uma curta explicação que escrevi para ajudar a dar bases para a conversa.



Algumas considerações sobre casamentos e segundas uniões

O Papa repetiu esta segunda-feira que a Igreja tem de reflectir sobre a questão dos segundos casamentos e coisas que tais. A primeira vez tinha sido no avião, a regressar do Rio de Janeiro, mas na altura isso ficou quase esquecido no meio de tantas outras coisas que disse.

Este é um dos assuntos que a sociedade mais discute. Todos conhecemos casais que sofrem por isto.

Por isso esta é uma discussão em que a sociedade vai querer participar. Para isso, convém ter presente algumas considerações.

Em primeiro lugar, a Igreja não pode nem deve inventar nestes assuntos. Simplesmente não é assim que ela funciona. A Igreja tem 2000 mil anos de tradição em que se apoiar e tem as escrituras em que se fundamentar. Qualquer nova abordagem ou solução terá de se apoiar nesses dois pilares.

O que temos no Evangelho? Jesus é muito claro em relação a este assunto. Ele condena a noção do divórcio, que existia no seu tempo. Fá-lo utilizando uma palavra que deixa bem claro que a união entre um homem e uma mulher não é para ser rompida e que essa é a ordem das coisas desde a fundação do mundo. Simples. Mas num dos evangelhos o Senhor deixa uma ressalva, que varia de tradução para tradução e que nalguns casos tem sido traduzido assim:

“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, salvo em caso de adultério, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério”.

Noutros casos aparece “salvo em caso de união ilegal”.

Muito se debate o verdadeiro alcance destas palavras, mas o Cristianismo Oriental usa isto como base para permitir, em certos casos, o segundo casamento. Foi a isto que o Papa se referiu no avião e a mudar alguma coisa na prática ocidental, seria muito provavelmente neste sentido.

De que estamos a falar?

A esta prática entre os orientais chama-se geralmente divórcio de misericórdia. Basicamente, o que a Igreja faz é, por uma questão de misericórdia e de reconhecimento da fraqueza humana, dá uma “segunda chance” a casais cujo primeiro casamento acabou em fracasso.

Uma nota muito importante é que esse segundo casamento é uma celebração penitencial, nunca alegre. Reconhece-se, nesta prática, que a situação não é ideal nem desejada, mas é o que aconteceu.

A Igreja Católica ocidental reconhece e respeita esta prática, embora a sua seja diferente.*

Contudo, há uma comparação possível na prática da Igreja Católica, quando permite a homens que foram ordenados padres que sejam dispensados dos seus votos de celibato, para poderem casar.*

Casamento ortodoxo
A tradição da Igreja é que o sacramento da ordem é impeditivo do casamento (já o contrário não é verdade, mas isso é outra discussão). Por isso, bem vistas as coisas, um padre que seja dispensado ou que abandone o sacerdócio não devia nunca poder casar numa Igreja. Contudo, a Igreja, por uma questão de misericórdia (o termo mais correcto é o grego oikonomia), reconhecendo que a situação não é ideal, dispensa generosamente o sacerdote, que nunca deixa de o ser em verdade, para poder contrair um matrimónio legal aos olhos da Igreja.

Basicamente é isto que os ortodoxos (e católicos de rito oriental) fazem em relação ao casamento.

A situação está assim explicada, mas isto não implica que a Igreja deva necessariamente seguir este percurso, significa apenas que, se o fizer, é um percurso ancorado na tradição da Igreja Universal e por isso defensável.

Pessoalmente custa-me. Mas este género de problemas tem sempre duas dimensões que devem ser consideradas, a pessoal e a social.

Pessoalmente, esta podia de facto ser uma solução boa para muitos casais que se encontram em situações tristes e que não são capazes de aceitar a sugestão da Igreja de viverem o resto da vida em celibato ou a viver “como irmãos” com os seus novos parceiros.

Contudo, socialmente, e por mais que a Igreja explicasse o assunto, isto seria sempre apresentado como uma rendição ao mundo e à sociedade moderna. Se os processos de nulidade são mal compreendidos, como é que se explicaria uma mudança destas?

No nosso mundo o ensinamento da Igreja é um farol que faz muita falta, para realçar a sacralidade do casamento, esse farol ficaria necessariamente ofuscado.

Como disse antes, o debate vem aí, todos têm a sua opinião, mas o importante é partirmos de bases sólidas e com conhecimento e não discutir num vazio, como se não existissem já caminhos a seguir.

Filipe d'Avillez

*Desde que escrevi este artigo muita coisa mudou e os assuntos foram aprofundados. Noto agora que ele contém algumas incorrecções. Em primeiro lugar, segundo o prefeito para  Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Müller, a Igreja Católica não aceita nem reconhece a validade dos segundos casamentos ortodoxos a que me refiro aqui e, mais, elas não são praticadas pelas Igrejas Católicas de Rito Oriental.

Em segundo lugar, a comparação entre a dispensa dos sacerdotes que deixam o ministério para poder casar e os segundos casamentos não é exacta, uma vez que a proibição dos ministros ordenados contraírem casamento não é doutrinal, mas disciplinar. Existe casos raros de dispensa, por exemplo no caso de diáconos permanentes que enviúvam, para poderem contraír um segundo casamento, mantendo-se no ministério activo.

Correcção feita a 20/02/2014

O Casamento É o que É

Anthony Esolen
E uns fariseus aproximaram-se dele, para O tentar, perguntando, “É permissível, por qualquer razão, um homem pôr de lado a sua mulher?” E Ele respondeu, dizendo, “Não sabem que o Criador, desde a fundação [arche], os fez homem e mulher? E disse-lhes, ‘Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à mulher, e os dois serão uma só carne.’ Por isso já não são dois, mas uma carne. Por isso o que Deus uniu, não separe o homem.”

Eles disseram-lhe, “Então porque é que Moisés ordenou que fosse concedida uma carta de divórcio [apostasiou – conferir “apostasia”, em português], para que ela fosse posta de lado?” Ele disse-lhes: “Por causa da dureza dos vossos corações, Moisés permitiu-o, mas desde a fundação das coisas, não era assim”.

O leitor que me desculpe a tradução penosamente literal desta passagem do Evangelho de São Mateus. Ela foi necessária para tornar o mais claro possível a natureza radical do que Jesus está a dizer sobre o casamento. Em português a palavra “princípio” tem um significado particular. O primeiro “set” é o princípio de um jogo de volley, a letra A é o princípio do alfabeto. Depois os sets e as letras prosseguem e o que segue pode ter pouco a ver com o que veio antes. Mas esse não é o caso da palavra grega arche.

Estamos perante uma palavra que é ontologicamente fundacional. Tal como a cabeça é o “primeiro” ou principal membro do corpo, o “arche” é o primeiro princípio orientador e não está limitado a um tempo particular. Isso encaixa bem no que Jesus está a dizer sobre o casamento. Ele não diz que, há muito tempo, numa terra longínqua, os homens e as mulheres não se divorciavam. Ele diz é que a união indissolúvel do homem e da mulher faz parte da ordem do mundo, assim como foi, é, e será.

Note-se que Ele não está a apelar a uma lei “prévia”, que seja mais antiga que a de Moisés que permite o divórcio. A questão não é essa. Não faz sentido que uma lei antiga seja melhor que uma nova, simplesmente por causa da idade. A questão aqui é que essa lei não tem tempo. Pode ser ignorada, mas não pode nunca ser alterada ou posta de lado, da mesma maneira que não podemos descartar a própria natureza humana.

Os fariseus esperavam um comentário rabínico sobre a Torá, mas em vez disso é-lhes dito que pensem no significado da própria criação, do ser homem e do ser mulher. Este significado aplica-se a todos os homens, não apenas a judeus. Jesus alcança um exemplo anterior a qualquer divisão da humanidade entre um povo escolhido e o resto.

Por isso qualquer cristão que diga que uma coisa é o casamento religioso e outra o casamento civil, está a negar a verdadeira importância das palavras de Cristo. Nós não acreditamos que, se por acaso formos católicos, não nos podemos divorciar. Acreditamos que a lei do divórcio se aplica à humanidade em geral, da mesma maneira que, de certa forma, as bênçãos do casamento são dadas a um homem e a uma mulher que se casam sem conhecer o Evangelho ou Cristo. Quando Adão tomou Eva como sua mulher não entrava na sua ideia qualquer Igreja para além dos dois, a sua união, e Deus.
 
Adão e Eva - ícone etíope
Segue-se que um ataque ao casamento tem necessariamente que ser uma rebelião, uma apostasia, contra o Criador, e um ataque ao próprio homem. A violência do divórcio é sugerida pelas metáforas dos verbos gregos: livrar-se de, rasgar, levantar-se contra. É tanto mais deplorável quanto os ataques surgem de uma sociedade supostamente cristã; mas é um mal sempre e em todo o lado em que ocorre e, como qualquer mal, acarreta a sua própria punição sobre aqueles que o praticam, encorajam ou defendem.

Não temos de esperar para que todo o mundo professe o nome de Cristo, para ver o encanto de toda a criação, incluindo a majestade e a divindade da humanidade, homem e mulher. Esse encanto, essa majestade e essa divindade já existem. Já existe algo sacramental na união entre um homem e uma mulher em casamento, mesmo entre os pagãos. Não estou a dizer que o seu casamento é um sacramento em sentido estrito; mas afirmo a sacralidade daquilo que fazem, mesmo que esteja pejado de erros humanos, ignorância e tolice.

Erramos se separarmos a afirmação de Jesus sobre o casamento do seu contexto expresso – a fundação das coisas, a intenção do Criador – e a recolocarmos numa qualquer lei neo-mosaica. Isso transformar-nos-ia em fariseus; casamento para mim, o que seja para ti. Oh, seríamos fariseus bem mais afáveis (e cobardes), uma vez que o nosso sentido de superioridade moral seria apenas para consumo interno, para não ferir as sensibilidades dos pagãos.

Isto deve ficar absolutamente claro. Não podemos aceitar o divórcio, muito menos a fornicação, a sodomia ou outras práticas aberrantes, da mesma maneira que não podemos aceitar o roubo, o assassinato ou uma depravada indiferença pela vida humana. Podemos tolerá-lo, num ou noutro contexto, porque a tentativa de o eliminar nos meteria em males maiores; mas não podemos nunca aceitá-lo permanentemente  É um mal grave, ponto final. Ser “pluralista” em relação ao divórcio é nos vedado, como nos é proibido sermos “pluralistas” sobre o assassinato.

Nem nos devemos congratular quando vemos os nossos irmãos a cair na loucura e na incoerência nestes e noutros assuntos que envolvem a sexualidade. Isso seria como festejar por ver os nossos irmãos a contrair tifóide. Nesta luta precisamos de todos os aliados que conseguirmos encontrar. E devemos lutar. A verdade e a caridade a isso obrigam.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Setembro de 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Fátima e a Paz no Mundo

As aparições de Nossa Senhora de Fátima em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial e nos inícios da “Revolução de Outubro” soviética tiveram efeitos históricos de grande alcance.

O prelúdio das aparições de Fátima foi o aparecimento na Primavera de 1916 de um anjo, que se identificou como o “anjo da paz” a três crianças portuguesas: Lúcia, Jacinta e Francisco. O anjo apareceu-lhes novamente no verão, dizendo-lhes que o céu tinha “designios de misericórdia” e ensinando-lhes a oferecer orações e sacrifícios. O anjo apareceu uma terceira vez no Outono, dando a comunhão às crianças.

As aparições de Nossa Senhora começaram em 13 de Maio de 1917, e continuaram nos dias 13 de cada mês, excepto em Agosto, quando as crianças foram detidas e ameaçadas com execução. No dia 19 de Agosto Nossa Senhora apareceu num local diferente e prometeu às crianças que faria um milagre num dia 13 de Outubro, para que todos pudessem acreditar.

O milagre acabou por ser aquilo que São Tomás de Aquino apelidou de a mais alta categoria de milagre – um evento absolutamente impossível de acordo com a natureza. Neste caso foi o sol a girar, a subir e a descer três vezes, testemunhado por 70,000 pessoas em Fátima e nas aldeias próximas, tendo sido relatado na imprensa.

As mudanças históricas começaram quase de imediato. O físico e teólogo Pe. Stanley L. Jaki, que viajou para Portugal para fazer uma investigação científica rigorosa dos depoimentos e dos relatos das testemunhas do “milagre do sol”, escreveu no seu livro, “God and the Sun at Fátima:

O dia depois do milagre do sol a história de Portugal começou a mudar através das urnas, embora na altura ninguém pudesse ver o alcance final desta realidade. Temos de perguntar, o que se teria passado se Portugal se tivesse caído nos planos de Lenine, que descreveu Lisboa como a capital mais ateia do mundo? Ele não teria observado Lisboa com tanta atenção se não tivesse planos para o país. O que teria acontecido a Espanha, se Portugal já tivesse no campo comunista? E o que teria sido de França, governada por uma “Frente Popular” se toda a Península Ibérica se tivesse tornado um posto avançado de Moscovo?

Para além dos efeitos na Península Ibérica também foram veiculadas mensagens proféticas para as pessoas do século XX através dos três “segredos” que Nossa Senhora confiou às crianças e que foram reveladas pela sobrevivente, Lucia.

O Primeiro Segredo consistia numa visão do Inferno, seguida de um aviso de que as guerras são causadas pelo pecado, que os “pecados da carne” eram a causa mais comum de entrada no Inferno e que Deus queria estabelecer a devoção ao Imaculado Coração de Maria para salvar os pecadores da perdição eterna.

O Segundo Segredo foi um aviso sobre a vinda da Segunda Guerra Mundial e de que o comunismo soviético iria espalhar-se, seguido do pedido de que as pessoas se consagrem ao Imaculado Coração de Maria, comunhão de reparação aos primeiros sábados de cada mês e a consagração da Rússia ao Imaculado Coração por parte do Papa e dos bispos. Nossa Senhora avisou que se isto não fosse feito a Rússia espalharia os seus erros por todo o mundo e na perseguição dos cristãos. Mas ela acrescentou que o Papa acabaria por fazer a consagração e que a Rússia se converteria.

No Terceiro Segredo, publicado pelo Vaticano em 2000, Nossa Senhora não falou. Os três pastorinhos testemunharam um panorama do futuro sofrimento dos Cristãos e do Papa, e ouviram um anjo, com uma espada flamejante erguida por cima do mundo, a gritar “penitência, penitência, penitência”!



Após a sua investigação o padre Jaki concluiu que Fátima é, provavelmente, o evento mais importante do Século XX, um sinal providencial de uma era que testemunharia tantos actos incríveis de desumanidade e de imoralidade.

O Papa João Paulo II, em 1984, consagrou a Rússia e o mundo ao Imaculado Coração de Maria (A tentativa de assassinato sobre João Paulo II ococrreu no dia 13 de Maio de 1981 e o Papa visitou Fátima para a beatifcação dos dois pastorinhos a 13 de Maio de 2000 – a bala que não o matou, de acordo com as auteridades da Igreja, coube perfeitamente na coroa de Nossa Senhora que lá se encontra.) Em 1989 caiu o Muro de Berlim e a consequente dissolução da União Soviética tomou o mundo de surpresa.

Alguns devotos de Fátima têm mostrado desapontamento com a falta de conversões individuais na Rússia. Mas Nossa Senhora falou na conversão de um país. Os sinais na Rússia pós 1989 são muitos: Há 60 milhões de cristãos, incluindo o Presidente e o Primeiro-ministro. De acordo com um artigo da revista National Geographic, de 2009:

Em 1987 havia apenas três mosteiros na Rússia; actualmente há 478. Nessa altura havia apenas dois seminários; agora há 25. O maior aumento tem sido de Igrejas, de cerca de 2000 na altura do Gorbachev até quase 13 mil hoje.

O que falta é a união das Igrejas Irmãs, isto é entre ortodoxos e católicos romanos, mas têm-se feito grandes avanços neste sentido desde o Concílio Vaticando II. Possivelmente este facto encerraria um circuito e significaria uma mudança milagrosa para o Cristianismo e o mundo.

A Rússia já não está a espalhar os seus erros por todo o mundo nem a perseguir cristãos. Mas os cristãos continuam a ser perseguidos por islamistas aos gritos de “Allahu Akbar”, que agora representam grandes obstáculos, não só à democracia, como escrevi noutra coluna, mas à paz no mundo.

Porque é que Nossa Senhora não referiu esta ameaça, quando avisou que ia haver guerras mundiais e a perseguição de cristãos? Simplesemnte não era necessãrio, uma vez que ja tivemos avisos repetidos de Nosso Senhor que profetizou: “Chegará a hora em que quem vos mata pensará que está a prestar culto a Deus”. (João 16,2).

Os pedidos de Nossa Senhora de Fátima  - Consagração ao Imaculado Coração de Nossa Senhora, reparação dos primeiros sábados e penitência – continuam a ser o único caminho fiável para a paz.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 8 de Setembro de 2013)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Quando o telefone toca...

Um sorriso no meio do
cansaço em Damasco

De resto, a Síria continua a dominar as notícias. Ontem soube-se que a histórica vila cristã de Maaloula, onde ainda se fala aramaico, tinha sido ocupada pelos rebeldes. Hoje soube-se que já retiraram e que não tocaram em qualquer igreja ou símbolo cristão… vá lá!

O ex-ministro da defesa que ontem se soube ter fugido para a Turquia, tornando-se o mais influente alauita a fazê-lo, pode ter contado com ajuda do ocidente. A confirmar-se, tudo indica que Ali Habib possa vir a desempenhar um papel numa futura transição, para acalmar os receios da comunidade alauita… vamos ver como é que isso corre.

Entretanto, com tudo a falar numa eventual intervenção, há quem esteja no terreno a ajudar quem precisa. É o caso de padre Nawras Sammour, que foi entrevistado pela minha colega Matilde Torres Pereira. Vale a pena ler a transcrição integral da entrevista para ver o estado destas pessoas que se dão por inteiro aos mais necessitados.

A vigília de oração e jejum é amanhã. Saiba aqui o que se passa em Lisboa, Porto, Évora e Fátima. Tomem nota, também, que no próximo dia 15 de Setembro realiza-se uma peregrinação a São Bento da Porta Aberta pelos cristãos perseguidos, com especial enfoque na Síria. Começa às 15h com recitação do terço e há missa às 16h.

Da minha parte, na próxima semana estarei fora, mas farei os possíveis para actualizar o blogue e, pelo menos uma ou outra vez, mandar mail com novidades.

As a realist, there is nothing to do, as a Christian there is everything

Pe. Nawras Sammour
Transcrição integral e no inglês original da entrevista ao padre Nawras Sammour, responsável pelo Serviço Jesuíta dos Refugiados (JRS) no Médio Oriente, que se encontra na Síria. A entrevista e respectiva reportagem são da autoria de Matilde Torres Pereira.

Full transcript of the interview with Fr. Nawras Sammour, head of the Jesuit Refugee Service (JRS) in the Middle East, currently in Syria. Interview and news item by Matilde Torres Pereira.


What is does your work entail?
I’m in charge of the work of JRS in the region, Middle East and North Africa, which means I’m in charge of the coordination of the JRS work in Syria, Lebanon, Turkey and Jordan. So we have projects in different countries, working with different nationalities, refugees coming from different countries.

But mainly now because of the Syrian conflict, it’s been the most important [situation], as well as the Iraqi refugees in Jordan, Syria, Turkey, and refugees coming from Sudan and  Saudi Arabia, those countries have many problems.

So you have people coming from all around the Middle East and also from Africa?
In Jordan and Turkey, yes. In Lebanon and in Syria our work is a little bit with Iraqis, because we started working in 2008, the first project we had was after the Iraq crisis. Now the main work in all countries is with Syrians, but we also get those who are in trouble, like Iraqis, like Sudanese.

How is the JRS dealing with this massive influx of refugees at the moment? Do you have means in the field to help all these people?
In Syria, we started dealing with the Syrian crisis and with the big number of displaced people within Syria, we started very small, with local solidarity, for instance, but it’s not enough at all. And then we are supported by the Church, Caritas, other organizations; and the Society of Jesus.

Now we are able to do something, but compared to the volume and size of the crisis, I could say it’s a small drop in the ocean. The crisis is huge, we are talking about millions of people who are in need. So yes, we try to do our best, work, volunteers and the staff, so far in Syria we have 500 staff and volunteers, from different communities, and we work for everybody and with everybody, in coordination with other associations and foundations, based on the principles of humanitarian work, which is neutrality, impartiality and working with civilians.

Based on these principles that you have, how difficult has it been to keep safe during the course of your work? Since the beginning of the conflict, I imagine that things have been harder and harder to cross borders, to travel, I imagine it hasn’t been easy at all.
Actually, yes, that is our main concern, the security of our people. When they go around visiting families, we can have mortars, we can have bombs sometimes, so far, thank God, we didn’t lose anybody except two friends who came as volunteers to help in Damascus, they got caught in a blast of a car, in the center of Damascus, and it was by accident.

But yes, I would say the main problem is security. For us it’s a conviction, to work for everybody and with everybody, regardless of background or whatever, but it’s a kind of guarantee, because since we are neutral, we are not stopped, we are respected by everybody, and people know that we work for helping those who are suffering and without any background or idea beforehand. People really appreciate it.

So it’s an advantage for you to be Christian?
Yes, because they know we don’t have an agenda, but it’s not because we are Christian, it’s because our people, who are from different religions, and communities, they are convinced of our mission. So they are Muslim, but they do it with a profound conviction. We are appreciated and respected.

So you’re saying that there’s a real network of solidarity between different religions, basically people that just want to help people who are suffering?
In our project yes, in our network, the Syrian Red Crescent, with other foundations, in diferent areas, with civilians also. We don’t work with other different civilian groups, that’s not our work.

Have you, in the course of your work, found reasons to hope that even if you are working within a drop of the ocean, that you are helping to make the daily life of Syrians a little bit better? Is it easy to keep going, psychologically, in the middle of this conflict?
We are really tired. All our volunteers, all our staff, all our friends, we are really tired.
Because when I talk about a drop in the ocean, it’s about something like 30,000 families we help with direct impact, it’s not a small number, it’s something like 250’000 people.
But it’s still small, because at the end, I only help covering some needs for people.

Whether it’s about food, whether it’s about items, our work with children, for psycho-social support, those activities, sometimes yes, it can help with medical support, but the need is huge.

So the network that we have to cover all the facilities, its huge, but compared to the size of the problem, I’d say we are never going to be, and we are never going to pretend to be, the saviors.

Does the work of the JRS in the field involve, do the volunteers get spiritual preparation?
Actually, we used to have some counseling, spiritual and psychological for helping those in need, but now we really don’t have enough time. It’s useful to be in the service of our own people, our own friends and volunteers, it’s a pity, but the pace of events, the velocity, the speed, it’s very illogical, so we are not always able to stay in the same region. That’s why we are so tired. I would say yes, our people are tired.

Now they just came back, all of them, from holidays. We stopped activities for two weeks. I asked them to go to their own village, to be somewhere else. It was good. In Lebanon we tried to have a guesthouse for our people. Just to help them recover a little bit, to take a fresh breath.

Now it’s very tense, with the chemical weapons. We are waiting to see the consequences at the beginning of next week. We are going to restart our activities. So I would say it was a kind of holiday. If we see someone who is really tired, we send them home. To get away from the pressure. We had spiritual exercises last year that were good, but this year it was impossible to find time. My own spiritual exercises I did it last night, it was my holiday. It’s an inner battle.

These families that the JRS are helping, the least someone can do is try and find solutions to small daily problems, because, as you said, the pace of things is changing very quickly. Have you seen signs of hope in this crisis, or is it hard to see how this is going to develop in the future?
In a very, very realistic way of seeing the reality, I would say, in a very rational way, there is nothing to do. Really nothing to do. But that’s in the realistic way. As a Christian, I would say there is a lot of things – not a lot – everything to do. Everything should be done. Everything should be redone.

From that point of view I would say yes. We are in our place and we are trying to make a difference, to make a change, without saying that we are the best. That’s the reality, we are trying to do our best.

And for me, to see the young people, our volunteers, from different religions, communities, different social belongings, cultures, ethnicities, and they are able to work together, and because of the crisis they somehow found it in their own life a capacity of being a human in service to others and with others, that’s great. It gives a lesson to others.

Where there is an abundance of sin, there is an abundance of grace. So yes, from that point of view, from faith, I would say there are a lot of signs of hope. Especially our volunteers, they are very committed, very generous.

And the hope I can see in the eyes of children, and their tendency to be creative, in spite of all difficulties. In the middle of a drama, the children are playing, are even studying. I can see hope.

Politically speaking, I would say there is nothing to do, but in spite of that, we have to do everything. Absolutely everything.

Father Nawras, you are from Aleppo, is that right?
I’m originally from Aleppo, but I am based in Damascus, and I go around different countries and cities.

So you are seeing something happen in your own country, you are not somebody from the outside. I imagine that for you it is especially difficult to see this happening to your brothers and sisters.
Exactly. I used to work with Iraqis, refugees in the past, before 2011 in Syria, God knows I was trying to do my best for helping and doing my best to accomplish my mission.

The mission given to me by the Society. But now it’s something different. It’s about my own people, it’s about my family, it’s about my friends, about my country, about my history. The feeling is different. I would say that in the past I was a little partial. But the feeling now is about my own life. My own life.

How do you view a possible intervention by western powers? Will this help Syria, or will it make the whole situation worse?
It’s good if it ends the violence. It’s not going to be the solution. I’m not able to say that it could bring a solution. It could finish a problem. Not for a long time. I’m convinced, this is my deepest conviction, if there is a solution it should be political, through dialogue.

It’s not about war. That’s not going to make a difference. Whether by the West or by the East, I couldn’t understand that it could be a solution. I couldn’t imagine that Syrians could hope that a solution could come from an outside force. It’s a foreigner doing the work in our country, I couldn’t imagine that.

The work the Pope has been trying to do with leaders of government in the Middle East to try and open a way for dialogue, do you think the Pope can help?
One of the paradoxes of our postmodern society is that everybody thinks that the Church has something to say and to do. I would say the opposite. But when it’s about problems, yes, I could see that. The Church always has something to say and something to give to people as a source of hope. This is the Gospel. And the Gospel says this is the moment for us Christians of Syria to answer: are you a believer or not? Do you believe in God or not? So you believe in a world divided in problems? This is my faith, my credo if you like.

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