quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Jornalistas em Fátima, Sospiros em São João

Divino Sospiro, Domingo às 21h30 no
auditório da Boa Nova, S.J. Estoril
Decorreu hoje o primeiro dia das Jornadas da Comunicação Social, com a participação de elementos de peso tanto da Igreja como do mundo do jornalismo.

Do lado dos jornalistas António Marujo, do Público, Joaquim Franco, da SIC e Graça Franco, da Renascença, explicaram de que forma a Igreja pode e deve melhorar a sua comunicação.


Mais longe, na Suíça, os presidentes das conferências episcopais da Europa estão reunidos para debater a crise financeira e para ouvir falar os especialistas, para ficarem mais bem informados.


E para terminar numa nota mais positiva. Vitória! A Igreja de Olivença venceu o concurso de “Melhor recanto de Espanha”. Resta saber o que vão fazer quando perceberem que Olivença não é Espanha, mas por enquanto deixemo-los festejar.

Se procura programa para este fim-de-semana, que tal ir ao Estoril ver um concerto dos Divino Sospiro, a orquestra residente do Centro Cultural de Belém e, este ano, da Gulbenkian? É no Domingo às 21h30 no auditório do Centro Comunitário da Boa Nova, em São João do Estoril.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Blasfémias para todos...

Procura-se novo Arcebispo de Cantuária
Ontem foi um dia agitado para cerca de 280 cristãos na Síria que foram raptados, e mais tarde libertados, por um grupo rebelde. Felizmente estão todos a salvo.

Já ouvi chamar muita coisa aos bispos, mas “boi com pele de rinoceronte” é novidade. Todavia, é disso que os anglicanos estão à procura para substituir Rowan Williams.

A blasfémia e as leis que supostamente a procuram evitar estão definitivamente na moda. No Egipto estão a julgar três muçulmanos por desrespeito ao Cristianismo e na Rússia, depois do caso “Pussy Riot” também querem aprovar uma lei nesse sentido.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Quem te avisa…

Randall Smith
Os debates de 1858 entre Lincoln e Douglas prepararam os americanos para uma eleição que Abraham Lincoln acabaria por perder e cobriram uma série de assuntos políticos daquele tempo, mas houve um que dominou: a escravatura. Na verdade, hoje ninguém quer saber quais eram as posições de Stephen A. Douglas sobre, digamos, a economia, o que pensava sobre meios de pagamento ou impostos. A única coisa que nos interessa agora é que ele votou a favor da escravatura.

Em abono da verdade, devemos esclarecer que Douglas repetiu insistentemente que não era a favor da escravatura, mas foi também um dos arquitectos da noção de “soberania popular”, isto é, deixar que os Estados decidam a questão por si.

Assim, Douglas declarou que:

Acredito que a humanidade e o Cristianismo ambos requerem que o negro deva ter, e possa beneficiar de, todos os privilégios e todas as imunidades consistentes com a segurança da sociedade na qual vive. Sobre isso, presumo, não pode haver diversidade de opinião. Somos obrigados a estender aos seres dependentes e inferiores todo o direito, todo o privilégio, toda a facilidades e imunidade que sejam consistentes com o bem público.

A questão que surge é, então, que direitos e privilégios são consistentes com o bem público? Esta é uma questão que cada Estado e cada Território deve decidir por si. O Estado de Illinois já decidiu. Decidimos que o negro não deve ser escravo e também que não deve ser um cidadão, mas protegêmo-lo nos seus direitos cívicos, na sua vida, na sua pessoa e propriedade, negando-lhe apenas todos os direitos políticos e recusando colocá-lo num nível de igualdade com o homem branco. A política do Illinois é satisfatória para o Partido Democrático e para mim, e se assim fosse para os republicanos então não haveria nada a discutir; mas os republicanos dizem que ele deve ser um cidadão e quando isso acontece ele torna-se nosso igual, com todos os nossos direitos e privilégios. Eles dizem que a decisão Dred Scott é monstruosa porque nega ao negro o direito à cidadania à luz da Constituição. Ora, eu considero que o Illinois tinha o direito de abolir e proibir a escravatura, como fez, e considero que o Kentucky tinha o mesmo direito de manter e proteger a escravatura que o Illinois tinha de a abolir.

Por outras palavras, Douglas era o típico candidato pró-escolha: Defendia a liberdade de escolha para todos – excepto para os americanos negros que não eram inteiramente pessoas à luz da lei de então. Quanto à sua garantia de que os negros deviam poder gozar de “todos os direitos, todos os privilégios” consistentes com o bem público, trata-se de um caso típico de “duplicidade”: aquilo que oferece tão generosamente com uma mão, tira de forma brutal com a outra.

E não pensem que Douglas não tentou classificar Lincoln como um “extremista”, “desalinhado”, próximo dos abolicionistas “fanáiticos”. Disse-o diversas vezes. Mas o próprio Lincoln também não tinha um registo imaculado no que diz respeito à escravatura, optando por compromissos pragmáticos que, sem dúvida, levaram alguns abolicionistas a optar por um candidato mais “puro”. Assim, é natural que muitos grupos tenham votado contra Lincoln: os que discordavam da sua posição sobre a escravatura; os que estavam convencidos de que ele não era suficientemente contra e aqueles que pensavam que a escravatura era apenas uma de entre várias questões e que, pensando bem, preferiam o Douglas.
Lincoln e Douglas... muito mais que economia
Seria errado colocar todos os assuntos a par da escravatura em termos de importância, mas seria igualmente errado esquecer que há momentos na história em que as injustiças que surgem tornam tudo o resto insignificante, pese embora a seriedade da situação não seja clara para todos na altura.

Não existiam Nazis na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, porém o partido tinha sido eleito por largas maiorias em todas as eleições até que a guerra começou a correr mal em 1942. Hoje ninguém olha para trás e diz: “Sim, o candidato Nazi era a favor da deportação de judeus, mas se calhar tinha boas políticas económicas.” As políticas económicas não interessam a ninguém.

A expressão “mas eles puseram os comboios a correr a horas!”, outrora usada para justificar o apelo dos Nazis, é hoje recebida com particular desprezo porque sabemos qual era a carga humana desses comboios. Nem temos grande pachorra para aqueles que argumentariam que era melhor votar num candidato Nazi porque, se a economia melhorasse, poderia diminuir a pressão para deportar judeus. As consequências não intencionais não podem ser controladas, mas o que as pessoas escolhem favorecer ou restringir pode. Os candidatos que se opõem à defesa da vida minam o mais básico princípio fundador da nação.

À medida que nos aproximamos da eleição presidencial de Novembro faríamos bem em recordar esta história. Daqui a 200 anos, quando a visão moral for mais clara, alguem quererá saber das questiúnculas políticas que agora nos dominam? Ou perguntarão simplesmente (como nós fazemos em relação aos nossos antepassados): quem votou contra o aborto e quem não o fez?

O ensinamento da Igreja sobre este assunto tem sido repetida várias vezes; nalguns aspectos é até mais clara do que era em relação à escravatura ou ao tratamento dos judeus. Muitas vezes perguntam-me porque é que os bispos alemães não excomungaram os católicos que votavam nos Nazis. Não sei. Mas também tendo a interessar-me menos pelos pecados do passado e mais em evitar a minha própria cegueira moral. O juizo é uma faca de dois gumes.

A Igreja não pode obrigar, como fazem os governos. Ela pode apenas apelar à consciência dos homens e mulheres de boa vontade. Um católico com consciência bem formada não pode votar a favor de um candidato que defende o aborto por oposição a um candidato que defende a restrição do aborto, da mesma maneira que nenhum católico de consciência bem formada poderia ter votado a favor de um candidato pró-escravatura ou pró-Nazi. Alguém hoje defenderia que era justificável votar em Douglas em vez de Lincoln?

Não se engane a si mesmo. Aqueles que têm ouvidos, que ouçam.

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.


(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com na Sexta, 21 de Setembro de 2012)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Mulheres para Roma e Olivença portuguesa

Matilde Trocado,
encenadora de "O Quadro"
Para aqueles que começam já no Outono a pensar nos presentes de Natal, aqui fica a dica: O terceiro livro do Papa sobre Jesus de Nazaré deverá ser publicado até lá, embora a edição portuguesa deva demorar mais algum tempo a sair.

Aproxima-se o sínodo dos bispos para a Nova Evangelização que contará, entre peritos e observadores, com o maior contingente feminino de sempre. 19 mulheres não é propriamente uma grande quantidade, mas é um bom sinal.

E agora permitam-me um pequeno momento de patriotismo… Qual é o recanto mais bonito de Espanha*? É uma igreja portuguesa com certeza!

Ontem surgiram várias notícias sobre o “imposto da Igreja” na Alemanha e as penas em que incorrem os católicos que deixarem de o pagar. É um tema complicado mas fiz um esforço por esclarecer os detalhes aqui.

Termino com um desafio para irem ver a peça “O Quadro”, encenado por Matilde Trocado (na foto), que produziu o musical Wojtyla, e com texto do Pe. Nuno Tovar de Lemos. Vai estar em cena a partir de 11 de Outubro, e os bilhetes já estão à venda. Eu lá estarei na noite de estreia.

*Esta frase não deve ser lida como um reconhecimento da anexação de Olivença. Quando no-la quiserem devolver, agradecemos.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Imposto da Igreja na Alemanha: do que se trata?


Anda por aí uma grande discussão por causa da Igreja na Alemanha e os impostos que recebe de cada contribuinte católico. Aqui vou tentar explicar o que se passa e dar também alguma análise.

A Alemanha tem um sistema particular no que diz respeito ao financiamento das religiões, que apenas é partilhada pela Áustria. Basicamente, o Estado financia as confissões religiosas com parte dos impostos pagos pelos cidadãos. Todos os anos os cidadãos indicam a que religião pertencem e é-lhes descontado um valor de cerca de 9% em imposto para a respectiva Igreja.

Assim, esse valor de um católico vai para a Igreja Católica, de um judeu vai para a organização judaica e de um protestante vai para a Igreja Luterana. Os muçulmanos tentaram aderir ao sistema, mas a falta de uma organização central foi um impedimento.

O problema que tem surgido nos últimos anos é que as pessoas perceberam que podiam não pagar qualquer imposto se declarassem simplesmente que não pertencem a qualquer dessas confissões religiosas. Para o fazer têm apenas de declarar ao Estado que abandonaram a respectiva Igreja ou religião. A vantagem é evidente, uma vez que passam a não ter de pagar o valor, e à medida que largas partes da população se foram desligando de qualquer prática religiosa o incentivo para pagar foi decrescendo.

Mas isto levanta outro problema, é que a declaração a dizer que se abandonou a Igreja tem, no meio eclesial, outro nome: apostasia. E um apóstata está, à partida, impedido de receber os sacramentos na Igreja Católica. Por isso, durante muito tempo, a Igreja decretava que quem deixava de pagar o imposto para a Igreja incorria em excomunhão, com a consequência de que não podia ter um funeral católico, nem casar pela Igreja ou trabalhar para qualquer instituição católica, etc.

Em 2006, contudo, o Vaticano disse que uma simples declaração ao Estado não chegava para incorrer em excomunhão. Seria necessário a declaração ser feita também a um sacerdote católico. Isso motivou Hartmut Zapp, um advogado especializado em direito canónico, a processar a Igreja alemã dizendo que esta não tinha qualquer base legal, quer à luz da lei alemã, quer da lei canónica, para o excluir dos sacramentos se ele optasse por não pagar o imposto.

Os tribunais de primeira e segunda instância tiveram decisões contraditórias e na quarta-feira o caso de Zapp será ouvido pelo Tribunal Federal Administrativo.

Mas o que motivou o debate actual foi um documento publicado pelos bispos alemães na passada sexta-feira reafirmando as consequências de deixar de pagar o imposto. Contudo, crucialmente, o novo documento não fala de excomunhão e diz que as pessoas nesta situação ainda têm direito à extrema unção, ou unção dos doentes, se estiverem em perigo de vida.

Coincidência? Parece que não. Tudo indica que o decreto, evitando falar de excomunhão, tem por intenção esvaziar as eventuais consequências do processo de Zapp, caso lhe seja dada razão. Os bispos dirão apenas que não se trata de excomunhão de qualquer maneira.

Aquilo que a maioria de nós pergunta, contudo, é... como é que isto é sequer possível no nosso tempo? O dinheiro recebido do imposto é uma fonte de rendimento segura, muito mais segura que as colectas dos ofertórios, certamente. Por isso compreende-se, do ponto de vista financeiro, que a Igreja esteja interessada em manter o sistema. Tudo bem, não fosse o facto de que a Igreja não se deve reger por interesses financeiros.
"Ora bem, 9% disso é meu ouviram!"
Todos já ouvimos dizer que um católico não praticante é como um ciclista que não pedala. Há aqui uma boa dose de verdade, mas também todos conheceremos casos de pessoas que se afastaram da prática religiosa durante algum tempo e que acabaram por regressar mais tarde, sem nunca terem renunciado à sua fé. Esse afastamento, que pode bem implicar não contribuir para o sustento da Igreja e das suas obras, não é o mesmo que apostasia. O peso do termo em si, e tudo o que acarreta, é totalmente diferente. Por mais que a intenção seja curativa, a verdade é que um decreto de excomunhão, ou de exclusão dos sacramentos, pode muito bem ser o suficiente para afastar alguém irremediavelmente da fé. É isso que se pretende?

Se a Igreja em Portugal consegue sobreviver com base nos ofertórios, generosidade dos seus fiéis e acordos com o Estado para certas áreas como a prestação de cuidados de saúde e de educação, então duvido que os padres alemães morram à fome se acabarem com o imposto para a Igreja. Seria certamente um sinal mais positivo que dariam à sociedade do que estes decretos e documentos que ainda por cima, pelo timing, tresandam a oportunismo e calculismo.

É pelo menos esse o meu entender, se discordarem façam o favor de o dizer nos comentários.

Filipe d’Avillez

Nigéria, orgulho e Vaticano II


Hoje acordámos com mais uma notícia trágica vinda da Nigéria. Um bombista matou uma mulher e uma criança quando fez explodir o seu carro junto a uma igreja.




E por fim, a dias do 50º aniversário do Concílio Vaticano II, D. Joaquim Mendes apresentou o livro “Vaticano II, 50 anos – 50 Olhares”.

Violence in Nigeria could lead to division of the country

Vítimas do mais recente ataque a cristãos na Nigéria
Full transcript of the interview with Fr. Michael Umoh, of the communications department of the diocese of Lagos, Nigeria, on the situation of the country regarding attacks on Christians, the latest of which took place yesterday, killing a woman and a child and injuring about 50 parishioners. See here for news report.

Transcrição completa da entrevista ao padre Michael Umoh, do departamento de comunicação da diocese de Lagos, na Nigéria, sobre a situação do país e dos ataques a cristãos, o último dos quais teve lugar ontem, matando uma mulher e uma criança e ferindo cerca de 50 pessoas. Veja aqui a reportagem.

Is the situation in Nigeria as bad as we have been hearing in the news?
It is bad enough, because wherever there is a life involved, not 1 or 10, or 100, it can be described as a disaster situation. However it must be noted that this problem has been more in the northern part of Nigeria and those responsible are sects of the Muslim fold, though the official Muslim body deny that they are Muslims. But it has been bad enough.

Does Boko Haram have a lot of support on the ground?
Considering the extent of damage they have caused and the extent of resources at their disposal, it stands to reason that they have very good support, internally and surely from the outside. One cannot deny the impact of their evil on the general life of the nation.

There have been some cases of retaliation. Could it reach a point where Christians need to take up arms to defend themselves?
There have been very few retaliation attacks on the part of Christians. But the Catholic Bishops Conference, in one of their communiqués, have warned that we are getting to a very dangerous point. The Bishops have pointed out to the Government that much as Christianity preaches love, and they as bishops continue to encourage Christians to embrace dialogue and peace, humanly speaking they themselves are beginning to be apprehensive of the fact that they may not be able to control or keep them in check again.

It is really spelling a very dangerous situation for the nation. Most of the Christians attacked in the North come from one of the main three ethnic groups from Nigeria. The three main groups are the Housas, who are majority Muslim, the Igbos, majority Christian, and the Yoruba, who are divided. Most of the Christians attacked in the North, killed or dispossessed of their homes and businesses are Igbos. There are quite a number of Hausas in the Eastern part, the homeland of the Igbos, and there are a good number of Igbos in the west generally. There could be a ganging up against the Hausas, an attack, if we don’t act in time, in the whole west and the east. If that should happen, and we pray it doesn’t, it means war. There is war already, but one side has refused to let it thrive.

The minority group in the Niger Delta are already threatening, because there is a political undertone to the whole thing, as a matter of fact, more than a religious matter.
Pe. Michael Umoh, à esquerda
Could this lead to a division of the country?
That is the fundamental question. The only type of explanation one can give to the Boko Haram issue is a generally unhappy relationship among the tribes in Nigeria.

Nigeria unfortunately is a marriage of seemingly incompatible bedfellows. It is a marriage of nations. When we trace it back to the 1914 amalgamation by the British government, most of the tribes brought together don’t really have things in common. The operating principles were manageable then, but can no longer hold now.

There have been a lot of calls for a constitutional conference, where the relationships between the tribes are discussed, the constitution is reviewed, how should the resources of the nation be distributed? Because most of the resources are taken from the Niger Delta, and everybody benefits from it, but the Niger Delta itself hardly benefits. These are some of the things that are really calling for definition.

If Nigeria will only remain one, if we sit down and redefine it. Because at the moment Nigeria is like a barrel of gunpowder, ready to explode. And everybody is seeing it, every right thinking person is calling for this discussion, but those who refuse the discussion are those that are benefitting from the Nigerian project, which is a bad project, a bad extension of colonialism.

Is tribalism a big problem for the Nigerian church?
It is a serious and unfortunate problem unfortunately, in the national and ecclesial life. It is painful that there are Christians, even in high levels of the church who are yet to be converted. It is a deep problem of lack of conversion. From the top it flows down, which means that its effect is significant enough and affecting things in Nigeria. Tribalism is a terrible evil.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A verdadeira fúria islâmica vem do Irão!

Anda cá dizer-me isso ao véu!
Temos muitas novidades hoje, começamos com uma ronda dos bispos portugueses:



Mas os católicos não são os únicos preocupados com a situação do país. A esse respeito a Aliança Evangélica promove uma semana de oração por Portugal, que começou ontem e acaba no dia 26.

Do departamento do insólito temos o regresso da nossa amiga Cecília Giménez, a tal que “restaurou” uma imagem de Cristo, que agora vem reclamar direitos de autor sobre a imagem que se tornou tão popular.

E no Irão um clérigo decidiu repreender uma mulher na rua por achar que estava vestida de forma imodesta. Ela não gostou. Um mês mais tarde ele ainda precisa de ajuda para comer…

Por fim, em França alguém achou que seria boa ideia publicar novas caricaturas de Maomé. Se o autor da ideia se cruzasse com uma certa mulher iraniana… não vinha mal ao mundo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Lições da Europa Central

Joseph Wood
Há alguns anos encontrava-me regularmente com representantes de Governos da Europa Central e, mais tarde, viajei pela região. Comecei a fascinar-me por este local por razões que, na altura, não me eram totalmente claras.

A “Europa Central” inclui uma variedade de pessoas e lugares diferentes. A Lituânia é em vários sentidos muito “católica”, mas a Estónia não. A República Checa e a Eslováquia são bastante diferentes, o que conduziu ao “Divórcio de Veludo” no fim da Guerra Fria. A Polónia e a Croácia têm raízes católicas profundas, mas que se desenvolveram de forma diferente do que na Hungria.

Os recentes desenvolvimentos politicos e económicos deixaram os países com tantas diferenças que alguns questionam se podemos sequer pensar neles como uma única região.

Mas quer esteja a visitar estes locais pela primeira vez ou os conheça desde toda a vida, apesar de, e na base de, todas as diferenças há uma semelhança clara que inclui o tempo, a arquitectura, a experiência histórica e a visão do mundo.

Nas minhas reuniões com representantes do Governo e com as pessoas que vim a conhecer através de contactos católicos, muitos dos quais eram, no início da década 2000, bastante novos para os cargos que exerciam, existia um elemento comum que passava por uma apreciação da liberdade que não era tão evidente entre os seus contemporâneos americanos e da Europa Ocidental. Um deles explicou-me que os seus pais tinham sido informados que ele teria melhores possibilidades de suceder na escola caso eles deixassem de ir à missa. Este tipo de assédio era o normal.

Uma das razões por detrás do meu fascínio pela região é de que alguns – embora não todos – os católicos e protestantes sobreviveram com a fé intacta, não obstante o poder do Estado burocrático-administrativo moderno. Esse Estado procurou, com grande vigor e a melhor tecnologia da época, secularizar a sociedade e limitar a religião, na melhor das hipóteses, aos edifícios religiosos cuja existência ainda era tolerada. Talvez tenhamos algo a aprender com essa experiência.

John Hittinger, da Universidade de St. Thomas em Houston, descreveu recentemente a semelhança entre a nossa situação e a deles. Ele cita os avisos, feitos há meses pelo Cardeal George, sobre os efeitos do Decreto HHS sobre o fornecimento decontraceptivos, que para todos os efeitos obriga as instituições católicas a secularizar-se ou a fechar. O Cardeal sublinhou que a liberdade religiosa também era garantida na Constituição soviética, embora a realidade fosse bem diferente e altamente restringida. Alguns líderes da Igreja Ortodoxa Russa tinham postos na KGB.

Uma das várias igrejas transformadas em
"museu do Ateísmo" pelos soviéticos.
O católico que se opôs com mais vigor a esta realidade da Guerra Fria foi, claro, o Cardeal Wojtyla da Polónia, mais tarde João Paulo II. Ele desenvolveu um plano de quatro pontos para a Igreja nessas circunstâncias: “1) Apelar aos direitos da lei e da moralidade para combater as agressões injustas às suas acções e instituições; 2) Ser acima de tudo professor, explicando a verdadeira fé e as suas aplicações a todas as esferas da vida...; 3) Usar oportunidades dramáticas para expressar a solidariedade com aqueles católicos que estejam a ser atacados e as instituições que estão a ser subvertidas; celebrar as efemérides e os heróis da fé nos seus próprios países; 4) desafiar fortemente e contrariar a táctica de ‘dividir no topo e na base’, empregue pelo Estado, e estar a postos para impôr as práticas doutrinárias e disciplinares requiridas para manter a unidade da fé”.

Fácil de dizer, difícil de cumprir. O Papa ganhou a guerra, mas nas batalhas que se desenrolaram, na Polónia e noutros locais muitos, (incluindo clero) foram tragicamente cooptados pelo Estado e colaboraram com o seu programa.

O que se passou nesses anos e que permitiu que o Cristianismo sobrevivesse na Europa Central parece ter sido apenas o mais recente episódio do que o padre Stanley Jaki, da Hungria, descreveu no seu recente livro Archipelago Church. Ele argumenta que a Igreja, tanto no passado século como sempre que se fizeram sentir as “tempestades morais da destruição”, é na verdade um arquipélago composto por ilhas de santidade e verdade, mais do que um continente inteiro. Os santos sustentam estas ilhas ao longo dos séculos, embora as suas posições mudem consoante as contingências da história.

Estas ilhas existiram e continuam a existir também na Europa Ocidental, onde a secularização continuou a toda a velocidade nos últimos dois séculos, mesmo sem a assistência de regimes comunistas. Por toda a Europa sentiu-se um problema diferente mas igualmente importante, a colaboração na secularização por parte de uma igreja financiada pelo Governo e legalmente instituída que é dependente de um grande aparato estatal.

O nível de financiamento que as instituições católicas recebem do Governo federal nos Estados Unidos cria tensões similares, entre resistir ao Estado quando este abusa da sua autoridade e o risco de perder o dinheiro público que sustenta as obras da Igreja. Os católicos americanos tendem a apoiar os grandes programas sociais do Governo. Com a aumento de recursos por parte do Governo para financiar esses programas vem também mais poder, que pode ser usado para qualquer coisa, como por exemplo o decreto HHS.

As ilhas deste arquipélago formam o “organismo vivo” da Igreja, com as suas estruturas eclesiais a compor o esqueleto necessário. A novidade do século passado, na opinião do padre Jaki, foi o reconhecimento do papel dos leigos, que culminou no Concílio Vaticano II, (um concílio para o qual reservava críticas consideráveis). Para sustentar e fazer avançar este arquipélago, para implementar o plano do Cardeal Wojtyla, os leigos terão de desempenhar um novo papel em conjunto com a hierarquia. O papel dos leigos será precisamente um dos grandes temas do ano da Fé que se aproxima e que começa no dia 11 de Outubro.

A América está ainda, esperamos, muito longe da Europa Central dos anos 60, e seria errado compararmos a nossa situação à dos cristãos que tiveram de defrontar o Leviatã comunista. Mas aqueles que emergiram da região nos meados do século XX, com a experiência daquilo que acontece quando o Estado Secular procura limpar os espaços públicos de qualquer influência religiosa, têm muito para nos ensinar neste momento da nossa história.


(Publicado pela primeira vez no Sábado , 15 de Setembro 2012 em http://www.thecatholicthing.org)

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

O filme de Maomé e a cabeça de Salman Rushdie

Uma cabeça que vale 3,3 milhões de dólares
A viagem de Bento XVI correu bem e sem perigos. A Aura Miguel faz aqui uma síntese desta visita.

O Papa foi entregar aos bispos do Médio Oriente a Exortação Apostólica correspondente ao Sínodo que decorreu em 2010. Podem ler o meu resumo desse documento aqui.

Entretanto o mundo islâmico continua com tumultos por causa do filme sobre Maomé. Mas há vozes muçulmanas que se erguem contra a violência, incluindo a do Grão Mufti da Arábia Saudita e a deste americano, que vale bem a pena escutar.

Na mesma altura (mas que timing!) é publicado o livro de memórias de Salman Rushdie, o que levou a que o seu valor (o valor da sua cabeça, entenda-se), aumentasse em 500 mil dólares

Por cá não há cabeças a prémio, por enquanto, mas os bispos lembram que a “política não é nenhum ringue”. Imaginem as audiências do Canal Parlamento se fosse!

E Guimarães e Braga vão receber uma sessão do Átrio dos Gentios em Novembro, em que deverão participar Olga Roriz, Assunção Cristas e valter hugo mae.

Por fim, para quem interessar, o sociólogo de religiões José Maria Pereira Coutinho, vai falar sobre a religiosidade dos universitários amanhã, no Seminário Mundos juvenis no Instituto de Ciências Sociais, pelas 17h30.

Outras vozes islâmicas...

Estas sim, vale a pena ouvir e divulgar.



domingo, 16 de setembro de 2012

Resumo da Exortação Apostólica para o Médio Oriente


Já é conhecido o texto da Exortação Apostólica para o Médio Oriente, cuja revelação e entrega está na base da visita que o Papa fez ao Líbano nos últimos dias.

O texto completo pode ser lido aqui, mas só para quem tiver paciência e tempo, porque são 96 páginas!!! Por isso, para vossa comodidade, aqui fica um curto resumo com os principais pontos.

O primeiro ponto a destacar tem a ver com as relações ecuménicas. Aqui o Papa aborda um problema que é muito grave e talvez o menos conhecido por parte de quem vive fora da região, a unidade. Claro que seria bom haver mais unidade entre cristãos de diferentes denominações, não só no Médio Oriente como no resto do mundo, mas infelizmente nos países árabes, onde os cristãos são sempre uma minoria e muitas vezes uma minoria perseguida, não existe sequer unidade entre católicos de diferentes ritos, quanto mais entre estes e ortodoxos, que são outros tantos.

O Papa faz questão de enfatizar que a unidade que se pede não é sinónimo de uniformidade de tradições e liturgia. É antes o estabelecimento de boas relações e de abrir canais de comunicação para que os cristãos possam falar a uma só voz sobre temas fundamentais.

Já o disse antes, considero que este é um dos assuntos chave a resolver no Médio Oriente. É absurdo que os refugiados cristãos sírios no Líbano sejam ignorados e desprezados pelos seus correligionários locais, bem como é absurdo que os cristãos e seus bispos na Síria continuem a tratar cada um dos seu quintal, sem tomar uma posição comum que pudesse fazer a diferença.

Interessantemente o Papa deixa espaço para o desenvolvimento de uma “communio in sacris”, isto é, a possibilidade de cristãos poderem usufruir de sacramentos nas diferentes igrejas. Actualmente, só em caso de emergência é que um católico pode receber a comunhão, ou confessar-se, por exemplo, numa Igreja ortodoxa, mas Bento XVI deixa espaço para contrariar isso, o que levará tempo e diálogo, mas que essencialmente vira ao contrário a noção de ecumenismo que tem reinado no Ocidente, de um diálogo longo e complexo que visa culminar na mesa da comunhão, para um encontro em diálogo precisamente à volta da mesa, que parte dos sacramentos para tentar construir a unidade nas vidas e corações. Francamente, a mim sempre me pareceu uma abordagem mais humana as divisões na Igreja...

O texto fala depois do diálogo inter-religioso. O Papa pede, essencialmente, o fim da violência inter-religiosa. Reconhecendo que cristãos, muçulmanos e judeus adoram todos os mesmo Deus, estes devem reconhecer uns nos outros a dignidade e evitar situações de violência que são “injustificáveis” para “verdadeiros crentes”. Aqui o Papa faz um apelo à liberdade religiosa, tendo o cuidado de explicar que não se trata de sincretismo.

Por fim, nesta primeira parte do texto, Bento XVI fala dos cuidados a ter com os imigrantes que vão para o Médio Oriente principalmente de países africanos e asiáticos, sendo que muitos são cristãos. Muitos vivem em países onde a prática da sua religião não é tolerada, como a Arábia Saudtia, por exemplo. Outros, mesmo nos países onde há cristãos, por não pertencerem a comunidades tradicionais, são vítimas de discriminação.

A segunda parte tem secções dedicadas aos Patriarcas, Bispos, Padres e Leigos, mas tanto quanto consigo perceber não tem grandes novidades. Talvez a coisa mais interessante seja o apelo do Papa para que os filhos fiquem no país, ou que regressem, para que não acabe a presença cristã na região, sem a qual “O Médio Oriente não seria o Médio Oriente”.


Interessantemente, no texto o Papa nunca fala especificamente de países. Por um lado, é natural que assim seja, a mensagem é dirigida a cristãos e não a Estados. Por outro, isso significa que nunca se fala de Israel, nem do problema israelo-árabe, algo que foi amplamente discutido no Sínodo do qual este texto resulta.

Outro tema muito importante que foi falado no Sínodo mas que não vejo reflectido aqui é a falta de liberdade das igrejas orientais no Ocidente. Passo a explicar. Tomemos a Igreja Melquita, por exemplo. O Patriarca está na Síria e é responsável pelos melquitas em todo o Médio Oriente. Fiel à tradição da sua Igreja, pode ordenar homens casados para o sacerdócio. Mas segundo as regras ainda em vigor, um bispo melquita nos EUA ou noutro país de tradição ocidental, não pode ordenar homens casados. Este é só um exemplo. Há casos nos quais as Igrejas orientais em território tradicionalmente “latino”, em vez de responderem perante os seus patriarcas, respondem directamente a Roma.

Vários bispos queixaram-se disto no Sínodo. A ideia é a Igreja ser uma comunhão de diferentes igrejas de direito próprio, ou sui iuris, em Latim. Mas na realidade, actualmente, as igrejas orientais têm um estatuto inferior, na prática. Para além de ser uma falta de respeito por estas igrejas veneráveis e antigas, é também um péssimo sinal ecuménico que se dá, levando os ortodoxos a concluir rapidamente que, caso aceitassem reunificar a Igreja, ficariam subjugados à Igreja Latina, quando a ideia não deve ser essa.

Com o texto já publicado resta saber se passará das palavras aos actos. Para isso, e voltando ao primeiro ponto, é preciso unidade e diálogo, o que já por si seria um avanço para os cristãos que vivem no mundo islâmico.

Filipe d'Avillez

sábado, 15 de setembro de 2012

Luzes! Câmara! Acção! Culpar os judeus!


Cena do filme "A Inocência dos Muçulmanos".
Qualquer semelhança com a realidade actual...
Tem acontecido muita coisa nos últimos dias, e hoje em particular, e infelizmente não tenho podido acompanhar os desenvolvimentos todos com a atenção que merecem.

O Papa chegou hoje ao Líbano. Vai ser uma viagem muito rica, ao nível dos discursos especialmente. É de notar que o Líbano tem sete igrejas católicas diferentes, e mais uma quantidade de ortodoxas. O Papa vai ter palavras para todos eles e ainda para as outras comunidades religiosas.

Escreví o outro dia que um dos pontos que esperava que o Papa abordasse seria a questão da falta de unidade entre as diferentes comunidades cristãs no Médio Oriente. Já hoje nos discursos houve leves referências a isso. Entretanto hoje um dos oradores do curso que estou a frequentar em Roma é um especialista no Médio Oriente e quando lhe perguntei precisamente sobre a questão da unidade cristã, revelou que já teve acesso à Exortação Apostólica, i.e. O texto final com as conclusões do sínodo dos bispos do Médio Oriente que teve lugar em 2010 e que o Papa foi ao Líbano entregar, e que nesse documento há uma secção inteira só sobre a unidade dos cristãos e a importância de falarem a uma só voz.

Michelle Zanzucchi, director da revista Cittá Nuova, do movimento Focolares, falou longamente sobre a questão da Primavera Árabe e da situação dos cristãos no mundo árabe e no Médio Oriente. Uma coisa que retive de forma particular foi em relação ao Irão, o menino mau regional. Segundo Zanzucchi a Arábia Saudita vai explodir dentro dos próximos 8-10 anos, e isso terá influências no resto do Médio Oriente. Nessa altura, acredita, o Irão, que deverá sofrer uma importante transição nos próximos quatro anos, será fundamental para ajudar a pacificar a região, isto porque, segundo ele, o Irão é de longe o país do Médio Oriente que é mais próximo, em termos de mentalidade, do Ocidente.

É uma perspectiva interessante. De facto o Irão não é um país árabe, mas sim indo-europeu e quem conhece a realidade persa actual diz que o fundamentalismo islâmico do regime praticamente não tem raízes no país, sobretudo na capital.

Entretanto houve alguns confrontos no Líbano hoje, motivados sobretudo pelo terrível filme anti-islâmico que foi feito nos EUA. Os manifestantes, no norte do país, gritaram contra o filme e também contra a visita do Papa.

Com o passar dos dias vão surgindo mais dados sobre esse tal filme chamado “The innocence of Muslims”... alguns são curiosos. Ora senão vejamos:
Inicialmente surgiu a informação de que o filme tinha sido feito por um tal Bacile, um agente imobiliário israelo-americano que tinha reunido dinheiro doado por uma centena de judeus para avançar com o projecto.

Mas algumas pessoas desconfiaram do nome e rapidamente se percebeu que Bacile é um nome falso e que não existe nenhum israelita com esse nome. O que se soube foi que um dos grandes promotores do filme é Morris Sadek, um extremista cristão copta Egípcio, que vive nos Estados Unidos e que é conhecido pelas suas posuições radicalmente anti-islâmicas.

Depois de mais alguma investigação os jornalistas conseguiram determinar que quem fez o filme, o tal Bacile, é de facto um Nakoula Basseley Nakoula, que é também cristão copta.

O que é que isto quer dizer para os coptas que ainda vivem no Egipto? Más notícias...

Porque é que começaram por culpar os judeus? Bom, todos os coptas que eu conheço pessoalmente, e não são muitos, são pessoas fantásticas, simpáticas e tolerantes. Mas a verdade é que os cristãos do Médio Oriente, por regra, não são grandes fãs de Israel. A culpabilização dos judeus poderá ter sido vista como uma forma de criticar os muçulmanos desviando eventuais represálias para Israel e os judeus, matando, por assim dizer, dois coelhos com uma só cajadada.

Ou seja, para além de estúpido e pouco inteligente, este projecto é também desonesto e mal-intencionado.

Ainda por cima a Igreja Copta está neste momento orfã, e no processo (elaboradíssimo) de eleger um novo Patriarca. Mas hoje recebi uma nota do bispo copta Angaelos, do Reino Unido, que é clara e objectiva. Vou transcrevê-la, pois imagino que todos consigam seguir o inglês:


Statement by His Grace Bishop Angaelos, General Bishop of The Coptic Orthodox Church in the UK

In assessing the recent developments surrounding the release of the film ‘Innocence of Muslims’ that insults Islam, and the alleged involvement of ‘Coptic Christians’, it is imperative that a clear distinction be made between the vast majority of Coptic Christians, and a minute minority that may choose to use inflammatory and insulting means to further political agenda. Coptic Christians in Egypt, across all churches and denominations, are known to be a peaceful people who have faced persecution for centuries and have never retaliated in any way that would insult or demean any other faith or faith group.

Having the largest Christian presence in the Middle East and numbering in the order of 18 million, Coptic Christians have peacefully coexisted alongside their Muslim brethren for centuries. Despite repeated attacks by religious extremists upon churches and communities, they continue to live a message of love, forgiveness, peace, and tolerance.

In this and in similar cases, it is of course the right of individuals or groups to protest in a responsible manner against conduct that insults what they hold sacred. Having said that, as these protests continue to escalate, sometimes dangerously out of hand, there must be a realisation that in Egypt, its surrounding region, and beyond, it is only local citizens and communities, and the reputation of these states that is being damaged through such aggressive and violent behaviour.

In a changing region that hopes to safeguard the rights of every individual, it is of course unacceptable for anyone to demean or insult another faith, whether it be the film currently in the spotlight or the radical Muslim cleric who burned, spat on and threatened to further desecrate a Holy Bible in a public square in Cairo.

While we must realise and accept that there will always be differences on faith matters between religious communities, it must also be agreed that interaction, conversation, debate, dialogue and even protest must be in a respectful and peaceful manner that safeguards the wellbeing of individuals and the harmony of communities.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Em Roma chove...

"Ena! Como chove"
É já amanhã que o Papa parte para o Líbano, para uma viagem que promete ser muito interessante. A Aura Miguel vai estar lá e a Renascença terá toda a cobertura, portante estejam atentos. Eu não vou poder actualizar a página do Facebook com a regularidade que gostaria, mas outros se encarregarão certamente.



Aqui em Roma choveu torrencialmente o dia todo, mas o curso que estou a fazer continua a ser muito interessante. Hoje falou-se de China, África e o arcebispo Fisichella (na foto) apresentou o pensamento do Papa. E ainda fomos visitar uma das únicas bibliotecas do mundo que excomunga quem roubar livros... Tudo explicado em mais umas notas de Roma.

Por fim, todos já pensámos no “Problema do Mal”. Porque é que existe, qual o sentido, porque é que sofrem os inocentes... mas já pensaram no “Problema do Bem?” Como é que se explica a existência de tanto bem no mundo? É a questão que coloca o artigo desta semana de The Catholic Thing.

Mais notas romanas


Biblioteca do Vaticano, onde há um decreto perpétuo
que ameaça de excomunhão quem roubar livros...
Temos tido dias muito cheios aqui em Roma. Ontem entre trabalho e o texto sobre a visita do Papa ao Líbano que fiz para o blogue, acabei por dormir só umas cinco horas, mas tem valido bem a pena.

Ontem foi dia de visita à Signatura Apostólica, o mais alto tribunal da Santa Sé, onde fomos recebidos pelo Cardeal Burke. Foi interessante vê-lo descrever os processos judiciais do Vaticano, e a existência de tribunais, como uma forma de garantir aos fiéis o acesso aos seus direitos. Facilmente imaginamos estas instituições como sendo unicamente repressivas, mas a lógica não é essa, ou pelo menos não deveria ser.

Da parte da manhã fomos à audiência-geral do Papa. Estávamos num óptimo lugar, muito perto da frente, mas é preciso chegar cedo e tudo leva bastante tempo. Depois a catequese do Papa é em Italiano, e por isso difícil de seguir. É mais animado quando se começa a dizer os nomes dos grupos presentes e as pessoas gritam, ou cantam para mostrar onde estão. Ontem estavam presentes três bandas e por isso tivemos direito a muita música.

Cardeal Burke
O almoço foi de trabalho, com a presença de dois vaticanistas que nos explicaram as particularidades de cobrir a Santa Sé. Segundo eles, é muito difícil conseguir fontes entre a Cúria Romana e, quando finalmente se consegue, é ainda mais difícil conseguir uma entrevista “on the record”. Ambos são americanos e falaram de uma questão que também é muito interessante. Uma vez que é tão difícil arranjar informação fidedigna, muitas vezes os órgãos internacionais vão buscar a sua informação à imprensa italiana. Mas o estilo da imprensa italiana nada tem a ver com o estilo anglo-saxónico, ou mesmo o português. É muito mais comum publicar boatos, histórias sem fonte identificada etc. e se não forem verdadeiras, ao fim de poucos dias ninguém quer saber. Por isso os riscos para o resto do mundo de confiar na imprensa italiana são enormes, porque em muitos países não se pode escrever ou publicar dessa forma.

Ainda tive tempo ontem para visitar o museu judaico de Roma, que é muito giro e tem duas sinagogas belíssimas, mas infelizmente, por razões de segurança, é completamente proibido tirar fotografias.

Hoje: China, África e amor...
Penso que esta Quinta-feira foi, até agora, um dos dias mais interessantes.

Pe. Sergio Sergianni, especialista na China
O dia começou com uma conferência sobre a Igreja na China, dada por um padre italiano que trabalha na Propaganda Fidei e viveu 25 anos na China (especificamente Taiwan e Hong Kong, mas com muitas visitas à China e muitos contactos). Foi tudo “off the record”, mas serviu muito bem para compreender o que se passa naquele país em relação à Igreja e as relações entre a igreja oficial, controlada pelo Estado, e a Igreja subterrânea, que é fiel ao Papa.

Depois tivemos uma conferência do Arcebispo Fisichella, sobre o pensamento do Papa. Fisichella é um excelente orador, com um raciocínio extraordinariamente bem organizado e claro.

Dois pontos principais a reter. Primeiro, o Papa terá dito que o seu trabalho teológico tem por base o Concílio, e o primeiro documento do Concílio trata da liturgia. Por isso a liturgia, ou seja, a forma correcta de adorar a Deus, está no centro das preocupações do Papa, o que é evidente para quem o tem acompanhado desde que foi eleito.

Em segundo lugar, a centralidade do conceito de amor, sendo que o amor é a essência da teologia cristã, e a necessidade de perceber de que tipo de amor falam os cristãos quando usam o termo, que provavelmente não é o mesmo sentido que a sociedade hoje lhe dá.

Fisichella explicou também, a certo ponto, a diferença entre ética e valores. Enquanto os valores são próprios de cada religião, sendo por isso subjectivos, a ética é independente das religiões, porque depende exclusivamente da razão. Por isso pode-se falar de uma ética universal, porque a razão é igual para todos. Isto tem obviamente uma ligação ao conceito, caro aos cristãos mas que antecede o Cristianismo, da Lei Natural.

Faço aqui um parêntesis para dizer que uma das coisas que me tem impressionado no contacto próximo com estas figuras é a sua fé. Pode parecer uma parvoíce, porque estamos a falar de bispos e padres, mas quando estamos fora ficamos facilmente com a ideia de que em Roma tudo se resume a politiquices e intrigas. Há muito disso, claro, mas os homens que temos conhecido (sim, só homens...) são todos pessoas de grande fé e que estão claramente apaixonadas por Jesus Cristo e pela Igreja e isso é, para um católico, reconfortante.

Padre Fortunatus ao centro, com dois africanos que
estão a participar no curso também.
Termino com aquele que foi um dos pontos mais altos do dia. O padre Fortunatus Nwachukwu, um nigeriano que é responsável pelo departamento do protocolo do Vaticano mas que nos veio falar sobre a Igreja em África. O nome dele pode ser complicado de pronunciar, mas fixem-no, porque acredito mesmo que ele há-de ir muito longe...

Falou de muita coisa, mas retive especialmente um tom de preocupação com a Igreja africana. Explicou que em África, no início do Cristianismo, havia uma Igreja fortíssima e muito rica no Norte de África, em Cartago. Mas mesmo essa Igreja tão vibrante, não resistiu ao Islão.

É verdade que o Cristianismo está em forte crescimento em África, disse, mas o Islão também. E se Cartago não resistiu ao Islão naquele época, como é que a Igreja africana, tão dividida por tribalismos, vai resistir? Disse que era um optimista, mas que isso o deixava preocupado.

Contou-nos uma história curiosa para ilustrar isso. Diz que uma vez comentou com um amigo nigeriano, padre também, que sonhava com uma Igreja na Nigéria em que um bispo do Norte pudesse ir para uma dioceses do Sul, e vice-versa. Nisso o amigo interrompeu-o e disse: “Fortunatus, para com essa conversa. Estás a sugerir que a minha tribo pudesse ter como bispo um homem da tribo X”, e estava verdadeiramente ofendido com a ideia. Sabem o que aconteceu a esse padre? Foi feito bispo... preocupante.

Outro grande problema é que em sociedades tribais, que têm reis e chefes locais, há uma forte pressão por parte dos fiéis de encararem o seu bispo como um chefe tribal. Se o bispo deixar que isso aconteceça, mesmo que não queira, é uma bota muito difícil de descalçar. E a verdade é que um chefe tribal tem como principal função defender a sua tribo, algo muito diferente de um pastor que tem de cuidar de todas as ovelhas, sejam de que cor ou ascendência forem.

Foi uma conversa muito franca e muito elucidativa e aquele homem brilhava com paixão pelo Evangelho. Uma surpresa muito agradável.

Amanhã também promete, com uma conferência sobre a Primavera Árabe.

Líbia, Líbano e leigos


Leigo e perito? I want you!
Ontem foi um dia trágico. No 11º aniversário do 11 de Setembro, foi morto o embaixador americano na Líbia. A causa? Um filme anti-islâmico...


Ontem o Vaticano anunciou a contratação de um leigo, perito em transparência financeira. É a segunda vez em meses que a Santa Sé se vira para o exterior para resolver problemas de funcionamento em áreas sensíveis.

Eu continuo por Roma. Hoje houve um encontro com o Cardeal Raymond Burke, responsável pelos tribunais do Vaticano. O principal tema com que lidam são declarações de nulidade de casamentos, ele falou bastante sobre isso, e sobre como Portugal é um caso especial nesse aspecto.

Qualquer pessoa já pensou no problema da existência do mal. Mas quando é que foi a última vez que meditou sobre todo o bem que existe no mundo? É isso que pergunta o artigo desta semana de The Catholic Thing.

Compreender a viagem do Papa ao Líbano


Grafiti das Forças Libanesas, um grupo militante
cristão. Notar que a cruz acaba em forma de adaga.
Na Sexta-feira Bento XVI viaja para o Líbano, naquilo que muitos consideram ser a sua viagem mais arriscada até agora.

Qual é o risco? O principal perigo vem da Síria. A guerra civíl na Síria é em grande parte um conflito religioso/étnico, mas que tem ramificações regionais muito importantes. O confronto é fundamentalmente entre sunitas da oposição e o regime composto por alauítas, um ramo do Islão xiita. Do lado dos rebeldes encontramos todos os países de maioria sunita e do lado do regime os países de maioria xiita, nomeadamente o Irão e o Iraque.

O Líbano está numa posição particularmente complicada. Naquele país vivem xiitas e sunitas em números significativos e há sempre um risco de o conflito se espalhar para lá, como já aconteceu algumas vezes em casos isolados e específicos. É preciso ter em conta também o factor Hezbollah. O partido xiita é actualmente a principal força do Líbano, não só em termos políticos mas também em termos militares. E quem arma o Hezbollah? O Irão. Mas as armas só chegam lá com a conivência da Síria e do regime Sírio.

Por isso vemos que o Hezbollah tem todo o interesse, aliás um interesse vital, em sustentar o regime de Bashar Al-Assad. Se este cair o Hezbollah fica isolado, para gaudio do bloco sunita. Por isso quanto mais fraco fica o regime sírio, maior o perigo de uma reacção desesperada do Hezbollah.

Como é que isto pode afectar a visita do Papa? A verdade é que provavelmente não afectará. O risco da visita do Papa não é tanto directo como indirecto. Se de um momento para o outro o conflito espalhar para o Líbano, então não será seguro para ninguém, quanto mais para Bento XVI. Mas os grupos muçulmanos não terão qualquer interesse, neste momento, em atingir o Papa e hostilizar essa forma a Igreja e o Ocidente. O Irão preza muito as suas relações diplomáticas com a Santa Sé, e por mais que os grupos islâmicos clamem contra o Cristianismo, reconhecem no Vaticano uma voz de moderação e de paz nos assuntos do Médio Oriente que, por exemplo, não hesitou em dizer às potências ocidentais que condenava a invasão do Iraque em 2003.

Presidente Michel Suleiman e o Patriarca maronita
Bechara Rai, dois dos cristãos mais influentes
Porquê o Líbano?
O Papa vai ao Médio Oriente entregar a exortação apostólica relativa ao sínodo dos bispos para o Médio Oriente, que decorreu no Vaticano em 2010. A escolha do Líbano faz sentido porque é o único país da região que tem uma grande proporção de cristãos e o único, por exemplo, que tem um chefe de Estado cristão.

Mas independentemente disso, e apesar dos riscos, que locais são mais seguros? O Iraque não tem condições de segurança ainda para receber uma visita deste nível, o Egipto está demasiado instável e, sobretudo, tem um número muito pequeno de católicos, apesar de ter muitos cristãos coptas ortodoxos. A Síria seria uma boa-escolha há dois anos, mas actualmente é obviamente impossível. A Jordânia é estável e tem uma população cristã, mas é pequena e ainda por cima o Papa já lá foi.

Restam países que não têm qualquer população católica significativa ou que simplesmente não permitem actividades cristãs, como é o caso da Arábia Saudita.

As grandes questões
Há várias questões que merecem a nossa atenção durante esta visita. Bento XVI vai certamente falar da questão da fuga dos cristãos do Médio Oriente, uma situação que é dramática em vários países. A única excepção poderá ser o Líbano e até há pouco tempo era também a Síria.

Será inevitável falar da questão Síria. Aí podemos esperar sobretudo os costumeiros apelos à paz, mas seria bom talvez uma palavra forte dirigida aos cristãos, a insistir que não peguem em armas, mesmo que se sintam ameaçados, algo que parece que já estará a acontecer nalguns bairros de Damasco.

Para mim, contudo, a grande questão a abordar é a falta de unidade entre os cristão do Médio Oriente. O Cristianismo lá é uma autêntica manta de retalhos, o que é maravilhoso em termos de variedade e tradições litúrgicas e espirituais, mas um verdadeiro pesadelo quando toca a representar os interesses dos cristãos em geral. Pelo que tenho conseguido apurar, os bispos das diferentes igrejas, mesmos as diferentes igrejas católicas, não falam uns com os outros, não se coordenam. Cada um olha só para o seu próprio quintal. O resultado é que são sempre um alvo fácil. Será que o Papa vai falar disso?

18 comunidades diferentes
O Líbano é um microcosmo de todo o Médio Oriente. Penso que não haverá corrente religiosa que não esteja representada. Ao todo existem 18 confissões religiosas com reconhecimento oficial. No universo islâmico há os sunitas e os xiitas e ainda os alauitas e os drusos. No Cristianismo há ortodoxos de diferentes ramos e depois uma panóplia de igrejas católicas. Latinos, Maronitas, Melquitas, Siríacos, Caldeus, Arménios... de tudo um pouco.

Os cristãos ao todo serão mais de 30%, uma diminuição, uma vez que já foram maioria. Não são representados por um só partido político, mas têm vários partidos, alguns que são aliados dos xiitas, outros dos sunitas.

Isto é uma visão muito geral do país e da situação que o Papa vai encontrar. Se tiverem mais dúvidas a esclarecer deixem um comentário que, quando tiver tempo, farei os possíveis por responder.


Filipe d'Avillez

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O Problema do Bem


O número de horas dispendidas por filósofos a analisar e a escrever sobre o “problema do mal” é certamente astronómico. Eu próprio já dediquei muito tempo à questão, incluindo o segundo capítulo do meu livro, “The Existence of God and the Faith-Instinct”. Mas o que é praticamente ignorado pela filosofia é o problema do bem. Provavelmente a maioria das pessoas nem percebe que o problema existe, e que é enorme.

No meu livro subdivido o problema do mal em três categorias – males naturais, como tsunamis e sismos; males morais, como os terríveis massacres de pessoas inocentes; e sofrimentos físicos/psiquicos, como doenças e deficiências hereditárias, do género da doença de Huntington e anemia falciforme.

O problema do bem pode ser subdividido de forma semelhante:

Bens Naturais
Nesta lista incluem-se certamente os bens perenes na natureza, inspiração de poetas: A beleza do mundo natural. As belezas de terra e do mar que são de cortar a respiração, como a fauna e a flora, tão variadas.

Nós que vivemos na era moderna também beneficiámos das fantásticas descobertas científicas dos últimos dois séculos, que nos revelaram a harmonia complexa do mundo microscópico, de quarks a ADN e células estaminais; as leis da física que tornam possivel a investigação do cosmos e o envio de sondas para outros planetas e sistemas solares, e até a complexidade das variáveis que surgiram depois do “big bang”, que nos colocam num universo que parece ter sido criado à medida para a produção e protecção de vida humana, até ao detalhe da nossa localização na Via Láctea e no sistema solar.

E no reino da “poesia” do dia-a-dia, quem pode explicar a beleza e a inocência de bebés e crianças, preservada – espera-se – pelos adultos encarregados de cuidar deles? Ou a beleza assombrosa do sexo oposto, causadora de ocasionais “distracções” bem como momentos de contemplação estética e, para os sortudos, as maravilhas do amor romântico, pelo qual, inesperadamente, uma pessoa, ignorando as nossas evidentes falhas e imperfeições, nos acha suficientemente atraentes para querer passar o resto da vida na nossa companhia.

Bens Morais
Charles Darwin encarava a existência de monstruosidades e parasitas nos organismos como prova da natureza aleatória dos desenvolvimentos evolutivos. Mas o oposto também carece de explicação.

Os psicólogos evolucionistas esforçam-se para compreender como é que “genes egoistas” e “memes” e todos os desenvolvimentos casuais que conduzem à “sobrevivência dos mais fortes” determinam o quase incompreensível amor de mães e pais – bem como a preocupação de outras pessoas nas nossas vidas que parecem impelidas por um instinto irreprimível de se sacrificarem para o nosso bem; e as mãos amigas, dispostas a ajudar-nos a sair de tempos difíceis e situações precárias (algumas das quais criadas por nós mesmos).

Vezes e vezes sem conta ouvimos nas notícias, e às vezes vemos, casos de indivíduos que sacrificam as suas próprias vidas, de forma heróica e inexplicavel de um ponto de vista evolutivo, para salvar outros, por vezes pessoas que nem conhecem. E as teorias evolucionárias sobre a solidariedade recíproca e de grupo servem de pouco quando se trata de explicar a paciência e o bom-humor dos doentes, deficientes e idosos, que tantas vezes sofrem em silêncio de doenças dolorosas ou deficiências graves.

Bens Físicos/Psíquicos
As extraordinárias curas, “remissões” e melhoras que os médicos, os média e as pessoas em geral apelidam de “milagrosas” - milagres naturais – são prova da incrível capacidade que a vida e os sistemas imunitários têm de ultrapassar desafios aparentemente insuperáveis.

E não esqueçamos os próprios sinais corporais de dor e sofrimentos, sem os quais não seríamos capazes de diagnosticar e remediar as perturbações do nosso corpo e da nossa mente.

Ao nível psíquico, as nossas vidas sustentam-se, basicamente, nas alegrias do amor e da amizade, e a partilha construtiva de ideias e ideais que podem ter lugar no momento e no lugar certo, conduzindo a melhorias intelectuais incomensuráveis.

Podemos adicionar a esta lista o transcendente – aqueles momentos raros – mas bem-vindos, de alegria que chegam de forma inesperada, que por vezes são mesmo experiências religiosas, mas sobretudo, há a realização de que, por alguma estranha razão, Deus quis partilhar connosco a sua vida divina e estava mesmo disposto a enviar o seu Filho para se fazer homem, viver e morrer entre nós para que nós, por sua vez, pudessemos ser divinizados.
Beleza natural
Resumindo, embora o mal receba o grosso da publicidade, os filhos de Adão e Eva entram neste mundo com uma consciência do bem e do mal.

De um lado encontramos a Natureza com as suas revoltas imprevisíveis, crua e bruta. Do outro, o maravilhoso ordenamento das leis da física, que conduziram à existência do Ser Humano num planeta de tão grande beleza.

Sentímo-nos chocados pelas atrocidades de que lemos nas notícias, confirmando a crença de que homo homini lupus (os homens são lobos uns para com os outros), mas também nos consolamos com as estranhas histórias de amor e sacrifício por parte de pessoas que parecem mesmo pertencer a outra espécie.

Confundem-nos os casos trágicos de doença hereditária e de pandemias que as ciências médicas ainda não conseguiram combater, mas achamos igualmente incompreensíveis as histórias que confirmam as capacidades humanas fenomenais da homeostasia.

É verdadeiramente chocante e triste que haja tanto mal no mundo. Mas se pensarmos bem a existência de tanto bem também é estranho e fascinante. De facto, a quantidade de bem é misteriosa e esse mistério aumenta com os avanços da ciência moderna.

A verdadeira resposta, mesmo para os mais melancólicos, talvez seja sentarmo-nos de vez em quando, esquecer as nossas dificuldades e pensar como é possível existir tanto bem no mundo.

Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus mais recentes livros incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e (2010)

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012 em www.thecatholicthing.org)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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